A PAPISA JOANA
Donna Woolfolk Cross


COLECO GRANDES NARRATIVAS - 112
EDITORIAL PRESENA

 Na galeria das mais extraordinrias e controversas figuras
do Ocidente, a papisa Joana assume alguns contornos dos mais
brumosos, enigmticos e fascinantes. Muitos negaram, ao longo
dos sculos, a sua existncia, mas  ainda considervel a
quantidade de documentos que referem a sua passagem pelo trono
papal. Personagem histrica ou lendria, Joana protagoniza a 
notvel ascenso de uma mulher brilhante que no aceita as
limitaes que a sua poca, profundamente misgina, lhe impe
e, armada de uma inteligncia esclarecida e de uma fora de
carcter inquebrantvel, conquista o mais elevado poder
religioso. Um romance magnfico, cativante, que conspira, no
virar de cada pgina, para prender o leitor num sortilgio
magntico, na teia enredada da intriga, das turbulncias
polticas, dos fanatismos e intolerncias, das paixes, das
duplicidades e segredos, das crises de f e conspiraes que
ameaam fazer soobrar Joana.

 Donna Woolfolk Cross  licenciada em Literatura.  autora
das obras Word Abuse e Mediaspeak. A Papisa Joana  o seu
primeiro romance.



 A Papisa Joana
 Traduo de Teresa Martinho Toldy

 By Donna Woolfolk

 Impresso, Agosto de 2000

 Editorial Presena
 Rua Augusto Gil, 35-A
 1049-043 LISBOA
 Email: editpresenca.pt
 Internet: http://www.editpresenca.pt

 Para o meu Pai, William Woolfolk,
 No h mais nada a acrescentar


 AGRADECIMENTOS

 Pelo auxlio prestado na investigao, agradeo a Lucy
Burgess, de Cornell, a Caroline Suma, do Instituto Pontifcio
para os Estudos Medievais, em Toronto, a Eileen DeRycke, da
Universidade de Siracusa, a Elizabeth Lukacs, do Lemoyne
College, ao Dr. Paul J. Dine, ao Dr. Arthur Hoffman e a John
Lawrence, assim como aos funcionrios da biblioteca de Vassar
e Hamilton Colleges, da Universidade da Pensilvnia e da
Universidade da Califrnia, em Los Angeles. Os meus
agradecimentos especiais a Linda McNamara, Gail Rizzo e
Gretchen Roberts, do Onondaga Community College, que
trabalharam com uma energia e engenho inesgotveis para
conseguirem obter junto de vrias bibliotecas, tanto no pas,
como no estrangeiro, vrios livros raros de que eu
necessitava. Agradeo ainda a Lil Kinney, Liz Liddy e Susan
Brown, investigadoras exmias que conseguiram desencantar uma
quantidade de informao acerca do sculo IX pouco conhecida.
 O manuscrito foi lido por muitas pessoas, que contriburam
para ele com as suas prprias competncias. Agradeo ao Dr.
Joseph Roesch, a Roger Salzmann, Sharon Danley, Thomas
McKague, David Ripper, Ellen Coin, Maureen McCarthy, Virginia
Ruggiero, John Starkweather e  minha me, Dorothy Woolfolk.
As suas sugestes tornaram o livro incomparavelmente melhor.
 Tambm queria agradecer ao meu agente, Jean Naggar, que se
disps a arriscar com base num manuscrito parcial; a Irene
Prokop, a minha primeira editora em Crown, cujo acolhimento e
entusiasmo pelo livro foram muito encorajadores; e a Betty A.
Prashker, que assumiu a edio, quando a Irene saiu.
 Devo uma profunda gratido queles que me apoiaram e
acalentaram ao longo de sete anos de pesquisa e redaco:


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a minha filha, Emily, e o meu marido, Richard, lutadores da
linha da frente; a minha cunhada, Donna Willis Cross, que
acreditou em mim e neste livro, mesmo nos momentos em que a
minha f vacilou; Mary Putman, que suportou fardos extra para
que eu pudesse ter tempo para escrever; Patricia Waelder e
Norma Chini, aliadas dedicadas, que conseguiram que eu pudesse
dispor do tempo necessrio para escrever ininterruptamente;
Susan Francesconi, cuja camaradagem ao longo dos grandes
passeios que fizemos juntas contribuiu muito para que eu me
mantivesse saudvel; Joanna Woolfolk, Lisa Strick, James
MacKillop e Kathleen Eisele. Como disse William Shakespeare,
os meus amigos so a minha riqueza.
 Acima de tudo, quero agradecer ao meu pai, William Woolfolk,
a quem este livro  justamente dedicado; sem a sua orientao
e encorajamento constantes nunca o teria escrito.



 PRLOGO


 Era o dia 28 de Wintarmanoth do ano da graa de 814, o
Inverno mais rigoroso de que havia memria.
 Hrotrud, a parteira da aldeia de Ingelheim, avanava
penosamente pela neve, a caminho da cabana do cnego. Uma
rabanada de vento agitou as rvores, espetando dedos gelados
no seu corpo que procuravam penetrar atravs dos buracos e dos
remendos das suas finas vestes de l. O caminho pela floresta
estava cheio de neve; a cada passo que dava, enterrava-se
quase at aos joelhos. A neve acumulava-se-lhe nas
sobrancelhas e nas pestanas; tinha de limpar constantemente a
cara para conseguir ver. As mos e os ps doam-lhe de frio,
apesar das camadas de trapos de linho em que os tinha
embrulhado.
 Apareceu uma mancha negra  sua frente, no caminho. Era um
corvo morto. Neste Inverno, at estes robustos necrfagos
morriam de fome: os seus bicos no conseguiam rasgar a carne
podre enregelada. Hrotrud estremeceu, apressando o passo.
Gudrun, a mulher do cnego, tinha entrado em trabalho de parto
um ms antes do previsto. Linda altura para uma criana
nascer, pensou Hrotrud amargamente. Cinco crianas nascidas s
no ltimo ms e nem uma s sobreviveu mais do que uma semana.
 Um violento turbilho de neve cegou Hrotrud. Por momentos,
perdeu de vista o caminho mal assinalado. Sentiu uma onda de
pnico. J tinha morrido mais do que um aldeo naquele
caminho, andando em crculos a pouca distncia da sua prpria
casa. Esforou-se por se manter direita, enquanto a neve
rodopiava  sua volta, envolvendo-a numa paisagem branca.
Quando o vento abrandou, mal conseguia vislumbrar o caminho.


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 Continuou a marcha. As mos e os ps j no lhe doam;
estavam completamente dormentes. Ela sabia o que isso podia
significar, mas no podia ligar; era importante manter a
calma.
 Tenho de deixar de pensar no frio.
 Lembrou-se da casa onde tinha nascido, uma bela casa com uma
herdade prspera, de cerca de seis hectares. Era quente e
aconchegada, com slidas paredes de madeira, muito mais bonita
do que as casas dos seus vizinhos, construdas com simples
traves de madeira, cobertas de argamassa. Na sala principal,
havia uma grande lareira, com o fumo a sair em espiral por uma
abertura no telhado. O pai de Hrotrud usava um belo manto de
pele de lontra por cima da sua camisa em linho fino e a me
usava fitas de seda nos seus longos cabelos negros. Hrotrud
tinha duas tnicas de mangas largas e um manto da mais pura
l. Lembrava-se de sentir junto  sua pele a maciez e
suavidade do tecido fino.
 Tinha tudo acabado to depressa. Dois veres de seca e um
gelo assassino tinham arruinado a colheita. Havia fome por
todo o lado. Na Turngia, havia boatos de canibalismo. O pai
de Hrotrud tinha conseguido poup-los  fome durante algum
tempo, graas  venda ponderada de bens de famlia. Hrotrud
chorou quando levaram os seus mantos de l. Na altura, pensou
que no poderia acontecer nada pior. Tinha oito anos e ainda
no se tinha apercebido do horror e da crueldade do mundo.
 Abriu caminho atravs de mais um longo manto de neve,
lutando contra uma sensao crescente de atordoamento. H
vrios dias que no comia nada. Bem, se tudo correr bem, hoje
 noite vou festejar. Talvez possa levar um pouco de presunto
para casa, se o cnego ficar satisfeito. A ideia renovou-lhe
as energias.
 Hrotrud chegou a uma clareira. J conseguia distinguir os
contornos enevoados da cabana  sua frente. A neve ali era
mais alta, para alm do limite das rvores, mas ela seguiu em
frente, abrindo caminho com as suas pernas e braos fortes,
confiante de que, agora, estava em segurana.
 Ao chegar  porta, bateu uma vez, depois, entrou logo.
Estava muito frio para se preocupar com cortesias. Ao entrar,
pestanejou na escurido. A nica janela da cabana tinha sido
entaipada por causa do Inverno; a nica luz existente vinha da
lareira e de algumas velas de cebo espalhadas pelo
compartimento. A pouco e pouco, os seus olhos comearam a
habituar-se  escurido e viu dois rapazinhos sentados um
junto ao outro perto do lume.
 - A criana j nasceu? - perguntou Hrotrud.
 - Ainda no. - respondeu o rapaz mais velho.


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 Hrotrud murmurou uma pequena orao de aco de graas a So
Cosme, patrono das parteiras. J tinha sido privada do
pagamento mais do que uma vez desta maneira, despedida sem um
denrio, depois de ter tido o trabalho de aparecer.
 Junto  lareira, despiu os trapos enregelados que lhe
revestiam as mos e os ps, soltando um grito de alarme, ao
ver como estavam roxos. Me santa, no deixes que o gelo os
leve. No serviria de muito  aldeia ter uma parteira
aleijada. Elias, o sapateiro, tinha perdido assim o seu
sustento. Depois de ter sido apanhado numa tempestade quando
regressava de Mainz, as pontas dos seus dedos tinham
escurecido, acabando por cair ao fim de uma semana. Agora,
magro e andrajoso, passava a vida encolhido s portas das
igrejas, apelando  caridade dos outros para sobreviver.
 Abanando a cabea tristemente, Hrotrud beliscava e esfregava
os dedos dos ps e das mos entorpecidos, sob o olhar dos dois
rapazes silenciosos. Olhando-os, ficou mais descansada. Ser
um parto fcil, disse ela para si mesma, tentando afastar da
ideia o pobre Elias. Afinal, ajudei Gudrun no parto destes
dois e foi bastante fcil. O rapaz mais velho deve ter quase
seis invernos, uma criana robusta, com um ar inteligente. O
mais novo, o seu irmo bochechudo, com trs anos, abanava-se
para trs e para a frente, chupando morosamente o polegar.
Eram ambos morenos, como o pai. Nenhum deles tinha herdado o
extraordinrio cabelo dourado da sua me saxnia.
 Hrotrud recordou-se de como os homens da aldeia tinham
ficado a olhar espantados para o cabelo de Gudrun, quando o
cnego a trouxe de uma das suas viagens missionrias na
Saxnia. Ao princpio, o facto de o cnego ter trazido uma
mulher tinha causado bastante sensao. Alguns diziam que era
contra a lei, que o Imperador tinha promulgado um dito
proibindo o casamento aos homens da Igreja. Mas outros diziam
que no podia ser porque era sabido que, sem uma mulher, um
homem estava sujeito a todo o tipo de tentaes e fraquezas.
Olhem para os monges de Stablo, diziam eles, que
envergonham a Igreja com as suas fornicaes e bebedeiras. E
no havia dvida de que o cnego no bebia e era um homem
trabalhador.
 O compartimento estava quente. A grande lareira estava cheia
com grandes toros de vidoeiro e carvalho; o fumo elevava-se em
grandes rolos, saindo pelo buraco do telhado em colmo. Era uma
casa confortvel. As vigas de madeira que formavam as paredes
eram pesadas e espessas e as frinchas entre elas estavam bem
tapadas com palha e argamassa para impedir a entrada do frio.
A nica janela existente tinha sido coberta com placas de
carvalho, uma medida de proteco suplementar contra os
nordostroni, as nortadas frigidssimas do Inverno.


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A casa era suficientemente grande para estar dividida em trs
compartimentos, um onde se encontrava o quarto do cnego e da
sua mulher, um para os animais que ali se abrigavam contra a
intemprie - Hrotrud ouvia-os resfolegar e bater com os
cascos,  sua esquerda - e este, o compartimento central, onde
a famlia trabalhava e comia e as crianas dormiam. Para alm
do bispo, cuja casa era feita em pedra, em Ingelheim ningum
tinha uma casa to boa como esta.
 Os membros de Hrotrud comearam a picar com formigueiro e a
palpitar, voltando a adquirir sensibilidade. Olhou para os
seus dedos; estavam duros e secos, mas as manchas roxas tinham
desaparecido, dando lugar a um cor-de-rosa-avermelhado com
aparncia mais saudvel. Ela suspirou de alvio, decidindo
fazer uma oferta a So Cosme, em aco de graas. Hrotrud
ficou junto  lareira durante mais alguns instantes,
usufruindo do seu calor; depois, com um aceno encorajador para
os rapazes, apressou-se na direco do compartimento onde a
parturiente esperava.
 Gudrun estava deitada numa cama de turfa coberta com palha
fresca. O cnego, um homem moreno, com umas sobrancelhas
espessas e carrancudas, que lhe davam uma expresso de
austeridade permanente, estava sentado  parte. Acenou para
Hrotrud, depois voltou a concentrar a sua ateno no grande
livro encadernado em madeira que tinha sobre os joelhos.
Hrotrud j tinha visto o livro em visitas anteriores, mas,
sempre que o via, ficava cheia de temor. Era um exemplar da
Sagrada Escritura e era o nico livro que ela tinha visto. Tal
como os outros aldees, Hrotrud tambm no sabia ler nem
escrever. Mas sabia que aquele livro era um tesouro, que valia
mais soldos em ouro do que toda a aldeia ganhava num ano. O
cnego tinha-o trazido da sua terra natal, a Inglaterra, onde
os livros no eram to raros como no pas franco.
 Hrotrud apercebeu-se imediatamente de que Gudrun estava mal.
A sua respirao era fraca, o seu pulso estava demasiado
rpido, todo o seu corpo estava inchado e balofo. A parteira
conhecia os sintomas. No havia tempo a perder. Pegou no saco
que trazia e tirou dele um pouco de excrementos de pombo que
tinha recolhido cuidadosamente no Outono. Regressando 
lareira, atirou as ervas ao fogo, vendo com satisfao a forma
como o fumo negro comeou a subir, limpando o ar de espritos
malignos.
 Devia ter de aliviar as dores, de forma a que Gudrun pudesse
descontrair-se e ajudar a criana a nascer. Para isso, tinha
de usar meimendro. Pegou num ramo de florinhas amarelas,


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raiadas de prpura, colocou-as num almofariz em loia e
reduziu-as habilidosamente a p, tapando o nariz por causa do
cheiro acre que elas libertavam. Depois, deitou o p num copo
de vinho tinto e levou-o a Gudrun, para ela o beber.
 - O que lhe queres dar? - perguntou o cnego bruscamente.
 Hrotrud estremeceu; quase se tinha esquecido de que ele
estava ali.
 - Ela est fraca, por causa do trabalho de parto. Isto vai
aliviar-lhe as dores e ajudar a criana a nascer.
 O cnego franziu as sobrancelhas. Tirou o copo das mos de
Hrotrud, atravessou o quarto a passos largos e atirou-o ao
lume, onde ele assobiou por momentos e depois desapareceu.
 -  um sacrilgio, mulher!
 Hrotrud estava horrorizada. Tinha passado semanas de busca
penosa para conseguir juntar aquela pequena quantidade do
precioso medicamento. Virou-se para o cnego, pronta a
descarregar a sua ira, mas deteve-se quando viu o seu olhar
impiedoso.
 - Est escrito - e bateu no livro com a mo para reforar o
que dizia - Dars  luz na dor. Esse remdio  mpio!
 Hrotrud estava indignada. No havia nada de anticristo no
seu remdio. Ento, ela no recitava nove Pai-Nossos cada vez
que arrancava uma das plantas da terra? O cnego nunca se
tinha queixado quando ela lhe tinha dado meimendro para
aliviar as suas frequentes dores de dentes. Mas no ia
discutir com ele. Ele era um homem influente. Uma palavra
sobre as suas prticas mpias e Hrotrud estaria arruinada.
 Gudrun gemeu na angstia de mais uma dor. Muito bem, pensou
Hrotrud. Se o cnego no autorizava o meimendro, ela tinha de
tentar outra coisa. Voltou ao seu saco e tirou um longo pedao
de pano, cortado como o Sudrio de Cristo. Com movimentos
rpidos e eficazes, atou-o firmemente ao abdmen de Gudrun.
Gudrun gemeu quando ela a levantou da cama. O mnimo movimento
provocava-lhe dores, mas no havia nada a fazer. Hrotrud tirou
um pequeno pacote do seu saco, cuidadosamente embrulhado num
pedao de seda. Dentro, encontrava-se um dos seus tesouros -
um astrgalo de um coelho morto no dia de Natal. Tinha-o
obtido no ano anterior, por ocasio de uma caada imperial.
Com todo o cuidado, cortou trs fatias finas de osso e p-las
dentro da boca de Gudrun.
 - Mastiga isto devagar - ordenou ela a Gudrun que assentiu,
fraca.


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 Hrotrud sentou-se  espera. Pelo canto do olho, observava o
cnego, de tal modo concentrado no seu livro que as suas
sobrancelhas quase se juntavam ao nariz.
 Gudrun gemeu novamente, torcendo-se com dores, mas o cnego
no levantou os olhos do livro. Um homem duro, pensou Hrotrud.
Mas deve ter algum fogo nos quadris, seno no a tinha tomado
por esposa.
 H quanto tempo tinha o cnego trazido a mulher da Saxnia
para casa: h dez invernos, talvez h onze? Gudrun no era
jovem, para o que era costume entre os francos, talvez tivesse
vinte e seis ou vinte e sete anos, mas era muito bonita, com
os longos cabelos louros e os olhos azuis das alienigenae.
Tinha perdido toda a famlia no massacre de Verden. Nesse dia,
milhares de saxnios tinham preferido morrer a aceitar a
verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Brbaros loucos, pensou
Hrotrud. Comigo, no teria sido assim. Ela teria jurado tudo
quanto lhe pedissem. F-lo-ia, alis, se os brbaros alguma
vez voltassem a passar pela terra dos francos, juraria
fidelidade a todos os deuses que eles quisessem, por muito
estranhos ou terrveis que fossem. Isso no alterava nada.
Quem poderia saber o que se passava no corao de algum? Uma
mulher sensata tinha ideias prprias.
 O lume faiscava, lanando chispas. Hrotrud dirigiu-se 
pilha de lenha arrumada a um canto, escolheu dois ramos de
vidoeiro de bom tamanho e meteu-os na lareira. Ficou a
observar,  medida que eles ardiam, sibilando, e as labaredas
os devoravam. Depois, voltou para junto de Gudrun para ver
como ela estava.
 Tinha passado uma boa meia hora desde que Gudrun tinha
mastigado as aparas de astrgalo, mas o seu estado no se
tinha alterado. Nem sequer um medicamento to forte como
aquele tinha conseguido fazer efeito. As contraces
continuavam a ser irregulares e sem resultado e Gudrun
continuava a enfraquecer.
 Hrotrud suspirou, cansada. Era evidente que tinha de tomar
medidas mais enrgicas.
 O cnego demonstrou ser mais um problema, quando Hrotrud lhe
disse que necessitava de ajuda para o parto.
 - Manda chamar mulheres  aldeia. - disse ele,
peremptoriamente.
 - Ah, senhor, isso  impossvel. Quem poderia ir
busc-las?Hrotrud ergueu as mos ao cu. - Eu no posso ir
porque a vossa mulher precisa de mim aqui. O vosso filho mais
velho no pode ir porque apesar de parecer um rapaz que
promete, poderia perder-se na tempestade. Eu quase me perdi.


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 O cnego deitou-lhe um olhar fulminante. - Muito bem - disse
ele. - Eu vou. Quando se levantou da cadeira, Hrotrud abanou a
cabea com impacincia.
 - No adiantava nada. Quando tivsseis regressado, j seria
tarde de mais.  da vossa ajuda que eu preciso, e depressa, se
quereis que a vossa mulher e o beb sobrevivam.
 - Da minha ajuda? Ests doida, mulher? Isso - e apontou,
enojado, para a cama -  coisa de mulheres,  impuro.
Recuso-me.
 - Ento, a vossa mulher vai morrer.
 - Isso est nas mos de Deus, no nas minhas.
 Hrotrud encolheu os ombros:
 - Para mim, tanto se me d. Mas no vos ser fcil criar
dois filhos sem uma me.
 O cnego encarou Hrotrud:
 - Porque hei-de acreditar em ti? Ela j deu  luz sem
problemas. Eu dei-lhe fora com as minhas oraes. No podes
saber se ela vai morrer.
 Isto era de mais. Fosse ele cnego ou no, Hrotrud no
toleraria que ele pusesse em causa a sua competncia como
parteira.
 - Vs  que no sabeis nada - disse ela, asperamente. - Nem
sequer olhastes para ela. Ide v-la agora e depois dizei-me
que ela no est a morrer.
 O cnego aproximou-se da cama e olhou para a sua mulher. O
seu cabelo molhado estava colado  pele, que se tinha tornado
de um branco-amarelado. Os seus olhos, cercados de um trao
negro, estavam encovados; se no fosse o barulho profundo e
irregular da sua respirao, dir-se-ia que j estava morta.
 - Ento? - espicaou Hrotrud.
 O cnego voltou-se, para a encarar de frente:
 - Que raio, mulher! Porque no trouxeste mulheres contigo?
 - Como vs dissestes, os partos anteriores no tinham tido
qualquer problema. No havia nenhum motivo para pensar que
agora houvesse. Alm disso, quem teria vindo com um tempo
destes?
 O cnego dirigiu-se para a lareira e ps-se a andar de um
lado para o outro, agitadamente. Por fim, estacou.
 - O que queres que eu faa?
 Hrotrud sorriu.
 - Oh, pouca coisa, senhor, pouca coisa.
 Conduziu-o de novo para ao p da cama.
 - Para comear, ajudai-me a levant-la.


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 Um de cada lado de Gudrun, levantaram-na pelos braos. O seu
corpo estava pesado, mas, juntos, conseguiram p-la de p. Ela
oscilou e o seu corpo tombou completamente na direco do
marido.
 O cnego era mais forte do que Hrotrud tinha pensado. Isso
era bom porque ela precisaria de toda a fora que ele tivesse
para o que se seguia.
 - Temos de forar o beb a descer. Quando eu disser,
levantai-a o mais alto que puderdes e abanai-a com fora.
 O cnego assentiu, com um esgar. Gudrun oscilava entre ambos
como um peso morto, com a cabea tombada sobre o peito.
 - Levantai-a! - gritou Hrotrud.
 Ergueram Gudrun pelos braos e comearam a sacudi-la para
cima e para baixo. Gudrun gritava, lutando para se libertar. A
dor e o medo tinham-lhe dado uma fora surpreendente. Os dois
tinham dificuldade em control-la. Se ele me tivesse deixado
dar-lhe o meimendro, pensou Hrotrud. Agora, ela estaria meio
entorpecida.
 Eles voltaram a deit-la, mas ela continuava a lutar e a
gritar. Hrotrud voltou a dar a mesma ordem e eles voltaram a
levant-la e a sacudi-la. Depois, deitaram Gudrun na cama,
onde ela ficou meio inconsciente, murmurando palavras
misteriosas na sua lngua brbara. Est bem, pensou Hrotrud.
Se eu me despachar, estar tudo terminado antes de ela
recuperar os centidos.
 Hrotrud meteu a mo na passagem para o nascimento, tacteando
a abertura do tero. Estava rgida e inchada por causa de
tantas horas de contraces inteis. Usando a unha do dedo
indicador direito, que ela conservava comprida precisamente
para este efeito, Hrotrud rasgou a membrana resistente. Gudrun
gemeu, depois ficou completamente inconsciente. Sobre a mo de
Hrotrud correu sangue quente, espalhando-se pelos seus braos
e pela cama. Finalmente, ela sentiu a abertura ceder. Com um
grito exultante, Hrotrud meteu a mo e agarrou na cabea do
beb, exercendo uma presso suave para baixo.
 - Segurai-a pelos ombros e empurrai-a na minha direco. -
disse ela ao cnego, que empalideceu.
 Mesmo assim, obedeceu. Hrotrud sentiu a presso aumentar
quando o cnego juntou a sua fora  dela. Ao fim de alguns
minutos, o beb comeou a descer para a passagem do
nascimento. Ela continuou a puxar com firmeza, mas com cuidado
suficiente para no magoar os ossos tenros da cabea e do
pescoo da criana. Por fim, apareceu o cimo da cabea do
beb, coberto com uma massa de cabelo fino e molhado.


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Hrotrud puxou a cabea para fora, com cuidado, depois virou o
corpo para permitir que o ombro direito, depois o esquerdo,
sassem. Mais um puxo firme e o pequeno corpo deslizou,
hmido, para os braos de Hrotrud, que o esperava.
 - Uma menina - anunciou Hrotrud. - E forte, pelo que parece
- acrescentou ela, atentando, aprovadora, para o grande grito
lanado pela criana e para o tom saudavelmente cor-de-rosa da
sua pele.
 Voltou-se e encarou com o olhar reprovador do cnego.
 - Uma menina - disse ele. - Ento, foi tudo para nada.
 - No digais isso, senhor.
 Hrotrud ficou subitamente receosa de que a desiluso do
cnego significasse menos comer para ela.
 - A criana  saudvel e forte. Se Deus quiser, h-de viver
e honrar o vosso nome.
 O cnego abanou a cabea.
 - Ela  um castigo de Deus. Um castigo pelos meus pecados e
pelos dela. - Voltou-se para Gudrun, que estava imvel. - Ela
ir sobreviver?
 - Sim.
 Hrotrud esperou ter sido convincente. No podia permitir que
o cnego pensasse que tinha motivos para estar duplamente
desapontado. Ainda esperava provar carne nessa noite. E,
afinal, era razovel esperar que Gudrun sobrevivesse
realmente.  verdade que o parto tinha sido violento. Depois
de um esforo to grande, muitas mulheres apanhavam febre e
tinham hemorragias. Mas Gudrun era forte; Hrotrud trataria a
sua ferida com um unguento de artemsia misturada com gordura
de raposa.
 - Sim, se Deus quiser, ela sobreviver - repetiu ela, com
firmeza.
 No lhe pareceu necessrio acrescentar que, provavelmente,
no teria mais filhos.
 - J  alguma coisa, ento - disse o cnego.
 Aproximou-se da cama e ficou a olhar para Gudrun. Tocou
suavemente no cabelo louro, agora mais escuro, por causa do
suor. Por momentos, Hrotrud pensou que ele ia beijar Gudrun.
Depois, a sua expresso mudou. Ficou srio, mesmo zangado.
 - Per mulierem culpa successit - disse ele. - O pecado veio
por uma mulher.
 Largou o caracol de cabelo e recuou.
 Hrotrud abanou a cabea. Qualquer coisa da Bblia,
certamente. O cnego era uma pessoa estranha, no havia
dvida, mas isso no era da sua conta, graas a Deus.
Apressou-se para acabar de limpar Gudrun do sangue e da
placenta para poder regressar a casa ainda com luz do dia.


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 Gudrun abriu os olhos e viu o cnego debruado sobre ela. O
sorriso que comeou a esboar gelou-lhe nos lbios quando viu
a expresso dos seus olhos.
 - Marido? - disse ela, a medo.
 - Uma menina - disse o cnego, friamente, sem se dar ao
incmodo de ocultar o seu desagrado.
 Gudrun assentiu, compreendendo, e voltou o rosto para a
parede. O cnego virou-se para sair, mas parou por uns
instantes para olhar para a criana j bem aconchegada na sua
enxerga de palha.
 - Joana. Chamar-se- Joana - disse ele, e saiu do quarto,
abruptamente.



 @1


 A trovoada soou muito perto e a criana acordou. Mexeu-se
na cama,  procura do calor e do conforto dos corpos
adormecidos dos seus irmos mais velhos. Depois, lembrou-se.
Os seus irmos tinham-se ido embora.
 Chovia. Um aguaceiro primaveril que enchia o ar da noite com
o cheiro agridoce de terra acabada de lavrar. A chuva fazia um
rudo surdo no telhado da cabana do cnego, mas a espessa
cobertura de colmo mantinha a casa seca, excepto num ou dois
cantinhos, onde a gua tinha comeado a acumular-se, pingando
lentamente em gotas grossas sobre o cho em terra batida.
 Levantou-se vento e as folhas de um carvalho junto da casa
comearam a bater num ritmo irregular de encontro s paredes.
A sombra dos seus ramos projectava-se no quarto. A criana
observou, petrificada, como os monstruosos dedos negros se
contorciam  volta da cama. Estendiam-se para ela, procurando
alcan-la, e ela encolheu-se.
 Mam, pensou ela. Abriu a boca para a chamar, mas deteve-se.
Se fizesse barulho, a mo ameaadora atacaria. Ficou gelada,
incapaz de se mexer. Depois, espetou o queixo resolutamente.
Tinha de ser, portanto, f-lo-ia. Movendo-se com extrema
lentido, sem tirar os olhos do inimigo, levantou-se da cama.
Sentiu o cho trreo frio por baixo dos ps; a sensao
familiar tranquilizou-a. Mal se atrevendo a respirar,
dirigiu-se para a parte da casa onde a me estava a dormir.
Relampejou; os dedos mexeram-se e esticaram-se como que para a
agarrar. Ela engoliu um grito e a garganta apertou-se-lhe com
o esforo. Teve de se forar a mover-se lentamente e a no
largar numa corrida.


 -20 -21


 J estava perto. De repente, abateu-se sobre a sua cabea o
estrondo de um trovo. Nesse preciso momento, algo lhe tocou
nas costas. Ela gritou, virou-se e fugiu pelo quarto,
tropeando na cadeira que se encontrava no caminho.
 Aquela parte da casa estava s escuras e silenciosa, s se
ouvindo a respirao ritmada da sua me. Pelo som, a criana
percebeu que ela estava a dormir profundamente; o barulho no
a tinha acordado. Dirigiu-se rapidamente para a cama, levantou
o cobertor de l e deslizou por baixo dele. A me estava
deitada de lado, com a boca entreaberta; a sua respirao
morna acariciou a face da criana. Esta aconchegou-se,
sentindo o corpo macio da me atravs da camisa de linho fino.
 Gudrun bocejou e mudou de posio, desperta pelo movimento.
Abriu os olhos e, ensonada, olhou para a criana. Depois,
acordando completamente, estendeu os braos e abraou a filha.
 - Joana - repreendeu-a ela, docemente, com os lbios junto
do cabelo macio da criana. - Pequenina, devias estar a
dormir.
 Falando apressadamente, com a voz elevada e tensa pelo medo,
Joana contou  me o aparecimento da mo monstruosa.
 Gudrun ouviu, acariciando e abraando a filha e murmurando
mimos. Com os dedos, percorreu docemente a face da criana,
tacteando no escuro. No era bonita, pensou Gudrun, com
tristeza. Era demasiado parecida com ele, com o seu grosso
pescoo ingls e o grande maxilar. O seu corpinho j era
atarracado e pesado e no esguio e gracioso como os do povo de
Gudrun. Mas, os olhos da criana eram generosos, grandes e
expressivos, com pupilas de uma linda cor verde, com pequenos
anis de cinzento-escuro no centro. Gudrun levantou uma
madeixa do cabelo da sua filha e acariciou-a, apreciando a
forma como ele brilhava, de um louro-claro, mesmo na
escurido. O meu cabelo. No o cabelo preto espigado do seu
marido e do seu povo cruel e escuro. A minha filha. Enrolou um
fio de cabelo em volta do dedo e sorriu. Pelo menos, esta 
minha.
 Acalmada pela solicitude da me, Joana descontraiu-se.
Imitando a me, comeou a puxar a longa trana de Gudrun,
desfazendo-a, at o cabelo cair em torno da sua cabea. Joana
ficou a olhar para ele, espalhando-o sobre a cobertura escura,
como se fosse creme. Nunca tinha visto a me com o cabelo
solto. Por insistncia do cnego, Gudrun usava-o sempre bem
preso, escondido sob uma touca de linho grosso. O seu marido
dizia que o cabelo de uma mulher  a rede onde Satans apanha
a alma de um homem. E o cabelo de Gudrun era
extraordinariamente belo, comprido, macio, dourado,


 -22-


sem um nico cabelo branco, apesar de j ser uma idosa com
trinta e seis primaveras.
 - Porque  que o Mateus e o Joo se foram embora? -
perguntou Joana, subitamente.
 A me j lhe tinha explicado vrias vezes, mas Joana queria
ouvir novamente.
 - Sabes bem porqu. O teu pai levou-os com ele na sua viagem
missionria.
 - Porque  que eu no pude ir tambm?
 Gudrun suspirou pacientemente. A filha estava sempre cheia
de perguntas.
 - O Mateus e o Joo so rapazes; um dia, sero padres como o
teu pai. Tu s uma rapariga, por isso esses assuntos no te
dizem respeito.
 Vendo que Joana no tinha ficado satisfeita com a resposta,
acrescentou:
 - Alm disso, s muito nova.
 Joana ficou indignada.
 - Fiz quatro anos no Wintarmanoth!
 Os olhos de Gudrun brilharam divertidos ao olhar para o
rosto rechonchudo da criana.
 - Ah, pois, j me esquecia que tu, agora, s uma menina
crescida, no ? Quatro anos! J s muito crescida.
 Joana ficou calada, enquanto a me lhe acariciava o cabelo.
Depois perguntou.
 - O que so os pagos?
 O pai e os irmos tinham falado muito de pagos antes de
terem partido. Joana no percebia exactamente o que eram
pagos, apesar de pensar que devia ser qualquer coisa muito
m.
 Gudrun ficou hirta. A palavra tinha poderes de esconjuro.
Tinha sido pronunciada pelos soldados invasores, quando tinham
pilhado a casa dela e morto a sua famlia e amigos. Os
sinistros e cruis soldados de Carolus, o imperador dos
Francos. Magnus, como o povo lhe chamava agora, depois da sua
morte. Carolus Magnus. Carlos Magno. Ser que lhe dariam esse
ttulo se tivessem visto o seu exrcito arrancar os bebs dos
braos das mes, fazendo-os voltear no ar, antes de esmagarem
as suas cabeas contra as pedras?, pensou Gudrun. Gudrun tirou
a mo do cabelo de Joana e virou-se de costas.
 - Tens de perguntar ao teu pai - disse ela.


 -23-


 Joana no percebeu o que tinha feito de mal, mas
apercebeu-se de uma dureza estranha na voz da me. Sentiu que
ela a mandaria regressar  sua cama se no procurasse reparar
o dano. Disse, rapidamente:
 - Falai-me outra vez dos Antepassados.
 - No posso. O teu pai no acha bem que eu te conte essas
histrias.
 Estas palavras eram um misto de afirmao e interrogao.
 Joana sabia o que fazer. Colocando ambas as mos sobre o
corao, recitou o juramento exactamente como a sua me Lho
tinha ensinado, prometendo segredo eterno, em nome de Thor, o
deus do Trovo.
 Gudrun riu-se e voltou a abraar Joana.
 - Muito bem, passarinho. Vou contar-te a histria, uma vez
que tens tanto jeito para a pedir.
 A voz dela voltou a ser carinhosa, sussurrante e melodiosa
quando comeou a falar de Woden, Thor e Freya e de todos os
outros deuses que tinham povoado a sua infncia saxnica,
antes de os exrcitos de Carlos Magno terem trazido a Palavra
de Cristo com um banho de sangue e de fogo. Falou
cadenciadamente sobre Asgard, o reino radioso dos deuses, um
pas com palcios em ouro e prata, que s podiam ser
alcanados atravessando Bifrost, a misteriosa ponte sobre o
arco-ris. A guardar a ponte estava Heimdall, o Guardio, que
nunca dormia e cujo ouvido era to apurado que ouvia a erva a
crescer. Em Valhalla, o palcio mais belo de todos, vivia
Woden, o pai dos deuses, sobre cujos ombros poisavam dois
corvos: Hugin, o Pensamento, e Munin, a Memria. Sentado no
seu trono, enquanto os outros deuses festejavam, Woden
meditava sobre as verdades que o Pensamento e a Memria lhe
segredavam ao ouvido.
 Joana acenava com a cabea, contente. Esta era a parte da
histria que ela mais gostava.
 - Falai-me do Poo da Sabedoria - pediu ela.
 - Apesar de j ser muito sbio - explicou a me - Woden
buscava sempre alcanar mais sabedoria. Um dia, foi ao Poo da
Sabedoria, guardado por Mimir, o Sbio, e pediu-lhe
autorizao para beber dele.
 - Que preo ests disposto a pagar? - perguntou Mimir.
 Woden respondeu que Mimir podia pedir o que quisesse.
 - A sabedoria s se adquire com dor - respondeu Mimir. - Se
queres beber desta gua, tens de sacrificar um dos teus olhos.
 Com os olhos a brilhar de excitao, Joana exclamou:
 - E Woden pagou, mam, no pagou? Pagou!
 A me acenou com a cabea.
 - Apesar de ter sido uma escolha difcil, Woden consentiu em
perder um olho. Bebeu a gua. Depois, transmitiu  humanidade
a sabedoria que tinha adquirido.
 Joana levantou os olhos para a me, com um ar grave.
 - Tereis feito isso, mam, para ser sbia, para saber tudo?
 - S os deuses  que fazem estas coisas - respondeu ela.
 Depois, vendo que a filha continuava a olhar para ela
insistentemente, Gudrun confessou:
 - No. Teria tido demasiado medo.
 - Eu tambm - disse Joana, pensativa. - Mas, teria querido
ser capaz de o fazer. Teria querido saber tudo quanto o poo
pudesse dizer-me.
 Gudrun sorriu para o rostinho decidido.
 - Talvez no gostasses daquilo que podias aprender ali. H
um ditado do nosso povo que diz: O corao de um homem sbio
raramente  feliz.
 Joana abanou a cabea, apesar de no compreender muito bem.
 - Agora, falai-me da rvore - disse ela, aconchegando-se
mais  me.
 Gudrun comeou a descrever Irminsul, a maravilhosa rvore do
universo. Encontrava-se no bosque saxnico mais sagrado, na
nascente do rio Lippe. O seu povo tinha-a adorado at ela ter
sido abatida pelos exrcitos de Carlos Magno.
 - Era muito bela - disse a me. - E to alta que no se
conseguia ver o cimo. Era...
 Interrompeu-se. Tendo-se apercebido subitamente de outra
presena, Joana levantou os olhos. O seu pai estava parado 
entrada.
 A me sentou-se na cama.
 - Marido - disse ela. - No esperava o vosso regresso seno
amanh.
 O cnego no respondeu. Pegou numa vela de cera que se
encontrava na mesa junto  porta e aproximou-se da lareira
para a acender.
 Gudrun disse, nervosa:
 - A criana estava com medo da trovoada. Pensei que podia
confort-la contando-Lhe uma histria inocente.
 - Inocente!
 A voz do cnego tremia com o esforo para controlar a ira.
 - Chamas a uma blasfmia dessas uma histria inocente?
 Percorreu a distncia que o separava da cama em duas
passadas, pousou a vela e puxou o cobertor, destapando-as.


 -24 -25


 Joana estava deitada abraada  me, meio escondida sob uma
cortina de cabelo dourado.
 Por momentos, o cnego ficou parado, estupefacto, olhando
para o cabelo solto de Gudrun. Depois, a fria apoderou-se
dele.
 - Como te atreveste! Quando eu o proibi expressamente!
 Agarrando Gudrun, comeou a arrast-la para fora da cama.
 - Bruxa pag!
 Joana agarrou-se  me. O rosto do cnego ensombrou-se.
 - Desaparece, filha! - bramiu ele.
 Joana hesitou, dividida entre o temor e o desejo de proteger
a sua me, de algum modo.
 Gudrun empurrou-a suavemente.
 - Sim, larga-me. Vai depressa.
 Soltando-se, Joana caiu para o cho e correu.  porta,
voltou-se e viu o pai arrastar a me pelos cabelos,
puxando-lhe a cabea para trs e forando-a a ajoelhar-se.
Joana voltou para o quarto. O terror imobilizou-a
imediatamente quando viu o pai puxar da sua grande faca do
mato, com cabo em osso, tirando-a do cinto.
 - Forsachistu diabolae? - perguntou ele a Gudrun em saxo,
numa voz que era pouco mais do que um sussurro.
 Como ela no respondeu, ele encostou a ponta da faca  sua
garganta:
 - Diz as palavras - rosnou ele, ameaador. - Diz!
 - Ec forracho allum diaboler - respondeu Gudrun com os olhos
cheios de lgrimas e de rancor - Wuercum and wuordum, thunaer
ende woden ende raxnoter ende allum...
 Cheia de medo, Joana viu o pai levantar uma grande madeixa
de cabelo da sua me e pass-la pela faca. O corte da madeixa
sedosa provocou um barulho abafado; uma grande madeixa de
cabelo dourado caiu para o cho.
 Tapando a boca com a mo para abafar um grito, Joana
voltou-se e correu.
 Na escurido, tropeou numa sombra que se aproximou dela.
Vendo-se presa, ela soltou um grito agudo. A monstruosa mo
negra! Tinha-se esquecido dela! Lutou, batendo-lhe com os seus
pequenos punhos, resistindo com todas as suas foras, mas ela
era enorme e agarrava-a com fora.
 - Joana! Joana, j passou. Sou eu!
 As palavras penetraram no seu medo. Era o seu irmo de dez
anos de idade, Mateus, que tinha regressado com o pai.
 - J voltmos. Joana, pra de lutar! J passou. Sou eu.
 Joana estendeu os braos e sentiu a superfcie macia da cruz
peitoral que Mateus usava sempre e agarrou-se a ele, aliviada.
 Sentaram-se juntos no escuro, ouvindo os sons surdos e
cortantes da faca, passando no cabelo da me. Ouviram a mam a
chorar de dor. Mateus praguejou alto. Veio uma resposta da
cama onde o irmo de Joana, o Joo, com sete anos de idade,
estava escondido, sob os cobertores.
 Finalmente, os sons cortantes terminaram. Depois de uma
breve pausa, o cnego comeou a rezar. Joana sentiu que Mateus
se tinha acalmado. Tinha acabado. Atirou os braos ao seu
pescoo e comeou a chorar. Ele abraou-a e embalou-a
gentilmente.
 Ao fim de algum tempo, ela olhou para ele.
 - O pai chamou pag  me.
 - Sim.
 - Mas, ela no , pois no? - perguntou Joana, hesitante.
 - Era.
 Vendo o seu olhar de descrena horrorizada, acrescentou:
 - H muito tempo. J no. Mas, as histrias que ela te
estava a contar so pags.
 Joana parou de chorar. Era uma informao interessante.
 - Sabes qual  o primeiro Mandamento, no sabes?
 Joana acenou e recitou-o obedientemente:
 - No ters seno um s deus.
 - Pois. Isto quer dizer que os deuses de que a mam te
estava a falar so falsos;  pecado falar neles.
 - Foi por isso que o pai...
 - Foi. - interrompeu Mateus. - A mam tinha de ser castigada
para bem da sua alma. Foi desobediente ao seu marido e isso
tambm  contra a lei de Deus.
 - Porqu?
 - Porque  assim que diz no Livro Sagrado.
 Ele comeou a recitar:
 - Pois o marido  a cabea da mulher; portanto, que as
esposas se submetam em tudo aos seus maridos.
 - Porqu?
 - Porqu?
 Mateus foi apanhado de surpresa. Nunca ningum lhe tinha
feito essa pergunta:
 - Bem, acho que  porque... porque as mulheres so
inferiores aos homens, por natureza. Os homens so maiores,
mais fortes e mais inteligentes.


 -26 -27


 - Mas...
 Joana comeou a responder, mas Mateus interrompeu-a:
 - Basta de perguntas, irmzinha. Devias estar na cama. Anda.
 Levou-a para a cama e deitou-a ao lado do Joo, que j
estava a dormir.
 O Mateus tinha sido gentil com ela. Em troca, Joana fechou
os olhos e tapou-se com os cobertores, como se fosse dormir.
 Mas, estava demasiado perturbada para dormir. Ficou deitada
no escuro, olhando para o Joo, que dormia, com a boca
entreaberta.
 Ele no  capaz de recitar do Saltrio e tem sete anos.
Joana s tinha quatro, mas j sabia de cor os primeiros dez
salmos.
 O Joo no era esperto. No entanto, era um rapaz. Mas, como
era possvel que o Mateus estivesse enganado? Ele sabia tudo;
ia ser padre, como o pai deles.
 Ficou acordada no escuro, magicando no problema.
 Adormeceu de madrugada, atribulada, assaltada por sonhos de
guerras tremendas entre deuses ciumentos e irados. O prprio
anjo Gabriel tinha descido do Cu com uma espada flamejante
para lutar contra Thor e Freya. A batalha tinha sido terrvel
e cruel, mas, no fim, os falsos deuses foram derrotados e
Gabriel ficou de p, triunfante, s portas do paraso. A sua
espada tinha desaparecido; na sua mo, reluzia uma faca com
cabo em osso.


 -28-


 @2


 O estilete de madeira moveu-se rapidamente, formando
letras e palavras na macia cera amarela sobre a tbua. Joana,
atenta, estava junto ao ombro de Mateus, enquanto ele copiava
a lio do dia. De vez em quando, parava para passar a chama
da vela sobre a tbua, de forma a impedir a cera de endurecer
demasiado rapidamente.
 Ela adorava ver o Mateus a estudar. O seu estilete
pontiagudo transformava a cera informe em linhas de smbolos
de uma beleza misteriosa. Ela desejava compreender o que cada
sinal significava e seguia intensamente cada movimento do
estilete para descobrir a chave do significado na forma das
letras.
 Mateus poisou o estilete e recostou-se na cadeira,
esfregando os olhos. Aproveitando a oportunidade, Joana
aproximou-se da tbua e apontou para uma palavra.
 - O que diz aqui?
 - Jernimo.  o nome de um grande Padre da Igreja.
 - Jernimo - repetiu ela lentamente. -  um nome parecido
com o meu.
 - Algumas das letras so as mesmas - assentiu Mateus,
sorrindo.
 - Mostra-me.
 -  melhor no. O pai no ia gostar, se descobrisse.
 - Ele no descobre. Por favor, Mateus. Eu quero saber. Por
favor, mostras-me?
 Mateus hesitou.
 - Acho que no h mal nenhum em te ensinar a escrever o teu
nome. Pode ser til, um dia, quando fores casada e tiveres uma
casa para governar.


 -29-


 Colocando a mo sobre a mozinha da irm, ajudou-a a
desenhar as letras do nome dela: J-O-A-N-A, com um grande a
com aselha no fim.
 - Muito bem. Agora experimenta tu.
 Joana agarrou no estilete com fora, forando os dedos a
colocarem-se na estranha e rgida posio, de forma a formarem
as letras que ela tinha fixado na sua mente. Deu imediatamente
um grito frustrado, ao aperceber-se de que no era capaz de
pegar no estilete como devia ser.
 Mateus consolou-a:
 - Devagar, irmzinha, devagar. S tens seis anos. Escrever
no  fcil com a tua idade. Tambm foi com essa idade que eu
comecei e lembro-me. Tem pacincia; acabars por conseguir.
 No dia seguinte, ela levantou-se cedo e saiu. Na terra mole
 volta da pocilga, desenhou as letras tantas vezes at ter a
certeza de que as tinha feito correctamente. Depois,
orgulhosa, chamou o Mateus, para ele testemunhar a obra dela.
 - Muito bem, irmzinha. Mesmo muito bem. Mas - murmurou,
culpado - o pai no pode saber disto.
 Passou o p por cima do esterco, apagando as marcas que ela
tinha feito.
 - No, Mateus, no!
 Joana tentou afast-lo. Perturbados pelo barulho, os porcos
comearam a grunhir em coro.
 Mateus debruou-se para a abraar.
 - Est bem, Joana. No fiques triste.
 - M-mas, tu disseste que as minhas letras estavam bem!
 - Elas esto bem.
 Mateus estava surpreendido com a sua perfeio; melhor do
que o Joo era capaz de fazer e era trs anos mais velho.
Realmente, se a Joana no fosse uma rapariga, Mateus diria
que, um dia, ela daria um ptimo escriba. Mas, era melhor no
meter ideias estranhas na cabea da criana.
 - No podia deixar ficar as letras para o pai ver; foi por
isso que as apaguei.
 - Ensinas-me mais letras, Mateus, ensinas?
 - J te mostrei mais do que devia.
 Ela disse com gravidade:
 - O pai no descobre. Eu nunca lhe irei contar, prometo. E
apagarei as letras com todo o cuidado quando tiver acabado.
 Os seus olhos de um verde-acinzentado profundo prenderam os
seus intensamente, determinados a fazer com que ele
concordasse.
 Mateus abanou a cabea, divertido. No havia dvida de que
ela era persistente, esta sua irmzinha. Afectuosamente,
beliscou-lhe o queixo:
 - Muito bem - assentiu ele. - Mas no te esqueas que  o
nosso segredo.
 A partir da, aquilo tornou-se uma espcie de jogo entre
eles. Sempre que havia oportunidade, no tantas vezes quanto
Joana desejava, Mateus mostrava-Lhe como desenhar letras no
cho. Ela era uma aluna vida de aprender; apesar de estar
ciente das consequncias, Mateus no conseguia resistir ao seu
entusiasmo. Ele tambm adorava aprender; a paixo dela
falava-Lhe ao corao.
 Mesmo assim, at ele ficou chocado quando ela veio ter com
ele um dia, carregando a enorme Bblia com encadernao em
madeira, que pertencia ao pai de ambos.
 - O que ests a fazer? - gritou ele. - Vai pr isso no
stio; nunca lhe devias ter mexido!
 - Ensina-me a ler.
 - O qu?
 A audcia dela era espantosa.
 - Ora, vamos l, irmzinha, isso  pedir muito.
 - Porqu?
 - Bem... porque ler  muito mais difcil do que limitar-se a
aprender o alfabeto. Duvido mesmo que fosses capaz de o
aprender.
 - Porque no? Tu aprendeste.
 Ele sorriu indulgentemente:
 - Sim, mas eu sou um homem.
 Isto no era bem verdade porque ele ainda no tinha atingido
treze invernos. Dali a pouco mais de um ano, quando fizesse
catorze, ento, seria verdadeiramente um homem. Mas,
agradava-lhe reclamar o privilgio j agora e, alm disso, a
sua irmzinha no percebia a diferena.
 - Eu sou capaz. Eu sei que sou.
 Mateus suspirou. Isto no ia ser fcil.
 - No  s isso, Joana.  perigoso e contra a natureza uma
mulher aprender a ler e a escrever.
 - Santa Catarina aprendeu. O bispo disse no sermo,
lembras-te? Ele disse que ela era admirada pela sua sabedoria
e erudio.
 -  diferente. Ela era santa. Tu s apenas uma... rapariga.


 30 31


 Ento, ela calou-se. Mateus ficou contente por ter ganho a
discusso com tanta facilidade; ele sabia o quanto a sua
irmzinha podia ser determinada. Estendeu a mo para pegar na
Bblia. Ela fez meno de lha dar, mas puxou-a para si:
 - Porque  que Catarina  uma santa? - perguntou ela.
 Mateus fez uma pausa, com as mos ainda estendidas.
 - Ela era uma santa mrtir que morreu pela sua F. O bispo
disse no sermo, lembras-te?
 No conseguiu resistir a imit-la.
 - Porque  que ela foi martirizada?
 Mateus suspirou.
 - Ela desafiou o imperador Maxncio e cinquenta dos seus
conseLheiros, provando, atravs de uma argumentao lgica,
que o paganismo era um erro. Foi castigada por isso. Vamos,
irmzinha, d-me o livro.
 - Que idade tinha ela quando fez isso?
 Mas que perguntas to esquisitas que aquela criana lhe
fazia!
 - No quero continuar a discutir isso - disse Mateus,
inesperadamente. - D-me o livro!
 Ela recuou, agarrando o livro contra o peito.
 - Ela era velha quando foi a Alexandria discutir com os
conseLheiros do imperador, no era?
 Mateus comeou a pensar se lhe devia tirar o livro  fora.
No, era melhor no. A frgil encadernao podia desfazer-se
e, ento, ficariam ambos em apuros maiores do que ele queria
imaginar. Era melhor continuar a falar, a responder s
perguntas dela, por muito tontas e infantis que fossem, at
ela se cansar da brincadeira.
 - Tinha trinta e trs anos, disse o bispo, a mesma idade que
Jesus Cristo tinha quando foi crucificado.
 - E quando Santa Catarina desafiou o imperador j era
admirada pela sua erudio, como o bispo disse?
 - Obviamente - condescendeu Mateus. - Seno, como poderia
ela ter derrotado os mais sbios conselheiros do pas em tal
debate?
 - Ento - o pequeno rosto de Joana iluminou-se, triunfante -
, ela deve ter aprendido a ler antes de se ter tornado santa,
quando era ainda uma menina, como eu!
 Mateus ficou sem palavras durante alguns momentos, dividido
entre a irritao e a surpresa. Depois riu alto.
 - Seu diabinho! - disse ele. - Ento era a que querias
chegar! Bom, que tens talento para a disputa, isso  certo!


 32


 Ento, ela entregou-Lhe o livro, com um sorriso esperanado.
 Mateus tirou-lho, abanando a cabea. Que criatura estranha,
to curiosa, to determinada, to segura de si mesma. No era
nada parecida com o Joo ou com qualquer outra criana que ele
conhecesse. Do seu rosto de rapariguinha sobressaam os olhos
de uma mulher sbia. No admirava que as outras raparigas da
aldeia no quisessem dar-se com ela.
 - Muito bem, irmzinha - acabou ele por dizer. - Hoje,
comeas a aprender a ler.
 Ao ver o entusiasmo nos olhos dela, ele apressou-se em
preveni-la.
 - No deves esperar demasiado.  muito mais difcil do que
tu pensas.
 Joana atirou os braos ao pescoo do seu irmo.
 - Adoro-te, Mateus.
 Mateus libertou-se do abrao, abriu o livro e disse num tom
severo:
 - Comeamos aqui.
 Joana debruou-se sobre o livro, inalando o cheiro intenso a
pergaminho e madeira, ao mesmo tempo que Mateus apontava a
passagem: Evangelho de Joo, captulo primeiro, versculo
primeiro. In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et
verbum erat Deus - No princpio, era o Verbo e o Verbo estava
em Deus e o Verbo era Deus.


 * * *


 O Vero e o Outono seguintes foram temperados e fecundos; a
colheita foi a melhor que a aldeia tinha tido havia anos. Mas,
em Heilagmanoth, caiu neve e o vento soprou do Norte, em
chicotadas geladas. A janela da cabana estava tapada por causa
do frio e a neve amontoava-se contra as suas paredes, pelo
lado de fora. A famlia passava a maior parte do tempo dentro
de casa. A Joana e o Mateus tinham mais dificuldade em
arranjar tempo para as lies. Quando estava bom tempo, o
cnego ainda ia exercer o seu ministrio, levando o Joo
consigo porque o Mateus ficava entregue aos seus estudos, mais
importantes do que qualquer outra coisa. Quando Gudrun ia 
floresta para recolher lenha, Joana corria para a secretria
sobre a qual Mateus estava debruado e abria a Bblia na
passagem onde tinham Ficado na lio anterior. Assim, Joana
continuava a fazer progressos rpidos, pelo que, antes da
Quaresma, j dominava o Livro de Joo quase na totalidade.
 Um dia, Mateus retirou uma coisa do seu saco e deu-lha, com
um sorriso.
 -  para ti, irmzinha.


 33


 Era um medalho em madeira, preso a um fio. Mateus colocou o
fio  volta do pescoo de Joana e o medalho deslizou sobre o
peito dela.
 - O que  isto? - perguntou Joana, curiosa.
 -  uma coisa para tu usares.
 - Ah! - disse ela e, depois, apercebendo-se de que faltava
qualquer coisa, acrescentou: - Obrigada.
 Mateus riu-se ao ver o embarao dela.
 - Olha para o que est na parte da frente do medalho.
 Joana fez como ele mandou. Na superfcie em madeira, estava
gravada a efgie de uma mulher. Era uma pea rude, uma vez que
Mateus no era entalhador, mas os olhos da mulher estavam bem
desenhados, chegavam mesmo a ser impressionantes, olhando em
frente, com uma expresso inteligente.
 Mateus ordenou-lhe ainda.
 - Agora, v na parte de trs.
 Joana virou o medalho e leu as seguintes palavras, escritas
em letras grandes, dispostas ao longo do rebordo do medalho:
Santa Catarina de Alexandria.
 Com um grito, Joana apertou o medalho junto ao corao.
Sabia o que esta oferta significava. Era a forma de o Mateus
reconhecer as suas capacidades e a confiana que tinha tido
nela. As lgrimas chegaram-lhe aos olhos.
 - Obrigada. - disse ela, novamente, e, desta vez, ele sabia
que era sentido.
 Ele sorriu. Ela reparou que ele tinha crculos negros em
torno dos olhos; parecia cansado e abatido.
 - Sentes-te bem? - perguntou ela, preocupada.
 - Claro que sim! - disse ele, de um modo um tanto
enftico.Vamos comear a lio, sim?
 Mas ela estava inquieta e distrada. Ao contrrio do que era
costume, ele no a apanhou quando ela cometeu um erro por
distraco.
 - Passa-se alguma coisa? - perguntou Joana.
 - No, no. S estou um pouco cansado.
 - Ento, queres parar? Eu no me importo. Podemos continuar
amanh.
 - No, desculpa. S estava distrado. Vejamos, onde
estvamos? Ah, sim! Volta a ler a ltima passagem e, desta
vez, toma ateno ao verbo: videat, no videt.


 34


 No dia seguinte, Mateus acordou a queixar-se com dores de
cabea e de garganta. Gudrun trouxe-lhe uma bebida quente com
borgem e mel.
 - Tens de ficar todo o dia na cama - disse ela. - O filho da
elha me Wigbod apanhou o fluxo da Primavera; pode ser que tu
tambm tenhas apanhado.
 Mateus riu-se e disse que no era nada disso. Dedicou muitas
horas aos seus estudos, depois insistiu em sair para ajudar o
Joo a vindimar.
 Na manh seguinte, tinha febre e custava-lhe a engolir. At
mesmo o cnego se apercebeu de que ele estava muito doente.
 - Esta manh, ests dispensado dos teus estudos - disse ele
a Mateus. Ele fez como se no tivesse ouvido.
 Eles mandaram pedir ajuda ao mosteiro de Lorsch e, ao fim de
dois dias, o enfermeiro veio e examinou Mateus, abanando a
cabea gravemente e murmurando por causa da sua respirao.
Joana apercebeu-se pela primeira vez de que a condio do seu
irmo podia ser sria. A ideia era aterradora. O monge fez
grandes sangrias e esgotou todo o seu repertrio de oraes e
de talisms sagrados, mas, por alturas da Festa de So
Severino, a situao de Mateus era grave. Jazia numa letargia
febril, agitado por ataques de tosse to violentos que Joana
tapava as orelhas para tentar deixar de os ouvir.
 Ao longo do dia e durante a noite, a famlia mantinha-se de
viglia. Joana ajoelhava-se no cho em terra batida, ao lado
da me. Estava assustada com a alterao da aparncia de
Mateus. A pele do seu rosto estava esticada, distorcendo as
suas feies familiares numa mscara horrvel. Sob a sua cor
de febre, a sua pele era de um ominoso tom cinzento.
 A voz do cnego sobrepunha-se s suas, troando na noite,
recitando oraes para a cura do seu filho:
 - Domine Sancte, Pater omniotens, aeterne Deus, qui
fragilitatem conditionis nostrae infusa virtutis tuae
dignatione confirmas...
 Joana cabeceou de sono.
 - No!
 Joana acordou subitamente com o grito lancinante da me.
 - Ele partiu! Mateus, meu filho!
 Joana olhou para a cama. Nada parecia ter mudado. Mateus
estava deitado imvel, como antes. Depois, ela reparou que a
sua pele tinha perdido a cor febril; ele estava totalmente
cinzento, como uma pedra.


 35


 Pegou na sua mo. Estava flcida, pesada, ainda que no to
quente como antes. Apertou-a contra o rosto. Por favor, no
morras, Mateus. Se estivesse morto, significava que nunca mais
dormiria ao seu lado e ao lado do Joo, na cama grande; ela
nunca mais o veria debruado sobre a mesa de pinho, de
sobrolho franzido, concentrado nos seus estudos, nunca mais se
sentaria ao seu lado, enquanto o seu dedo se movia atravs das
pginas da Bblia, apontando-lhe palavras, para ela ler. Por
favor, no morras.
 Pouco depois, mandaram-na embora para que a sua me e as
mulheres da aldeia pudessem lavar o corpo de Mateus e
prepar-lo para o funeral. Quando terminaram, Joana foi
autorizada a aproximar-se para se despedir dele. Se no fosse
o tom cinzento da sua pele, parecia que estava a dormir. Se o
pudesse tocar, ela imaginava que ele acordaria, os seus olhos
abrir-se-iam e fit-la-iam com um afecto trocista. Beijou a
sua face, tal como a me lhe mandou. Estava fria e
estranhamente flcida, como a pele do coelho morto que a Joana
tinha retirado do telheiro gelado apenas uma semana antes. Ela
afastou-se dele rapidamente.
 Mateus tinha partido.
 J no haveria mais lies.
 Ficou de p junto do recinto dos animais, fitando os pedaos
de terra negra que comeavam a aparecer sob a neve derretida,
a terra na qual tinha desenhado as suas primeiras letras.
 - Mateus - murmurou ela.
 Caiu de joelhos. A neve hmida penetrou no seu casaco de l,
ensopando-a at aos ossos. Tinha muito frio, mas no podia
voltar para dentro. Tinha que fazer uma coisa. Com o
indicador, desenhou na neve hmida as letras conhecidas do
Livro de Joo.
 Ubi sum ego vos non potestis venire. Para onde eu vou no
podeis vir.
 - Vamos todos fazer penitncia - anunciou o cnego depois do
funeral -, para expiar os pecados que fizeram recair a ira de
Deus sobre a nossa famlia.
 Obrigou a Joana e o Joo a ajoelharem-se em orao recolhida
sobre o duro genuflexrio em madeira que servia de altar
familiar. Ficaram ali o dia todo, sem comerem nem beberem, at
que, finalmente, com o cair da noite, foram dispensados e
autorizados a dormir na cama grande e, agora, vazia, sem o
Mateus. Joo queixou-se com fome. A meio da noite, Gudrun
acordou-os, com o dedo nos lbios, de aviso.


 36


O cnego estava a dormir. Deu-lhes, rapidamente, fatias de
po e uma malga cheia com leite de cabra quente - a comida que
se tinha atrevido a tirar sorrateiramente da dispensa sem que
o marido desconfiasse. Joo engoliu a sua parte de po e, como
continuava com fome, Joana partilhou a sua poro com ele.
 acabaram, Gudrun levou a malga e saiu, aconchegando-Lhes a
coberta de l por baixo do queixo. As crianas chegaram-se uma
 outra para ficarem mais confortveis e adormeceram
rapidamente.
 O cnego acordou com a primeira luz do dia e voltou a
mand-los, em jejum, para o altar para terminarem a sua
penitncia. A manh chegou e partiu, assim como a hora de
jantar, e eles continuavam de joelhos.
 Os raios de sol do fim da tarde projectaram-se sobre o
altar, derramando-se atravs das frinchas da janela da cabana.
Joana suspirou e mudou de posio no genuflexrio. Os seus
joelhos estavam maados e o seu estmago fez um rudo. Fez um
esforo por se concentrar nas palavras da sua orao: Pater
Noster qui es in caelis, sanctificatur nomen tuum, adveniat
regnum tuum...
 Era escusado. O desconforto causado pela posio em que se
encontrava interferia constantemente. Estava cansada e com
fome e tinha saudades do Mateus. Pensou porque seria que no
tinha chorado. Sentia a garganta e o peito apertados, mas as
lgrimas no conseguiam romper.
 Olhou para o pequeno crucifixo de madeira pendurado na
parede diante do altar. O cnego trouxera-o consigo da
Inglaterra, sua terra natal, quando tinha levado o seu
trabalho missionrio aos pagos saxnios. Esculpida por um
artista do Norte da Humbria, a figura de Cristo era mais
poderosa e requintada do que em qualquer obra artstica
franca. O seu corpo alongava-se na cruz, com os msculos
distendidos e as costelas magras, a parte de baixo torcida
para realar a Sua agonia de morte. A sua cabea estava
inclinada para trs, de forma que a ma-de-Ado estava
saliente - uma recordao estranhamente desconcertante da Sua
masculinidade humana. A madeira estava gravada a fundo para
mostrar o rasto de sangue das Suas vrias feridas.
 A figura, apesar de impressionante, era grotesca. Joana
sabia que devia sentir-se repleta de amor e reverncia perante
o sacrifcio de Cristo, mas, em vez disso, sentia repulsa.
Comparada com os belos e poderosos deuses da sua me, esta
figura parecia feia, esmagada e derrotada.
 Ao seu lado, Joo comeou a gemer. Joana pegou-lhe na mo. O
Joo tinha dificuldade em suportar a penitncia. Ela era mais
forte do que ele e sabia-o.


 37


 Apesar de ele ter dez anos e ela apenas sete, achava
perfeitamente natural ser ela a tomar conta dele e a
proteg-lo e no o contrrio.
 As lgrimas comearam a brotar dos olhos do Joo:
 - No  justo - disse ele.
 - No chores.
 Joana tinha medo que o barulho atrasse a mam ou, pior
ainda, o pai:
 - A penitncia est quase a acabar.
 - No  isso! - respondeu ele, ferido na sua dignidade.
 - Ento, o que ?
 - Tu no irias compreender.
 - Diz-me.
 - O pai vai querer que eu assuma os estudos do Mateus. Eu j
sei que vai. E eu no sou capaz; no sou.
 - Talvez sejas - disse ela, apesar de compreender a
preocupao do irmo.
 O pai acusava-o de preguia e batia-Lhe quando ele no
progredia nos estudos. Mas, no era culpa do Joo. Ele tentava
fazer o melhor que podia, mas era lento; sempre o tinha sido.
 - No - insistiu Joo. - Eu no sou como o Mateus. Sabias
que o pai tinha planeado lev-lo para Aachen para pedir que
ele fosse aceite na Escola Palatina?
 - A srio? - Joana estava abismada. A Escola do Palcio! No
tinha ideia que as ambies do pai para Mateus fossem to
longe.
 - E eu ainda nem sequer sou capaz de ler Donato. O pai diz
que o Mateus j dominava Donato ainda s tinha nove anos de
idade e eu tenho quase dez. O que hei-de fazer, Joana? O que
hei-de fazer?
 - Bem... - Joana tentava pensar em qualquer coisa que o
tranquilizasse, mas o esforo dos ltimos dois dias tinha
posto o Joo num estado inconsolvel.
 - Ele vai-me bater. J sei que ele me vai bater.
 Agora, o Joo tinha comeado a soluar alto.
 - Eu no quero que ele me bata!
 Gudrun apareceu  porta. Olhando nervosamente por cima do
ombro, precipitou-se para o Joo.
 - Cala-te. Queres que o teu pai te oia? Cala-te, j te
disse!
 Joo escorregou desastradamente do genuflexrio, atirou a
cabea para trs e comeou a gritar. No dando ouvidos s
palavras da sua me, continuou a soluar. As lgrimas
corriam-lhe pela face vermelha.


 38


 Gudrun agarrou-o pelos ombros e abanou-o. A sua cabea caiu
violentamente para a frente; os seus olhos fecharam-se, a sua
boca ficou aberta. Joana ouviu o rudo dos seus dentes a
baterem, quando ele fechou a boca. Surpreendido, Joo abriu os
olhos e olhou para a me.
 Gudrun puxou-o para si e abraou-o.
 - No chores mais. No podes chorar para bem da tua irm e
para meu bem. Vai ficar tudo bem, Joo. Mas, agora, fica
calado.
 Ela embalava-o, consolando-o e repreendendo-o ao mesmo
tempo.
 Joana olhava pensativa. Reconhecia que o que o seu irmo
tinha dito era verdade. Joo no era esperto. No podia seguir
as pegadas do Mateus. Mas... corou de excitao no momento em
que lhe passou pela cabea uma ideia, como se fosse uma
revelao.
 - O que , Joana? - Gudrun tinha visto a estranha expresso
na cara da filha. - No ests bem?
 Ela estava preocupada porque era sabido que os demnios que
traziam o fluxo permaneciam numa casa.
 - No, Mam. Mas tive uma ideia, uma ideia maravilhosa!
 Gudrun gemeu. A filha s tinha ideias que a metiam em
sarilhos.
 - Sim?
 - O pai queria que o Mateus fosse para a Escola Palatina.
 - Eu sei.
 - E agora vai querer que o Joo v no lugar dele.  por isso
que o Joo est a chorar, Mam. Ele sabe que no  capaz de o
fazer e tem medo que o pai se zangue.
 - E ento? - Gudrun estava intrigada.
 - Eu posso ir, Mam. Eu posso continuar os estudos do
Mateus.
 Gudrun ficou momentaneamente demasiado chocada para
responder. A sua filha, o seu beb, o filho que mais amava - o
nico com quem tinha partilhado a lngua e os segredos do seu
povo - ela iria estudar os livros sagrados dos conquistadores
cristos? Que Joana chegasse, sequer, a pensar nisso j a
feria profundamente.
 - Que disparate! - disse Gudrun.
 - Eu posso trabalhar muito - insistia Joana. - Eu gosto de
estudar e de aprender coisas. Eu posso faz-lo e, assim, o
Joo j no precisa de o fazer. Ele no  bom nos estudos.
 Nesse momento, Joo, cuja cabea ainda se encontrava
enterrada no peito da me, deu um suspiro abafado.
 - Tu s uma rapariga; essas coisas no so para ti - disse
Gudrun para a dissuadir. - Alm disso, o teu pai nunca
aprovaria.
 - Mas, Mam, isso era antes. Agora, as coisas mudaram. No
v? Agora, pode ser que o pai pense de maneira diferente.


 39


 - Probo-te de falares disto ao teu pai. Deves ter a cabea
vazia por causa de no teres comido e por causa do resto, como
o teu irmo. Seno, nunca falarias assim.
 - Mas, Mam, se eu pudesse ao menos mostrar-Lhe...
 - Basta, j disse!
 O tom de Gudrun no deixou qualquer espao para prosseguir a
discusso.
 Joana calou-se. Procurando por baixo da tnica, agarrou o
medalho de Santa Catarina que o Mateus tinha gravado para
ela. Eu sei ler latim e o Joo no, pensou ela obstinadamente.
Porque haver de ter importncia o facto de eu ser uma
rapariga?
 Foi direita  Bblia que se encontrava sobre a pequena
secretria.
 Pegou nela, sentindo o seu peso. As gravaes a letras
douradas sobre a capa eram-lhe familiares. O cheiro a madeira
e pergaminho, to fortemente associado a Mateus, f-la pensar
no seu trabalho conjunto, em tudo quanto ele lhe tinha
ensinado, em tudo quanto ela ainda queria aprender. Talvez se
eu mostrar ao pai o que aprendi... talvez, ento, ele veja que
eu sou capaz. Voltou a sentir uma onda de excitao. Mas,
podia haver problemas. O pai podia ficar zangado. A ira do seu
pai assustava-a; j tinha sido atingida por ela vezes
suficientes para conhecer e temer a fora da sua clera.
 Ficou a acariciar, distraidamente, a superfcie macia da
encadernao em madeira. Num impulso, abriu a Bblia; os seus
olhos caram no Evangelho de So Joo, o texto que Mateus
tinha usado quando comeou a ensin-la a ler.  um sinal,
pensou ela.
 A me estava sentada de costas para a Joana, embalando o
Joo, cujo choro tinha dado lugar a soluos incontrolveis. 
agora a minha oportunidade. Joana pegou no livro aberto e
levou-o para o quarto ao lado.
 O pai estava sentado numa cadeira, com a cabea baixa e as
mos cobrindo o rosto. No se apercebeu de que a Joana se
tinha aproximado. Ela parou, subitamente amedrontada. A ideia
era impossvel, ridcula; o pai nunca aprovaria. Preparava-se
para se retirar, quando ele tirou as mos do rosto e levantou
os olhos. Ela estava diante dele com o livro aberto na mo.
 A sua voz era de uma insegurana nervosa quando comeou a
ler.
 - In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et
verbum erat Deus...
 No houve nenhuma interrupo; ela prosseguiu, ganhando
confiana,  medida que ia lendo.


 40


 - Todas as coisas foram feitas por Ele; e sem Ele nada
daquilo qe existe existiria. Nele estava a vida e a vida era a
luz dos homens. s a luz brilhou nas trevas e as trevas no a
receberam.
 A beleza e o poder das palavras encheram-lhe o corao,
levando-a a prosseguir, dando-Lhe alento.
 Chegou ao fim, corada pelo sucesso, sabendo que tinha lido
bem. Levantou os olhos e viu o pai a olhar fixamente para ela.
 - Eu sei ler. O Mateus ensinou-me. Guardmos segredo para
ningum saber. - As palavras saram-Lhe de um s flego.
 - Eu sou capaz de fazer com que tenha orgulho em mim, Pai,
eu sei que sou. Deixe-me prosseguir os estudos do Mateus e
eu...
 - Tu! - A voz do pai troava de ira. - Foste tu! - apontava
para ela com um dedo acusador. - Foste tu! Fizeste com que a
ira de Deus casse sobre ns. Filha desnaturada! Monstro!
Mataste o teu irmo!
 Joana gritou. O cnego foi direito a ela, com o brao
levantado. Joana deixou cair o livro e tentou fugir, mas ele
apanhou-a e f-la rodopiar, desfechando o seu punho cerrado no
seu rosto com uma fora que a fez cambalear. Caiu desamparada
no cho, batendo com a cabea.
 O pai ergueu-se sobre ela. Ela protegeu-se de outro golpe.
Mas, ele no veio. Passaram alguns instantes e, ento, ele
comeou a resfolegar. Da sua garganta, saam sons guturais.
Ela apercebeu-se de que ele estava a chorar. Ela nunca tinha
visto o pai a chorar.
 - Joana! - Gudrun correu para o quarto. - O que fizeste,
filha!
 Ajoelhou-se junto a Joana, reparando na ndoa negra que se
tinha formado sob o seu olho direito. Colocando-se entre o
marido e a Joana, murmurou:
 - O que foi que eu te disse? Menina tola, olha o que
fizeste!
 Num tom de voz mais forte, disse:
 - Vai ter com o teu irmo. Ele precisa de ti.
 Ajudou a Joana a levantar-se e empurrou-a rapidamente para o
outro quarto.
 O cnego olhou sombriamente para a Joana, enquanto ela se
dirigia para a porta.
 - Esquecei a rapariga, Marido. - disse Gudrun para o
distrair. - Ela no interessa. No desespereis; lembrai-vos
que ainda tendes outro filho.


 41


 @3


 Era Aranmanoth, o ms da ceifa, o Outono do seu nono ano
de idade, quando Joana encontrou Asclpios pela primeira vez.
Ele tinha passado pela cabana do cnego, a caminho de Mainz,
onde iria ser professor na escola da catedral.
 - Bem-vindo, senhor, bem-vindo! - o pai de Joana saudou
Asclpios, encantado. - Alegramo-nos que tenhais chegado bem.
Espero que a viagem no tenha sido demasiado penosa?
 Conduziu a sua visita para dentro de casa.
 - Vinde refrescar-vos. Gudrun! Traz vinho! A vossa presena
honra muito a minha casa, senhor.
 Pelo comportamento do seu pai, a Joana percebeu que
Asclpios devia ser um sbio de renome.
 Era grego e vestia-se como os bizantinos. A sua bela clmide
de linho branco estava presa no ombro com um simples broche de
metal e coberta com uma longa capa azul, bordada a fio de
prata. Usava o cabelo curto, como um campons, oleado e
cuidadosamente puxado para trs, afastado do rosto. Ao
contrrio do pai dela, que se barbeava como o clero franco,
Asclpios tinha uma barba longa e farta, branca, tal como seu
cabelo.
 Quando o seu pai a chamou para ser apresentada  visita, ela
foi acometida de uma timidez sbita e ficou, acanhada diante
do estranho, com os olhos pregados no entranado das suas
sandlias. O cnego acabou por intervir, mandando-a regressar
para junto da me, para a ajudar a preparar a ceia.
 Quando se sentaram  mesa, o cnego disse:
 -  nosso costume ler uma passagem do Livro Sagrado antes de
distribuirmos a comida. Quereis fazer-nos a honra de ler, esta
noite?


 42


 - Muito bem - disse Asclpios, sorrindo.
 Pegou cuidadosamente no livro encadernado a madeira e
desfolhou as frgeis pginas de pergaminho.
 - O texto  de Eclesiastes. Omnia tempus habent, et momentum
suum cuique negotio sub caelo...
 Joana nunca tinha ouvido falar to bem latim. A sua
pronncia no era habitual: as palavras no fluam juntamente,
como no estilo gals; cada uma delas era distinta, como as
gotas da chuva.
 - Para tudo existe um momento e um tempo para cada coisa sob
o Cu. Um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo
para semear e um tempo para recolher o que se plantou...
 Joana tinha ouvido muitas vezes o seu pai a ler a mesma
passagem, mas ao ouvi-la lida por Asclpios, ela adquiriu uma
beleza de que ela nunca se tinha apercebido antes.
 Quando terminou, Asclpios fechou o livro.
 - Um exemplar excelente - disse ele ao cnego, em tom
apreciativo. - Escrito por mo habilidosa. Haveis trazido o
manuscrito da Inglaterra; ouvi dizer que a arte ainda 
florescente por l. Hoje em dia,  raro encontrar um
manuscrito isento de barbarismos gramaticais.
 O cnego corou de satisfao.
 - Havia muitos desses na biblioteca de Lindisfarne. Este
foi-me entregue pelo bispo, quando me ordenou para a misso na
Saxnia.
 A refeio estava esplndida, a melhor que a famlia alguma
vez tinha preparado para uma visita. Havia uma coxa de porco
assado, cozinhado at a pele ficar estaladia, milho cozido e
beterraba, queijo fundido e fatias de po fresco, cozido sob
as brasas. O cnego tinha trazido cerveja franca, com um gosto
apurado, escura e espessa como sopa camponesa. Depois, comeram
amndoas fritas e mas assadas.
 - Delicioso - disse Asclpios no fim da refeio. - H muito
tempo que no jantava to bem. Desde que sa de Bizncio,
ainda no tinha comido carne de porco to tenra.
 Gudrun estava satisfeita.
 -  porque ns fazemos criao de porcos e engordamo-los
antes de eles serem abatidos. A carne dos javalis  dura e
sensaborona.
 - Falai-nos de Constantinopla! - disse Joo, entusiasmado.
verdade que as ruas so pavimentadas com pedras preciosas e
que as fontes jorram ouro?
 Asclpios riu-se.
 - No. Mas,  uma cidade lindssima.


 43


 Joana e Joo estavam presos aos lbios de Asclpios,
enquanto este descrevia Constantinopla, com edifcios em
mrmore com cpulas em ouro e prata, construda sobre um
promontrio sobre o porto do Corno de Ouro, onde aportavam
navios de todo o mundo. Era a cidade onde Asclpios tinha
nascido e passado a juventude. Tinha sido obrigado a fugir,
quando a sua famlia se viu envolvida numa disputa religiosa
com o basileus, a propsito de qualquer coisa relacionada com
a destruio de cones. Joana no percebeu, ao contrrio do
pai que abanava a cabea, em sinal de desaprovao, enquanto
Asclpios descrevia a perseguio a que a famlia tinha sido
sujeita.
 Ento, a discusso derivou para questes teolgicas e a
Joana e o seu irmo foram mandados para a parte da casa onde
os pais dormiam; como hspede de honra, Asclpios iria ficar
com a cama grande junto  lareira toda para ele.
 - Por favor, no posso ficar para ouvir? - pediu Joana  sua
me.
 - No. J passa da hora de estarem a dormir. Alm disso, o
nosso convidado j acabou de contar histrias. Esta conversa
erudita no te iria interessar.
 - Mas...
 - Basta, filha. Para a cama! Preciso da tua ajuda amanh; o
teu pai quer que preparemos outra refeio para o convidado,
amanh. Mais convidados destes e ficamos arruinados - murmurou
Gudrun.
 Meteu os filhos na cama de palha, beijou-os e saiu.
 Joo adormeceu logo, mas Joana ficou acordada, tentando
ouvir o que estavam a dizer do outro lado da grossa divisria
em madeira. Por fim, vencida pela curiosidade, levantou-se da
cama e aproximou-se da porta, p ante p. Ps-se de gatas,
perscrutando na escurido, onde o pai e Asclpios estavam a
conversar, junto  lareira. Estava frio; o calor da lareira
no chegava to longe e Joana s tinha vestida uma camisa de
noite em linho. Tremia, mas nem sequer lhe passava pela cabea
ir para a cama; tinha de ouvir o que Asclpios estava a dizer.
 A conversa tinha-se orientado para a escola da catedral.
Asclpios perguntou ao cnego:
 - Conheceis a biblioteca que eles l tm?
 - Sim, claro - disse o cnego, visivelmente satisfeito por
lhe ter sido perguntado. - Passei l muitas horas. Alberga uma
excelente coleco, com mais de setenta e cinco manuscritos.
 Asclpios abanou a cabea, delicadamente, mas pareceu no
ter ficado muito impressionado. Joana no era capaz de
imaginar tanto livro junto.


 -44


 O cnego disse:
 - Existem l cpias do De scriptoribus, ecclesiasticus, de
Isidoro, e Vie gubernatione Dei, de Salviano. Tambm tm os
Commentar de Jernimo completos, com ilustraes
maravilhosas. E um manuscrito especialmente raro do
Hexaemeron, de So Baslio, vosso conterrneo.
 - Tm manuscritos de Plato?
 - Plato? - o cnego estava chocado. - Claro que no; os
seus ritos no so apropriados para os estudos de um cristo.
 - Ah? Ento, no aprovais o estudo da lgica?
 - Tem o seu lugar no trivium - respondeu o cnego, pouco 
vontade - desde que apoiado em textos apropriados, como os de
Agostinho e Bocio. Mas, a f fundamenta-se na autoridade da
Escritura, no na evidncia da lgica; por vezes, os homens
abalam a sua f por causa de uma curiosidade tola.
 - Estou a perceber.
 As palavras de Asclpios foram pronunciadas mais por
delicadeza do que por concordncia.
 - Mas, talvez me possais responder a isto: porque ser que o
homem  dotado de raciocnio?
 - A razo  a centelha da essncia divina no homem: Ento,
Deus criou o homem  Sua prpria imagem; criou-o  Sua imagem
e semelhana.
 - Conheceis bem a Escritura. Ento, concordais que a razo 
um dom de Deus?
 - Certamente.
 Joana aproximou-se mais, saindo da sombra do compartimento;
no queria perder o que Asclpios ia dizer a seguir.
 - Ento, porqu ter medo de expor a f  razo? Se Deus
no-la deu, como poderia ela afastar-nos dEle?
 O cnego mexeu-se na cadeira. Joana nunca o tinha visto to
embaraado. Ele era um missionrio, educado para ensinar e
pregar, pouco habituado a debates lgicos. Abriu a boca para
responder, mas voltou a fech-la.
 - Alis - prosseguiu Asclpios - no ser a falta de f que
leva os homens a temerem o escrutnio da razo? Se o destino 
duvidoso, ento o caminho tem que ser percorrido com medo. Uma
f robusta no precisa de ter receio porque se Deus existe,
ento a razo no pode deixar de nos levar at Ele. Cogito,
ergo Deus est, diz Santo Agostinho, penso, portanto Deus
existe.
 Joana estava a seguir a argumentao com tanta intensidade
que se distraiu e exprimiu alto a sua aprovao. O seu pai
olhou severamente para o outro lado da divisria.


 45


Ela escondeu-se novamente na escurido, sustendo a respirao.
Depois, voltou a ouvir o murmrio de vozes. Benedicite, pensou
ela, no me viram. Voltou sorrateiramente para a enxerga, onde
Joo ressonava.
 Muito tempo depois de as vozes se terem silenciado, Joana
continuava acordada no escuro. Sentia-se incrivelmente
aliviada e liberta, como se um peso opressivo lhe tivesse sido
tirado de cima. No era por causa dela que o Mateus tinha
morrido. O desejo dela de aprender no o tinha morto, apesar
do que o pai tinha dito. Nessa noite, ao ouvir Asclpios, ela
tinha descoberto que o amor dela pelo conhecimento no era uma
abominao, nem era pecaminoso, mas sim a consequncia directa
de uma capacidade de pensar que era um dom de Deus. Eu penso,
portanto, Deus existe. No seu corao, sentia que isto era
verdade.
 As palavras de Asclpios tinham alumiado uma luz no seu
corao. Talvez amanh possa falar com ele, pensou ela. Talvez
tenha oportunidade de lhe mostrar que sei ler.
 A expectativa entusiasmava-a de tal forma, que ela no era
capaz de se libertar dela. S adormeceu de madrugada.
 No dia seguinte, de manh cedo, a me de Joana mandou-a ao
bosque para apanhar frutos da faia e bolota para dar aos
porcos. Ansiosa por voltar para casa e para junto de
Asclpios, Joana apressou-se a terminar a tarefa. Mas, o cho
da floresta, no Outono, estava cheio de folhas cadas e as
bagas eram difceis de encontrar; ela no podia regressar
antes de o cesto estar cheio.
 Quando voltou, Asclpios estava a preparar-se para sair.
 - Ah, mas eu tinha pensado que nos dareis a honra de voltar
a jantar connosco - disse o cnego. - Estava interessado nas
vossas ideias sobre o mistrio da Trindade e gostaria de
continuar a discutir o assunto.
 -  muito gentil, mas tenho de estar em Mainz ao cair da
tarde. O bispo est  minha espera e eu estou ansioso por
assumir as minhas novas tarefas.
 - Claro, claro.
 Aps uma pausa, o cnego acrescentou:
 - Mas, lembrais-vos da nossa conversa acerca do rapaz.
Ficais para assistir  sua lio?
 -  o mnimo que posso fazer para agradecer um acolhimento
to generoso - disse Asclpios com uma gentileza estudada.
 Joana tirou a sua costura e instalou-se numa cadeira perto,
tentando ser o mais discreta possvel para que o pai no a
mandasse embora.


 46


 No precisava de se preocupar. A ateno do cnego estava
totalmente concentrada no Joo. Esperando impressionar
Asclpios com o nvel de conhecimentos do seu filho, comeou a
lio por perguntar a Joo as regras da gramtica, segundo
Donato. Foi um erro porque a gramtica era o tema em que o
Joo era mais fraco. Como seria de esperar, o seu desempenho
foi medocre, confundindo o ablativo com o dativo, atamancando
os seus verbos e acabando por se revelar completamente incapaz
de dividir a frase correctamente. Asclpios ouviu solenemente,
de sobrolho carregado.
 Corado de embarao, o cnego retirou-se para um campo mais
seguro. Comeou com o catecismo de enigmas do grande Alcuno,
no qual Joo tinha sido bastante treinado. Joo conseguiu
avanar pela primeira parte do catecismo de forma bastante
satisfatria.
 - O que  um ano?
 - Um carro com quatro rodas.
 - Quais so os cavalos que o puxam?
 - O Sol e a Lua.
 - Quantos palcios tem?
 - Doze.
 Satisfeito com este pequeno sucesso, o cnego avanou para a
parte mais difcil do catecismo. Joana temia o que estava para
vir, porque viu que o Joo estava  beira do pnico.
 - O que  a vida?
 - A alegria dos bem-aventurados, o desgosto dos infelizes
e... e... - Joo interrompeu-se.
 Asclpios mexeu-se na cadeira. Joana fechou os olhos,
concentrando-se nas palavras, ansiosa de que o Joo
prosseguisse.
 - Sim? - incentivou-o o cnego. - E que mais?
 O rosto do Joo resplandeceu, inspirado:
 - E uma busca da morte!
 O cnego acenou afirmativamente.
 - E o que  a morte?
 Rendido, Joo olhou para o pai como um veado apanhado numa
armadilha e que v o caador a aproximar-se, finalmente.
 - O que  a morte? - repetiu o cnego.
 Era escusado. O facto de quase ter falhado a ltima pergunta
e o crescente descontentamento do pai destruiram o que restava
da compostura do Joo. J no conseguiu lembrar-se de mais
nada. O seu rosto contraiu-se; Joana reparou que ele ia
comear a chorar. O pai fulminava-o com o olhar. Asclpios
olhou com compaixo.



 47


 Ela j no suportava mais. O embarao do irmo, a ira do
pai, a humilhao intolervel diante de Asclpios puseram-na
fora de si. Antes que se apercebesse do que estava a fazer,
gritou:
 - Uma coisa inevitvel, uma peregrinao incerta, as
lgrimas dos vivos, o ladro do homem.
 As suas palavras atingiram os outros como um relmpago.
Olharam todos os trs para ela, simultaneamente. Nos seus
rostos adivinhava-se um leque de emoes. No rosto do Joo
havia desgosto. No do pai, indignao. No de Asclpios,
espanto. O cnego foi o primeiro a conseguir articular
palavra.
 - Que insolncia  esta? - perguntou ele.
 Depois, lembrando-se da presena de Asclpios, disse:
 - Se no fosse a presena do nosso hspede, dava-te j o
castigo que mereces. Assim, ter de esperar. Sai da minha
vista.
 Joana levantou-se da cadeira, lutando para se controlar, at
chegar  porta da cabana, que fechou atrs de si. Depois,
correu to depressa quanto foi capaz, at ao feto que ficava
no limite da floresta, onde se atirou para o cho.
 Pensou que ia rebentar de dor. Ter sido assim humilhada
diante da nica pessoa que tinha querido impressionar! No 
justo. O Joo no sabia a resposta e eu sabia. Porque no
haveria de a dar?
 Ficou muito tempo a olhar para as sombras das rvores.
Poisou no cho um pisco, que comeou a depenicar na terra, 
procura de vermes. Encontrou um, encheu o peito, fez um
pequeno crculo, gozando o seu trofu. Como eu, pensou ela,
contrariada. Toda inchada de orgulho pelo que fiz. Ela sabia
que o orgulho era um pecado - j tinha sido castigada por isso
muitas vezes - mas, no podia evitar sentir-se assim. Sou mais
esperta do que o Joo. Porque dever ele poder estudar e eu
no?
 O pisco voou. A Joana ficou a olhar,  medida que ele se
transformava numa mancha colorida e distante, no meio das
rvores. Agarrou na medalha de Santa Catarina que tinha
pendurada ao pescoo e pensou em Mateus. Ele ter-se-ia sentado
ali com ela, teria falado com ela, ter-lhe-ia explicado o que
ela no era capaz de entender. Tinha tantas saudades dele.
 Mataste o teu irmo, tinha dito o pai. Sentiu um aperto na
garganta, ao record-lo. O seu esprito continuava a
revoltar-se. Ela era orgulhosa, queria mais do que Deus tinha
destinado a uma mulher. Mas, porque teria Deus castigado
Mateus por causa do pecado dela? No tinha lgica.
 Porque seria que no conseguia libertar-se dos seus sonhos
impossveis? Toda a gente lhe tinha dito que o seu desejo de
aprender era contra a natureza.


 48



Mas, mesmo assim, ela tinha sede de saber, desejava explorar o
vasto mundo das ideias e oportunidades abertas s pessoas que
estudavam. As outras raparigas da aldeia no se interessavam
por estas coisas. Contentavam-se em assistir  missa, sem
perceberem uma nica palavra. Aceitavam o que Lhes diziam e
no procuravam ir mais alm. Sonhavam com um bom marido, quer
dizer, um homem que as tratasse bem e que no lhes batesse, e
com um pedao de terra para cultivar; nem sequer pensavam em
sair do mundo seguro e familiar da aldeia. Eram to
inexplicveis para a Joana como ela para elas.
 Porque sou diferente?, pensava ela. O que h de errado
comigo?
 Soaram passos perto dela e uma mo tocou-lhe no ombro. Era o
Joo. Ele disse, suavemente:
 - O pai mandou-me chamar-te.
 Joana pegou-lhe na mo.
 - Desculpa.
 - No devias ter feito aquilo. No passas de uma rapariga.
 Aquilo era difcil de aceitar, mas ela devia-lhe uma
desculpa por causa de o ter envergonhado diante do convidado.
 - Fiz mal. Desculpa.
 Ele tentou manter a pose de algum ferido na sua virtude,
mas no foi capaz.
 - Est bem, eu desculpo - disse ele. - Pelo menos, o pai j
no est zangado comigo. Agora... bom, vem ver.
 Ele ajudou-a a levantar-se do cho e a limpar-se do p. De
mos dadas, regressaram a casa.
 Quando chegaram  porta, Joo mandou a Joana  frente.
 - Vai - disse ele. -  contigo que eles querem falar.
 Eles? Joana ficou intrigada, mas no podia perguntar nada
porque j estava diante do seu pai e de Asclpios, que a
esperavam  lareira.
 Aproximou-se e ficou submissamente diante deles. O seu pai
tinha uma expresso estranha, como se tivesse engolido algo
amargo. Resmungou e fez-lhe sinal para que ela se aproximasse
de Asclpios, que estava de costas para ela. Pegando nas suas
mos, Asclpios fixou-a com um olhar penetrante.
 - Sabes latim? - perguntou ele.
 - Sim, senhor.
 - Como  que aprendeste?
 - Ouvi, senhor, sempre que o meu irmo tinha as suas lies.


 49


 Ela imaginava a reaco do pai perante esta informao.
Baixou os olhos.
 - Sei que no o devia ter feito.
 Asclpios perguntou:
 - Que mais aprendeste tu?
 - Sei ler, senhor, e escrever um pouco. O meu irmo Mateus
ensinou-me quando eu era pequena.
 Pelo canto do olho, Joana viu o ataque de clera do pai.
 - Mostra-me.
 Asclpios abriu a Bblia, procurou uma passagem, depois
estendeu-lhe o livro, marcando a passagem com o dedo. Era a
parbola do gro de mostarda, do Evangelho de So Lucas. Ela
comeou a ler, comeando por tropear nalgumas palavras
latinas - j h algum tempo que no lia.
 - Quomodo assimilabimus regnum Dei aut in qua arabola
ponemus illud? - A que se assemelha o Reino de Deus? E a que
havemos de o comparar?
 Continuou, sem hesitao, at ao fim.
 - Ento ele disse: " como um gro de mostarda que um homem
plantou no seu jardim e que cresceu, transformando-se numa
grande rvore, que abriga as rvores do cu nos seus ramos."
Parou de ler. No silncio que se seguiu, ela conseguia ouvir a
brisa suave do Outono a passar pelas frinchas do telhado.
 Asclpios perguntou, calmamente:
 - E compreendes o significado daquilo que leste?
 - Penso que sim.
 - Explica-me.
 - Significa que a f  como um gro de mostarda. Planta-se
no nosso corao, como uma semente num jardim. Se a semente
for tratada, cresce, transformando-se numa linda rvore. Se se
cultivar a f, ganha-se o Reino dos Cus.
 Asclpios cofiou a barba. No deu qualquer sinal de
aprovao daquilo que ela tinha dito. Ser que ela tinha dado
uma interpretao incorrecta?
 - Ou... - teve outra ideia.
 Asclpios ergueu as sobrancelhas.
 - Sim?
 - Tambm pode querer dizer que a Igreja  como uma semente.
A Igreja comeou por ser pequena, crescendo escondida,
cultivada apenas por Cristo e pelos Doze Apstolos, mas
transformou-se numa grande rvore, uma rvore que abriga o
mundo inteiro.


 50


 - E as aves que se abrigam nos seus ramos? - perguntou
Asclpios.
 Ela pensou rapidamente.
 - So os crentes, que encontram salvao na Igreja, como as
aves encontram proteco nos ramos da rvore.
 A expresso de Asclpios era enigmtica. Voltou a cofiar a
barba, solenemente. Joana resolveu fazer outra tentativa.
 - Ento... - pensava lentamente,  medida que falava. - O
gro de mostarda pode representar Cristo. Cristo era como uma
semente quando foi sepultado na terra e como uma rvore,
quando ressuscitou e subiu ao Cu.
 Asclpios virou-se para o cnego.
 - Ouviu?
 O rosto do cnego contorceu-se:
 - Ela  apenas uma rapariga. Estou certo que no queria...
 - A semente como F, Igreja, Cristo. - disse Asclpios. -
Alegoria, moralis, anagoge. A exegese escriturstica clssica,
em trs partes. Expressa de uma forma bastante simples, claro,
mas, mesmo assim, uma interpretao to completa como a do
prprio Gregrio Magno. E isto sem uma educao formal!
Espantoso! A criana demonstra uma inteligncia
extraordinria. Tratarei de ser o seu tutor.
 Joana estava encantada. Estava a sonhar? Tinha medo de
acreditar que aquilo estava mesmo a acontecer.
 - Claro que no na escola - continuou Asclpios - porque
isso no seria permitido. Arranjarei maneira de vir aqui uma
vez por semana. E arranjo-lhe os livros para ela estudar nos
outros dias.
 O cnego estava contrariado. Este no era o desfecho que ele
tinha esperado.
 - Est tudo muito bem - disse ele, para experimentar. - Mas,
e o rapaz?
 - Ah, o rapaz? Temo que ele no demonstre qualquer
possibilidade como estudante. Com mais algum estudo, pode ser
que fique apto a ser cura de aldeia. A lei s exige que eles
saibam ler e escrever e conheam as formas correctas dos
sacramentos. Mas, eu ficar-me-ia por a. A escola no  para
ele.
 - No posso acreditar no que oio! Quereis ensinar a
rapariga e o rapaz no?
 Asclpios encolheu os ombros.
 - Um tem talento, o outro no: No se pode pensar outra
coisa.
 - Uma mulher a estudar!
 O cnego estava indignado.


 51


 - Ela ir estudar os textos sagrados e o irmo  ignorado?
No o permitirei. Ou ensinais ambos ou nenhum.
 Joana susteve a respirao. Certamente no estaria to perto
de perder tudo quanto tinha conseguido at aqui. Comeou a
rezar baixinho, depois, parou. Talvez Deus no aprovasse.
Procurou a medalha de Santa Catarina por baixo da tnica. Ela
compreenderia. Por favor, rezou ela, silenciosamente.
Ajudai-me a consegui-lo. Far-vos-ei uma boa oferta. Mas,
ajudai-me a consegui-lo.
 Asclpios parecia impaciente.
 - J vos disse que o rapaz no tem qualquer aptido para o
estudo. Educ-lo seria uma perda de tempo.
 - Ento, est decidido - disse o cnego, furioso.
 Joana olhou para ele, sem querer acreditar, quando ele se
levantou da cadeira.
 - Um momento - disse Asclpios. - Vejo que insistis na vossa
ideia.
 - Insisto.
 - Muito bem. A rapariga apresenta todos os sinais de possuir
um intelecto prodigioso. Poder chegar longe se receber a
educao adequada. No posso deixar perder uma oportunidade
destas. J que insiste, serei tutor de ambos.
 Joana suspirou.
 - Obrigada - disse ela, tanto a Santa Catarina, como a
Asclpios.
 Era tudo quanto conseguia dizer com uma voz segura.
 - Trabalharei para o merecer.
 Asclpios olhou para ela, com um olhar cheio de uma
inteligncia penetrante. Como um fogo interior, pensou Joana.
Um fogo que iluminaria as semanas e meses que se iriam seguir.
 - Trabalhars mesmo - disse ele.
 Havia um esboo de sorriso por baixo das suas espessas
barbas brancas.
 - Oh, se trabalhars.


 52


 @4


 Roma


 O interior do Palcio de Latro, com as suas abbadas
altas em mrmore parecia deliciosamente fresco em comparao
com o calor abrasador das ruas romanas. Quando as grandes
portas em madeira da residncia papal se fecharam atrs dele,
Anastcio ficou ofuscado, momentaneamente cego pela escurido
do Patriarchium. Instintivamente, procurou a mo do pai,
depois, recuou, recordando-se.
 - Fica direito, no te agarres ao teu pai - tinha dito a sua
me naquela manh, enquanto lhe preparava a roupa. - J tens
doze anos; j  tempo de aprenderes a comportar-te como um
homem. - Puxou firmemente pela fivela do seu cinto, pondo-o no
lugar. - E olha de frente para aqueles que se te dirigirem. O
nome da nossa famlia no fica atrs de qualquer outro; no
deves parecer demasiado servial.
 Agora, ao recordar-se das suas palavras, Anastcio puxou os
ombros para trs e ergueu a cabea. Era pequeno para a sua
idade, o que constitua um desgosto para si prprio, mas
tentava sempre parecer o mais alto possvel. Os seus olhos
comearam a adaptar-se  luz fraca, pelo que olhou  volta,
cheio de curiosidade. Era a sua primeira visita a Latro, a
majestosa residncia do Papa, sede de todo o poder em Roma.
Anastcio estava impressionado. O interior era enorme,
constitudo por uma vasta estrutura que albergava os arquivos
da Igreja e a Cmara do Tesouro, assim como dezenas de
oratrios, triclnios e capelas, entre as quais a clebre
capela dos Papas, o Sanctum Sanctorum. Diante de Anastcio, na
parede do Grande trio, estava pendurada uma enorme tabula
mundi, um mapa de parede anotado, representando o mundo como
um disco plano rodeado de oceanos. Os trs continentes - sia,
frica e Europa - estavam separados pelos grandes rios Tanais
e Nilo, assim como pelo Mediterrneo.


 53


No centro do mundo, estava a cidade santa de Jerusalm, cuja
fronteira leste confinava com o paraso terrestre. Anastcio
observou o mapa e a sua ateno concentrou-se nos grandes,
misteriosos e aterradores espaos virgens, nas margens mais
longnquas, onde o mundo caa na escurido.
 Aproximou-se um homem com uma dalmtica em seda branca,
caracterstica dos membros da casa papal.
 - Saudaes e bnos do Santssimo Padre, o papa Pascal -
disse ele.
 - Que vivamos o suficiente para continuarmos a gozar da sua
orientao benevolente - respondeu o pai de Anastcio.
 Depois das devidas formalidades, ambos os homens se
descontraram.
 - Ento, Arsnio, como ests? - perguntou o homem. - Vieste
para ver o Teodoro, no?
 O pai de Anastcio confirmou:
 - Sim. Para tratar das coisas para o meu sobrinho Cosme ser
nomeado arcarius.
 Baixando a voz, acrescentou:
 - O pagamento j foi feito h semanas. No percebo porque
motivo o anncio se atrasou tanto.
 - Teodoro tem estado muito ocupado ultimamente. Houve aquele
conflito terrvel, sabes, por causa da posse do Mosteiro de
Farfa. O Santo Padre ficou muito descontente com a deciso do
tribunal imperial.
 Aproximando-se mais, acrescentou num sussurro conspirativo:
 - E ainda mais descontente com o Teo, por causa de ele ter
defendido a posio do imperador. Prepara-te: o Teo  capaz de
no poder fazer muito por ti, neste momento.
 - J tinha pensado nisso - disse o pai de Anastcio,
encolhendo os ombros. - Mesmo assim, Teo continua a ser
primicerius e o pagamento j foi feito.
 - Veremos.
 A conversa interrompeu-se abruptamente quando se aproximou
um segundo homem, vestido tambm com uma dalmtica branca.
Anastcio, aproximando-se do pai, sentiu que as suas costas
ficaram um pouco hirtas.
 - Que as bnos do Santo Padre te acompanhem, Srpato -
disse o seu pai.
 - E a ti, meu caro Arsnio, e a ti - respondeu o homem. A
sua boca retorceu-se numa expresso estranha.


 54


 - Ah, Luciano - disse ele, voltando-se para o primeiro
homem.
 - Estavas to embrenhado na tua conversa com Arsnio, mesmo
agora. Tens notcias interessantes? Adorava ouvi-las. - Acenou
afectadamente. - A vida por aqui  to montona desde que o
Imperador partiu.
 - No, Srpato, claro que no. Se tivesse novidades, dizia -
respondeu Luciano, enervado.
 E disse para o pai de Anastcio:
 - Bem, Arsnio, tenho de ir. Tenho que fazer.
 Curvou-se, virou-se e afastou-se rapidamente.
 Srpato abanou a cabea.
 - Luciano tem andado irritado ultimamente. No sei porqu.
 Olhou longamente para o pai de Anastcio.
 - Bem, no interessa. Vejo que tens companhia, hoje.
 - Sim. Posso apresentar-te o meu filho Anastcio? Vai fazer
exame em breve para se tornar lector.
 O pai de Anastcio acrescentou, enfaticamente:
 - O seu tio Teo tem-lhe muita estima; foi por isso que o
trouxe comigo para o nosso encontro.
 Anastcio curvou-se.
 - Que prospereis no Seu Nome - disse ele formalmente, como
lhe tinham ensinado.
 O homem sorriu e os cantos dos seus lbios torceram-se ainda
mais, divertidos.
 - Mas, o latim do rapaz  excelente; parabns, Arsnio. Ser
um digno sucessor - a no ser, claro, que partilhe da
deplorvel falta de discernimento do seu tio.
 Prosseguiu sem dar margem para qualquer resposta:
 - Sim, sim, um excelente rapaz. Que idade tem?
 A pergunta foi dirigida ao pai de Anastcio.
 Anastcio respondeu:
 - Fiz doze anos logo a seguir ao Advento.
 - Ah sim? Pareces mais novo - disse ele, dando uma
pancadinha na nuca de Anastcio.
 Anastcio sentiu antipatia pelo desconhecido. Fazendo-se to
alto quanto possvel, disse:
 - E penso que o discernimento do meu tio no pode ser assim
to mau, seno, no seria primicerius.
 O pai de Anastcio beliscou-lhe o brao, em advertncia, mas
os seus olhos eram meigos e havia uma ponta de sorriso nos
seus lbios. O desconhecido ficou a olhar para Anastcio,
exprimindo algo como surpresa? irritao?


 55


- nos seus olhos. Anastcio desviou o olhar. Ao fim de algum
tempo, o homem voltou a concentrar a ateno no pai de
Anastcio.
 - Mas que lealdade familiar! Que comovente! Bem, bem,
esperemos que o pensamento do rapaz se revele to correcto
como o seu latim.
 Um grande rudo desviou as suas atenes para o outro lado
do trio, ao mesmo tempo que as pesadas portas se abriam.
 - Ah! A vem agora o primicerius. No os interrompo mais.
 Srpato curvou-se afectadamente e saiu.
 Fez-se silncio na sala quando Teodoro entrou, acompanhado
do seu cunhado, Leo, recentemente elevado  posio de
nomemclator. Parou mesmo  porta para conversar um pouco com
alguns clrigos e nobres que estavam ali prximo. Vestido com
a sua dalmtica em seda rubra e o seu cingulum dourado,
Teodoro era, indiscutivelmente, o mais elegante do grupo; ele
adorava tecidos finos e manifestava uma certa ostentao no
vestir, caracterstica que Anastcio apreciava.
 Terminando as saudaes formais, Teodoro observou a sala. Ao
ver Anastcio e o seu pai, sorriu e comeou a atravessar o
compartimento, dirigindo-se para eles. Ao aproximar-se, acenou
a Anastcio, e a sua mo direita moveu-se na direco do bolso
da sua dalmtica. Anastcio sorriu porque sabia o que aquilo
significava. Teodoro, que adorava crianas, trazia sempre
presentes para oferecer. O que ser hoje?, pensou Anastcio,
abrindo a boca, na expectativa. Um figo maduro, uma ameixa
doce, vermelha, talvez um pedao de maapo, cremoso e rico,
recheado de amndoas e avels doces?
 A ateno de Anastcio estava to concentrada no bolso da
dalmtica de Teodoro, que, ao princpio, no reparou na
chegada dos outros homens. Eles aproximaram-se rapidamente -
trs de entre eles - pelas costas; um deles tapou a boca de
Teodoro com a mo e puxou-o para trs. Anastcio pensou que
era uma espcie de brincadeira. Sorrindo, olhou para o pai, 
espera de uma explicao; o seu corao saltou quando viu medo
nos olhos do pai. Voltou-se e viu Teodoro a lutar para se
libertar. Teodoro era um homem alto, mas a luta era fatalmente
desigual. Os homens rodearam-no, agarrando-o pelos braos e
atirando-o ao cho. A parte da frente da dalmtica rubi de
Teodoro estava rasgada, expondo a sua pele branca. Um dos
atacantes pegou em Teodoro pelos cabelos e puxou-lhe a cabea
para trs. Anastcio viu um fio de ao brilhar numa torrente
de vermelho.


 56


 Anastcio estremeceu quando um borrifo atingiu a sua cara.
Levantou os olhos e ficou estupefacto, a olhar para a mo. Era
sangue. Do outro lado da sala, algum gritou. Anastcio viu
Leo, o cunhado de Teodoro, desaparecer por entre um turbilho
de atacantes.
 Os homens libertaram Teodoro e ele caiu para a frente, de
joelhos.
 Depois, levantou a cabea e Anastcio gritou de terror. O
seu rosto tinha uma aparncia horrvel. O sangue jorrava dos
buracos negros e vazios, onde outrora, se encontravam os olhos
de Teodoro, correndo pelo seu queixo, para os ombros e o
peito.
 Anastcio escondeu a cara na anca do seu pai. Sentiu as
grandes mos do pai pousarem nos seus ombros e ouviu a sua voz
forte e imperturbvel:
 - No - disse o pai. - No te podes esconder, meu filho.
 As suas mos empurravam-no, afastando-o, forando-o a ver a
cena terrvel que se desenrolava diante dos seus olhos.
 - Olha - mandou a voz - e aprende. Este  o preo que se
paga pela falta de subtileza e de arte. Teodoro pagou agora
por causa de ter demonstrado to abertamente a sua lealdade ao
imperador.
 Anastcio ficou imvel como uma esttua, enquanto os
atacantes levavam Teodoro e Leo para o centro do trio. Eles
tropearam vrias vezes, quase caindo no cho em ladrilhos,
cheio de sangue. Teodoro gritava algo, mas as palavras no se
compreendiam. De boca aberta e os lbios a mexer, o seu rosto
ainda era mais assustador.
 Os homens foraram Teodoro e Leo a ajoelharem-se e a
baixarem as cabeas. Um homem levantou uma longa espada e
desfechou-a na nuca de Leo, decapitando-o de um s golpe.
Mas, o pescoo de Teodoro era mais forte e ele continuou a
lutar; foram precisos trs ou quatro golpes de espada para lhe
separar a cabea do corpo.
 Anastcio reparou, pela primeira vez, que os atacantes
ostentavam a cruz vermelha da milcia papal.
 - Pai! - gritou ele. -  a guarda! Os guardas da milcia!
 - Sim. Ele puxou Anastcio para junto dele. Anastcio estava
 beira da histeria: - Mas, porqu? Porqu, Pai? Porque
haveriam eles de fazer isto?
 - Obedeceram a ordens.
 - A ordens? - perguntou Anastcio. Tentava compreender. -
Quem poderia dar uma ordem destas?
 - Quem? Ah, meu filho, pensa.


 57


 O rosto do pai estava plido, mas a sua voz era firme,
quando respondeu:
 - Tens de aprender a pensar, para nunca sofreres tal
destino. Pensa: quem tem poder para o fazer? Quem pode dar uma
ordem destas?
 Anastcio ficou sem palavras, avassalado pela monstruosidade
da ideia que comeava a formar-se-lhe na mente.
 - Sim.
 Agora, as mos do seu pai pousavam suavemente sobre os seus
ombros.
 - Quem, seno o Papa? - disse ele.


 58

 
 @5


 - No, no, no.
 A voz de Asclpios estava cortante de impacincia.
 - Tens de fazer as letras muito mais pequenas. Vs como a
tua irm escreve a lio dela?
 Bateu no papel de Joana.
 - Tens de aprender a respeitar muito mais o teu pergaminho,
meu rapaz. Foi precisa uma ovelha inteira para fazer apenas
uma folha. Se os monges de Andernach espalhassem as suas
palavras pelas pginas desta maneira, os rebanhos da Austrsia
seriam dizimados num ms!
 Joo lanou um olhar ressentido a Joana.
 -  muito difcil; no sou capaz.
 Asclpios suspirou.
 - Est bem; volta a praticar na tua tbua. Quando tiveres
conseguido controlar melhor a escrita, voltamos a tentar o
pergaminho.
 Perguntou  Joana:
 - J acabaste o De inventione?
 - J, senhor - respondeu Joana.
 - Enuncia as seis questes probatrias utilizadas para
determinar as circunstncias da aco humana.
 Joana estava preparada.
 - Quis, quid, quomodo, ubi, quando, cur? - Quem, o qu,
como, onde, quando, porqu?
 - Muito bem. Agora, identifica as constitutiones retricas.
 - Ccero especifica quatro constitutiones diferentes: a
controvrsia sobre o facto, a controvrsia acerca da
definio, a controvrsia acerca da natureza do acto, e...


 59


 Ouviu-se um baque, quando Gudrun empurrou a porta para
entrar, dobrada pelo peso dos cantis de madeira cheios de gua
que trazia na mo. Joana levantou-se para a ajudar, mas
Asclpios pousou a mo no seu ombro, obrigando-a a voltar a
sentar-se.
 - E?
 Joana hesitou, com os olhos ainda fixos na me.
 - Continua, filha.
 O tom de Asclpios indicava que ele no tolerava qualquer
desobedincia.
 Joana apressou-se a responder:
 - A controvrsia acerca da jurisdio ou procedimento.
 Asclpios assentiu, satisfeito.
 - Apresenta um exemplo para o terceiro status. Escreve-o no
teu pergaminho, mas certifica-te de que vale a pena faz-lo.
 Gudrun deambulava, acendendo o lume, colocando a panela ao
lume, pondo a mesa para a refeio da tarde. Olhou uma ou duas
vezes por cima do ombro, aborrecida.
 Joana sentia-se culpada, mas esforou-se por se concentrar
no seu trabalho. Este tempo era precioso: Asclpios s vinha
uma vez por semana e os seus estudos eram mais importantes do
que qualquer outra coisa.
 Mas, era difcil trabalhar sob o peso do descontentamento da
me. Era bvio que Asclpios tambm tinha reparado, apesar de
o atribuir ao facto de as lies da Joana a desviarem dos
trabalhos caseiros. Joana sabia qual era o motivo real. Os
estudos dela eram uma traio, uma violao do mundo secreto
que ela partilhava com a sua me, um mundo povoado de deuses e
segredos saxnicos. Aprendendo latim e estudando textos
cristos, Joana punha-se ao lado das coisas que a me mais
detestava: do deus cristo, que tinha destrudo a ptria de
Gudrun e, acima de tudo, do cnego, seu marido.
 A verdade era que Joana trabalhava sobretudo com textos
clssicos pr-cristos. Asclpios venerava os textos pagos de
Ccero, Sneca, Lucano e Ovdeo, condenados por maior parte
dos eruditos da poca. Ele estava a ensinar Joana a ler grego
atravs de textos to antigos como os de Menandro e Homero,
cuja poesia, aos olhos do cnego, no passava de uma blasfmia
pag. Ensinada por Asclpios a apreciar acima de tudo a
clareza e o estilo, Joana nunca se questionara se a poesia de
Homero era aceitvel nos termos da doutrina crist; Deus
estava nela porque ela era bela.
 Teria gostado de explicar isto  sua me, mas sabia que no
adiantaria nada. Homero ou Beda, Ccero ou Santo Agostinho -
para Gudrun era tudo a mesma coisa: no era saxnio; e
bastava.


 60


 Ela tinha perdido a concentrao; enganou-se e fez um borro
no pergaminho. Levantou os olhos para Asclpios, que estava a
olhar para ela, com uns olhos escuros penetrantes. Deixa l,
filha. A sua voz era de uma gentileza inesperada; normalmente,
era assim com erros descuidados. Deixa l. Comea outra vez
aqui.


 Os habitantes de Ingelheim estavam reunidos junto ao tanque
comum, conversando animadamente. Naquele dia, ia ser julgada
uma feiticeira, um acontecimento que, certamente, iria
inspirar horror, piedade e satisfao, uma variante bem-vinda
na monotonia quotidiana das suas vidas.
 - Benedictus.
 O cnego deu incio  bno da gua. Hrotrud tentou fugir,
mas dois homens agarraram-na e arrastaram-na para onde se
encontrava o cnego, que a olhou de sobrolho carregado, em
sinal de desaprovao. Hrotrud praguejou e debateu-se e os
homens que a agarravam prenderam-lhe as mos atrs das costas
e ataram-nas firmemente com uma tira de pano de linho,
provocando-lhe um grito de dor.
 - Maleficia - murmurou algum do meio da multido, perto do
local onde Joana e Asclpios se encontravam.
 - So Barnab nos guarde do mau-olhado.
 Asclpios no disse nada, mas abanou a cabea tristemente.
 Tinha chegado de manh a Ingelheim para a lio semanal, mas
o cnego tinha-se recusado a autorizar que os filhos
recebessem a lio, insistindo em que fossem primeiro assistir
ao julgamento de Hrotrud, antiga parteira da aldeia.
 - Aprendereis mais com os caminhos de Deus assistindo a este
julgamento sagrado do que com qualquer escrito pago - tinha
dito o cnego, olhando acusadoramente para Asclpios.
 Joana no gostava de adiar a sua lio, mas estava curiosa
sobre o julgamento. Perguntava-se a si prpria como seria;
nunca tinha visto ningum ser julgado por feitiaria. Mas,
tinha pena que fosse Hrotrud. Gostava de Hrotrud, uma mulher
honesta, no uma hipcrita. Sempre tinha dito a verdade 
Joana, tratando-a com delicadeza e no a ridicularizando, como
faziam muitos outros da aldeia. Gudrun tinha contado  Joana
que Hrotrud tinha assistido ao seu nascimento - um parto
difcil, segundo dizia a sua me, que atribua a Hrotrud o
salvamento da sua vida e da Joana, naquele dia.


 61


Ao olhar para a multido, Joana pensou que Hrotrud tinha
assistido ao nascimento de quase todos os que se encontravam
ali, pelo menos, daqueles que j tinham passado por seis
invernos ou mais. Ningum diria, a avaliar pelo dio com que a
encaravam agora. Ela tinha-se tornado um aborrecimento para
eles, um aguilho para a sua caridade crist porque, desde que
dores lancinantes tinham retorcido as suas mos, destruindo a
sua utilidade como parteira, vivia das esmolas dos seus
vizinhos - disso e do pouco que conseguia ganhar com a venda
de plantas medicinais e de filtros que ela prpria fazia.
 O seu talento acabou por ser a sua perdio: curar insnias,
dores de dentes, de estmago e de cabea acabou por ser
considerado pelos simples aldees como nada menos do que
feitiaria.
 Depois de ter terminado a bno da gua, o cnego virou-se
para Hrotrud:
 - Mulher! Sabes o crime de que s acusada. Confessas de
livre vontade os teus pecados para alcanar a salvao da tua
alma imortal?
 Hrotrud olhou-o pelo canto do olho.
 - Se confessar, fico livre?
 O cnego abanou a cabea.
 - A Sagrada Escritura probe-o claramente: No deixars uma
feiticeira viver.
 E acrescentou, para dar maior autoridade  frase:
 - xodo, captulo vinte e dois, versculo dezoito. Mas,
morrers uma morte abenoada e suave, ganhando as recompensas
incomensurveis dos Cus.
 - No! - retorquiu Hrotrud, firmemente. - Eu sou uma mulher
crist, no sou uma bruxa, e quem disser o contrrio  um
mentiroso!
 - Bruxa! Sofrers o fogo do Inferno para toda a eternidade!
Negas a prova diante dos teus prprios olhos?
 O cnego tirou detrs das costas um cinto de linho,
deformado por uma srie de ns apertados. Estendeu-o
acusadoramente para Hrotrud, que recuou, sobressaltada.
 - Vem como ela foge dele? - disse algum perto de Joana.
claro que  culpada e que deve ser lanada  fogueira!
 Qualquer um ficaria intimidado por um gesto to repentino,
pensou Joana.  evidente que isso no prova nada.
 O cnego levantou o cinto para a multido o ver.
 - Isto pertence a Arno, o moleiro. Desapareceu ontem 
noite. Imediatamente depois, ele caiu de cama, com uma dor
terrvel nas entranhas.


 62


 Os rostos da multido tornaram-se solenes. Eles no gostavam
particularmente de Arno, suspeito de enganar nos pesos.
 - Qual  a coisa mais gorda do mundo? - dizia o incio de
uma adivinha, que eles gostavam de repetir. - A camisa de Arno
porque aperta todos os dias o pescoo de um ladro! Mesmo
assim, toda a comunidade estava preocupada com a doena do seu
moleiro. Sem ele, o trigo no seria transformado em farinha
porque, por lei, nenhum aldeo podia moer o seu prprio trigo.
 - H dois dias atrs - a voz do cnego estava ensombrada com
a acusao - este cinto foi descoberto na floresta junto 
casa de Hrotrud.
 Ouviu-se um murmrio colectivo, pontilhado de gritos.
 - Bruxa! Feiticeira! Seja queimada!
 O cnego disse a Hrotrud:
 - Roubaste o cinto e fizeste-lhe ns para ajudar aos teus
encantos malignos, o que ia matando Arno.
 - Nunca! - gritou Hrotrud, indignada, lutando contra os
laos que a prendiam. - No fiz tal coisa! Nunca vi esse
cinto! Nunca...
 Impaciente, o cnego fez um sinal aos homens, que agarraram
Hrotrud como um saco de castanhas, balanando-a para trs e
para a frente vrias vezes. Depois, soltaram-na, de repente.
Hrotrud gritou, aterrada e irada, enquanto voava pelo ar, indo
aterrar com um baque directamente no meio do tanque.
 Joana e Asclpios foram empurrados pela multido, que
procurava aproximar-se da borda do tanque para ver. Se Hrotrud
viesse  superfcie e flutuasse, isso queria dizer que as
guas benzidas pelo padre a tinham rejeitado; revelar-se-ia
como uma feiticeira e como uma bruxa, pelo que seria queimada.
Se se afundasse, estava provada a sua inocncia e
salvar-se-ia.
 Num silncio tenso, todos os olhos estavam fixos na
superfcie do tanque. Comearam a formar-se crculos,
lentamente, no local onde Hrotrud tinha cado  gua; nos
outros locais, a gua estava tranquila.
 O cnego rabujou e fez sinal aos homens, que se dirigiram
imediatamente para a gua, mergulhando  procura de Hrotrud.
 - Est inocente das acusaes feitas contra ela - pronunciou
o cnego. - Deus seja louvado.
 Seria impresso da Joana, ou era verdade que ele parecia
desapontado?
 Os homens continuavam a mergulhar, sem resultados. Por fim,
um deles veio  superfcie, trazendo Hrotrud. Ela jazia
inanimada nos seus braos, com o rosto inchado e plido.


 63


Ele levou-a para a margem do tanque e deitou-a no cho. Ela
no se mexeu. Ele debruou-se sobre ela para ouvir se o seu
corao batia.
 Pouco depois, levantou-se.
 - Est morta - disse ele.
 Um murmrio percorreu a multido.
 - Infelizmente - disse o cnego. - Mas, morreu ilibada dos
crimes de que tinha sido acusada. Deus conhece os Seus; Ele a
recompensar e dar descanso  sua alma.
 Os aldees dispersaram, alguns passando pelo local onde se
encontrava o corpo de Hrotrud para a verem de perto; outros,
partiram em pequenos grupos, falando em voz baixa.
 Joana e Asclpios regressaram a casa, em silncio. Joana
estava profundamente perturbada pela morte de Hrotrud.
Envergonhava-se da excitao que tinha sentido antes por causa
de ir presenciar um julgamento por feitiaria. Mas, ela no
sabia que Hrotrud ia morrer. De certeza que Hrotrud no era
uma bruxa, por isso, Joana tinha acreditado que Deus provaria
a sua inocncia.
 E Ele tinha-o feito.
 Mas, ento, porque a deixou morrer?
 S falou no assunto mais tarde, depois de ter retomado a
lio em casa. Levantou o estilete a meio da escrita e
perguntou, subitamente:
 - Porque teria Deus feito uma coisa daquelas?
 - Talvez no o tenha feito - respondeu Asclpios, percebendo
imediatamente o que ela queria dizer.
 A Joana fitou-o intensamente.
 - Estais a dizer que uma coisa destas poderia ter acontecido
contra a Sua vontade?
 - Talvez no. Mas, talvez a culpa esteja na natureza do
julgamento e no na natureza da vontade de Deus.
 A Joana reflectiu no que tinha ouvido.
 - O meu pai diria que  assim que as bruxas so julgadas h
centenas de anos.
 -  verdade.
 - Mas, isso no significa que esteja correcto - Joana olhou
para Asclpios. - Qual seria a forma mais correcta?
 - Diz-me tu - respondeu ele.
 Joana suspirou. Asclpios era to diferente do pai dela e
at de Mateus. Recusava-se a dizer-lhe as coisas,


 64


insistindo que teria de ser ela a discorrer a sua prpria
forma de responder. Joana coou levemente a ponta do nariz,
como costumava fazer quando estava a tentar resolver um
problema.
 Devia estar cega para no ver imediatamente. Ccero e o De
inventione - at aqui, no passava de uma abstraco, de um
ornamento retrico, um exerccio mental.
 - As perguntas probatrias - disse Joana. - No poderiam
usar-se neste caso?
 - Explica - disse Asclpios.
 - Quid: existe o facto do cinto com ns
- isso  indiscutvel.
 - Deve existir, certamente, um sentido para este facto.
Quis:
 - Quem fez os ns no cinto e quem o colocou na floresta?
Quomodo:
 - Como foi tirado a Arno? Quando, Ubi: quando e onde lhe foi
tirado?
 - Quem viu Hrotrud com ele? Cur: porque quereria Hrotrud
fazer ao Arno?
 Joana falava cada vez mais depressa, excitada pelas
possibilidades levantadas pela sua ideia.
 - Deveriam ter sido apresentadas e ouvidas testemunhas. E
Hrotrud e Arno tambm. Eles podiam ter sido interrogados. As
suas respostas talvez tivessem determinado a inocncia de
Hrotrud. E...
 Joana concluiu pesarosamente - ela no precisaria de ter
morrido para o provar!
 Eles estavam a pisar terreno perigoso e sabiam-no muito bem.
Sentaram-se os dois, em silncio. Joana estava perturbada pela
enormidade da ideia que se tinha abatido sobre ela: a
aplicao da lgica  revelao divina, a possibilidade de uma
justia humana na qual as afirmaes eram orientadas pela
inquirio racional e a crena se apoiava nos poderes da
razo.
 Asclpios disse:
 - Provavelmente, seria mais sensato no mencionar esta
conversa.


 A festa de So Bertino tinha chegado ao fim, os dias eram
cada vez mais curtos, por isso, as lies das crianas tambm.
O Sol j se tinha posto quando Asclpios se levantou.
 - Basta por hoje, meninos.
 - Posso ir? - perguntou o Joo.
 Asclpios acenou, despedindo-o, e levantou-se do seu lugar,
apressando-se a sair.
 Joana sorriu, pesarosa. O tdio evidente que Joo
demonstrava pelos estudos embaraava-a. Asclpios perdia
frequentemente a pacincia com o Joo, chegando mesmo a ser
duro. Mas, o seu irmo era um estudante lento e sem vontade.


 65


 - No sou capaz! - dizia ele, mal se lhe apresentava uma
nova dificuldade.
 Havia momentos em que Joana gostava de poder aban-lo e de
Lhe gritar:
 - Tenta! Tenta! Como sabes que no s capaz, se no tentas!
 Depois, censurava-se a si prpria por ter estes pensamentos.
Joo no tinha culpa de ser lento. Sem ele, nem sequer teria
havido lies naqueles ltimos dois anos - e a vida seria
impensvel sem o estudo.
 Quando o Joo se foi embora, Asclpios disse, com um ar
srio:
 - Tenho uma coisa para te dizer. Fui informado de que j no
necessitam dos meus servios na escola. Foi contratado um
outro professor, um franco, e o bispo acha que ele  mais
adequado para o lugar do que eu.
 Joana estava fora de si.
 - Como  possvel? Quem  esse homem? No  possvel que
saiba tanto como vs!
 Asclpios sorriu.
 - Essa afirmao, demonstra se no sabedoria, pelo menos,
lealdade. Conheci o homem;  um excelente professor, cujos
interesses so mais adequados aos ensinamentos na escola do
que os meus.
 Vendo que Joana no acreditou, acrescentou:
 - O lugar para o tipo de conhecimento que tu e eu
procuramos, Joana, no  dentro dos muros da catedral.
Lembra-te do que te digo e tem cuidado: algumas ideias so
perigosas.
 - Compreendo - respondeu Joana, apesar de no compreender
completamente. - Mas, o que ireis fazer agora? De que
vivereis?
 - Tenho um amigo em Atenas, um compatriota que fez fortuna
como mercador. Quer que eu seja tutor dos seus filhos.
 - Ides-vos embora?
 Joana no queria crer no que ele lhe estava a dizer.
 - Ele  abastado; a sua oferta  generosa. No tenho outra
alternativa seno aceitar.
 - Quereis ir para Atenas? - Era to longe. - Quando ireis?
 - Daqui a um ms. J teria ido se no fosse o prazer que
sinto no nosso trabalho em conjunto.
 - Mas - o semblante de Joana toldou-se, tentando pensar em
algo que impedisse este terrvel acontecimento. - Podereis
viver aqui connosco. Podereis ser o nosso tutor, meu e do
Joo, e poderamos ter lies todos os dias!


 66


 - Isso  impossvel, minha querida. O vosso pai mal tem o
necessrio para sustentar a tua famlia durante o Inverno. Na
vossa e na vossa mesa no h lugar para um estranho. Alm
disso, tenho de ir para um stio onde possa continuar o meu
trabalho. A biblioteca da catedral deixar de me ser
acessvel.
 - No partais! - O desgosto cresceu dentro dela como uma
substncia palpvel, formando um n duro no fundo da sua
garganta.
 - Por favor, no partais!
 - Minha querida menina, tenho de ir. Embora, na verdade,
preferisse que no fosse assim.
 Acariciou docemente o cabelo dourado de Joana.
 - Aprendi muito ensinando-te; duvido que volte a ter um
aluno to dotado. Possuis uma inteligncia rara;  um dom de
Deus e no o deves negar - ele olhou para ela
significativamente - custe o que custar.
 Joana tinha medo de falar sem que a sua voz trasse as suas
emoes.
 Asclpios pegou-lhe na mo.
 - No te preocupes. Conseguirs continuar os teus estudos.
Tratarei disso. Ainda no sei bem onde ou como, mas f-lo-ei.
A tua inteligncia  demasiado prometedora para se perder.
Encontraremos a maneira de a fazer frutificar, prometo.
 Apertou-Lhe a mo.
 - Confia em mim.
 Depois de ele ter partido, Joana no se mexeu da sua
mesinha. Ficou sozinha no escuro, at a me voltar, com a
madeira para a lareira.
 - Ah, ento, j acabaram? - disse Gudrun. - Ainda bem!
Agora, vem ajudar-me a acender o lume.


 Asclpios veio v-la no dia em que partiu, vestido com o seu
longo manto de viagem azul. Trazia na mo um pacote embrulhado
em pano.
 -  para ti.
 Entregou-Lhe o embrulho.
 Joana desembrulhou o pacote e deu um grito quando descobriu
o seu contedo. Era um livro encadernado  moda oriental, com
madeira guarnecida a couro.
 -  o meu - disse Asclpios. - Fui eu que o fiz, h alguns
anos.  um exemplar de Homero. Tens o original grego na
primeira metade do livro e a traduo latina na segunda
metade. Ajudar-te- a manter frescos os teus conhecimentos da
lngua, at poderes recomear os teus estudos.


 67


 Joana no tinha palavras. Um livro s dela! Este privilgio
s era partilhado por monges e eruditos do mais alto gabarito.
Abriu-o, olhando para cada uma das linhas da letra uncial
perfeita de Asclpios, que enchia as pginas de palavras de
uma beleza inexprimvel. Asclpios observava-a, com os olhos
cheios de uma terna melancolia.
 - No me esqueas, Joana. Nunca me esqueas.
 Abriu-lhe os braos. Ela dirigiu-se para ele e abraaram-se
pela primeira vez. Ficaram muito tempo agarrados um ao outro,
o corpo alto e direito de Asclpios embalando o pequeno corpo
de Joana. Quando, finalmente, se separaram, o seu manto azul
estava hmido das lgrimas de Joana.
 Ela no olhou quando ele se afastou a cavalo. Ficou dentro
de casa, onde ele a tinha deixado, segurando no livro com
tanta fora que as suas mos lhe doam.
 Joana sabia que o seu pai no a autorizaria a ficar com o
livro. Ele nunca tinha concordado com os estudos dela e,
agora, que Asclpios tinha partido, no havia ningum que o
impedisse de levar a sua vontade avante. Por isso, ela
escondeu o livro, voltando a embrulh-lo cuidadosamente no seu
invlucro e metendo-o por baixo do monte de palha do seu lado
da cama.
 Desejava ardentemente l-lo, ver as palavras, voltar a ouvir
ressoar na sua mente a beleza gozosa da poesia. Mas, era muito
perigoso; havia sempre algum dentro ou perto de casa e ela
tinha medo de ser descoberta. A sua nica oportunidade era 
noite. Depois de todos estarem a dormir, ela podia ler sem
correr o risco de ser interrompida subitamente. Mas, precisava
de um pouco de luz - de uma vela ou, pelo menos, de um pouco
de azeite. A famlia s conseguia arranjar duas dzias de
velas por ano - o cnego tinha relutncia em as levar do
santurio - e eram guardadas cuidadosamente; ela no poderia
utilizar uma delas sem ser descoberta. Mas, a arrecadao da
igreja tinha um monte de cera armazenada. Os habitantes de
Ingelheim tinham a obrigao de entregar ao santurio cem
libras por ano, a ttulo de imposto: Se ela conseguisse
alguma, podia fazer a sua prpria vela.
 No foi fcil, mas acabou por conseguir surripiar cera em
quantidade suficiente para fazer uma pequena vela, utilizando
um pedao de fio de linho para o pavio. Era uma pea artesanal
- a chama no passava de uma luzinha tremelicante - mas era o
suficiente para ela ter luz para poder estudar.


 68


 Na primeira noite, foi cuidadosa. Esperou que os pais se
tivessem passado para a sua cama, por trs da divisria, e s
se mexeu depois de ter comeado a ouvir o cnego a ressonar.
Por fim, saltou da cama, silenciosa e vigilante como um fauno,
com cuidado para no acordar o Joo, que estava deitado ao seu
lado. Ele dormia sossegadamente, com a cabea coberta pelos
cobertores. Joana retirou o livro cuidadosamente do lugar onde
se encontrava escondido na palha
e levou-o para a pequena mesa em pinho, no canto oposto do
quarto. Levou a vela para a lareira e acendeu-a nas brasas que
ardiam.
 regressando  secretria, colocou a vela junto ao livro. A
luz era bem pouco firme, mas, com esforo, ela conseguia
seguir as linhas de tinta preta. As letras bem desenhadas
danavam  luz tremeluzente, acenando, convidativas. Joana
parou por instantes, saboreando o momento. Depois, virou a
pgina e comeou.


 Os dias temperados e as noites frias do Windumemanoth, o ms
da vindima, passaram depressa. As rspidas nortadas chegaram
mais cedo do que o habitual, soprando em rajadas fortes, que
enregelavam os ossos. A janela da cabana voltou a ser fretada,
mas, os ventos glidos penetravam por todas as frinchas; para
se manterem quentes, eles tinham que deixar a lareira acesa
durante todo o dia, o que enchia a casa de fuligem.
 Todas as noites, depois da famlia estar a dormir, Joana
levantava-se e estudava horas a fio, na escurido. A vela
gastou-se, por isso, ela viu-se forada a esperar
impacientemente at conseguir surripiar mais alguma cera da
arrecadao da igreja. Quando, finalmente, conseguiu acabar o
trabalho, foi implacvel consigo prpria. Terminou o livro e
voltou ao princpio, desta vez, estudando as complicadas
formas verbais e copiando-as para a sua tbua, at as saber de
cor. Os seus olhos estavam vermelhos e a cabea doa-lhe do
esforo para tentar trabalhar com uma luz to fraca, mas nunca
pensou em parar. Estava feliz.
 A festa de So Columbano passou e continuava a no haver
nenhuma notcia de qualquer combinao para uma tutoria
formal. Mesmo assim, a Joana continuava a acreditar na
promessa de Asclpios. Com o seu livro, no havia motivo para
desespero. Continuava a aprender, a fazer progressos. De
certeza que iria acontecer alguma coisa em breve. Chegaria um
tutor  vila, perguntando por ela, ou seria convocada pelo
bispo, que lhe diria que ela tinha sido aceite na escola.


 69


 Joana comeou a trabalhar um pouco mais cedo todas as
noites. Por vezes, nem sequer esperava para ouvir se o pai j
estava a ressonar. Nem sequer reparava quando entornava um
pouco de cera sobre a secretria.
 Uma noite, estava a trabalhar num problema de sintaxe
particularmente difcil e interessante. Impaciente para
comear, sentou-se  secretria pouco depois dos pais se
retirarem. Trabalhava havia poucos minutos quando ouviu um som
abafado que vinha da parte de trs da divisria.
 Apagou a vela e ficou como uma pedra no escuro, sentindo a
batida do pulso na garganta.
 Passaram alguns momentos. No voltou a ouvir nada. Devia ter
sido a sua imaginao. O alvio passou por ela como uma
corrente morna. Mas, deixou passar mais tempo antes de se
levantar da secretria. Dirigiu-se para a lareira para acender
o pavio, e voltou com a vela acesa. A chama criava um pequeno
crculo de luz em torno da mesa. Na margem do crculo, onde a
luz se encontrava com a sombra, estavam dois ps.
 Os ps do seu pai.
 O cnego saiu do escuro. Instintivamente, Joana tentou
esconder o livro, mas j era tarde.
 O seu rosto, iluminado pela vela, era sinistro, aterrador.
 - Que malvadez  esta?
 A voz de Joana era um sussurro.
 - Um livro.
 - Um livro!
 Ele ficou espantado a olhar para o livro, mal querendo
acreditar no que os seus olhos viam.
 - Como  que o arranjaste? O que ests a fazer com ele?
 - Estou a l-lo. ... meu, foi o Asclpios que mo deu. 
meu.
 A fora do golpe do pai apanhou-a de surpresa, derrubando-a
da cadeira. Foi parar ao cho, com o rosto de encontro ao solo
frio.
 - Teu! Criana insolente! Eu sou o dono desta casa!
 Joana soergueu-se num dos cotovelos e olhou, impotente, para
o seu pai, que se debruava sobre o livro, procurando ler as
palavras  luz fraca da vela. Pouco depois, desviou-se,
fazendo o sinal da cruz sobre a secretria.
 - Cristo Jesus, protege-nos.
 Sem olhar para o livro, ordenou a Joana:
 - Aproxima-te.
 Joana levantou-se do cho. Estava tonta e a dor latejava-lhe
num dos ouvidos. Lentamente, aproximou-se do pai.


 70


 - Isto no  a linguagem da Santa Madre Igreja. - Apontou
para a pgina aberta diante dele. - que significam estes
sinais? Responde-me sinceramente, fins amor  tua alma
imortal!
 -  poesia, Pai.
 Apesar do medo, Joana sentiu um certo orgulho nos seus
conhecimentos. No se atreveu a acrescentar que era de Homero,
que o pai considerava um pago. O cnego no sabia grego. Se
no visse a traduo na parte de trs, talvez no se
apercebesse do que ela tinha feito.
 O pai colocou ambas as mos sobre a cabea de Joana,
colocando os braos rudes de campons  volta da sua cabea,
por cima das sobrancelhas.
 - Exorcizo te, immundissime spiritus, omnis incursio
adversar, omne phantasma.
 As suas mos apertavam a cabea da Joana com tanta fora que
ela gritou de medo e de dor.
 Gudrun apareceu  porta.
 - Por tudo quanto  sagrado, Marido, o que se passa? Tende
cuidado com a criana!
 - Silncio. - rugiu o cnego. - A criana est possessa! Os
demnios que se encontram dentro dela tm de ser exorcizados.
 A presso das suas mos aumentou at a Joana pensar que os
olhos lhe iriam saltar.
 Gudrun pegou-lhe no brao.
 - Basta! Ela  apenas uma criana! Marido, parai! Quereis
mat-la na vossa loucura?
 A presso excruciante cessou abruptamente, quando o cnego
deixou de apertar. Virou-se e, de um s golpe, atirou com
Gudrun para o outro lado do quarto.
 - Vai-te! - gritou ele. - No  o momento para fraquezas de
mulher! Encontrei a rapariga a praticar magia de noite! Com um
livro de bruxaria! Ela est possessa!
 - No, Pai, no. - gritou Joana. - No  bruxaria!  poesia!
Poesia escrita em grego, s isso! Juro!
 Ele foi direito a ela, mas ela cobriu o rosto com o brao e
deu a volta por trs dele. Ele virou-se e avanou para ela,
com os olhos sombrios de ameaa.
 Ia mat-la.
 - Pai! Virai as pginas! No verso do livro! Est escrito em
latim! Vereis! Est em latim!


 71


 O cnego hesitou. Gudrun apressou-se a chegar-lhe o livro.
Ele no olhou para ele. Fitou Joana, pensativo.
 - Peo-vos, Pai. Vede o verso do livro. Vs mesmos o podeis
ler. No  bruxaria!
 Ele tirou o livro das mos de Gudrun. Ela apressou-se a
pegar na vela e aproximou-a da pgina para ele poder ver. Ele
inclinou-se para examinar o livro, com as grossas sobrancelhas
franzidas, em sinal de concentrao.
 Joana no era capaz de parar de falar.
 - Eu estava a estudar. Leio de noite para ningum saber. J
sabia que no ireis aprovar.
 Ela seria capaz de dizer qualquer coisa, de confessar fosse
o que fosse, para que ele acreditasse.
 -  Homero. O livro da Ilada. Poesia de Homero. No 
feitiaria, Pai.
 Comeou a soluar.
 - No  feitiaria.
 O cnego no lhe dava ateno. Lia atentamente, com os olhos
junto  pgina, os lbios formando as palavras
silenciosamente. Depois, ergueu os olhos.
 - Deus seja louvado. No  bruxaria. Mas,  a obra de um
pago, por isso  uma ofensa contra o Senhor.
 Voltou-se para Gudrun.
 - Acende o lume. Esta abominao tem de ser destruda.
 Joana sobressaltou-se. Queimar o livro! O lindo livro de
Asclpios que ele lhe tinha confiado!
 - Pai, o livro tem muito valor! Vale dinheiro; podamos
obter um bom preo por ele - corou - podias oferec-lo ao
bispo para a biblioteca da catedral.
 - Criana malvada, ests de tal forma mergulhada no pecado
que  de admirar que ainda no te tenhas afogado. Isto no 
uma oferta adequada para um bispo, nem para nenhuma alma
temente a Deus.
 Gudrun dirigiu-se para o canto onde a lenha estava
armazenada e escolheu alguns toros pequenos. Joana olhou,
desesperada. Tinha de arranjar uma maneira de impedir que
aquilo acontecesse. Se a dor que sentia na cabea passasse,
podia pensar.
 Gudrun remexeu as achas, preparando a lareira para a madeira
fresca.
 - Espera um momento - disse o cnego a Gudrun, bruscamente.
- Deixa a lareira.
 Apalpou as pginas do livro, apreciando-as.


 72


 -  verdade que o pergaminho  bom e que pode ser-lhe dado 
uso. - Ps o livro sobre a secretria e desapareceu para o
quarto ao lado. que queria ele dizer? Joana olhou para a me,
que encolheu os ombros, sem perceber.  sua esquerda, Joo
tinha-se sentado na cama, Acordado pelo barulho, fitava Joana
com uns olhos muito abertos. O cnego voltou, trazendo um
objecto comprido e reluzente. Era a faca de mato com cabo em
osso. Como sempre que a via, Joana encheu-se de temor.
Lembrou-se de qualquer coisa que lhe estava ligada, mas no
conseguiu recordar-se do que era.
 O pai sentou-se  secretria. Colocando a faca num ngulo
oblquo, de forma a que a lmina ficasse sobre a pgina,
raspou o velino. Uma das letras que se encontravam sobre a
pgina desapareceu. Ele emitiu um grunhido de satisfao.
 - Resulta. Vi fazer isto uma vez, no Mosteiro de Corbie.
Deixa as pginas limpas para poderem voltar a ser utilizadas.
 Ordenou peremptoriamente  Joana:
 - Faz tu.
 Ento, este era o seu castigo. Seria a sua mo a destruir o
livro, a erradicar o conhecimento proibido e, com ele, todas
as suas esperanas.
 Os olhos do pai brilhavam de expectativa malvola.
 Impassvel, ela pegou na faca e sentou-se  secretria.
Ficou um momento a olhar para a pgina. Depois, pegando na
faca como tinha visto o pai fazer, movimentou lentamente a
lmina sobre a superfcie da pgina.
 No aconteceu nada.
 - No resulta.
 Levantou os olhos, na expectativa.
 - Assim. - O cnego ps as mos em cima das suas,
pressionando um pouco a lmina, num movimento lateral.
Desapareceu outra letra. - Tenta novamente.
 Ela pensou em Asclpios, nas suas longas horas de trabalho a
fazer este livro, na confiana que tinha manifestado nela, ao
entregar-lho. A pgina ficou enevoada, quando as lgrimas lhe
chegaram aos olhos.
 - Por favor. No me obrigueis a faz-lo. Peo-vos, Pai.
 - Filha, ofendeste a Deus com a tua desobedincia. Em
penitncia, trabalhars noite e dia, at estas pginas estarem
completamente limpas do seu contedo mpio. No tomars seno
po e gua, at teres terminado a tua tarefa. Pedirei a Deus
que tenha misericrdia de ti - por causa de to grande pecado.


 73


 Apontou para o livro. - Comea.
 Joana colocou a faca sobre a pgina e raspou, como o seu pai
lhe tinha mostrado. Uma das letras ficou sumida e, depois,
desapareceu.
 I Ela moveu a faca; desapareceu outra letra. Depois, outra.
E outra. Em breve, j tinha desaparecido uma palavra inteira
da superfcie rugosa do pergaminho.
 A faca aproximou-se da palavra seguinte. Aletheia. Verdade.
Joana parou, com a mo sobre a palavra.
 - Continua. - A voz do pai era uma ordem.
 A verdade. As linhas redondas das letras maisculas
sobressaam do pergaminho plido.
 Emergiu nela a revolta. Todo o medo e tristeza daquela noite
cederam o lugar a uma convico avassaladora: No pode ser.
 Poisou a faca. Lentamente, ergueu os olhos,  procura dos do
pai.
 O que ela viu cortou-lhe a respirao.
 - Pega na faca.
 A ameaa contida na sua voz era iniludvel.
 Joana tentou falar, mas a garganta apertou-se-lhe e no saiu
qualquer palavra. Abanou a cabea negativamente.
 - Filha de Eva, j te ensino a temer as penas do inferno.
Traz-me a vara.
 Joana dirigiu-se para o canto e trouxe a longa chibata negra
que o pai utilizava naquelas ocasies.
 - Prepara-te - disse o cnego.
 Ela ajoelhou-se em frente  lareira. Lentamente, porque
tinha as mos a tremer, despiu o manto em l cinzenta e a
tnica de linho, expondo as costas nuas.
 - Comea o Pai-Nosso. - A voz do pai era um sussurro junto a
ela.
 - Pai-Nosso, que estais no Cu...
 O primeiro golpe atingiu-a entre os ombros, rasgando a
carne, e lanando uma corrente de dor do pescoo ao crnio.
 - Santificado seja o Vosso Nome...
 O segundo golpe foi mais forte. Joana mordeu o brao para
no gritar. J tinha sido espancada, mas nunca assim, nunca
com esta fora implacvel.
 - Venha a ns o Vosso Reino...
 O terceiro golpe atingiu-a na carne, fazendo espirrar o
sangue. Sentiu um lquido quente a correr-lhe pelas costas.
 - Seja feita a Vossa vontade...


 74


 O choque do quarto golpe fez Joana inclinar a cabea para
trs.
 Viu o irmo a olhar da cama. O seu rosto tinha uma expresso
Seria medo? Curiosidade? Piedade?
 - Assim na terra como...
 Outro golpe. Antes de fechar s olhos, por causa da dor,
Joana conseguiu identificar a expresso no rosto do irmo. Era
de satisfao.
 - No Cu. O po nosso de cada dia...
 O golpe foi ainda mais forte. Quantos j tinha levado? Joana
estava a ficar dormente. Nunca tinha tido de suportar mais de
um golpe. Ao longe, ouviu algum gritar.
 - Nos dai hoje. Perdoai-nos... perdoai...
 Os seus lbios moveram-se, mas no conseguia formar as
palavras. Com o entendimento que lhe restava, Joana, de
repente, compreendeu. Desta vez, no ia acabar. Desta vez, o
seu pai no ia parar. Desta vez, continuaria at ela morrer.
 Outro Golpe. A campainha que tocava nos seus ouvidos comeou
a tocar cada vez mais alto, at se tornar ensurdecedora.
Depois, no houve mais nada seno silncio e uma escurido
misericordiosa.


 75


 @6


 A notcia da sova que Joana tinha levado espalhou-se pela
aldeia. O cnego tinha batido na filha at a deixar  porta da
morte, segundo se dizia, e t-la-ia morto, se os gritos da
mulher no tivessem atrado a ateno de alguns aldees.
Tinham sido precisos trs homens de forte estatura para o
afastarem da criana.
 Mas, no era a selvajaria do espancamento que provocava
comentrios. Essas coisas eram bastante comuns. Ento, o
ferreiro no tinha batido na mulher at ela cair, no lhe
tinha dado pontaps no rosto at ela ter ficado com os ossos
todos partidos porque estava farto da resmunguice dela? A
pobre criatura tinha ficado desfigurada para toda a vida, mas
no havia nada a fazer. Um homem era o senhor da sua prpria
casa, ningum duvidava. A nica lei que regia o seu direito
absoluto a dispensar os castigos que ele considerava
apropriados era aquela que limitava o tamanho da moca que ele
podia usar. Ora, o cnego no tinha usado nenhuma moca.
 O que era realmente interessante para os aldees era o facto
de o cnego ter perdido a cabea. Uma emoo to violenta era
inesperada, improvvel num homem de Deus - por isso, era
natural que toda a gente se deleitasse a falar do caso. O
cnego no dava tanto que falar desde que tinha levado uma
mulher saxnica para a cama. Sussurravam em pequenos grupos,
que se calavam abruptamente, quando o cnego se aproximava.
 Joana no sabia nada disto. O cnego proibiu que algum se
aproximasse dela durante todo o dia seguinte  tareia. Joana
ficou deitada no cho da casa, inconsciente, durante toda essa
noite e todo o dia seguinte. A sujidade do cho em terra
batida tinha-se-lhe colado  carne dilacerada.


 76


Quando Gudrun foi autorizada a tratar dela, as feridas tinham
infectado e ela estava com uma febre perigosa.
 Gudrun cuidou dela com toda a solicitude. Limpou as feridas
de Joana com gua fresca e com vinho. Depois, com todo o
cuidado, para no prejudicar ainda mais a sua pele, j em
carne viva, aplicou-lhe uma cataplasma refrescante feita de
folhas de amoreira.
 tudo culpa do grego, pensava Gudrun amargamente, enquanto
fazia uma tisana quente e a dava a Joana, levantando-Lhe a
cabea e dando-lhe o lquido na boca, gota a gota. Dar um
livro  criana, encher a cabea dela com ideias inteis. Ela
era uma rapariga, portanto, no tinha sido feita para estudar.
Devia ficar com ela, partilhar os usos ocultos e a lngua do
seu povo, ser o seu conforto e amparo quando ela fosse velha.
Maldita a hora em que o grego entrou nesta casa.
 a ira de todos os deuses se abata sobre ele.
 Mesmo assim, Gudrun estava cheia de orgulho pela coragem
manifestada pela sua filha. Joana tinha desafiado o pai com o
herosmo e a fora dos seus antepassados saxnicos. Em tempos,
Gudrun tambm j tinha sido assim forte e corajosa. Mas, os
longos anos de umilhao e exlio numa terra estranha tinham
apagado progressivamente a sua vontade de lutar. Pelo menos,
corre-lhe o meu sangue nas veias, pensou ela, cheia de
orgulho. Corre nas veias da minha filha a coragem do meu povo.
 Parou para agarrar no pescoo de Joana, ajudando-a a engolir
o lquido curativo. Pe-te boa, passarinho, pensou ela. Pe-te
boa e volta para mim.
 A febre desceu na manh do nono dia. Joana acordou e viu
Gudrun debruada sobre ela.
 - Mam?
 A sua prpria voz soava-lhe aos ouvidos de uma forma
estranha.
 A me sorriu.
 - Finalmente, voltaste para mim, passarinho. Cheguei a temer
ter-te perdido.
 A Joana tentou erguer-se, mas voltou a cair pesadamente
sobre o colcho. A dor trespassou-a, trazendo-Lhe ms
recordaes.
 - O livro?
 O rosto de Gudrun entristeceu-se.
 - O teu pai limpou as pginas e deu-as ao teu irmo para
copiar no sei que novos disparates.
 Ento, tinha desaparecido.
 Joana sentiu-se esquisita. Estava enjoada; queria dormir.


 77


 Gudrun estendeu-Lhe uma malga com um lquido fumegante.
 - Tens de comer para recuperar foras. Olha, fiz-te um
caldo.
 - No. - Joana abanou a cabea levemente. - No quero nada.
 Ela no queria recuperar as foras. Queria morrer. Que
motivos havia para querer continuar a viver? Nunca se
libertaria dos limites estreitos da vida em Ingelheim. A vida
tinha-a encarcerado; no havia qualquer esperana de lhe poder
fugir.
 - Come um bocadinho - insistiu Gudrun. - E enquanto comes,
vou cantar-te uma das velhas canes.
 Joana virou a cara.
 - Deixa essas loucuras para os padres. Ns temos os nossos
segredos, no , passarinho? Vamos voltar a partilh-los, como
fazamos dantes.
 Gudrun acariciou a cabea de Joana carinhosamente.
 - Mas, primeiro, tens de te pr boa. Come um bocadinho de
caldo.  uma receita da Saxnia, com fortes propriedades
curativas.
 Levou a malga aos lbios de Joana. Demasiado fraca para
resistir, deixou que a me lhe metesse um pouco de lquido 
boca. Era bom, estava quente, era reconfortante. Apesar de
contra a sua prpria vontade, comeou a sentir-se um pouco
melhor.
 - Meu passarinho, meu corao, minha querida.
 A voz de Gudrun acarinhava Joana suavemente. Voltou a chegar
a malga aos lbios de Joana, que voltou a comer um pouco.
 A voz da me elevou-se, cantando uma melodia saxnica.
Embalada pelo som e pelos carinhos da me, Joana acabou por
adormecer.
 Uma vez passada a febre, o corpo robusto e jovem de Joana
recuperou depressa. De um dia para o outro, levantou-se. As
feridas tinham sarado bem, apesar de ser certo que as
cicatrizes ficariam para o resto da sua vida. Gudrun
lamentava-se por causa das cicatrizes, uns vincos compridos e
escuros que transformavam as costas de Joana numa espcie de
feia manta de retalhos, mas Joana no se importava. Alis, no
se importava com quase nada. Tinha perdido a esperana.
Limitava-se a existir.
 Passava o tempo todo com a me, levantando-se ao nascer do
Sol, para a ajudar a dar de comer aos porcos e s galinhas,
para recolher os ovos, juntar lenha para a lareira e acartar
pesados potes de gua do poo. Depois, trabalhavam lado a
lado, para prepararem as refeies dirias.
 Um dia, estavam a fazer o po, com os dedos a darem forma 
massa pesada - naquela parte da terra dos francos, era raro
utilizar fermento ou qualquer outra forma de levedura -,


 78


quando -, Joana perguntou, de repente:
 - Porque haveis casado com ele?
 A pergunta apanhou Gudrun desprevenida. Pouco depois, disse:
 - No imaginas o que foi para ns quando as tropas de Carlos
chegaram. 
 - Sei o que fizeram ao vosso povo, Mam. O que eu no
consigo Compreender  porque motivo, depois disso, haveis
partido com um cnego - com ele.
 Gudrun no respondeu.
 Ofendi-a, pensou Joana. Agora, ela no me vai dizer.
 - No Inverno - comeou Gudrun a dizer lentamente. -
estvamos a morrer  fome porque os soldados cristos tinham
queimado as colheitas juntamente com as nossas casas.
 Ela olhou para alm da Joana, como se estivesse a imaginar
uma coisa distante.
 - Comamos tudo o que conseguamos encontrar - ervas,
cardos, at as sementes que encontrvamos no estrume dos
animais.
 Estvamos  beira da morte, quando o teu pai e os outros
missionrios chegaram. Eram diferentes dos outros; no traziam
espadas nem armas, e tratavam-nos como gente e no como
animais. Deram-nos comer a troco da nossa promessa de que os
ouviramos pregar a palavra do Deus dos cristos.
 - Trocaram comida pela f? - perguntou Joana. - Triste
maneira de ganhar as almas das pessoas.
 - Eu era jovem e impressionvel, estava morta de fome, de
medo e de misria. Pensei que o Deus dos cristos devia ser
maior do que os nossos, seno, como teriam conseguido
vencer-nos? O teu pai interessou-se especialmente por mim.
Dizia que tinha muitas esperanas em mim porque, apesar de eu
ter nascido pag, ele tinha a certeza que eu tinha capacidade
para compreender a Verdadeira F. Pela maneira como ele olhava
para mim, eu sabia que ele me desejava. Quando me pediu para
eu partir com ele, eu consenti. Era a oportunidade da minha
vida, quando tudo em volta de mim era morte.
 A voz dela transformou-se num sussurro.
 - No demorei muito a perceber o grande erro que tinha
cometido.
 Os seus olhos arrasaram-se de lgrimas. Joana abraou-a.
 - No choreis, Mam.
 - Aprende com o meu erro. - disse Gudrun firmemente.para no
o repetires. Casar  abdicar de tudo - no s do teu corpo,


 79


mas tambm do teu orgulho, da tua independncia, da tua
prpria vida. Percebes? Percebes?
 Agarrou no brao de Joana, fixando-a com um olhar aflito.
 - Atenta nas minhas palavras, filha, se queres ser feliz:
nunca te entregues a um homem.
 A carne macerada das costas de Joana arrepiou-se com a
memria dos golpes dados pelo seu pai.
 - No, Mam - prometeu ela solenemente. - Nunca o farei.


 * * *


 No Ostarmanoth, quando a brisa morna da Primavera tinha
comeado a acariciar a terra, permitindo que os animais fossem
levados para o pasto, a monotonia foi quebrada pela chegada de
um forasteiro. Foi numa quinta-feira - o dia de Thor, como
Gudrun continuava a chamar-lhe, quando o cnego no estava
perto para ouvir - e o ribombar do trovo desse deus ouvia-se
 distncia, quando Joana e Gudrun trabalhavam as duas na
horta da famlia. Joana estava a arrancar urtigas e a aplanar
os montculos de terra levantados pelas toupeiras, enquanto
Gudrun seguia atrs dela, a traar sulcos e a desfazer os
torres de terra com uma pesada tbua. Gudrun cantava,
enquanto trabalhava, e contava histrias dos Antepassados.
Quando Joana respondia em saxnio, Gudrun ria de satisfao.
Joana tinha acabado de terminar uma fila, quando levantou os
olhos e viu Joo, que se dirigia apressadamente na direco do
local onde elas se encontravam. Tocou no brao da me para a
avisar; Gudrun viu o filho e as palavras saxnicas morreram
nos seus lbios.
 - Depressa - Joo estava sem flego por causa da corrida. -
O pai quer-vos em casa. Depressa!
 Pegou em Gudrun pelo brao.
 - Cuidado, Joo - repreendeu-o Gudrun. - Ests a magoar-me.
O que aconteceu? H algum problema?
 - No sei.
 Joo continuava a puxar a me pelo brao.
 - Ele disse qualquer coisa sobre uma visita. No sei quem.
Mas, despachai-vos. Ele disse que me puxava as orelhas se eu
no vos levasse imediatamente.
 O cnego estava  espera deles  entrada da porta de casa.
 - Demorastes muito - resmungou ele, quando elas chegaram.
 Gudrun olhou para ele friamente. Pelos olhos do cnego
passou um pequeno lampejo de irritao; mas disse,
solenemente:
 - Vai chegar um emissrio. Da parte do Bispo de Dorstadt.
 Fez uma pausa para criar mais expectativa.


 80


 - Vai e prepara uma refeio de jeito. Eu vou-me encontrar
com ele na Catedral e depois trago-o para aqui.
 Despediu-a com um aceno de mo.
 Despacha-te, mulher! Ele est quase a chegar.
 Saiu, batendo com a porta. O rosto de Gudrun no tinha
qualquer expresso.
 - Comea a fazer o caldo - disse ela  Joana. - Eu vou
buscar ovos.
 Joana deitou gua do pote num grande panelo em ferro que a
famlia costumava utilizar para cozinhar e p-lo ao lume.
Tirou algumas bagas de cevada seca do saco de l, quase vazio,
depois de um longo inverno, e deitou-as no recipiente.
Reparou, com surpresa, que as mos tremiam de excitao. H
tanto tempo que no sentia nada assim.
 Mas, um emissrio de Dorstadt! Ser que tinha alguma coisa a
ver com ela? Ser que, depois de tanto tempo, Asclpios tinha
conseguido, finalmente, encontrar uma maneira de ela retomar
os estudos?
 Cortou uma fatia de carne de porco de salmoura e
acrescentou-a ao caldo. No, era impossvel. J tinha passado
quase um ano desde que Asclpios tinha partido. Se ele tivesse
conseguido combinar qualquer coisa, ela teria sabido havia
muito. Era perigoso ter esperana. A esperana j quase a
tinha destrudo uma vez; no voltaria a fazer tal loucura.
 Mesmo assim, no conseguiu acalmar a excitao quando, uma
hora mais tarde, a porta se abriu. O pai entrou, seguido de um
homem de cabelo escuro. No era nada como ela tinha imaginado.
Tinha os traos rudes e pouco inteligentes de um colonus e
vestia-se mais como um soldado do que como um professor. A sua
tnica escarlate, com a insgnia do bispo, estava amarrotada e
cheia do p da viagem.
 - Dais-nos a honra de cear connosco?
 O pai de Joana apontou para o tacho ao lume.
 - Obrigado, mas no posso.
 Ele falava em vernculo e no em latim, o que tambm a
surpreendeu.
 - Deixei o resto da escolta numa cella  entrada de Mainz -
o caminho pela floresta era demasiado lento e estreito para
dez homens a cavalo - e vim  frente, sozinho. Tenho de me
juntar a eles esta noite; de manh, iniciamos a nossa viagem
de regresso a Dorstadt.
 Desenrolou um pergaminho que trazia na sua bolsa e
entregou-o ao cnego.
 - Da parte de Sua Eminncia, o Senhor Bispo de Dorstadt.


 81


 O cnego quebrou o selo cuidadosamente; o material do
pergaminho quebrou-se, ao ser desenrolado. Joana observava o
seu pai de perto, enquanto ele se esforava por ler o que
estava escrito. Leu-o at ao fim, depois, recomeou, como se
estivesse  procura de qualquer coisa que lhe tivesse
escapado. Finalmente, levantou os olhos com os lbios
contrados de ira.
 - O que significa isto? Disseram-me que a vossa mensagem era
relativa a um assunto que me dizia respeito!
 - E assim . - O homem sorriu. - Na medida em que sois o pai
da criana.
 - O bispo no tem nada a dizer sobre o meu trabalho?
 O homem encolheu os ombros:
 - Tudo quanto eu sei, padre,  que devo acompanhar a criana
at  escola de Dorstadt, como diz a carta.
 Joana gritou, num arroubo sbito de emoo. Gudrun correu
para ela e protegeu-a com os seus braos.
 O cnego hesitou, olhando para o forasteiro. Subitamente,
tomou uma deciso.
 - Muito bem.  verdade que  uma bela oportunidade para a
criana, apesar de a sua ajuda me fazer muita falta.
 Voltou-se para o Joo.
 - Junta as tuas coisas e despacha-te. Amanh, partes para
Dorstadt para comeares os estudos na catedral, de acordo com
a ordem expressa do bispo.
 Joana suspirou. O Joo tinha sido chamado para estudar na
escola? Como podia ser?
 O forasteiro abanou a cabea.
 - Com todo o respeito, santo padre, penso que  suposto eu
levar comigo uma menina. Uma menina chamada Joana.
 Joana libertou-se dos braos da me.
 - Eu sou a Joana.
 O homem do bispo virou-se para ela. O cnego meteu-se
imediatamente entre eles.
 - Que disparate.  o meu filho Joo que o bispo quer. Joo,
Joana. lapsus calami. Um lapso de escrita. Um simples erro da
parte do amanuense do bispo, nada mais. Acontece muito, mesmo
entre os melhores escribas.
 O forasteiro olhou, hesitando.
 - No sei...
 - Fazei uso da vossa cabea, jovem.
 O que quereria o bispo de uma rapariga?


 82


 - tambm estranhei - concordou o homem.
 Joana ia comear a protestar, mas Gudrun puxou-a para trs e
ps sobre os lbios, em sinal de aviso.
 O cnego prosseguiu:
 - Alm disso, o meu filho estuda as Escrituras desde o
bero. L o Livro do Apocalipse para o nosso excelentssimo
convidado, Joo.
 Joo empalideceu e comeou a titubear.
 - Acopa... Apocalypsis Jesu Christi quo... Quam dedit illi
Deus palam fac sis...
 O mensageiro fez um sinal impacientado para que ele parasse
com a torrente incerta de palavras.
 - No h tempo. Temos de partir imediatamente, para eu
chegar  cela antes que anoitea.
 Olhou ora para o Joo ora para a Joana, indeciso. Depois,
voltou-se para Gudrun.
 - Quem  esta mulher.
 O cnego pigarreou.
 - Uma pag saxnica cuja alma eu tenho estado a aperfeioar 
a trazer para Cristo.
 O homem do bispo reparou nos olhos azuis de Gudrun, na
elegncia das suas formas e no cabelo dourado que saa da sua
toca de linho branco. Fez um sorriso aberto, depois,
dirigiu-se-lhe directamente.
 - Sois a me das crianas?
 Gudrun acenou silenciosamente. O cnego corou.
 - O que dizeis, ento?  o rapaz que o bispo quer ou a
rapariga?
 - Co atrevido! - O cnego estava furioso. - Ousais duvidar
da palavra de um servo de Deus?
 - Acalmai-vos, santo padre. - O homem enfatizava sempre um
pouco a palavra santo. - Deixai que vos lembre o vosso dever
perante a autoridade que eu represento.
 O cnego fulminou com o olhar o enviado do bispo.
 O homem voltou a perguntar a Gudrun:
 -  o rapaz ou a rapariga?
 Joana sentiu os braos de Gudrun apertando-se ao seu redor,
aconchegando-a a si. Houve uma longa pausa. Depois, ela ouviu
a voz da me, uma voz musical e doce, cheia das vogais abertas
saxnicas, que continuavam a denunciar que ela era
estrangeira.
 - Quem vs procurais  o rapaz - disse Gudrun. - Levai-o.
 - Mam!


 83


 Chocada com esta traio inesperada, Joana no conseguiu
conter o choro.
 O mensageiro do bispo acenou, satisfeito.
 - Ento, est decidido.
 Dirigiu-se para a porta.
 - Tenho de ir ver do meu cavalo. Tende o rapaz pronto o mais
depressa possvel.
 - No!
 Joana tentou impedi-lo, mas Gudrun agarrou-a com fora,
murmurando em saxnio:
 - Confia em mim, passarinho.  para teu bem, prometo-te.
 - No!
 Joana lutava para se libertar. Era mentira. Isto era obra de
Asclpios. Joana tinha a certeza. Ele no se tinha esquecido
dela; tinha encontrado uma maneira para ela poder continuar,
finalmente, aquilo que tinham iniciado juntos. No era o Joo
que ele tinha mandado chamar para estudar na escola. Estava
tudo errado.
 - No!
 Ela torceu-se, libertou-se e foi direita  porta. O cnego
foi atrs dela, mas ela escapou-Lhe. Saiu a correr atrs do
mensageiro. Ouviu o pai a gritar dentro de casa, depois, ouviu
a me a levantar a voz tensa, lacrimosa, em resposta.
 Alcanou o homem, mesmo antes de ele chegar ao seu cavalo.
Agarrou-lhe a tnica e ele olhou para ela. Pelo canto do olho,
Joana viu o pai a avanar para eles.
 No havia muito tempo. A mensagem dela tinha de ser
convincente, inequvoca.
 - Magna est veritas et praevalebit - disse ela.
 Era uma passagem de Esdras, suficientemente obscura para ser
reconhecida apenas por aqueles que eram versados nos escritos
dos Santos Padres. A verdade  grande e prevalecer. Ele era
um homem do bispo, um homem da Igreja, certamente que a
conhecia. E o facto de ela a conhecer, de falar latim,
provaria que era ela a aluna que o bispo tinha mandado chamar.
 - Lapsus calami non est - continuou ela em latim. - No
existe nenhum erro do copista. Eu sou a Joana;  a mim que
eles querem.
 O homem olhou para ela, com um olhar bondoso.
 - O qu? O que  isto, olhos lindos? Que torrente de
palavras!
 Acariciou-lhe o queixo.
 - Desculpa, menina, mas eu no falo a vossa lngua saxnia.
Apesar de, depois de ter visto a tua me, ter comeado a
pensar que  pena!


 84



 Abriu uma bolsa presa  sela e tirou uma guloseima.
 - Toma um doce.
 Ela ficou a olhar para a guloseima. O homem no tinha
percebido uma palavra. Um filho da Igreja, o emissrio do
bispo, e no sabia? Como era possvel?
 Os passos do pai soaram mesmo atrs dela. O seu brao
agarrou-a, magoando-a; depois, levantou-a do cho e levou-a
para casa.
 - No! - gritou ela.
 A grande mo do seu pai tapou-lhe o nariz e a boca com tanta
fora, que mal conseguia respirar. Ela lutou para se libertar.
Dentro de casa ele atirou com ela e ela, voando pelo ar,
aterrou no cho.
 - No!
 - de repente, Gudrun tinha-se metido entre os dois.
 - No lhe toqueis. - Havia na voz dela um tom que Joana
nunca tinha ouvido. - Ou eu digo a verdade.
 O cnego fitou-a sem querer acreditar. Joo apareceu  porta
carregando um saco em linho cheio com as suas coisas.
 Gudrun apontou para ele.
 - O nosso filho precisa da vossa bno antes de viajar.
 O cnego continuou a fit-la durante muito tempo. Depois,
muito lentamente, voltou a cara para o seu filho.
 - Ajoelha-te, Joo.
 Joo ajoelhou-se. O cnego colocou a mo sobre a sua fronte.
 -  Deus, que ordenastes a Abrao que deixasse a sua casa e
que o protegestes em todas as suas viagens, encomendamo-vos
este rapaz.
 Atravs da janela, entrava um fio de luz do fim da tarde,
iluminando o cabelo negro de Joo com uma luz abundante.
 - Cuidai dele e providenciai para que receba tudo o que a
sua alma e o seu corpo necessitarem... - A voz do cnego
ganhava um ritmo meldico quando ele rezava.
 De cabea baixa, Joo olhou para Joana com uns olhos cheios
de medo, suplicantes. Ele no quer ir, percebeu subitamente
Joana. Claro! Porque no tinha reparado antes? No tinha
pensado naquilo que Joo sentia. Ele tem medo. No  capaz de
corresponder s exigncias da escola e ele sabe-o muito bem.
 Se ao menos eu pudesse ir com ele.
 Na cabea dela, comeou-se a delinear um plano.
 e quando a peregrinao da vida tiver chegado ao fimterminou
o cnego - que ele chegue a salvo ao Reino dos Cus, por
Cristo Jesus, Nosso Senhor. men.
 Quando a bno terminou, Joo levantou-se. Aptico,
submisso, como uma ovelha antes do sacrifcio, suportou os
abraos da me e as ltimas admonies do pai.


 85


Mas, quando Joana se aproximou e o abraou, ele agarrou-se a
ela e comeou a chorar.
 - No tenhas medo - murmurou ela, tranquilizadoramente.
 - Basta! - disse o cnego. Ps o brao por cima dos ombros
do seu filho, acompanhando-o  porta. - Mantm a rapariga
dentro de casa - ordenou ele a Gudrun.
 Depois saram. A porta fechou-se, chiando.
 Joana correu para a janela e abriu-a. Viu o Joo a montar o
cavalo por trs do emissrio do bispo, com a sua simples
tnica de l a contrastar com o rico manto vermelho do
forasteiro. O cnego ficou perto, com a sua figura escura
desenhada contra o verde da paisagem. Partiram depois do
ltimo grito de despedida.
 Joana saiu da janela. Gudrun ficou no meio da casa, a olhar
para ela.
 - Passarinho... - comeou Gudrun, hesitante.
 Joana passou por ela como se ela no existisse. Pegou na
roupa para remendar e sentou-se junto  lareira. Precisava de
pensar para se preparar. No havia muito tempo e tinha tudo
que ser planeado com todo o cuidado.
 Seria difcil, mesmo perigoso. A ideia assustava-a, mas no
interessava. Com uma certeza simultaneamente maravilhosa e
aterradora, Joana sabia o que tinha a fazer.
 No  justo, pensava Joo, montado atrs do homem do bispo,
olhando para a insgnia na sua tnica vermelha. Eu no quero
ir. Ele odiava o pai por causa disso. Procurou dentro da
tnica o objecto que l tinha colocado secretamente antes de
ter sado. Os seus dedos tocaram na lmina macia da faca - a
faca em cabo de osso do seu pai, um dos seus tesouros.
 Nos lbios de Joo desenhou-se um sorrizinho vingativo. O
pai ia ficar furioso quando desse pela sua falta. No
interessava. Nessa altura, j o Joo estaria bem longe de
Ingelheim, e ento, o pai j no podia fazer nada. Era um
pequeno triunfo, mas ele agarrava-se a ele, no meio da
tristeza em que se encontrava.
 Porque no mandou ele a Joana? Joo perguntava-se a si
mesmo, zangado. Dentro dele, crescia um ressentimento sombrio.
 tudo culpa dela, pensava ele. Por causa de Joana, ele j
tinha tido que suportar mais de dois anos de lies de
Asclpios, aquele velho aborrecido e mal-humorado. Agora, ia
ser mandado para a escola em Dorstadt, no lugar dela. Oh, era
Joana que o bispo queria, Joo tinha a certeza. Tinha de ser a
Joana. Ela  que era esperta, ela sabia grego e latim, ela j
sabia ler Agostinho quando ele ainda nem sequer sabia os
salmos.


 86


 Ele ter-lhe-ia perdoado isso e mais ainda. Afinal, ela era
sua irm.
 Havia uma coisa que Joo no era capaz de lhe perdoar: Joana
era querida da mam. Ele tinha-as escutado muitas vezes a
rirem-se e bem baixinho em saxnio, depois, paravam de
repente, quando ele chegava. Elas pensavam que ele no tinha
ouvido, mas tinha. A me nunca falava a Lngua dos Antigos com
ele. Porqu? Joo j se tinha feito a mesma pergunta amarga
milhares de vezes. Ser que elas julgavam que eu ia contar ao
pai? Eu no ia... nem por nada deste mundo, que ele fizesse
tudo, nem que ele lhe batesse.
 No  justo, voltava ele a pensar. Porque haveria ela de
gostar mais de Joana do que dele? Eu sou o seu filho e toda a
gente sabe que  melhor ter um filho do que uma filha intil.
Joana nem sequer era como as outras raparigas. No sabia
coser, fiar e tecer nem metade do que sabiam as outras
raparigas da idade dela. E depois, tinha aquele interesse por
estudar, que toda a gente sabia que era contra a natureza. At
a mam achava que havia qualquer problema com ela. As outras
crianas da vila riam-se constantemente de Joana. Era
embaraoso t-la por irm; o Joo reneg-la-ia de bom grado,
se pudesse.
 Imediatamente depois de ter tido este pensamento, sentiu um
rebate de conscincia. Joana sempre tinha sido boa para ele,
sempre tinha tomado o partido dele quando o pai se zangava,
tinha mesmo chegado a fazer o trabalho dele, quando ele no
era capaz de perceber. Ele estava-lhe grato pela ajuda dela -
ela tinha-o salvo de muitas tareias - mas, ao mesmo tempo,
tinha cimes. Era humilhante. Afinal, ele era o seu irmo mais
velho. Era ele que tinha de tomar conta dela e no o
contrrio.
 Agora, por causa dela, estava montado na mesma montada de um
estranho, a caminho de um lugar que ele no conhecia e de uma
vida que ele no queria. Imaginou a sua vida na escola,
fechado numa sala terrvel durante todo o dia, rodeado de
pilhas de livros aborrecidos e horrveis.
 Porque no podia o pai compreender que ele no queria ir? Eu
no sou o Mateus; nunca serei bom nos estudos. Nem queria ser
professor ou clrigo. Ele sabia o que queria ser: queria ser
um guerreiro, um guerreiro no exrcito do imperador, lutando
para submeter as hostes pags. Quem Lhe tinha dado a ideia
tinha sido Ulfert, o albardeiro, que tinha acompanhado o conde
Hugo na primeira campanha imperial contra os saxnios. Que
histrias maravilhosas lhe tinha contado o velho, sentado na
sua oficina, com as ferramentas esquecidas, por momentos, os
olhos iluminados pelas recordaes daquela grande vitria!
 - Como os tordos que esvoaam sobre as vinhas, no Outono,
roubando as uvas - Joo lembrava-se das palavras exactas que o
velho Ulfert tinha usado quando lhe tinha contado -,


 87


vomos sobre a terra, com um canto sagrado nos lbios,
trespassando os pagos escondidos nas florestas, nos pntanos
e nas valas, quer fossem homens, mulheres ou crianas. No
houve ningum entre ns cujo broquel ou espada no tivesse
ficado tinto de sangue naquele dia. Quando o Sol se ps, no
havia ningum que no tivesse renunciado aos seus deuses e
que, de joelhos, no tivesse jurado obedincia eterna 
Verdadeira F.
 Depois, o velho Ulfert tinha ido buscar a sua espada, que
ele tinha tirado, ainda quente, da mo de um dos pagos
mortos. O seu punho reluzia como gemas de vidro; a sua lmina
era de um dourado reluzente. As espadas dos francos eram em
ferro, mas aquela era em ouro - um material inferior, segundo
Ulfert lhe explicou, sem a solidez e preciso das armas dos
francos, mas, mesmo assim, muito bonita. O corao de Joo
tinha saltado ao v-la. O velho Ulfert tinha-lha dado para a
mo e Joo tinha-lhe pegado, sentindo o seu peso. A sua mo
cabia no punho em gema, como se tivesse sido feito para ele.
Levantou a espada por cima da cabea; ela cortou o ar com um
som cujo ritmo se coadunava com o que lhe ia no sangue. Ele
sabia que tinha nascido para ser um guerreiro.
 Falava-se agora de uma nova campanha na Primavera. Talvez o
conde Hugo voltasse a responder  convocatria do imperador.
Se assim fosse, Joo tinha pensado em ir com ele,
independentemente do que o pai dissesse. J tinha quase
catorze anos, a idade de um homem. Muitos tinham ido para a
guerra com a sua idade, at mesmo mais jovens. Ele fugiria, se
fosse preciso, mas iria.
 Claro que agora, que ele ia ficar aprisionado na escola de
Dorstadt, isso seria difcil. Ser que a notcia do novo
recrutamento chegaria to longe?, perguntava-se ele. Se
chegasse, ser que ele conseguiria fugir?
 Essa ideia era perturbante, por isso, ele afastou-a do
pensamento. Em vez disso, recordou-se do seu devaneio
preferido. Estava na frente de batalha, o estandarte prateado
do conde brilhava  sua frente, convidando-o a avanar.
Perseguia pagos vencidos, que fugiam  sua frente,
desesperados e aterrados. Os longos cabelos dourados das
mulheres esvoaavam ao vento. Ele massacrava-os
habilidosamente com a sua longa espada, golpeando e matando,
sem piedade, at que, finalmente, eles se lhe submeteram,
arrependidos da sua cegueira e mostrando-se dispostos a
aceitar a Luz.
 Joo esboou um sorriso sonhador. A batida regular dos
cascos do cavalo marcavam o seu avano pela floresta negra.


 88


 Ouviu-se um silvo, seguido de um rudo surdo.
 - Unh.
 O homem do bispo inclinou-se para trs. O seu ombro bateu no
Joo, acordando-o.
 - Ento! - protestou Joo. Mas, o homem j tinha cado e o
seu corpo pendente arrastou irresistivelmente o Joo da sela.
 Caram os dois ao cho. Joo caiu por cima do homem do
bispo, imvel onde caiu. Quando Joo se apoiou nas mos para
se levantar, os seus dedos tocaram numa coisa comprida,
redonda e aguada.
 Era o resto de uma flecha, com penas amarelas na ponta. A
ponta estava enterrada no peito do homem.
 Joo ps-se em p, alerta. Do espesso arvoredo do outro lado
do caminho, surgiu um homem, vestido andrajosamente. Trazia um
arco na mo e um monte de setas de penas amarelas s costas.
 Ser que ele tambm me quer matar?
 O homem dirigiu-se para ele. Joo olhou  volta,  procura
de um caminho para fugir. O arvoredo era mais denso naquela
parte da floresta; se ele corresse talvez conseguisse escapar
ao atacante.
 O homem j estava quase junto dele, suficientemente perto
para o joo ver a ameaa estampada nos seus olhos.
 Joo tentou fugir, mas, era tarde de mais. O homem agarrou-o
por um brao. Joo lutou, mas o homem, mais alto do que ele e
bem constitudo, agarrou-o com fora, levantando-o
ligeiramente, de tal forma que os seus ps mal chegavam ao
cho.
 Joo lembrou-se da faca. Com a mo que tinha livre, procurou
dentro da tnica; os seus dedos trementes sentiram o cabo em
osso, agarram-no e tiraram-na para fora. Puxou da faca e
espetou-a de um nico golpe. Excitado, sentiu que ela se
enterrou na carne do homem, at  ponta do cabo, antes do Joo
a retirar, com um pequeno toro. O homem praguejou e
agarrou-se ao ombro ferido, largando o Joo.
 Joo fugiu para a floresta. Os ramos aguados rasgavam-lhe a
roupa e o rosto, mas continuou a correr. Apesar do luar,
estava escuro por baixo das copas das rvores. Olhando para
trs para ver se estava a ser perseguido, Joo saltou para um
arbusto com ramos baixos. Procurou o ramo mais alto e comeou
a subi-lo. O seu corpo jovem esgueirou-se rapidamente pelos
ramos acima, parando apenas quando as hastes se tornaram
demasiado fracas para suportarem o seu peso. Depois, ficou 
espera. um silvo, seguido de um rudo surdo.



 89


 No se ouvia nada a no ser o restolhar das folhas. Um mocho
piou duas vezes. O seu piar ecoava no silncio. Depois, Joo
ouviu passos atravs da floresta. Pegou na faca, sustendo a
respirao, grato pelo facto de o seu manto ser castanho e o
disfarar to bem na escurido da noite.
 Os passos estavam cada vez mais perto. Joo ouvia a
respirao irregular do homem.
 Os passos pararam mesmo por baixo dele.


 Joana saiu da escurido silenciosa da cabana para a noite
cheia de luar. As formas dos objectos familiares
agigantavam-se de uma maneira estranha, transformadas pelas
sombras. Ela arrepiou-se, ao pensar nas histrias dos
Waldleuten, espritos malignos e duendes que assombravam a
noite. Cingindo ao corpo o manto de spero cnhamo cinzento,
avanou na sombra, procurando na paisagem alterada a entrada
para o caminho da floresta. Havia muita luz - s faltavam dois
dias para a lua cheia - e ela encontrou num instante o velho
carvalho, rachado em dois por um raio, que assinalava o
caminho. Correu pelo campo fora, na direco do carvalho.
 Quando chegou  entrada da floresta, parou. Estava escuro,
as rvores filtravam o luar, transformando-o em plidos raios
de luz. Olhou para trs, para a cabana. Banhada de luar,
rodeada pelos campos e as cercas dos animais, parecia slida,
confortvel, familiar. Pensou na sua cama confortvel, nos
cobertores provavelmente ainda mornos do calor do seu corpo.
Pensou na mam, de quem nem sequer se tinha despedido. Deu um
passo no sentido da casa, depois, parou. Tudo o que lhe
interessava, tudo quanto ela queria, estava na direco
oposta.
 Entrou na floresta. As rvores fechavam-se por cima da sua
cabea. O caminho estava cheio de pedras e arbustos, mas ela
prosseguiu com determinao. Eram quinze milhas at  cella, e
ela tinha de l chegar antes da madrugada.
 Procurou manter um passo certo, mas no era simples. Era
difcil avanar; na escurido, era fcil ir parar  berma do
caminho, onde os ramos lhe roavam na roupa e no cabelo. O
caminho tornava-se cada vez mais difcil. Tropeou vrias
vezes em pedras e em razes partidas; caiu uma vez, magoando
as mos e os joelhos.
 Ao fim de vrias horas de caminho, o cu comeou a clarear
por cima das copas das rvores. Era quase madrugada. Joana
estava exausta, mas apressou o passo, umas vezes, meio a
andar, outras, correndo pelo caminho abaixo. Tinha de l
chegar antes de eles partirem. Tinha de o conseguir.


 90


 O p esquerdo tropeou em qualquer coisa. Ela tentou
recuperar o equilbrio, mas ia muito depressa. Caiu, aparando
a queda, desajeitadamente, com os braos.
 Ficou quieta, sem flego. Doa-lhe o brao direito, no stio
onde o ramo de uma rvore a tinha arranhado, mas, para alm
disso, no parecia ter-se magoado. Procurou sentar-se.
 Ao seu lado, estava um homem deitado de costas para ela.
Estaria a dormir? No. Teria acordado, quando ela caiu por
cima dele. Tocou-lhe no ombro; ele rolou, ficando de costas.
Os olhos do emissrio do bispo, morto, fitaram-na, vazios. Os
seus lbios gelados estavam torcidos num esgar. A sua bela
tnica, rasgada e ensanguentada. Faltava-lhe o dedo do meio da
sua mo esquerda. Joana ps-se de p num salto.
 - Joo! - gritou ela. Procurou nos arbustos e no solo  sua
volta, com medo daquilo que poderia encontrar.
 - Estou aqui. - Da escurido, apareceu um rosto plido.
 - Porque ests aqui? - perguntou ele. - O pai veio contigo?
 - No. Explico-te depois. Ests ferido? O que aconteceu?
 - Fomos atacados. Um assaltante, penso eu, queria o anel de
ouro do emissrio. Eu cavalgava atrs dele, quando a seta o
atingiu.
 Joana no disse nada, mas apertou-o nos seus braos.
 Ele libertou-se do abrao.
 - Mas, eu defendi-me. A srio! Os seus olhos brilharam com
um entusiasmo estranho. - Quando ele veio atrs de mim, eu
ataquei-o com isto! - mostrou-lhe a faca de cabo de osso do
cnego. - Acertei-lhe no ombro, acho eu. Seja como for, isso
imobilizou-o tempo suficiente para eu poder fugir!
 Joana olhou para a lmina tinta de sangue.
 - A faca do pai.
 O rosto do Joo tornou-se taciturno. - Sim, tirei-lha.
Porque no? Ele obrigou-me a vir embora... eu no queria.
 - Est bem - disse a Joana com vivacidade. - Guarda-a. Temos
de nos despachar, se queremos chegar  cella antes do nascer
do dia.
 -  cella? Mas, agora, eu no quero ir para Dorstadt. Depois
do que aconteceu... - acenou na direco do emissrio morto -
posso ir para casa.
 - No, Joo. Pensa bem. Agora que o pai sabe quais so as
intenes do bispo, no vai permitir que tu fiques em casa.
H-de arranjar maneira de te mandar para a escola, mesmo que
tenha de te levar pessoalmente. Alm disso... - Joana apontou
para a faca - quando chegssemos a casa, ele j teria
descoberto que tu tinhas trazido isso.


 91


Joo olhou perturbado. Era bvio que no tinha pensado nisso.
- Vai correr tudo bem. Eu estarei l contigo, vou ajudar-te.
Pegando-lhe na mo, disse:, - Anda.
 De mos dadas, sob o cu cada vez mais claro, as duas
crianaS dirigiram-se para a cella, onde esperava o resto dos
homens do bispo.


 92


 @7


 Chegaram  cella ainda o Sol no se tinha levantado, mas
os homens do bispo j estavam acordados, esperando
impacientemente o regresso do seu companheiro. Quando Joana e
Joo Lhes contou o que tinha acontecido, os homens ficaram
desconfiados.
 Pegaram na faca com cabo em osso do Joo e examinaram-na
cuidadosamente. Joana fez uma orao de aco de graas pelo
facto de ter pensado em limp-la no riacho da floresta,
lavando-a de qualquer vestgio de sangue.
 Os homens voltaram para trs,  procura do corpo do
companheiro, levando Joana e Joo com eles; a descoberta da
seta de penas amarelas confirmou a histria das crianas. Mas,
o que haviam de fazer com o corpo? Estava fora de questo
lev-lo at Dorstadt, que ficava a um dia de viagem. Alm
disso, o sol primaveril tornava os dias muito quentes.
Acabaram por o enterrar na floresta, assinalando o local com
uma cruz em madeira tosca. Joana fez uma orao sobre a
sepultura, que impressionou os homens porque, tal como o seu
companheiro, tambm eles no sabiam latim. Como estavam a
contar em escoltar uma rapariga, inicialmente, os homens no
queriam levar o Joo.
 - No temos montada para ele - disse o chefe -, nem comida.
 - Podemos montar os dois o mesmo cavalo - props Joana -, e
partilhar a rao.
 O homem abanou a cabea negativamente. - O bispo mandou-te
chamar. No faz sentido levar o teu irmo.
 - O meu pai fez um acordo com o vosso companheiro - mentiu
Joana. - Eu s poderia vir se o Joo me acompanhasse. Seno, o
meu pai manda que eu volte para casa e vs passareis pelo
aborrecimento de terdes de me acompanhar de regresso.


 93


 O homem franziu o sobrolho; depois de ter passado pelo
desconforto de uma viagem to longa, no lhe apetecia ter de a
repetir.
 Joana tentou de novo a sua sorte:
 - Se isso acontecer, eu contarei ao bispo que procurei
explicar a situao, mas que vs no me quisestes ouvir. Ser
que ele ir ficar contente de saber que o mal-entendido foi
inteiramente culpa vossa?
 O homem estava espantado. Nunca tinha ouvido uma rapariga a
falar de uma maneira to frontal. Agora j percebia porque o
bispo queria v-la; ela era uma curiosidade, no havia dvida.
 - Muito bem - assentiu ele, resmungando - o rapaz pode vir.
 A viagem para Dorstadt foi muito cansativa porque os homens
da escolta, desejosos por chegar a casa, cavalgaram noite e
dia. Os rigores da viagem no incomodaram Joana; ela estava
fascinada com a paisagem variada e o novo mundo que se abria
diante dos seus olhos, cada dia que passava. Finalmente,
estava livre, livre de Ingelheim e da sua existncia limitada.
Passou por aldeiazinhas e por grandes povoaes com a mesma
satisfao, cheia de curiosidade e de espanto. Pelo contrrio,
Joo comeou a ficar cada vez mais irritvel por causa da
falta de comida e de descanso. Joana tentava acalm-lo, mas o
seu mau humor ainda aumentava mais perante a solicitude
bondosa da sua irm.
 Chegaram ao palcio episcopal  tarde do dcimo dia de
viagem. O guarda do palcio olhou desaprovadoramente para as
duas crianas, com as suas vestes manchadas e rasgadas de
camponeses, e mandou dar-lhes banho e vestir roupa lavada,
antes de autorizar que fossem admitidas  presena do bispo.
 Para Joana, habituada a duches rpidos no ribeiro que corria
por trs da cabana, o banho foi uma experincia
extraordinria. O palcio do bispo tinha banhos cobertos, com
gua quente, um luxo de que ela nunca tinha ouvido falar.
Ficou dentro de gua quase uma hora, enquanto as criadas a
esfregaram at a pele dela ficar rosada, quase em carne viva.
Mas, lavaram-lhe as costas com particular cuidado, olhando
para as suas cicatrizes franzindo o sobrolho, em tom de
reprovao. Lavaram-lhe o cabelo e enrolaram a sua farta
cabeleira dourada em canudos  volta da cara. Depois,
trouxeram-lhe uma bela tnica de linho verde. O tecido era to
macio, o corte to fino que Joana quase no queria acreditar
que tinha sido feito por mos humanas. Quando j estava
vestida, as mulheres levaram-na a ver-se a um espelho em ouro.
Joana levantou o espelho e viu o rosto de uma estranha. Nunca
tinha visto as suas prprias feies, excepto em fragmentos
furtivos e reflectidos nas guas barrentas do tanque da
aldeia.


 94


Estava admirada com a nitidez da imagem no espelho.
Levantou-o, examinando-se rigorosamente.
 No era bonita, mas isso, j ela sabia. No tinha nem a
testa alta e nem o queixo delicado, nem os ombros midos, nem
a silhueta to apreciada por trovadores e amantes. Tinha um ar
forte, saudvel, arrapazado. Tinha as sobrancelhas demasiado
espessas, o queixo demasiado firme, os ombros demasiado
direitos para ser bonito, o cabelo - o cabelo da mam - era
lindo e os seus olhos eram bons - de um tom verde-acinzentado
profundo, orlados com pestanas.
 Encolheu os ombros e pousou o espelho. O bispo no tinha
chamado por causa de ela ser bonita.
 Trouxeram o Joo, igualmente elegante numa tnica e um manto
de linho azuis. As duas crianas foram levadas ao intendente
do palcio.
 - Esto melhores - disse este, observando-as dos ps 
cabea. - Muito melhor. Muito bem, ento, sigam-me.
 Eles desceram um longo corredor cujas paredes estavam
cobertas de tapearias ricamente trabalhadas a fio de ouro e
prata. Joana sentia o corao a pulsar-lhe na garganta,
nervosamente. Ia encontrar-se com o bispo.
 Serei capaz de responder s suas perguntas? Ser que ele me
vai aceitar na escola? De repente, sentiu-se deslocada e
insegura. Tentou lembrar-se de alguma coisa do que tinha
estudado, mas a sua cabea estava em branco. Quando pensou em
Asclpios, na confiana que ele tinha demonstrado nela, ao
arranjar este encontro, o estmago deu-lhe uma volta.
 Pararam diante de uma enorme porta em carvalho. De dentro,
vinha um barulho de vozes e de pratos. O intendente do palcio
fez um sinal ao homem que estava  entrada e ele abriu a
pesada porta.
 A Joana e o Joo entraram no salo, depois, pararam,
hesitantes. Estavam na sala perto de duzentas pessoas,
sentadas em volta de mesas enormes, cheias de comida. Os
pratos estavam repletos de todas as variedades de carne assada
- capes, gansos, aves e vrias coxas de veado - empilhadas
sobre as mesas, ao alcance da mo dos convivas, que pegavam
com as mos em nacos de carne e os metiam na boca, limpando as
mos s mangas. No centro da mesa maior, meio devorada, mas
ainda reconhecvel, estava a cabea enorme de um javali,
envolvida em gordura. Havia sopas e pastis, avels, figos,
tmaras, ameixas brancas e pretas e muitas outras iguarias que
a Joana no foi capaz de identificar. Nunca tinha visto tanta
comida em toda a sua vida.


 95


 - Uma cano! Uma cano!
 Os copos em metal batiam sobre as mesas em madeira, de uma
forma ritmada e insistente.
 - V l, Widukind, uma cano!
 Um jovem alto, de pele branca, levantou-se, rindo.
 - Ik gihorta data seggen dat sih urhettun aenon muo tin,
hiltibraht enti hadubrant...
 Joana estava surpreendida. O jovem cantava em tudesco, a
lngua comum - o cnego teria dito que era uma lngua pag.
 - Ouvi contar, os guerreiros lutaram corpo a corpo,
Hildebrand e Hadubrand, entre dois exrcitos...
 Os homens levantaram-se e associaram-se a ele, levantando os
copos. - ... atiraram um ao outro um monte de lanas aguadas;
lanaram-se um contra o outro, combateram at os seus escudos
em madeira serem despedaados...
 Estranha cano para a mesa de um bispo. Joana olhou de lado
para o Joo, mas ele estava a ouvir atentamente, com os olhos
a brilhar de entusiasmo.
 Com um grito exultante, os homens terminaram a cano. Houve
um barulho de madeira a ranger, quando eles se sentaram,
puxando os bancos para as mesas.
 Levantou-se outro homem com um sorriso trocista.
 - Ouvi falar de uma coisa que se levantou num recanto... -
Parou, na expectativa.
 - Uma adivinha! - gritou algum e a multido manifestou a
sua aprovao. - Uma das adivinhas do Haido! Sim! Sim! V l.
 O homem de nome Haido esperou at o barulho ter diminudo.
 - Ouvi falar de uma coisa que se levantou na penumbra -
repetiu ele - de uma coisa que incha e se levanta. As esposas
mais afoitas no hesitam em pegar com a mo naquela maravilha
sem ossos...
 A multido comeou-se a rir.
 - ... a filha do prncipe cobriu essa coisa com um pedao de
pano.
 Os olhos risonhos de Haido olharam em torno da sala,
desafiadoramente.
 - O que ?
 - V entre as pernas - gritou algum - e j encontras a
resposta certa!
 A esta frase seguiram-se mais risos e uma quantidade de
gestos obscenos. Joana estava espantada. Esta era a casa do
bispo?
 - Errado! - retorquiu Haido, divertido. - Esto todos
errados!
 - Ento, qual  a resposta? A resposta? - As pessoas
gritavam e batiam com os copos nas mesas.


 96


 calou-se por um momento, para causar um efeito dramtico.
 - A Massa de po! - anunciou ele, triunfalmente, e sentou-se
enquanto uma onda de risos fazia tremer a sala.
 Quando se fez silncio, o intendente disse:
 - Vinde comigo - e levou as duas crianas para o fundo da
sala, onde se encontrava a mesa de honra, sobre um estrado. O
bispo estava sentado no centro, ainda a rir, vestido com um
magnfico manto em seda amarela, manchado de pingos de gordura
e de vinho. O seu assento estava coberto com uma almofada para
ser mais confortvel.
 No era nada como a Joana tinha imaginado. Era um homem
grande, pescoo largo; atravs da sua tnica em seda fina,
percebia-se que u peito e os seus ombros eram musculosos. A
sua grande barriga e o seu rosto vermelho eram de um homem que
apreciava comida e vinho. Quando se aproximaram, ele
inclinou-se e meteu um pedao de carne na boca de uma mulher
rechonchuda que se encontrava sentada ao seu lado. Ela
engoliu-o, depois, segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido e
ambos riram.
 O intendente do palcio aclarou a voz:
 - Senhor, os homens voltaram de Ingelheim com a criana.
 O bispo olhou para o intendente com um olhar vago.
 - A criana? O qu? Que criana?
 - Aquela que mandastes chamar, senhor. Uma candidata para a
escola, penso eu. Recomendada pelo Gr...
 - Sim, sim. - O bispo acenou com impacincia. - J sei.
 Tinha o brao colocado negligentemente por cima dos ombros
da mulher. Olhou para a Joana e para o Joo.
 - Ento, Widukind, estou a ver a dobrar?
 - No, senhor. O cnego tambm mandou o filho. Chegaram
juntos  cella e no queriam ser separados.
 - Bem. - Pela sua cara, o bispo parecia estar divertido. -
Que tal? Peo um e vm dois. Se o imperador fosse to generoso
com os seus favores como este prelado do campo!
 A mesa estalou de riso. Ouviram-se vrias vozes, que diziam:
Vejam bem! e men!, O bispo esticou-se e arrancou uma perna de
uma galinha assada. Depois, disse  Joana:
 - s to boa estudante como se diz?
 Joana hesitou, sem saber bem o que dizer.
 - Estudei muito, Eminncia.
 - Pah! Estudar!


 97


 O bispo bocejou e deu uma dentada na perna de galinha, com 
molho a escorrer.
 - A escola est cheia de estpidos que estudam, mas no
sabem nada. O que sabes tu, minha filha?
 - Sei ler e escrever, Eminncia.
 - Em tudesco ou em latim?
 - Em tudesco, em latim e em grego.
 - Grego! Ora, a est uma coisa interessante. Nem sequer o
Odo sabe grego, pois no, Odo?
 Sorriu para um homem magro, sentado perto dele.
 Odo abriu a boca num sorriso contrariado:
 -  uma lngua pag, Senhor, uma lngua de idlatras e
hereges.
 - Muito bem, muito bem - a lngua do bispo enrolava-se-lhe.
- Odo tem sempre razo, no , Odo?
 O clrigo suspirou:
 - Sabeis bem, Eminncia, que eu no aprovo esta vossa ltima
ideia.  perigoso e mpio permitir a uma mulher a entrada na
escola.
 Ouviu-se uma voz do fundo da sala:
 - Ela ainda no  uma mulher, pelo que parece.
 Voltou a ouvir-se um riso estrondoso, acompanhado por
reparos inconvenientes.
 Joana comeou a sentir o rubor a subir-Lhe da garganta at 
face. Como era possvel que estas pessoas se comportassem
assim diante do bispo?
 - Alm disso,  intil - continuou o homem de nome Odo,
quando o barulho deixou de se ouvir. - As mulheres so por
natureza incapazes de pensar.
 Os seus olhos faiscaram na direco de Joana, em ar de
desprezo, depois, voltando-se para o bispo, disse:
 - Os seus humores naturais, frios e hmidos, no so
propcios para a actividade cerebral. No conseguem
compreender as ideias espirituais e morais mais elevadas.
 Joana fixou o homem, sem querer acreditar.
 - J ouvi dizer isso - disse o bispo.
 Sorriu para Odo com o ar de um homem que se estava a
divertir imenso.
 - Mas, ento, como explicas os conhecimentos que a rapariga
possui - o seu conhecimento de grego, por exemplo, que nem
mesmo tu, Odo, dominas? - disse isto acentuando as palavras.


 98


 - Ela gabou-se das suas habilidades, mas no vimos nenhuma -
suspirou Odo. - Sois crdulo, Senhor. O grego foi honesto ao
relatar os feitos dela.
 Isto era de mais. Primeiro, este homem detestvel tinha-a
insultado, atrevia-se a atacar Asclpios! Os lbios de Joana
comeavam a dar uma resposta zangada, quando foi surpreendida
pelo olhar simptico de um cavaleiro de longos cabelos ruivos,
sentado ao lado do bispo.
 .Fez-Lhe ele sinal, silenciosamente. Ela hesitou, perturbada
com a mensagem dos seus atraentes olhos de safira. Ele
voltou-se para o bispo e segredou-lhe qualquer coisa. O bispo
assentiu e dirigiu-se ao homem de rosto magro:
 - Muito bem, Odo, faz-lhe um exame.
 - Senhor?
 - Faz-lhe um exame. V se ela est apta a estudar na escola.
 - Aqui, senhor? No me parece nada apro...
 - Aqui, Odo. Porque no? Tiraremos todos proveito do
exemplo.
 Odo franziu as sobrancelhas. Virou-se para a Joana. O seu
rosto olhava-a como se fosse um machado.
 - Quicunque vult. O que significa?
 Joana ficou surpreendida. Uma pergunta to fcil? Talvez
fosse truque. Talvez estivesse a querer apanh-la
desprevenida. Respondeu cautelosamente:
 -  a doutrina que afirma que as trs Pessoas da Trindade
so consubstanciais. Que Cristo  verdadeiro Deus e verdadeiro
homem.
 - Qual  a autoridade dessa doutrina?
 - O primeiro Conclio de Niceia.
 - Confessio Fidei. O que ?
 -  uma doutrina falsa e perniciosa - a Joana sabia o que
dizer, porque Asclpios tinha-a prevenido neste aspecto -, que
afirma que o Cristo foi primeiro homem e s depois Deus, isto
, s depois de ter sido adoptado pelo Pai.
 Perscrutou o rosto de Odo, mas era enigmtico.
 - Filius non proprius, sed adoptivus - acrescentou ela para
ter a certeza.
 - Em que consiste o erro desta heresia?
 - Se Cristo se tornou Filho de Deus pela graa e no pela
natureza, ento tem de ser subordinado ao Pai. Isto  uma
heresia e uma abominao - recitou Joana, conscienciosamente -
porque o Esprito Santo procede no s do Pai, mas tambm do
Filho; s existe um Filho e no  um filho adoptivo.


 99



In utraque nutura proprium eum et non adoptivum filium dei
confitemur.
 As pessoas em torno da mesa comearam a aplaudir.
 - Litteratissima! - gritou algum do outro extremo da sala.
 - Uma raridade divertida, no ? - murmurou a voz de uma
mulher, um pouco alto de mais, mesmo por trs de Joana.
 - Bem, Odo - disse o bispo, prazenteiramente. - O que dizes
tu? O grego tinha razo acerca da Joana ou no?
 Odo parecia um homem que tinha acabado de provar vinagre.
 - Parece que a criana tem algum conhecimento de teologia
ortodoxa. Mesmo assim, isso no prova nada - falou com
condescendncia, como se estivesse a falar para uma criana
difcil. - Algumas mulheres tm uma capacidade imitativa
altamente desenvolvida, que lhes permite decorar e repetir as
palavras dos homens e dar-lhe a aparncia de um raciocnio.
Mas, esta capacidade imitativa no deve ser confundida com o
verdadeiro raciocnio, essencialmente masculino. Porque, como
 bem sabido - a voz de Odo assumiu um tom autoritrio porque,
agora, estava em terreno que lhe era familiar - as mulheres
so por natureza inferiores aos homens.
 - Porqu? - a palavra saiu da boca de Joana antes que ela se
tivesse, sequer, dado conta de que tinha falado.
 Odo sorriu, com os lbios retesados em sinal de desagrado.
Tinha o ar da raposa quando sabe que o coelho est
encurralado.
 - A tua ignorncia, criana, revela-se nessa pergunta. De
facto, o prprio So Paulo afirmou esta verdade, que as
mulheres so inferiores aos homens na concepo, na posio e
na vontade.
 - Na concepo, na posio e na vontade? - repetiu Joana.
 - Sim. - Odo falou lenta e distintamente, como se se
estivesse a dirigir a uma idiota. - Na concepo porque Ado
foi criado primeiro e Eva, depois; na posio porque Eva foi
criada para servir Ado como companheira e auxiliar; na
vontade porque Eva no foi capaz de resistir  tentao do
Demnio e comeu da ma.
 Pelas mesas, as cabeas acenavam em assentimento. A
expresso do bispo era grave. Ao seu lado, o cavaleiro ruivo
no deu qualquer indcio daquilo em que estava a pensar.
 Odo sorriu afectadamente. Joana sentiu uma repulsa intensa
por aquele homem. Ficou calada por momentos, coando o nariz.
 - Porque  a mulher inferior ao homem na concepo? - acabou
ela por perguntar. - Pois, apesar de ter sido criada depois,
foi feita do lado de Ado, enquanto Ado foi feito do p.
 Do fundo da sala, ouviram-se murmrios.


 100


 - Em posio - as palavras fluam,  medida que os
pensamenntos perpassavam pela cabea de Joana e ela prosseguia
o seu raciocnio - A mulher deve ser preferida ao homem porque
Eva foi criada dentro mas Ado foi criado fora dele.
 novo murmrio vindo da audincia. O sorriso desapareceu do
rosto de Odo.
 continuou, demasiado interessada no encadeamento do seu o
raciocnio sem pensar no que estava a fazer:
 - Quanto  vontade, a mulher deve ser considerada superior
ao homem - esta era forte, mas, agora, j no havia retorno -
porque comeu da ma por amor ao conhecimento e ao estudo,
enquanto Ado a comeu apenas porque ela lhe pediu.
 O choque provocou um silncio profundo na sala. Os lbios
plidos de Odo contraram-se de clera. O bispo olhava para a
Joana como se no pudesse acreditar naquilo que acabava de
ouvir.
 Ela tinha ido longe de mais.
 H ideias que so perigosas.
 Asclpios tinha-a avisado, mas ela tinha-se envolvido de tal
forma na disputa que tinha esquecido o seu conselho. Aquele
homem, Odo, tinha sido to arrogante, to mesquinho em
humilh-la diante do bispo. Ela tinha estragado a sua
oportunidade de ir para a escola, sabia-o muito bem, mas no
daria quele homenzinho odioso a satisfao de a humilhar.
Ficou diante da mesa alta, de queixo levantado e brilhante.
 O silncio prolongava-se interminavelmente. Todos os olhos
estavam concentrados no bispo, que continuava a fixar Joana,
espantado. Depois, suavemente, escapou-se-lhe dos lbios um
murmrio surdo e brusco.
 O bispo ria.
 Ao seu lado, a mulher deu uma gargalhada nervosa. Ento,
toda a sala desatou a rir barulhentamente. As pessoas gritavam
e batiam nas mesas e riam, riam tanto que as lgrimas Lhes
corriam pelas faces e eles tinham de as limpar s mangas.
Joana olhou para o cavaleiro ruivo. Ele sorria abertamente.
Ela fitou-o nos olhos e ele piscou-lhe o olho.
 - V l, Odo - disse o bispo, quando, finalmente, recuperou
o flego - tens de admitir que a rapariga te venceu!
 Odo olhou venenosamente para o bispo.
 - E o rapaz, Eminncia? Desejais que eu o examine tambm?
 - No, no. Tambm ficamos com ele, uma vez que a rapariga
lhe  to dedicada. Ficamos com ambos!  certo que a educao
da rapariga foi um tanto - procurou a palavra certa -
heterodoxa.


 101


 - Mas,  uma novidade. Precisamente aquilo de que a escola
precisa. Odo, tens estudantes novos. Cuida bem deles!
 Joana olhou para o bispo, chocada. O que  que ele queria
dizer com aquilo? Ser que Odo era o reitor da escola? Aquele
que iria ensin-la?
 O que tinha ela feito?
 Odo baixou o nariz para o bispo.
 -  claro que haveis tratado dos aposentos para a criana.
Ela no pode ficar nos aposentos dos rapazes.
 - Ah... aposentos. - O bispo hesitou. - Vejamos...
 - Senhor - interrompeu o cavaleiro ruivo. - A criana podia
ficar em minha casa. Eu e a minha mulher temos duas filhas,
que a recebero bem. Seria uma boa companhia para a minha
Gisla.
 A Joana olhou para ele. Era um homem jovem, com cerca de
vinte e cinco anos de idade, forte, bem parecido, com um rosto
afilado e de traos perfeitos, com uma barba bem tratada. O
seu cabelo farto, de um tom estranhamente vermelho, estava
apartado ao meio e os caracis chegavam-lhe aos ombros. Os
seus olhos de um azul intenso eram inteligentes e bondosos.
 - Excelente, Geraldo. - O bispo deu-lhe uma pancada amigvel
nas costas. - Est combinado. A rapariga ficar convosco.
 Apareceu um servo com um tabuleiro cheio de guloseimas. Os
olhos de Joo abriram-se de espanto, quando viu tantos doces,
cobertos de manteiga.
 O bispo sorriu:
 - Crianas, deveis ter fome, depois de uma viagem to longa.
Sentai-vos ao p de mim. - Chegou-se mais para a mulher que se
encontrava sentada ao seu lado, deixando um espao vago entre
ele e o cavaleiro ruivo.
 Joana e Joo contornaram a mesa e sentaram-se. O prprio
bispo lhes serviu os doces. Joo comeu avidamente, dando
grandes dentadas nos doces, ficando com um bigode de p branco
por cima da boca.
 O bispo virou a sua ateno para a mulher sentada ao seu
lado. Bebiam do mesmo copo, rindo e ele acariciava-lhe o
cabelo, despenteando-a. Joana fitou o prato de doces. Comeou
a comer um, mas enjoou-se com o acar. Queria ir-se embora
dali, fugir do barulho, das pessoas desconhecidas e do
comportamento estranho do bispo.
 O cavaleiro ruivo chamado Geraldo disse-lhe:
 - Tiveste um dia longo. Queres ir-te embora?
 Joana acenou afirmativamente. Vendo que eles se levantavam
Joo encheu a boca com mais um doce e levantou-se.


 102


 - No, filho. - Geraldo ps uma mo sobre o ombro do Joo.
 Joo disse:
 - Quero ir com ela.
 - O teu lugar  aqui, com os outros rapazes. Quando terminar
a ceia, o intendente mostra-te os teus aposentos.
 Joo empalideceu, mas dominou-se e no disse nada.
 Mas que arma interessante! - disse Geraldo, apontando para a
faca de cabo de osso, presa ao cinto do Joo. - Posso v-la?
 O Joo tirou-a do cinto e estendeu-a a Geraldo. Ele virou-a,
admirou o trabalho do cabo. A lmina brilhava, reflectindo as
tochas que havia em torno da sala. Joana recordou-se de como
ela tinha brilhado  luz da vela na cabana, antes de se ter
abatido sobre o pergaminho do livro de Asclpios, apagando-o,
destruindo-o.
 -  Muito bonita. O Rogrio tem uma espada com um cabo
semelhante. Rogrio! - Geraldo chamou um jovem que estava
sentado na sala ao lado. - Vem mostrar a tua espada a este
jovem.
 Rogrio estendeu uma longa espada de ao com um punho
trabalhado. Joo olhou para ela, com reverncia.
 - Posso tocar-lhe?
 - Podes pegar-lhe, se quiseres.
 - Ters uma espada - disse Geraldo - e um arco. E ainda uma
lana, se tiveres fora para ela. Diz-lhe, Rogrio.
 - Sim. Temos lies de combate e de manuseamento de armas
todos os dias.
 Os olhos do Joo expressaram surpresa e contentamento.
 - Vs este risco na lmina? Foi onde eu aparei um golpe de
uma pesada espada do nosso mestre de armas, em pessoa!
 - A srio? - Joo estava fascinado.
 Geraldo disse  Joana:
 - Vamos? Acho que o teu irmo no se importa que saiamos
agora.
  porta, Joana virou-se para trs e olhou para o Joo. Com a
espada sobre os joelhos, conversava animadamente com Rogrio.
Ela sentiu uma estranha relutncia em se separar dele. Tinham
sido mais vezes rivais do que amigos, mas o Joo era a sua
ligao a casa, a um mundo familiar e conhecido. Sem ele, ela
estava sozinha.
 Geraldo seguia  frente, pelo corredor. Era muito alto e as
suas pernas compridas faziam-no andar depressa; a Joana teve
de dar uma corrida para o apanhar.


 103


 No falaram durante alguns minutos. Depois, Geraldo disse,
de repente:
 - Portaste-te bem l dentro, com o Odo.
 - Acho que ele no gosta de mim.
 - No, no gosta. Odo  muito cioso da sua dignidade,
guarda-a como um homem guarda uma moeda quando j tem poucas.
 Joana sorriu para Geraldo, simpatizando com ele.
 Num impulso, decidiu que ia confiar nele.
 - Aquela era a... mulher do bispo?
 Ela tropeou na palavra, envergonhada. Toda a vida tinha
pensado que o casamento dos seus pais era algo vergonhoso. Era
um sentimento pueril, mal formulado e jamais admitido, mas
muito profundo. Uma vez, observando que Joana era sensvel a
esta questo, Asclpios explicou-lhe que aqueles casamentos
no eram raros entre o baixo-clero. Mas, um bispo...
 - Mulher? Ah, referes-te  Theda. - Geraldo riu-se. - No, o
senhor meu bispo no  do gnero de se casar. Theda  uma das
suas amantes.
 Amantes! O bispo tinha amantes!
 - Ficaste chocada. No fiques. Fulgncio - o senhor meu
bispo - no  um homem piedoso. Herdou o ttulo do tio, que
foi bispo antes dele. Nunca foi ordenado e no tem qualquer
pretenso  santidade, como deves ter reparado. Mas, vers
que, apesar de tudo,  bom homem. Admira o saber, apesar de
no ser instrudo. Foi ele que fundou a escola.
 Geraldo falava com ela abertamente, no como se ela fosse
uma criana, mas sim como algum que compreendia. Joana gostou
disso. Mas, as suas palavras eram perturbantes. Seria correcto
para um bispo, um prncipe da Igreja, viver assim? Ter...
amantes? Era tudo to diferente daquilo que ela esperava.
 Chegaram aos portes de entrada do palcio. Pagens vestidos
de seda vermelha abriram os grandes portes de carvalho; a luz
das tochas da galeria desapareceu progressivamente na
escurido.
 - Anda - disse Geraldo. - Sentir-te-s melhor depois de uma
noite de sono.
 Dirigiu-se apressadamente para os estbulos.
 Insegura, Joana seguiu-o na noite fria.


 104


 Geraldo apontou para a esquerda e Joana seguiu a direco do
seu brao. Ao longe, apenas conseguia vislumbrar o vulto
escuro de um conjunto de construes recortadas contra o cu
banhado de luar.
 - Villaris, a minha casa... e, a partir de agora, tambm a
tua.
 Mesmo s escuras, Villaris era lindssima. Situada,
altivamente, no cimo de uma colina, aos olhos da Joana, era
enorme. Era constituda por quatro possantes torres de
madeira, ligadas por uma srie de ptios e de esplndidos
prticos em madeira. Geraldo e Joana passaram pelas robustas
paliadas em madeira que protegiam a entrada principal e por
vrios edifcios exteriores: uma cozinha, um forno, um
estbulo, uma moagem e dois celeiros. Desmontaram do cavalo
num pequeno ptio e Geraldo entregou a montada aos cuidados de
um criado de estrebaria, que esperava por ele. Tochas de
resina, colocadas a intervalos regulares, iluminaram o seu
trajecto por um corredor comprido e sem janelas, ao longo de
cujas grossas paredes em madeira estavam dispostas armas
reluzentes: grandes espadas, lanas, azagaias, bestas e
machados, lminas pequenas, pesadas e de um nico fio, como
usavam os corajosos homens da infantaria franca. Passaram num
segundo grande ptio, rodeado de prticos cobertos e entraram
na grande sala, propriamente dita, um espao vasto, decorado
com ricas tapearias. No centro da sala estava a mulher mais
bela que Joana j tinha visto, alm da sua prpria me. Mas,
enquanto Gudrun era alta e loura, esta mulher era baixa e
franzina, com cabelo cor de bano e uns grandes olhos escuros
e altivos. Esses olhos encararam friamente a Joana,
examinando-a com uma expresso que a inquietou.
 - O que  isto? - perguntou ela abruptamente, quando se
aproximaram.
 Ignorando a sua rudeza, Geraldo respondeu:
 - Joana, esta  a minha esposa, Richild, a senhora desta
casa. Richild, apresento-te a Joana de Ingelheim, que chegou
hoje para estudar na escola.
 Joana fez uma vnia desajeitada, enquanto Richild a olhava
com desprezo, antes de se dirigir a Geraldo.
 - Na escola?  alguma brincadeira?
 - Fulgncio admitiu-a e ela vai ficar a residir aqui em
Villaris durante os seus estudos.
 - Aqui?
 - Pode partilhar a cama com Gisla, que ter uma companhia
sensata, para variar.


 105


 As sobrancelhas graciosas de Richild ergueram-se
altivamente.
 - Parece uma escrava.
 Joana corou com o insulto.
 - Enganas-te, Richild - repreendeu-a Geraldo, severamente -
a Joana  uma convidada nesta casa.
 Richild suspirou:
 - Bem - tocou na tnica nova da Joana, em linho verde - pelo
menos, parece estar asseada.
 Fez um sinal a uma das criadas.
 - Mostra-lhe o caminho para o quarto.
 Sem dizer palavra, saiu da sala.
 Mais tarde, deitada no colcho de palha macia, no andar de
cima do dormitrio, ao lado de Gisla, que ressonava (e que nem
sequer acordou quando Joana se deitou ao lado dela), Joana
pensou no irmo. Ao lado de quem estaria ele a dormir agora...
se  que conseguia dormir? Ela no conseguia; a sua mente
estava povoada de pensamentos e emoes perturbantes. Tinha
saudades do ambiente da sua casa, especialmente, da sua me.
Queria que ela voltasse a abra-la, a acarinh-la e a
chamar-Lhe passarinho,. No devia ter partido assim - em
silncio e zangada, sem uma palavra de despedida. Gudrun
tinha-a trado diante do emissrio do bispo, era verdade, mas
a Joana sabia que ela o tinha feito por causa de a amar muito,
porque no podia suportar ver a sua filha partir. Agora,
talvez a Joana no voltasse a ver a sua me. Tinha aproveitado
a oportunidade para fugir, sem pensar nas consequncias. No
podia voltar para casa, era certo. O pai mat-la-ia por
desobedincia. Agora, o seu lugar era aqui, nesta terra
estranha e inspita e era aqui que ela ficaria, a bem ou a
mal.
 Mam, pensou ela, olhando para a escurido do quarto
desconhecido, e uma lgrima comeou a correr-lhe pela face.


 106


 8


 A sala de aula, um compartimento pequeno e com as paredes
em madeira ao lado da biblioteca da catedral, era fria e
hmida mesmo nas tardes quentes de Outono. Joana adorava a sua
frescura e o cheiro a pergaminho que impregnava o ar, um
incentivo  explorao da vasta coleco de livros que ficava
do outro lado da porta.
 Havia uma pintura enorme a cobrir a parede da frente da
sala. Representava uma mulher vestida com as longas vestes dos
gregos. Na sua mo esquerda, tinha um par de tesouras, na mo
direita, um chicote. A mulher representava a Sabedoria; as
suas tesouras serviam Para extirpar o erro e os falsos dogmas;
o seu chicote, para castigar os estudantes preguiosos. As
sobrancelhas da Sabedoria eram muito juntas e os cantos da sua
boca estavam inclinados para baixo, dando-lhe uma expresso
severa. Os olhos escuros brilhavam na pintura, parecendo olhar
para quem os observava. Era um olhar duro, imperativo. Odo
tinha mandado fazer a pintura pouco depois de ter assumido o
cargo de mestre de estudos.
 - Bos mugit, equus hinnit, asinus rudit, elephans barrit...
 Do lado esquerdo da sala, os estudantes menos avanados
cantavam monotonamente, praticando formas verbais simples.
 - As vacas mugem, os cavalos relincham, os burros zurram, os
elefantes barrem...
 Odo regia com a sua mo esquerda, estabelecendo o compasso
do canto. Entretanto, os seus olhos percorriam a sala com uma
ateno treinada, vigiando o trabalho dos outros estudantes.
 Ludovico e Ebbo estavam ambos debruados sobre um salmo. Era
suposto estarem a decor-lo, mas, pela posio das suas
cabeas, quase juntas, dava a impresso que j no estavam
concentrados no trabaLho.


 107


Sem deixar de marcar o ritmo do canto com a outra mo, bateu
na nuca de ambos os rapazes com uma vara de madeira. E
gritaram e voltaram a debruar-se sobre as suas tbuas,
modelos de concentrao.
 Perto, o Joo estava a estudar um captulo de Donato. Era
evidente que estava com grandes dificuldades. Lia lentamente,
soletrando cada vogal e consoante a custo, parando
frequentemente para coar a cabea, embaraado por qualquer
palavra desconhecida.
 Sentada  parte dos outros - porque eles no tinham nada a
ver com ela - Joana dedicava-se  tarefa que Odo Lhe tinha
dado, preparando uma cpia da vida de Santo Antnio.
Trabalhava depressa: o seu estilete viajava pelo pergaminho
com segurana e preciso. No levantava os olhos e no se
distraa nem por um segundo. A sua concentrao era absoluta.
 Odo disse pouco depois:
 - J chega por hoje. Este grupo - apontou para os novatos -
est dispensado. O resto fica nos seus lugares at eu ter
visto o seu trabalho.
 Os novatos levantaram-se excitados, saindo to depressa
quanto o decoro lhes permitia. Os outros estudantes poisaram
os seus estiletes e olharam para Odo, na expectativa, ansiosos
por serem dispensados para gozarem a tarde quente.
 Joana continuou debruada sobre o seu trabalho.
 Odo franziu o sobrolho. Tinha de admitir que o zelo da
rapariga o tinha surpreendido. A sua mo estava morta por
utilizar a vara nela, mas, at aqui, ela ainda no lhe tinha
dado oportunidade. Parecia querer realmente aprender.
 Odo dirigiu-se para a sua secretria e debruou-se sobre
ela. Ela parou de trabalhar, surpreendida, seno mesmo - seria
possvel?desapontada.
 - Chamastes-me, senhor? Perdoai; estava concentrada no meu
trabalho e no vos ouvi. - disse a Joana delicadamente.
 Desempenha bem o seu papel, pensou Odo. Mas, no me engana.
Oh, ela fingia respeito e submisso sempre que ele se Lhe
dirigia, mas ele lia a verdade nos olhos dela. Na sua alma,
ela troava dele e desafiava-o. E isso, Odo no o toleraria.
 Debruou-se para examinar o trabalho dela, misturando os
pedaos de pergaminho, em silncio.
 - A mo - disse ele - no  suficientemente perfeita. Aqui e
aqui - apontou para o pergaminho com um longo dedo branco -
no fazes as tuas letras suficientemente redondas. Criana,
que explicao me ds para um trabalho to descuidado?



 108


 descuidado! Joana estava indignada. Tinha escrito dez
pginas de glosa - muito mais do que qualquer outro estudante
era capaz de fazer no dobro do tempo. O seu raciocnio era
exacto e - nem mesmo Odo o podia negar. Ela tinha visto os
seus olhos a brilharem, ao examinar uma passagem onde ela
tinha utilizado elegantemente a forma conjuntiva.
 provocava-a. Queria que ela o desafiasse, que Lhe
respondesse como criatura arrogante e hbrida. Ele sabia que
ela procurava violar a lei que Deus tinha imprimido no
universo, usurpando a justa autoridade dos homens sobre ela.
V, incitava-a ele. Diz o que pensas. Se ela se ela o fizesse,
ele tinha o que queria. mas a Joana lutou consigo mesma para
controlar as suas emoes. Ela sabia o que Odo estava a tentar
fazer. Mas, por muito que a provocasse ela no lhe daria esse
prazer. No lhe daria motivo para a dispensar da escola.
Mantendo a voz baixa, respondeu num tom neutro:
 - No tenho desculpa, senhor.
 - Muito bem - disse Odo. - Como castigo pela tua indolncia
vais copiar vinte e cinco vezes a passagem de Primeira a
Timteo, do captulo segundo, versculos onze e doze, com uma
letra certinha, antes de sares.
 Dentro da Joana fervia um ressentimento sombrio. Homem mau,
de ideias curtas! Se ao menos ela pudesse dizer-lhe o que
pensava dele!
 - Sim, senhor. - Manteve os olhos baixos para ele no poder
ler os seus pensamentos.
 Odo estava desapontado. Mas a rapariga no aguentaria isto
para sempre. Mais tarde ou mais cedo - a ideia fazia-o sorrir
- desistiria. E, quando assim fosse, ele estaria  espera.
 Deixou-a e foi ver dos outros estudantes.
 Joana suspirou e pegou no seu estilete. Primeira a Timteo,
segundo captulo, versculos onze e doze. Ela conhecia-o
bastante bem; no era a primeira vez que Odo lhe tinha dado
aquele castigo. Era uma citao de So Paulo: "No autorizo
que uma mulher ensine, nem domine um homem; ela deve ficar
quieta e calada com a submisso que lhe  devida."
 Estava a meio da cpia, quando comeou a sentir que qualquer
coisa no estava bem. Levantou os olhos. Odo tinha-se ido
embora. Os rapazes estavam  porta, a falar uns com os outros.
Era estranho.


 109


 Normalmente, apressavam-se a sair, mal as lies terminavam.
Olhou para eles, inquieta. Joo estava  margem do grupinho, a
ouvir.
 Os olhos de ambos cruzaram-se e ele sorriu e acenou-lhe.
 Ela devolveu-lhe o sorriso, depois, recomeou a escrever.
Mas, um arrepiozinho de alarme levantou-Lhe os cabelos na
nuca. Ser que os rapazes estavam a planear alguma coisa?
Arreliavam-na e atormentavam-na frequentemente - Odo no fazia
nada para o impedir - e apesar de ela suportar tudo em
silncio, tinha um medo terrvel das manigncias deles.
 Acabou as ltimas linhas  pressa e levantou-se para sair.
Os rapazes estavam  porta. Ela sabia que estavam  espera
dela. Levantou o queixo, determinada. O que quer que fosse que
tivessem planeado, ela passaria por eles rapidamente e saria.
 O seu casaco estava pendurado num cabide em madeira perto da
porta. Ignorando ostensivamente os rapazes, pegou no casaco,
aconchegou-o ao pescoo e levantou o capuz.
 Caiu-lhe na cabea uma coisa pesada e hmida. Ela tirou
imediatamente o capuz, mas no era capaz de retirar o que
tinha na cabea. O lquido pegajoso comeou a escorrer. Ela
tocou-Lhe com os dedos, que ficaram sujos com uma substncia
espessa e viscosa. Goma arbica.
 Um material comum nas salas de aula e nos scriptoria, e que,
misturado com vinagre e carvo, era usado para fazer tinta.
Ela limpou a mo ao casaco, mas a goma arbica estava pegada.
Freneticamente, voltou a puxar o capuz e soltou um grito de
dor: os cabelos estavam colados  parte de dentro.
 O grito dela provocou uma exploso de hilaridade entre os
rapazes. Ela dirigiu-se apressadamente para a porta. O grupo
dividiu-se quando ela se aproximou, formando duas alas.
 - Lusus naturae! - gritaram-lhe eles. - Aberrao da
natureza!
 A meio da fila, ela viu o Joo. Estava-se a rir e a gritar
insultos juntamente com os outros. Os seus olhos
encontraram-se; ele corou e desviou o olhar.
 Ela continuou a andar. Era tarde de mais quando reparou na
pea de roupa azul perto do cho. Tropeou e caiu
desajeitadamente de lado.
 O Joo, pensou ela. Foi ele que me fez tropear.
 Levantou-se, estremecendo com a dor lateral de que foi
acometida. A substncia repelente escorria do capuz para a sua
cara. Ela agarrou-a, tentando afast-la dos olhos, mas era
escusado. Escorreu gelatinosamente pelas suas sobrancelhas,
para as pestanas, colando-Lhe as plpebras e
impossibilitando-a de ver bem.


 110


 Os rapazes aproximaram-se, empurrando-a de um lado para o
outro a ver se ela voltava a cair. Ela ouviu a voz de Joo
entre eles, insultando-a. Atravs da espessa pelcula que
cobria os seus olhos, eLa rodava vertiginosamente em padres
diferentes de luz e no era capaz de chegar at  porta.
 Sentiu a picada sbita de uma lgrima.
 Oh, no, pensou.  isso que eles querem - fazer-me chorar e
pedir-lhes misericrdia, mostrar-Lhes fraqueza para poderem
troar dela, dizendo que ela era uma rapariga cobarde.
 No tero esse prazer. No lho darei.
 Endireitou-se, controlando-se para no chorar. Esta atitude
de controlo ainda os inflamou mais e eles comearam a
bater-Lhe com fora. O aluno mais velho bateu-lhe
violentamente na nuca.
 O golpe f-la cambalear e ela teve de se esforar para se
manter de p.
 Ouviu-se a voz de um homem a gritar  distncia. Ser que
Odo tinha vindo, finalmente, pr fim a isto?
 - O que se passa aqui?
 Desta vez, ela reconheceu a voz. Geraldo. Na voz dele havia
um timbre que ela nunca tinha ouvido. Os rapazes afastaram-se
dela to de repente que ela quase voltou a cair.
 Ento Geraldo ps o brao  volta dos seus ombros,
amparando-a. Ela apoiou-se nele, reconhecida.
 - Ento, Bernardo. - Geraldo dirigiu-se ao rapaz maior,
aquele que lhe tinha batido no pescoo. - No foi ainda na
semana passada que eu te vi na sala de armas, tentando fugir
to desesperadamente  espada do Eric, que no foste sequer
capaz de desfechar um nico golpe? E agora, vejo que no tens
qualquer dificuldade em lutar, quando a tua rival  uma
rapariga indefesa.
 Bernardo titubeou uma explicao, mas Geraldo interrompeu-o:
 - Podes dizer isso a Sua Senhoria, o bispo. Ele vai
mandar-te chamar mal saiba disto. O que ir acontecer ainda
hoje, acredita.
 O silncio em redor era absoluto. Geraldo pegou na Joana ao
colo. Ela sentiu com alguma surpresa a fora dos seus braos e
das suas costas. Ele era to alto e aprumado que ela nunca se
tinha apercebido de que era to forte. Ela afastou a cabea
para que a matria pegajosa que a cobria no manchasse a sua
tnica.
 A meio caminho para a sua montada, Geraldo voltou-se para
trs:
 - E mais uma coisa. Pelo que vi, ela  mais valente do que
vs. Sim, e mais esperta, tambm, apesar de ser uma rapariga.
 Joana sentiu que as lgrimas lhe chegavam aos olhos. Nunca
ningum a tinha defendido assim, a no ser Asclpios.


 111


 Geraldo era... diferente.
 Um boto de rosa cresce na escurido. No conhece o sol, mas
procura vencer a escurido em que se encontra, at que, um
dia, as suas ptalas se abrem, finalmente. Ento, a rosa
desabrocha, abrindo as suas ptalas  luz.
 Amo-o.
 O pensamento atingiu-a de uma forma to sbita que a
perturbou. O que significaria isto? Ela no podia estar
apaixonada por Geraldo. Ele era um nobre, um grande senhor e
ela no passava da filha de um humilde cnego. Ele era um
homem maduro, com vinte e cinco invernos, e a Joana sabia que
ele pensava nela como numa criana, apesar de, na realidade,
ela ter quase treze anos e, em breve, ser uma mulher crescida.
 Alm disso, ele tinha mulher.
 A cabea de Joana era um rodopio de emoes confusas.
 Geraldo colocou-a em cima do cavalo e montou atrs dela. Os
rapazes ficaram  porta, sem se atreverem a falar. Joana
encostou-se aos braos de Geraldo, sentindo a sua fora,
apoiando-se nela.
 - Agora - disse Geraldo, pondo o cavalo num galope brando -,
vou levar-te para casa.


 112


 @9


 O conde Geraldo, grafio vir illuster desta regio
longnqua no Norte do imprio, colocou o seu alazo novo a
galope ao aproximar-se de suas propriedades. O cavalo
correspondeu imediatamente, impaciente por chegar ao estbulo
quente e a um fardo de feno fresco. Ao lado, o cavalo que
transportava Osdag, servo fiel de Geraldo, tambm apressou o
passo, apesar do peso do veado abatido que transportava sobre
o dorso lhe dificultar a marcha.
 Tinha sido uma boa caada. Numa extravagncia - porque,
habitualmente, uma caada consistia num grupo de seis ou mais
homens - Geraldo tinha sado apenas na companhia de Osdag e de
dois ces de caa. Tinham tido sorte; encontraram logo pegadas
de veado, que Osdag assinalou com a sua corneta de caa e
examinou com um olhar treinado.
 - Um veado - anunciou ele - e grande.
 Seguiram-Lhe as pegadas durante quase uma hora, at o
avistarem numa pequena clareira. Geraldo levou o seu olifante
de marfim aos lbios e soprou vrios silvos em surdina. Os
ces partiram em perseguio da presa. No tinha sido fcil
apanhar o animal, com dois homens e dois ces, mas acabaram
por conseguir encurral-lo e Geraldo tinha-o abatido com um
nico golpe de lana. Tal como Osdag tinha dito, era um grande
e belo animal; com o Inverno a aproximar-se, traria um bom
contributo para as provises de Villaris.
 Ainda a alguma distncia, Geraldo viu a Joana sentada na
relva. Mandou Osdag  frente para os estbulos e cavalgou na
sua direco. Tinha-se afeioado surpreendentemente  rapariga
durante o ltimo ano. Ela era estranha, no havia dvidas -
muito solitria, muito sria para a idade - mas tinha bom
corao e uma inteligncia que atraa Geraldo.


 113 


 Aproximando-se do local onde Joana estava sentada, to
quieta como os relevos do portal de uma catedral, Geraldo
desmontou do alo e mandou-o seguir  frente. Joana estava to
concentrada que s deu pela sua presena j ele estava a umas
dez jardas dela. Ento, ela levantou-se, corando. Geraldo
estava divertido. Ela no era capaz de disfarar - uma
caracterstica que Geraldo achava muito atraente, to
diferente da... daquilo a que ele estava habituado. No havia
qualquer dvida de que ela estava apaixonada por ele.
 - Ests muito pensativa - disse ele.
 - Sim. - Ela levantou-se e aproximou-se para admirar o
alazo. Ele portou-se bem?
 - Muito bem.  uma bela montada.
 - Oh, sim.
 Ela acariciou a crina brilhante do cavalo. Ela sabia
apreciar um bom cavalo, talvez porque tinha crescido num lugar
onde no os havia. Tanto quanto Geraldo sabia, a famlia dela
vivia to pobremente como quaisquer coloni, apesar de o pai
ser cnego da Igreja.
 O cavalo soprou-lhe ao ouvido e ela riu-se, encantada. Uma
rapariga atraente, pensou Geraldo, apesar de no ser nenhuma
beleza, Os seus olhos grandes e inteligentes eram profundos,
as suas feies rudes e largas, assim como os seus ombros
largos davam-lhe u ar arrapazado, que se acentuava ainda mais
graas ao cabelo dourado, agora cortado, que lhe emoldurava o
rosto, mal lhe chegando ao cimo das orelhas. Depois daquele
episdio na escola, tinhham sido obrigados a cortar-lhe o
cabelo curto; no tinha havido outra maneira para tirar a goma
arbica que se tinha agarrado a todo o cabelo.
 - Em que ests a pensar?
 - Oh. Numa coisa que aconteceu hoje na escola.
 - Conta-me.
 Ela olhou para ele.
  verdade que as crias da loba branca nascem mortas?
 - O qu?
 Geraldo estava acostumado s suas perguntas invulgares, mas
esta era mais estranha do que invulgar.
 - O Joo e os outros rapazes estavam a dizer isso. Vai haver
uma caada  loba branca, a da floresta de Annapes.
 Geraldo abanou a cabea afirmativamente.
 - Sei qual . Terrvel e selvagem - caa sozinha, separada
da matilha, e no tem medo de nada. No ltimo Inverno, atacou
um grupo de viajantes e levou uma criana pequena antes que
algum tivesse podido fazer fosse o que fosse.


 114


Dizem que est com uma barriga cheia de crias - penso que
esto a pensar mat-la antes de ela parir?
 - Sim. O Joo e os outros esto entusiasmados porque Ebbo
disse que o seu pai Lhe prometeu que o levava na caada.
 - E ento?
 - Odo ops-se terminantemente. Ele prprio trataria de
desconvocar a caada, segundo disse, porque a loba branca  um
animal sagrado, uma manifestao viva da ressurreio de
Cristo.
 As sobrancelhas de Geraldo ergueram-se, cepticamente.
 Joana continuou:
 - As crias dela nascem mortas - disse Odo - e, ento, o pai
delas lambe-as durante trs dias e trs noites, at elas
regressarem  vida.  um milagre to raro e to sagrado que
nunca ningum o viu.
 - O que pensas tu disso? - perguntou Geraldo. Conhecia-a
suficientemente bem para saber que ela teria alguma coisa a
dizer.
 - Eu perguntei como se sabe que isso  verdade, se nunca
ningum o viu.
 Geraldo riu-se alto.
 - Aposto que o teu mestre no gostou da pergunta!
 - No. Disse que era irreverente. E tambm no era lgica
porque o momento da Ressurreio tambm nunca foi
testemunhado, e, no entanto, ningum duvida de que seja
verdade.
 Geraldo ps a mo em cima do ombro de Joana.
 - Deixa l, criana.
 Fez-se um silncio, como se ela hesitasse em prosseguir. De
repente, ela levantou os olhos, com o seu rosto jovem
concentrado e muito srio.
 - Como podemos ter a certeza de que a Ressurreio  uma
realidade? Se nunca ningum a testemunhou?
 Ele ficou to perturbado que deu um puxo nas rdeas e a
montada estacou. Geraldo ps uma mo sobre o seu flanco
castanho, acalmando-o.
 Como a maior parte dos nobres nesta regio norte do imprio,
proprietrios ricos que tinham atingido a idade adulta sob o
reinado do velho imperador Carlos, Geraldo, que era  moda
antiga, era um cristo num sentido bastante vago do termo.
Assistia  missa, dava esmolas e tinha o cuidado de guardar as
festas e as observncias exteriores. Seguia os ensinamentos da
doutrina da igreja que no interferiam com a execuo dos seus
direitos e deveres senhoriais e ignorava o resto.


 115


 Mas, conhecia o mundo e reconhecia perigo quando o via.
 - No perguntaste isso ao Odo!
 - Porque no?
 - Meu Deus!
 Isto podia significar sarilho. Geraldo no gostava de Odo, o
homenzinho de ideias mesquinhas e de esprito mais mesquinho
ainda. Mas, este era exactamente o tipo de arma de que Odo
precisava para embaraar Fulgncio e forar Joana a sair da
escola. Ou - nem queria pensar - pior ainda.
 - O que disse ele?
 - No respondeu. Ficou muito zangado e... ralhou-me.
 Ela corou.
 Geraldo assobiou baixinho.
 - Bom, o que esperavas? J tens idade para saber que h
perguntas que no se fazem.
 - Porqu?
 Os grandes olhos verdes-acinzentados, muito mais profundos e
sensatos do que os das outras crianas, fixaram-no
atentamente. Olhos pagos, pensou Geraldo, olhos que nunca
baixariam os olhos diante de um homem ou de Deus. Perturbava-o
pensar o que eles teriam passado para se tornarem assim.
 - Porqu? - voltou ela a perguntar, insistente.
 - Porque no.
 Ele estava irritado com a sua insistncia. s vezes, a
inteligncia da rapariga, que excedia em muito o seu
crescimento fsico, era inquietante.
 Algo - seria dor ou fria? - perpassou brevemente pelos
olhos de Joana e, depois, desapareceu.
 - Tenho de voltar para casa. A tapearia para a parede est
quase pronta e a vossa esposa pode precisar de ajuda para a
terminar.
 Virou-se, para se ir embora, de queixo erguido.
 Geraldo estava divertido. Tanto orgulho ferido numa menina
to jovem! A ideia de que Richild, a sua esposa, precisasse da
ajuda de Joana para a tapearia era absurda. Ela j se tinha
queixado frequentemente da falta de jeito de Joana para coser;
o prprio Geraldo j tinha presenciado os esforos frustrados
da rapariga para tentar que os seus dedos obedecessem, e tinha
visto os pobres resultados do seu trabalho.
 A sua irritao dissipou-se e ele disse:
 - No fiques ofendida. Se queres progredir neste mundo, tens
de ter mais pacincia com os teus superiores.


 116


 Joana olhou de lado para ele, atentando nas suas palavras,
depois, virou a cabea para trs e riu-se. O som era
maravilhoso, gutural e musical, contagioso. Geraldo estava
encantado. A rapariga era teimosa, zangava-se depressa, mas
tinha um corao generoso e um raciocnio rpido. segurou-lhe
no queixo.
 - No queria ser severo - disse ele. -  que, s vezes, tu
surpreendes-me. s to sensata nalgumas coisas e to estpida
noutras.
 Ela ia a comear a falar, mas ele colocou um dedo sobre os
seus lbios.
 - No sei a resposta para a tua pergunta. Mas, sei que a
prpria pergunta  perigosa. Muitos diriam que uma ideia
dessas  heresia. Percebes o que isso significa, Joana?
 Ela abanou a cabea gravemente.
 -  uma ofensa a Deus.
 - Sim.  isso e muito mais. Colocar uma pergunta dessas pode
significar o fim das tuas esperanas, Joana, do teu futuro.
Da... tua prpria vida.
 Pronto. Tinha-o dito. Os olhos verde-acinzentados
olharam-no, resolutos. No havia retrocesso. Ele tinha de lhe
contar tudo.
 - H quatro invernos atrs, um grupo de viandantes foi
apedrejado at  morte perto daqui, nos campos junto 
catedral. Dois homens, uma mulher e um rapaz pouco mais velho
do que tu s agora.
 Ele era um soldado aposentado, um veterano das campanhas
imperiais contra os brbaros obodritas.
 Ainda lhe subia o sangue ao rosto, s de pensar. A morte,
mesmo nas suas formas mais terrveis, no tinha segredos para
ele. Mas, horrorizava-o pensar naquela morte. Os homens
estavam desarmados, e os outros dois... tinham demorado muito
tempo a morrer. A mulher e a criana eram os que tinham
sofrido mais porque os homens tinham tentado proteg-las com
os seus corpos.
 - Lapidados - os olhos da Joana abriram-se de espanto.
 - Mas, porqu?
 - Eram armnios, membros de uma seita conhecida como os
paulicianos. Iam a caminho de Aachen e tiveram a pouca sorte
de passar por aqui precisamente depois de as vinhas terem sido
atingidas por uma tempestade de granizo. Nessas alturas, as
pessoas procuram encontrar um motivo para os seus problemas.
Quando o procuraram, ali estavam eles - forasteiros e com um
tipo de pensamento suspeito.


 117


Tempertaru, foi assim que lhes chamaram, por causa de dizerem
que eles tinham utilizado magia para desencadear uma violenta
tempestade. Fulgncio tentou defend-los, mas eles foram
interrogados e as suas ideias foram consideradas herticas.
Ideias, Joana - ele olhou-a com um olhar aflito - no muito
diferentes da pergunta que colocaste hoje a Odo.
 Ela ficou calada, olhando para longe. Geraldo no disse
nada, dando-lhe tempo.
 - Asclpios disse-me uma vez uma coisa parecida - acabou ela
por dizer. - Algumas ideias so perigosas.
 - Ele era um homem sensato.
 - Pois era. - Os seus olhos suavizaram-se com a
recordao.Vou ter mais cuidado.
 - Est bem.
 - Agora - disse ela - conta-me. Como podemos saber que a
histria da Ressurreio  verdadeira?
 Geraldo riu, desarmado:
 - Tu s incorrigvel.
 Ele despenteou-lhe o cabelo dourado tosquiado. Vendo que ela
continuava  espera de uma resposta, acrescentou:
 - Muito bem. Vou dizer-te o que penso.
 Os olhos dela brilharam de interesse. Ele voltou a rir-se.
 - Mas, agora no. Pistis precisa de descansar. Vem ter
comigo antes das vsperas e, ento, falaremos.
 A admirao da Joana transpareceu-lhe, indisfarvel, nos
olhos. Geraldo acariciou-lhe a face. Ela no passava de uma
criana, mas era inegvel que o tocava. Bem, o seu leito
matrimonial era suficientemente frio, Deus o sabia, para que
ele apreciasse o calor de um afecto to inocente, sem que isso
lhe pesasse muito na conscincia.
 O cavalo voltou a assoprar ao ouvido da Joana. Ela disse:
 - Tenho uma ma. Posso dar-lha?
 Geraldo acenou afirmativamente.
 - Pistis merece uma recompensa. Portou-se bem, hoje; um dia,
h-de ser a melhor montada de caa.
 Ela meteu a mo no seu saco e tirou uma mazinha verde.
Chegou-a ao focinho do cavalo que a lambeu gentilmente,
depois, engoliu-a. Quando ela retirou a mo, Geraldo viu uma
mancha vermelha. Ela apercebeu-se de que ele tinha visto e
procurou esconder a mo, mas ele apanhou-a e virou-a para a
luz. Na palma da mo, havia um corte profundo, um pedao de
carne cortada e sangue seco.


 118


 - Odo? - disse Geraldo baixinho.
 - Sim.
 Ela gemeu quando ele tocou cuidadosamente nos limites da
ferida. Era evidente que Odo tinha utilizado a vara mais do
que uma vez e com bastante fora; a ferida era profunda e
precisava de ser tratada imediatamente, para no infectar.
 - Temos de tratar disto imediatamente. Vai para casa; vou l
ter j.
 Teve de se esforar para manter uma voz firme. Ficou
surpreendido com a intensidade das suas prprias emoes. Odo
tinha todo o direito de a castigar. Alis, tinha talvez sido
melhor que ele o tivesse feito, porque, tendo vingado a sua
clera desta forma, era menos provvel que levasse a questo
adiante. Mesmo assim, a viso da ferida provocou em Geraldo
uma fria irracional. Teria desejado esganar Odo.
 - No  to mau como parece. - Joana olhava-o atentamente
com aqueles olhos inteligentes e profundos.
 Geraldo voltou a examinar a ferida. Era funda, precisamente
na parte mais sensvel da mo. Qualquer outra criana teria
chorado e gritado de dor. Ela no tinha dito uma palavra, nem
sequer depois de ter sido interpelada.
 No entanto, algumas semanas antes, quando Lhe tinham cortado
o cabelo para lhe tirar a goma arbica, tinha gritado e lutado
como uma sarracena. Depois, quando Geraldo lhe perguntou
porque tinha ela resistido daquela maneira, ela no foi capaz
de dar uma explicao melhor do que dizer que o som das
tesouras a cortar-Lhe o cabelo a tinham assustado.
 Uma rapariga estranha, no havia dvida. Talvez fosse por
isso que ele a achava interessante.
 - Pai!
 Dhuoda, a filha mais nova de Geraldo, corria pela colina
abaixo, na direco onde Joana e ele se encontravam, no meio
das rvores. Eles esperaram que ela os apanhasse, corada e sem
flego da corrida.
 - Pai!
 Dhuoda levantou os braos ansiosa e Geraldo pegou-lhe e
levantou-a no ar, fazendo-a rodopiar, enquanto ela gritava
exuberantemente. Quando ele achou que j bastava, poisou-a no
cho.
 Corada e excitada, Dhuoda puxou-o pelo brao.
 - Oh, Pai, anda ver! A Lupa pariu cinco cachorros. Posso
ficar com um, Pai? Pode dormir na minha cama?
 Geraldo riu-se.


 119


 - Veremos. Mas, primeiro... - ele agarrou-a com fora porque
ela j se tinha virado para correr de volta a casa,  frente
dele -, primeiro, leva a Joana para casa; ela tem a mo ferida
e precisa de a tratar.
 - A mo? Mostra-me - pediu ela  Joana, que levantou a mo
com um sorriso magoado.
 - Ooooooh. - Os olhos de Dhuoda abriram-se de fascnio
horrorizado, ao ver a ferida. - Como foi?
 - Ela conta-te no caminho para casa. - Interrompeu Geraldo,
impaciente. Ele no estava a gostar do aspecto da ferida;
quanto mais cedo fosse tratada, melhor. - Despacha-te e faz
como eu te disse.
 - Sim, Pai. - Dhuoda disse para a Joana simpaticamente. -
Di muito?
 - No o suficiente para me impedir de chegar primeiro ao
porto! - respondeu Joana e desatou a correr.
 Dhuoda gritou de alegria e correu atrs dela. As duas
raparigas subiram a colina juntas, rindo.
 Geraldo ficou a olhar, sorrindo, mas os seus olhos estavam
preocupados.



 O Inverno chegou, assinalado indelevelmente na cabea da
Joana pela sua passagem para a idade adulta. Tinha treze anos
e devia estar a contar com isso, mas, mesmo assim, apanhou-a
de surpresa - o sbito aparecimento de uma ndoa
castanha-escura na sua tnica de linho e uma dor forte na
barriga. Apercebeu-se imediatamente do que se tratava - j
tinha ouvido a sua me e as mulheres da casa de Geraldo a
falarem sobre isso muitas vezes e tinha-as visto a lavarem os
seus panos todos os meses. Joana falou com uma criada, que se
apressou a trazer-lhe um monte de panos limpos, piscando o
olho, como quem sabe, quando lhos entregou.
 Joana detestava o que se estava a passar. No s por causa
da dor e do incmodo, mas tambm por causa do significado que
aquilo tinha. Sentia-se trada pelo seu prprio corpo, que
parecia estar a ganhar cada dia contornos novos e
desconhecidos. Quando os rapazes da escola comearam a fazer
reparos trocistas aos seus seios que cresciam, ela atou-os
firmemente com pedaos de pano. Doa, mas valia a pena. O seu
gnero tinha sido sempre uma fonte de infelicidade e
frustrao, desde que ela se lembrava, e ela pretendia lutar
tanto quanto possvel contra a emergncia da prova da sua
feminilidade.


 120


 * * *


 Wintarmanoth trouxe um gelo terrvel, que atingiu a terra
como um punho de ferro. O frio era tanto que fazia bater os
dentes. Os lobos e os outros predadores da floresta
aproximaram-se da cidade mais do que nunca; eram poucos os
aldees que se atreviam a sair sem motivo muito forte.
 Geraldo tentou convencer Joana a no ir  escola, mas no a
conseguiu dissuadir. Todas as manhs, excepto ao sbado, ela
vestia um grosso manto de l, enrolando-o ao corpo, de forma a
no entrar o vento; depois, enrijecendo o corpo contra o frio,
percorria as duas milhas at  catedral. Quando vieram os
ventos serranos e frigidssimos de Hornung, espalhando o frio
pelos caminhos, Geraldo mandou selar um cavalo todos os dias
para ele prprio levar e trazer a Joana da escola.
 Apesar de a Joana ver o seu irmo na escola todos os dias,
ele nunca mais lhe tinha falado. Continuava a ser
tremendamente lento nos estudos, mas a sua arte no uso da
espada e da lana tinham-lhe alcanado o respeito da parte dos
outros rapazes e ele apreciava visivelmente a sua companhia.
No desejava perder o seu recm-descoberto sentimento de
pertena pelo facto de reconhecer uma irm que era um
embarao. Afastava-se sempre que ela se aproximava.
 As raparigas da cidade tambm se afastavam dela. Olhavam
para a Joana com desconfiana, excluindo-a dos seus jogos e
mexericos. Ela era uma aberrao da natureza - tinha a
inteligncia de um homem, o corpo de uma mulher, no encaixava
em lado nenhum; era como se pertencesse a um terceiro sexo,
amorfo.
 Ela no tinha companhia. Excepto a de Geraldo,  claro. Mas,
Geraldo bastava. Joana ficava feliz s de estar perto dele, de
falar, rir e conversar com ele sobre coisas de que no podia
falar com mais ningum no mundo.
 Num dia frio, depois de ambos regressarem da escola, ele
fez-Lhe um sinal com a mo.
 - Anda c. - disse ele. - Quero mostrar-te uma coisa.
 Levou-a atravs do grande vestbulo de entrada no solar at
ao pequeno escritrio onde guardava os seus papis. Pegou numa
coisa comprida e rectangular e deu-lha.
 Um livro! Um tanto velho e gasto, mas intacto. Em belas
letras gravadas a ouro na capa de madeira estava escrito o
ttulo: De rerum natura.


 121


 De rerum natura. A grande obra de Lucrcio! Asclpios
tinha-lhe falado muitas vezes da sua importncia. S existia
uma cpia, segundo se dizia, guardada cuidadosamente na grande
biblioteca de Lorsch. Mas, Geraldo estava a oferecer-lho to
naturalmente como se fosse um pedao de carne.
 - Mas, como...? - ela levantou os olhos curiosos para ele.
 - O que est escrito pode ser copiado - respondeu ele com um
sorriso cmplice. - Pelo preo que custou, que foi bastante. O
abade regateou bastante, dizendo que tinha poucos escribas. E,
de facto, levou mais de dez meses a termin-lo. Mas, aqui
est. No custou nem mais um denrio do que vale.
 Os olhos de Joana brilharam, quando apalpou a capa do livro.
Durante todos os meses em que tinha estudado na escola, nunca
lhe tinha sido permitido trabalhar com textos como aquele. Odo
tinha-a proibido terminantemente de ler as grandes obras dos
clssicos da biblioteca da catedral, restringindo-a ao estudo
dos textos sagrados, que, segundo ele dizia, eram mais
adequados  sua mente feminina, fraca e impressionvel.
Orgulhosa como era, no tinha deixado que ele visse como isso
a desgostava. V, pe grades na tua biblioteca, pensou ela,
desafiadora. No podes pr grades no meu pensamento. Mesmo
assim, tinha ficado com uma fria, sabendo os tesouros de
conhecimento que estavam fora do seu alcance. Geraldo tinha
reparado; ele parecia saber sempre o que ela estava a pensar e
a sentir. Como poderia ela no o amar?
 - V, l-o - disse Geraldo. - E quando tiveres terminado,
vem ter comigo e falaremos sobre o que tu estiveste a ler. O
que ele diz vai-te interessar muito.
 Os olhos de Joana abriram-se de espanto.
 - Ento...
 - Sim. J o li. Ests surpreendida?
 - Sim. Quer dizer, no... mas...
 As bochechas de Joana coraram, enquanto titubeava uma
resposta. Ela no sabia que ele sabia ler em latim. Era raro
os nobres e os senhores das terras saberem sequer ler e
escrever. Era um intendente, um homem letrado, que geria os
seus bens e redigia a correspondncia necessria.
Naturalmente, Joana tinha pensado que...
 Geraldo riu-se, divertindo-se com o seu embarao.
 - No faz mal. Tu no podias saber. Eu estudei durante
alguns anos na Escola Palatina, quando o velho imperador
Carlos Magno ainda era vivo.
 - Na Escola Palatina!


 122


 O nome era legendrio. A escola fundada pelo imperador tinha
algumas das melhores cabeas da poca. O grande Alcuno tinha
sido professor naquela escola.
 - Sim. O meu pai mandou-me para l. Queria que eu fosse um
estudioso. O trabalho era interessante e eu gostava bastante,
mas era jovem e no tinha temperamento para levar uma vida to
sedentria. Quando o imperador convocou homens para lutarem
contra os obodritas, eu fui, apesar de s ter treze anos.
Estive ausente durante anos, talvez ainda estivesse, mas,
entretanto, morreu o meu irmo mais velho e eu fui chamado a
casa para tomar conta da herana que lhe pertencia.
 Joana olhou para ele, pensativa. Ele era um estudioso, um
homem de letras! Como era possvel que ela no tivesse
percebido? Ela devia ter adivinhado pela forma como ele falava
com ela acerca dos seus estudos.
 - V, vai-te embora - enxotou-a Geraldo amigavelmente -, j
sei que no podes esperar. Ainda falta uma hora para a ceia.
Mas, est atenta  campainha.
 Joana correu pelas escadas acima, a caminho do dormitrio
que partilhava com Dhuoda e Gisla. Deitou-se na sua cama e
abriu o livro. Leu lentamente, saboreando as palavras, parando
ocasionalmente para tomar nota de uma frase ou raciocnio
particularmente elegante. Quando a luz do quarto desapareceu,
ela acendeu uma vela e continuou a trabalhar.
 Continuou a ler, esquecendo-se completamente do tempo e
teria perdido a ceia, se Geraldo no tivesse acabado por
mandar uma criada cham-la.


 As semanas passaram depressa, cheias do entusiasmo que Joana
e Geraldo punham no estudo em conjunto. Ao acordar, Joana
pensava, impaciente, como haveria de fazer para que o tempo
passasse, at ao fim das vsperas, quando, depois da ceia e
das devoes devidas, ela e Geraldo podiam retomar a sua
leitura de Lucrcio.
 De rerum natura era uma revelao - um livro maravilhoso,
cheio de conhecimento e de sabedoria. Lucrcio tinha dito que,
para descobrir a verdade, bastava observar o mundo natural.
Era uma ideia que fazia todo o sentido no tempo de Lucrcio,
mas que era extraordinria, seno mesmo revolucionria, no
anno domini de 827. Mesmo assim, era uma filosofia que seduzia
profundamente o tipo de mentes como a de Joana e de Geraldo.
 De facto, foi por causa de Lucrcio que Geraldo capturou a
loba branca.


 123


 Um dia, quando Joana regressou da escola, Villaris estava em
alvoroo. Os ces da casa ladravam desesperadamente; os
cavalos galopavam como loucos em torno do permetro dos seus
currais; toda a propriedade ecoava com sons ensurdecedores.No
meio do ptio, Joana descobriu o motivo de tanta excitao.
Uma grande loba branca lutava, debatia-se e uivava
furiosamente dentro das grades de uma gaiola oblonga. As
grades da gaiola, construda em madeira com trs polegadas de
grossura, rangiam sob as investidas da besta em fria. Geraldo
e os seus homens cercavam a rea, com as suas lanas e os seus
arcos a postos, no fosse a criatura conseguir libertar-se.
Geraldo fez sinal a Joana para que ela se mantivesse longe.
Quando viu os estranhos olhos cor-de-rosa da loba, chispando
de dio, Joana deu consigo mesma a desejar que as grades
resistissem.
 Depois de algum tempo, a loba cansou-se e ficou parada, com
as pernas slidas e a cabea baixa, uivando. Geraldo baixou a
lana e foi ter com Joana.
 - Agora, vamos testar a teoria do Odo!
 Durante a noite, ficaram os dois de viglia, determinados a
no perder o momento do parto. No aconteceu nada. A loba
vagueava pela jaula e no mostrava sinais de parto iminente.
J quase tinham comeado a duvidar que a besta estava prenhe,
quando, subitamente, ela entrou em trabalho de parto.
 Aconteceu durante o turno de vigia de Joana. A loba
levantava-se e deitava-se no cho, como se no conseguisse
sentir-se confortvel. Finalmente, comeou a roncar e a ter
contraces. Joana correu para ir chamar Geraldo e encontrou-o
no solar com Richild. Dirigindo-se a eles como um torvelinho,
Joana esqueceu-se dos cumprimentos normais.
 - Vem depressa! J comeou!
 Geraldo levantou-se imediatamente. Richild franziu o
sobrolho e parecia que ia a dizer alguma coisa, mas no havia
tempo a perder. Joana virou-lhe as costas e correu pela
galeria coberta que dava acesso ao ptio principal. Geraldo,
que tinha parado para pegar numa tocha, foi logo atrs dela.
Nenhum deles reparou na expresso de Richild, quando os viu
partir.
 Quando chegaram ao ptio, a loba estava em pleno trabalho de
parto. Joana e Geraldo viram aparecer uma patinha, seguida de
outra e depois uma cabecinha perfeita. Finalmente, com um
ltimo esforo, um corpinho negro escorregou para a palha no
cho da jaula.


 124


 Joana e Geraldo aproximaram-se para o ver na escurido da
jaula.
 O lobinho recm-nascido estava inerte, completamente coberto
de placenta, por isso, eles mal conseguiam distinguir a cabea
da cauda.
 A me cortou a placenta e comeu-a.
 Geraldo levantou a tocha e aproximou-a das grades da jaula
para se ver melhor. O recm-nascido parecia no estar a
respirar.
 A me entrou novamente em trabalho de parto. J tinham
passado alguns momentos e o recm-nascido continuava a no se
mexer ou a dar qualquer sinal de vida.
 Joana olhou para Geraldo desanimada. Era assim? Ser que ele
jazia ali inerte,  espera que o seu pai lhe instilasse a
vida? Ser que Odo, afinal, tinha razo?
 Se tinha, ento, eles tinham-no morto porque o tinham
afastado do pai que lhe daria a vida.
 A me voltou a uivar; saiu um segundo corpinho, caindo por
cima do outro. O impacto sacudiu o primognito, que se mexeu e
chiou em sinal de protesto.
 - Olha! - disseram os dois um para o outro e apontaram ao
mesmo tempo, exultantes. Riram-se, contentes com o resultado
da sua experincia.
 Os dois cachorrinhos aproximaram-se da me para mamarem,
mesmo antes de ela ter terminado de dar  luz o terceiro.
 Juntos, Geraldo e Joana viram o nascimento desta nova
famlia. As suas mos procuraram-se uma  outra no escuro,
encontrando-se e apertando-se em sintonia.
 Joana nunca se tinha sentido to perto de ningum em toda a
sua vida.


 - Sentimos a vossa falta nas vsperas - disse Richild,
acusadoramente, do prtico. -  a noite de So Norberto,
esqueceste-vos?  um fraco exemplo quando o senhor da casa no
cumpre as sagradas devoes.
 - Tinha mais que fazer - respondeu Geraldo friamente.
 Richild comeou a responder, mas a Joana interrompeu,
excitada:
 - Estivemos a ver a loba a parir as crias! Elas no nascem
mortas, apesar do que as pessoas dizem - disse ela, exultante
- Lucrcio tinha razo!
 Richild ficou a olhar para ela como se ela fosse maluca.
 - Tudo o que acontece na natureza tem uma explicao -
continuou Joana -, estais a ver? Os cachorros nasceram vivos,
sem qualquer necessidade de sobrenatural, tal como Lucrcio
disse!


 125


 - Que conversa mpia  essa? Criana, ests febril?
 Geraldo meteu-se rapidamente entre elas.
 - Vai-te deitar, Joana - disse ele, por cima do ombro dela -
j  tarde.
 Levou Richild pelo brao e meteu-a em casa.
 Joana ficou onde estava, a ouvir a voz da Richild a ecoar,
estridente, no ar calmo da noite.
 -  o que d educar uma rapariga acima das suas capacidades
de aprender. Geraldo, tens de deixar de a encorajar nestas
coisas aberrantes!
 A Joana voltou lentamente para o seu quarto de dormir.
 Depois de a loba ter parido as suas crias, mataram-na. Ela
era perigosa. J tinha atacado e levado uma criancinha e uma
assassina daquelas no podia andar  solta. O ltimo cachorro
a nascer era fraco e sobreviveu apenas alguns dias. Mas, os
outros dois cresceram, tornando-se cezinhos robustos e vivos,
cujas brincadeiras encantavam Joana e Geraldo. Um deles tinha
o plo castanho e cinzento, tpico dos lobos da floresta nesta
parte da terra dos Francos; Geraldo ofereceu-o a Fulgncio,
que teve um prazer especial em o mostrar a Odo. O outro
cachorro, o primognito, tinha o plo branco e os olhos opacos
e raros da sua me; ficaram com ele. Joana e Geraldo
puseram-lhe o nome de Luke, em honra de Lucrcio, e o seu
afecto pelo cachorro vivao fortaleceu ainda mais os laos
existentes entre eles.


 126


 @10


 Ia haver uma feira em So Dinis! A notcia era
surpreendente - no havia uma feira ou mercado em todo o reino
h mais anos do que as pessoas eram capazes de contar. Apesar
disso, alguns dos mais velhos - como Burchard, o moleiro -
lembravam-se de um tempo em que costumava haver duas ou trs
feiras por ano na terra dos francos. Era o que diziam, apesar
de ser difcil de acreditar.  claro que tinha sido no tempo
do imperador Carlos de boa memria e as estradas e pontes
ainda estavam em bom estado, no havia ladres e charlates a
assaltarem os caminhos, nem o terror selvagem dos escandinavos
- Deus nos proteja! - a assolarem o pas inesperadamente.
Agora, as estradas eram demasiado perigosas para que as feiras
fossem rentveis; os mercadores no se atreviam a transportar
mercadorias valiosas por estradas sem segurana e as pessoas
no tinham vontade de arriscar a vida em viagens.
 Mesmo assim, ia haver uma feira. E seria de admirar que
metade do que o arauto, que trouxera as notcias, tinha dito,
fosse verdade. Haveria mercadores de Bizncio, que traziam
especiarias, sedas e brocados exticos; mercadores venezianos
com edredes de penas de pavo e peles verdadeiras;
negociantes de escravos que traziam a sua carga humana de
eslavos e saxnios; lombardos com sacos de sal empilhados
dentro de navios com as suas velas laranja a brilharem com os
signos do zodaco e toda a espcie de divertimentos:
trapezistas e acrobatas, contadores de histrias, momos, ces
e ursos treinados.
 So Dinis era longe dali - na realidade, ficava a umas cento
e cinquenta milhas de Dorstadt, uma noite de viagem, por
estradas sinuosas e rpidos. Mas, ningum se importava com
isso. Toda a gente que conseguisse arranjar um cavalo, uma
mula ou at mesmo um pnei, iria.


 127


 A comitiva de Geraldo, prpria de um conde, era grande.
Quinze fideles de Geraldo, bem armados, iriam com ele a
cavalo, assim como vrios criados para servirem a famlia.
Joana iria e, por especial favor - Joana tinha a certeza que
tinha sido ideia de Geraldo - o Joo tambm tinha sido
convidado. Richild tinha preparado tudo cuidadosamente;
tinha-se esforado para que nada Lhes faltasse em conforto e
segurana durante a viagem. H dias que as carruagens tinham
sido levadas para o ptio do castelo e carregadas com
provises.
 Na manh da partida, Villaris agitava-se. Os criados corriam
de um lado para o outro, alimentando e carregando os cavalos;
o despenseiro e os moos de cozinha suavam ao forno, cuja alta
chamin exalava roldes de fumo; o ferreiro trabalhava
furiosamente na forja, terminando uma quantidade de
ferraduras, pregos e peas de carruagem suplentes. Os sons
mais diversos misturavam-se numa tremenda confuso: as criadas
gritavam umas com as outras, erguendo a voz acima dos gritos
mais grossos e dos assobios dos valetes, as vacas mugiam e
batiam com os cascos, enquanto eram mugidas, um burro
sobrecarregado zurrava alto, em sinal de protesto contra a sua
carga. A actividade levantava uma quantidade enorme de p, que
pairava no ar, iluminado pela luz do sol primaveril como se
fosse ouro em p.
 Joana passeava pelo ptio, observando, impaciente e atenta,
os ltimos preparativos. Luke saltava  volta dela, com as
orelhas levantadas e os olhos opalescentes brilhantes de
ansiedade. Tambm ia, porque, segundo Geraldo tinha dito, o
cachorro de seis meses de idade estava to ligado a Joana que
no havia forma de os separar. Joana riu-se e fez uma festa no
plo de neve de Luke. Ele lambeu-lhe a palma da mo e
sentou-se, de boca muito aberta, como se tambm se estivesse a
rir.
 - Se no tens mais nada que fazer se no estar a olhar, d
uma ajuda ao despenseiro.
 Richild empurrou a Joana para a cozinha, onde o despenseiro
fazia gestos frenticos com as mos cobertas de farinha. Tinha
estado a p durante toda a noite, a fazer biscoitos e empadas
para a viagem.
 A meio da manh, o squito preparou-se para partir. O
capelo fez uma pequena orao para que os viajantes chegassem
sos e salvos ao seu destino e o cortejo de carruagens e
cavalos saiu lentamente para a estrada. Joana ia no primeiro
carro, atrs de Geraldo e dos seus homens, juntamente com
Richild, Gisla e Dhuoda e as trs raparigas da aldeia aias das
senhoras. As mulheres recostaram-se nos bancos em madeira rija
quando as rodas comearam a saltar sobre a estrada.


 128


Luke corria ao lado do carro, vigiando Joana. Ela olhou para
diante e viu o Joo a cavalgar com os homens, sentado
confortavelmente num excelente jumento ruo.
 Eu monto to bem como ele, pensou Joana. Geraldo tinha
passado muitas horas a ensin-la a montar e, agora, ela era
uma boa amazona.
 Como se se tivesse apercebido subitamente de que estava a
ser observado, Joo virou-se e sorriu-lhe de uma forma
simultaneamente ntima e maliciosa. Depois, esporeou a montada
e ps-se a cavalgar ao lado de Geraldo. Comearam a falar um
com o outro; Geraldo deitou a cabea para trs e comeou-se a
rir.
 Uma onda de cime invadiu o corao da Joana. O que teria
Joo a dizer a Geraldo que o divertisse tanto? No tinham nada
em comum. Geraldo era um homem instrudo, um erudito. O Joo
no percebia nada dessas coisas. E, no entanto, cavalgava ao
lado de Geraldo, falando com ele, rindo com ele, enquanto ela
seguia numa miservel carroa.
 Porque era uma rapariga. No era a primeira vez que ela
amaldioava o golpe do destino que a tinha feito mulher.
 -  feio ficar a olhar, Joana.
 Os olhos escuros de Richild olhavam desdenhosamente para
Joana.
 Joana desviou os olhos de Geraldo.
 - Perdo, senhora.
 - Mantm as tuas mos cruzadas sobre o regao - mandou
Richild - e os olhos baixos, como  prprio de uma mulher
composta.
 Joana obedeceu-lhe.
 - Um comportamento apropriado - continuou Richild -  uma
virtude maior numa senhora do que saber ler - coisa que
saberias se tivesses sido educada de forma conveniente.
 Olhou para Joana friamente durante alguns momentos, antes de
voltar a concentrar-se no seu bordado.
 Joana olhava para ela pelo canto do olho. Como ela era
bonita, segundo aquilo que na poca era considerado como
beleza: uma tez clara, austera, ombros estreitos. A sua pele
leitosa esticava-se sobre uma testa altssima, adornada por
ricos cachos de espesso cabelo negro. Os seus olhos,
protegidos por longas pestanas negras, eram de um castanho to
escuro que pareciam quase pretos. Joana sentiu inveja. Richild
era tudo quanto ela no era.
 - Anda, tens de nos ajudar a decidir - disse Gisla, a filha
mais velha,  Joana. - Que vestido hei-de usar para a festa de
casamento? - ria-se, excitada.


 129


 Gisla tinha quinze anos. Era menos de um ano mais velha do
que Joana e j estava prometida ao conde Hugo, um nobre
neustriano. Geraldo e Richild estavam satisfeitos porque a
unio era um bom arranjo. O casamento seria dali a seis meses.
 - Oh, Gisla, tens tantas coisas bonitas.
 E era verdade. Joana tinha ficado espantada com o tamanho do
guarda-roupa de Gisla - suficiente para usar uma tnica
diferente cada dia, se ela quisesse. Em Ingelheim, uma
rapariga s tinha uma tnica, em l grossa, se tivesse sorte,
e que guardava ciosamente, porque tinha de durar muitos anos.
 - Tenho a certeza de que o conde Hugo te vai achar bonita
com qualquer uma.
 Gisla voltou a rir-se. Tinha bom corao, mas no era muito
inteligente. Comeava a rir-se nervosamente cada vez que o
nome do noivo era mencionado.
 - No, no - disse ela, sem flego. - No te podes escapar
assim to facilmente. Ouve. A me acha que devo usar a azul,
mas eu acho que devo usar a amarela. Anda, responde-me como
deve ser.
 Joana suspirou. Gostava de Gisla, apesar da sua futilidade e
do seu comportamento tolo. Partilhavam a mesma cama desde a
primeira noite em que Geraldo tinha trazido Joana do palcio
do bispo, cansada e assustada. Gisla tinha recebido bem Joana,
tinha sido gentil com ela e Joana tinha-lhe ficado eternamente
grata. Mesmo assim, era inegvel que aquela conversa com Gisla
seria desesperante porque os seus interesses se confinavam a
roupas, comida e homens. Nas ltimas semanas, no tinha parado
de falar do casamento, o que j comeava a enervar toda a
gente.
 Joana sorriu, fazendo um esforo por ser simptica.
 - Acho que devias usar a azul. Condiz com os teus olhos.
 - A azul? A srio? - Gisla levantou as sobrancelhas. - Mas,
a amarela tem um lindo galo  frente.
 - Ento, a amarela.
 - Mas, a azul fica mesmo bem com os meus olhos. Talvez seja
melhor. O que achas?
 - Eu acho que se volto a ouvir falar nessa estpida festa de
casamento, comeo a gritar - disse Dhuoda.
 Tinha nove anos de idade e tinha cimes da ateno que a
irm mais velha tinha atrado nas ltimas semanas.
 - Quem  que quer saber a cor da tnica que tu vais usar!
 - Dhuoda, esse reparo no  prprio de uma senhora.


 130


 Richild levantou os olhos do bordado para repreender a filha
mais nova.
 - Perdo - disse Dhuoda a Gisla, contristada.
 Mas, mal a me desviou os olhos, mostrou a lngua a Gisla,
que sorriu, divertida.
 Richild disse:
 - Quanto a ti, Joana, no tens nada que dar opinio. Gisla
usar o que eu achar melhor.
 Joana corou com a repreenso, mas no disse nada.
 - O conde Hugo  um homem muito elegante - disse Berta, uma
das criadas.
 Era uma rapariga corada de pouco mais de dezasseis invernos,
nova no servio, tendo sido trazida havia um ms para
substituir uma rapariga que tinha morrido de tifo.
 -  to elegante na sua montada, com o casaco e as luvas de
arminho.
 Gisla riu-se encantada. Encorajada, Berta continuou:
 - E, senhora, da maneira como ele olha para vs, no importa
que tnica usais. Na noite de npcias, ele depressa vo-la
tirar!
 Ela riu-se ruidosamente, satisfeita com a sua graa. Gisla
ficou sufocada. As outras ficaram caladas, olhando para
Richild.
 Richild pousou o bordado, com os olhos ensombrados de ira.
 - O que disseste? - perguntou ela num tom ameaadoramente
srio.
 - Ah... nada, senhora - disse Berta.
 - Oh, Me, de certeza que ela no tinha inteno... - Gisla
tentou intervir em vo.
 - Grosserias e obscenidades! No as tolerarei na minha
presena!
 - Perdo, senhora - disse Berta, arrependida. Mas continuava
a sorrir um pouco, no acreditando que Richild estivesse
realmente zangada.
 Richild estendeu o brao na direco da parte de trs do
carro.
 - Fora.
 - Mas, senhora! - disse Berta, compreendendo, finalmente, a
dimenso do seu erro. - Eu no queria...
 - Fora! - Richild foi inflexvel. - Em penitncia pela tua
impudiccia, irs a p o resto do caminho.
 Era uma viagem difcil at So Dinis. Berta olhou para os
seus ps, calados com coturnos meios rotos. Joana teve pena
dela. O seu reparo tinha sido desajeitado e impensado, mas a
rapariga era jovem e nova no servio e era bvio que no tinha
pretendido ofender ningum.


 131


 - Recitars alto o Pai-Nosso enquanto caminhas.
 - Sim, senhora - disse Berta, resignada.
 Saltou do carro, tomou posio ao seu lado e, pouco depois,
comeou a recitar.
 - Pater Noster qui es in caelis...
 Recitava numa lengalenga cuja estranha melodia acentuava as
palavras erradas. Joana tinha a certeza que ela no sabia o
que estava a dizer.
 Richild regressou ao seu bordado. O seu cabelo negro
brilhava ao sol, quando debruou a cabea sobre o seu tear. Os
seus lbios estavam apertados, os olhos endurecidos pela
fria, quando meteu a agulha no tecido grosso.
  uma mulher infeliz, pensou Joana. Era difcil de
compreender, uma vez que era casada com Geraldo. Mas, o
casamento deles tinha sido arranjado e, apesar de muitos
desses casamentos terem acabado por ser felizes, este no o
era. Dormiam em camas separadas e, a acreditar nos comentrios
dos criados, no se conheciam como marido e mulher havia
muitos anos.
 - Queres montar?
 Geraldo sorriu para ela do alto do seu garanho. Na sua mo
direita, segurava as rdeas de Boda, uma gua baia de que ele
sabia que Joana gostava particularmente.
 Joana corou, embaraada pelo que estava a pensar. Estava to
perdida nos seus pensamentos que no tinha reparado que
Geraldo tinha ido buscar Boda ao grupo de montadas e que a
tinha trazido para junto da carruagem.
 - Montar com os homens? - disse Richild. - No o permitirei!
No seria prprio!
 - Que disparate! - respondeu Geraldo. - No tem mal nenhum e
a rapariga quer montar, no queres, Joana?
 - Eu... eu... - disse ela, desajeitadamente, apanhada de
surpresa e sem vontade de ofender Richild ainda mais.
 Geraldo levantou um sobrolho.
 - Claro, se preferes ficar no carro...
 - No! - disse Joana rapidamente. - Por favor, adorava
montar a Boda.
 Levantou-se e estendeu os braos. Geraldo riu-se e pegou-lhe
pelos pulsos, levantando-a no ar, at a sentar na sela.
Depois, mantendo os cavalos prximos um do outro, passou-a
para o dorso da Boda.
 Ela sentou-se na sela. Na carruagem, Gisla e Dhuoda olhavam
surpreendidas e Richild com manifesta desaprovao. Geraldo
parecia no ter reparado. Joana ps Boda a trote e dirigiu-se
rapidamente para a frente da fila.


 132


O trote suave e ritmado da montada era um prazer, comparado
com os solavancos da carruagem. Luke corria ao seu lado, com a
cauda levantada, demonstrando um contentamento quase to
grande como o de Joana. Ela avanou para o lado de Joo, que
no escondia o seu desagrado. Joana sorriu, bem disposta. A
estrada para So Dinis, afinal, no seria assim to longa.
 Passaram um afluente do Reno sem qualquer dificuldade; a
ponte era robusta e larga, tinha sido construda no tempo do
imperador Carlos e continuava a ser conservada pelo senhor
daquele condado. Mas o Mosel, a cujas margens chegaram no
oitavo dia, apresentou-se como um problema porque a ponte
estava em runas. As tbuas estavam podres e havia buracos,
onde uma ou duas tbuas faltavam, tornando a passagem
impossvel. Tinha sido improvisada uma ponte artesanal, com
barcos de madeira atados uns aos outros em fila; uma pessoa
podia passar atravs delas. Mas, a ponte de barcas no era
adequada para tanta gente e para tantos cavalos e carruagens
carregadas de mercadorias. Geraldo e dois homens dirigiram-se
para sul, ao longo da margem,  procura de um local de
travessia. Voltaram uma hora depois, dizendo que, duas milhas
mais abaixo, havia um stio onde o rio se podia passar a vau.
 A caravana voltou a partir, com os carros balanando
perigosamente, ao pisarem o denso matagal da margem. As
mulheres agarravam-se com ambas as mos aos bordos dos carros
para evitar serem atiradas para fora dos mesmos. Berta
continuava a seguir a p, com os lbios a moverem-se numa
orao interminvel. O cnhamo dos seus coturnos estava to
gasto que ela tinha comeado a coxear; os seus dedos dos ps
estavam inchados, as solas dos ps cortadas e a sangrar. Mesmo
assim, Joana reparou que ela, de vez em quando, olhava de
esguelha para Richild e as suas filhas e parecia ficar um
tanto satisfeita ao v-las saltar dentro do carro.
 Por fim, chegaram ao vau. Geraldo e vrios outros cavaleiros
desceram primeiro ao rio para avaliarem a sua profundidade e
se havia correntes. A gua rodopiou rapidamente em torno
deles; chegou-lhes  altura das suas vestes antes de comear a
descer onde o leito do rio comeava a inclinar-se para a
margem do lado oposto.
 Geraldo voltou para trs e fez sinal ao resto da caravana
para que avanassem. Sem hesitar, Joana dirigiu-se para o rio,
seguida de perto por Luke, que mergulhou e nadou em movimentos
seguros e confiantes. Depois de um momento de hesitao, Joo
e os outros foram atrs deles.


 133



 A gua fria do Mosel cercou Joana. Ela arrepiou-se quando a
humidade penetrou nas suas roupas e lhe atingiu a pele. Atrs
dela, os carros comearam a descer lentamente para o rio,
puxados pelas mulas renitentes. Berta lutava para se manter 
tona, atravs da gua fria, que lhe chegava quase aos ombros.
 Ao olhar para trs, Joana viu que Berta estava com
dificuldades.
 Dirigiu-se para ela. A montada podia transportar ambas para
o outro lado, sem qualquer problema. No estava a mais de
cinco ps dela, quando a rapariga desapareceu, imergindo na
superfcie da gua a uma velocidade tal como se tivesse sido
puxada pelos ps. Joana parou, sem saber o que fazer; depois,
dirigiu a sua montada na direco dos crculos de gua, cada
vez maiores, que assinalavam o local onde Berta tinha
desaparecido.
 - Para trs!
 A mo do Geraldo agarrou as rdeas, fazendo parar a montada.
 Partiu um grande ramo de um choro que pendia, desmontou e
caminhou lentamente para a margem, sondando o leito do rio a
cada passo.  distncia de um brao do local onde Berta tinha
desaparecido, parou: o ramo tinha-se enterrado muito fundo.
 - Um poo!
 Tirou o manto e mergulhou.
 De repente, instalou-se uma confuso tremenda. Os homens
andavam para trs e para diante dentro de gua, gritando
instrues e batendo na gua com varas. I Geraldo estava ali.
Podiam estar a pis-lo, a mago-lo, como era possvel que no
o compreendessem?
 - Parai! - gritou Joana, mas eles no lhe prestaram ateno.
 Ela dirigiu-se a Egbert, chefe dos criados de Geraldo e
agarrou-o firmemente pelo brao. - Parem! - disse ela.
 Surpreendido, Egbert fez um gesto para a sacudir, mas ela
dissuadiu-o com um olhar.
 - Dizei-Lhes que parem; ainda esto a fazer pior.
 Ele fez sinal aos outros. Eles pararam, circundando o
redemoinho e esperando num silncio de morte.
 Passou um minuto. Atrs deles, o primeiro carro chegou 
outra margem e subiu para terra. Joana no reparou. Os seus
olhos estavam pregados no local onde Geraldo tinha
desaparecido.
 O medo deixava-lhe as palmas das mos hmidas. As rdeas
escorregavam-lhe das mos. A montada, pressentindo que havia
problemas, estacou. Luke atirou a cabea para trs e uivou.


 134


 Deus Misereatur - rogou ela. - Deus, misericrdia. Pedi-me o
sacrifcio que for da Vossa vontade, mas permiti que ele se
salve.
 Dois minutos.
 Era tempo de mais. Ele precisava de subir para respirar.
 Ela desmontou, entrando na gua fria. No sabia nadar, mas
no parou para pensar nisso. Comeou a chapinhar na direco
do poo. Luke saltou para a frente e para trs  sua frente,
tentando impedi-la de avanar, mas ela passou-Lhe  frente. S
pensava numa coisachegar a Geraldo, pux-lo, salv-lo.
 Estava a meia jarda do poo, quando se ouviu um chapinhar e
um barulho na gua. Geraldo emergiu de repente e respirou
fundo, com o cabelo vermelho colado  cara.
 - Geraldo!
 O grito exultante de Joana sobreps-se s vozes dos homens.
Geraldo virou-se para ela e acenou-lhe. Depois, respirou
fundo, preparando-se para voltar a mergulhar.
 - Vede!
 O condutor da mula do primeiro carro apontou para um ponto
no caudal do rio.
 Uma espcie de corola azul apareceu  superfcie e
aproximou-se suavemente da margem oposta. O vestido da Berta
era azul.
 Eles voltaram a montar e desceram o rio. Berta flutuava de
costas, presa em ramos e detritos que se tinham acumulado ao
longo da margem. Os seus membros estavam afastados, como se
estivessem desgarrados, e o seu rosto inerte exprimia uma
impotncia e um medo terrveis.
 - Pegai nela - ordenou Geraldo bruscamente. - Lev-la-emos
para a igreja de Prum para que tenha um funeral decente.
 Joana comeou a tremer violentamente, sem ser capaz de
desviar os olhos de Berta. Morta, era to parecida com Mateus
- a mesma pele cinzenta, os olhos semicerrados, a boca
retorcida.
 De repente, Geraldo segurava-a nos braos, voltando-lhe a
cabea para o outro lado e apertando-a contra os seus ombros.
Ela fechou os olhos e apoiou-se nele. Os homens desmontaram e
entraram na gua; ela ouviu o restolhar suave do canial,
quando eles libertaram o corpo de Berta.
 - Ias  minha procura, no ias?
 Perguntou Geraldo, murmurando-lhe ao ouvido. Falava
admirado, como se tivesse acabado de se aperceber de tal.
 - Sim - disse ela, sem levantar a cabea do seu ombro.
 - Sabes nadar?


 135


 - No - reconheceu ela e sentiu que os braos de Geraldo a
apertavam, enquanto permaneciam juntos perto da margem do rio.
 Por trs deles, os homens transportavam lentamente o corpo
de Berta para o carro. O capelo aproximou-se, de cabea
baixa, recitando uma orao pelos mortos. Richild no rezava
com ele. A sua cabea estava levantada, olhando para Joana e
para Geraldo.
 Joana libertou-se do abrao de Geraldo.
 - O que foi? - O seu olhar estava cheio de afecto e
preocupao.
 Richild continuava a observ-los.
 - N-nada. - Ele seguiu a direco do seu olhar. - Ah.
 E retirando suavemente um caracol de cabelo dourado que caa
sobre o rosto de Joana, disse:
 - Vamos ter com os outros?
 Lado a lado, dirigiram-se para as carruagens. Depois,
Geraldo afastou-se para falar com o capelo por causa do
corpo.
 Richild disse:
 - Joana, vais connosco no carro durante o resto da viagem.
Estars mais segura aqui connosco.
 No valia a pena protestar. Joana subiu para o carro.
 Os homens depositaram cuidadosamente o corpo de Berta num
dos carros da retaguarda, afastando os sacos, para arranjar
espao. Uma criada da casa, uma mulher idosa, comeou a
gritar, debruando-se sobre o corpo de Berta.
 As mulheres comearam a carpir, como era tradicional nos
funerais. Toda a gente esperava num silncio respeitoso e
embaraado. Depois de um intervalo de tempo decente, o capelo
aproximou-se e falou baixinho com a mulher. Ela levantou a
cabea; os seus olhos, loucos de desgosto e dor, fixaram-se em
Richild.
 - Vs! - gritou ela. - Fostes vs, senhora! Vs mataste-a!
Ela era boa rapariga, a minha Berta, ter-vos-ia servido bem! A
sua morte foi vossa culpa, senhora. Vossa culpa!
 Dois dos criados de Richild agarraram a mulher rudemente e
levaram-na, ainda gritando imprecaes.
 O capelo aproximou-se de Richild, juntando as mos em sinal
de contrio.
 -  a me da Berta, senhora. O desgosto enlouqueceu a pobre
mulher. Claro que a morte da filha foi um acidente. Um
acidente trgico.


 136


 No foi um acidente, Wala - disse Richild, muito sria. -
Foi a vontade de Deus.
 Wala empalideceu.
 - Claro, claro.
 Enquanto capelo de Richild, um padre domstico, privado,
Wala tinha uma posio um pouco melhor do que a de um simples
colonus; se lhe desagradasse, ela podia mand-lo aoitar - ou,
pior ainda, podia mand-lo embora.
 - Foi a vontade de Deus. A vontade de Deus, senhora, de
certeza.
 - Vai e fala com a mulher porque o seu desgosto deve ter
posto a sua alma em perigo de morte.
 - Ah, senhora! - Ele levantou as mos brancas ao cu. - Que
pacincia celestial! Que caritas!
 Ela despediu-o impacientemente e ele afastou-se, parecendo
um homem que tinha acabado de ser libertado da forca a tempo.
 Geraldo mandou partir e a caravana comeou a mover-se ao
longo da margem, na direco da estrada para So Dinis. Atrs
deles, no carro da retaguarda, os gritos da me
transformaram-se progressivamente num soluar insistente e de
partir o corao. Os olhos de Dhuoda estavam cheios de
lgrimas; Gisla tinha mesmo perdido o seu humor
inquebrantvel. Poderia algum ser to habilidoso a esconder
as suas emoes ou ser que ela era realmente to fria como
parecia? Ser que no sentia qualquer peso na conscincia pela
morte da rapariga?
 Richild olhou para ela. Joana desviou os olhos para que ela
no lhe lesse os pensamentos.
 Vontade de Deus?
 No, senhora.
 Vontade vossa.


 O primeiro dia da feira foi muito atarefado. As pessoas
acorriam atravs do enorme porto em ferro que conduzia ao
descampado em frente  Abadia de So Dinis - camponeses
vestidos com bandelettes andrajosas e camisas de linho rude;
nobres e fideles em tnicas de seda debruadas com enfeites em
ouro, com as suas esposas pelo brao, cobertas elegantemente
com mantos guarnecidos a pele e jias; os lombardos e os
aquitanos nas suas exticas calas e botas bufonas. Joana
nunca tinha visto uma aglomerao humana to estranha e to
grande.
 No campo, as barracas dos mercadores sucediam-se sem
interrupo, com as suas mercadorias variadas dispostas numa
mistura exuberante de cores e formas.


 137


Havia mantos e capas de seda prpura, penas de pavo, casacos
de pele tingida, manjares raros, como amndoas e passas e toda
a espcie de aromas e especiarias, prolas, gemas, prata e
ouro. Continuavam a entrar mais mercadorias pelos portes,
amontoadas em vages ou em pilhas desordenadas, s costas dos
comerciantes mais pobres, dobrados ao peso da carga. Muitos
deles no iriam dormir nessa noite, com dores nos msculos
forados para alm dos seus limites, mas, assim, evitavam os
duros impostos, o rotaticum e o saumaticum, cobrados sobre as
mercadorias transportadas em veculos de rodas e sobre bestas
de carga.
 Ao entrarem o porto, Geraldo disse  Joana e ao Joo:
 - Abram as vossas mos.
 Colocou um denrio em prata em cada uma das palmas
estendidas.
 - Gastem-nos bem.
 Joana olhou para a moeda reluzente. S tinha visto um
denrio uma vez ou duas e, mesmo dessas vezes, tinha sido 
distncia porque, em Ingelheim, os produtos eram trocados;
mesmo o salrio do pai, o dizimo cobrado aos camponeses da sua
parquia, era sempre entregue em mercadorias e provises.
 Um denrio! Parecia uma fortuna desmedida.
 Vaguearam pelos estreitos e apinhados corredores entre as
barracas. Os vendedores expunham as suas mercadorias, os
clientes regateavam os preos acaloradamente e artistas de
todos os tipos - danarinos, malabaristas, acrobatas,
domadores de ursos e de macacos - faziam as suas habilidades.
O barulho dos inmeros negcios, da galhofa e das discusses
levadas a cabo em centenas de dialectos e lnguas diferentes
rodeavam-nos por todos os lados. I Era fcil perder-se na
multido que se acotovelava. Joana deu a mo ao Joo - para
sua surpresa, ele no protestou - e manteve-se junto a
Geraldo. Luke seguia-os de perto, inseparvel de Joana, como
sempre. O pequeno grupo depressa se separou de Richild e dos
outros, que andavam mais devagar. A meio da primeira fila de
barracas, pararam e esperaram por eles.  sua esquerda, uma
mulher gritava com dois mercadores que puxavam cada um deles
por uma das pontas de um pedao de linho para o medir com uma
longa rgua em madeira.
 - Parai! - gritava a mulher. - Imbecis! Ides rasg-lo!
 De facto, parecia que os homens iam rasgar o tecido ao meio
para ficar cada um deles com a parte maior.
 Um pouco mais  frente, ouviam-se gritos e risos vindos de
um grupo de gente reunido em crculo.
 - Anda.


 138


 Joo puxou Joana pelo brao. Ela hesitou, no querendo
deixar Geraldo, mas ele cedeu  vontade do Joo e levou-os,
benevolentemente, naquela direco.
 Quando eles se aproximavam, ouviu-se outro grito. Joana viu
um homem cair de joelhos no centro da clareira, apalpando o
ombro, como se estivesse ferido. Levantou-se rapidamente e,
ento, Joana reparou que ele tinha na mo uma grande vara de
vidoeiro. Estava outro homem no interior do crculo, armado de
modo semelhante. Giravam um  volta do outro, agitando
ferozmente as pesadas varas. Ouviu-se um guincho estranho e
agudo, ao mesmo tempo que um porco salpicado de sangue correu
freneticamente entre os dois homens, com as suas pernas
atarracadas saltando como uma batedeira de manteiga. Os dois
homens precipitaram-se para o porco, mas, em vo; aquele que
tinha cado havia pouco deu um grito, quando apanhou um golpe
nas partes baixas. A multido ria-se a bandeiras despregadas.
 Joo ria-se com os outros. Os seus olhos brilhavam de
entusiasmo. Puxou a manga de um campons baixo e marcado pelas
bexigas, que estava ao lado deles.
 - O que se passa? - perguntou ele, excitado.
 O homem sorriu-lhe e os buracos na sua cara aumentaram ao
esticar da pele.
 - Ento, andam atrs de um porco, rapaz, ests a ver? Aquele
que o matar, leva-o para casa para o comer.
 Estranho, pensou Joana, enquanto olhava para os dois homens
em competio por uma recompensa. Vibravam as suas varas com
fora, mas os seus golpes no acertavam, eram imprecisos,
acertando no ar ou um no outro com mais frequncia do que no
desgraado porco. Havia qualquer coisa estranha na aparncia
do homem que estava  sua frente. Ela olhou com mais ateno e
reparou numa brancura leitosa no lugar das pupilas. Agora, o
outro homem virou-se para ela; os seus olhos pareciam normais,
mas o seu olhar era vago, fixo e perdido no espao.
 Os homens eram cegos.
 Um outro golpe atingiu o seu alvo e o homem dos olhos
leitosos desequilibrou-se, agarrando a cabea. Joo deu um
salto, batendo palmas e rindo alto com o resto da multido. Os
seus olhos brilhavam com um entusiasmo estranho.
 Joana virou-se.
 - Psst! Menina!
 Uma voz chamava-a. Do lado oposto, um vendedor acenava-lhe.
Ela deixou o Joo a divertir-se com aquele combate bizarro,


 139


e dirigiu-se para a barraca do homem, diante da qual se
encontrava uma mesa comprida com uma quantidade de objectos
religiosos. Havia crucifixos em madeira e medalhas de todos os
tamanhos e feitios, assim como relquias sagradas de vrios
santos populares naquela regio: uma madeixa de cabelo de So
Willibrord, uma unha de So Romaric, dois dentes de So
Waldetrudis e um pedao do vestido da virgem-mrtir Santa
Genoveva.
 O homem tirou um frasquinho da sua saca em pele.
 - Sabeis o que est aqui dentro?
 Falava to baixo que ela quase no o conseguia ouvir, com o
barulho que havia  sua volta. Ela abanou a cabea.
 - Gotas de leite - falava ainda mais baixo - da Santa Virgem
Me.
 Joana ficou perplexa. Grande tesouro! Aqui? Deveria estar
guardado nalgum grande mosteiro ou catedral.
 - Um denrio - disse o homem.
 Um denrio! Ela apalpou a moeda em prata que tinha no bolso.
 O homem estendeu-lhe o frasquinho e ela pegou-lhe. Sentiu a
sua superfcie fresca na mo. Teve um lampejo da expresso de
Odo se ela voltasse com uma relquia daquelas para a catedral.
 O homem sorriu, estendendo a mo, ansioso por lhe arrancar
uma moeda.
 Joana hesitou. Porque haveria este homem de vender um
tesouro to grande por aquele preo? Qualquer abadia ou
catedral que precisasse de uma relquia sagrada para ser
venerada pelos peregrinos estaria disposta a dar uma fortuna
por ela.
 Ela tirou a tampa ao frasquinho e espreitou para dentro
dele. A meio do tubo via-se uma gota plida de leite,
brilhando suavemente  luz do sol. Joana tocou-Lhe com a ponta
do dedo mindinho. Depois, levantou os olhos, olhando  sua
volta. Riu-se, chegou o frasco aos lbios e bebeu.
 O homem sobressaltou-se.
 - Sois campnia? - o seu rosto estava contorcido de raiva.
 - Delicioso - disse Joana, tapando o frasco e
devolvendo-lho. - Parabns  vossa cabra.
 - Vs... vs... - o homem espumava, incapaz de encontrar
palavras para exprimir a sua fria e a sua frustrao.
 Por momentos, parecia que ia dar a volta  mesa e correr
atrs dela. Ouviu-se um rosnar surdo; Luke, que at ali tinha
estado sentado sossegadamente, colocou-se  frente de Joana,
com o focinho enrugado, levantado dos lados, mostrando uma
fila de dentes brancos ameaadores.


 140


 - O que  isso? - o vendedor estacou fixando os olhos
brilhantes de Luke.
 - Isto - disse uma voz por trs de Joana -  um lobo.
 Era Geraldo. Ele tinha chegado sorrateiramente durante a
conversa com o vendedor. Estava descontrado, com os braos
cados, o corpo relaxado, mas os seus olhos eram ameaadores.
O vendedor afastou-se, murmurando qualquer coisa entredentes.
Geraldo ps o brao por cima dos ombros da Joana e levou-a
dali, chamando Luke, que ainda voltou a ladrar ao vendedor e
depois correu para os apanhar.
 Geraldo no disse nada. Caminharam juntos em silncio, com a
Joana a apressar o passo para conseguir acompanhar as suas
longas passadas.
 - Est zangado, pensou ela, ao mesmo tempo que o seu bom
humor se extinguia to rapidamente como uma lareira abafada.
 O pior era que ela sabia que ele tinha razo. Ela tinha sido
descuidada com o vendedor. No Lhe tinha ela prometido que
teria mais cuidado? Porque tinha sempre que fazer perguntas e
desafiar? Porque no era capaz de aprender que algumas ideias
so perigosas?
 Talvez eu seja campnia.
 Ouviu um rudo abafado; Geraldo ria-se.
 - A cara do homem quando levantaste o frasco e bebeste!
Nunca me hei-de esquecer! - apertou-a num abrao caloroso -,
Ah, Joana, s a minha prola! Mas, diz-me, como sabias que no
era leite da Virgem?
 Joana sorriu, aliviada.
 - Desconfiei logo, porque se aquilo fosse realmente sagrado
porque seria to barato? E porque tinha o vendedor a cabra
presa atrs da barraca, onde ningum a podia ver? Se a tinha
recebido como paga por um negcio, que necessidade tinha de a
ter escondida?
 -  verdade. Mas, tu bebeste mesmo daquilo - Geraldo voltou
a dar uma gargalhada - deves ter reparado em mais qualquer
coisa.
 - Sim. Quando destapei o frasco, o leite no estava
coalhado, estava fresco, como se fosse daquela manh; ora, o
leite da Virgem teria mais de oitocentos anos.
 - Ah - Geraldo sorriu, com as sobrancelhas levantadas,
desafiando-a - mas talvez seja a sua grande santidade que o
mantm puro e incorruptvel.
 -  verdade - admitiu Joana. - Mas, quando toquei no leite,
ainda estava quente! Talvez uma coisa assim to santa pudesse
permanecer incorruptvel, mas, porque haveria de estar quente?


 141


 - Bem visto - disse Geraldo, elogiosamente. - O prprio
Lucrcio no teria feito melhor!
 Joana sorriu. Como gostava de lhe agradar!
 Tinham caminhado quase at ao fim da fila de barracas, onde
a grande cruz de So Dinis assinalava os limites da feira,
protegendo a santa tranquilidade dos irmos da abadia. Era ali
que os mercadores de pergaminhos tinham montado as suas
barracas.
 - Olha!
 Geraldo foi o primeiro a v-los. Apressaram-se na sua
direco, para examinarem a mercadoria, que era de muito boa
qualidade. Os vellum, em particular, eram extraordinrios: o
reverso da pele era perfeitamente liso. Joana nunca tinha
visto um vellum to branco; o outro lado era mais amarelado,
como era normal, mas os orifcios da raiz dos plos eram to
pequenos e baixos, que quase no se viam.
 - Deve ser um prazer escrever em folhas destas! - exclamou
Joana, apalpando-os cuidadosamente.
 Geraldo chamou imediatamente um dos mercadores.
 - Quatro folhas - pediu ele e Joana sorriu, extasiada com a
sua prodigalidade. Quatro folhas! Era o suficiente para um
cdex inteiro!
 Enquanto Geraldo pagava a sua mercadoria, a ateno de Joana
recaiu sobre umas folhas de pergaminho que pareciam rasgadas e
colocadas desalinhadamente no fundo da barraca. As pontas das
folhas estavam rasgadas e escritas, manchadas e obliteradas
nalguns stios por horrveis manchas castanhas. Ela
aproximou-se para poder ler melhor e corou de excitao.
 Vendo o seu interesse, o mercador aproximou-se.
 - To jovem e j tem tanto jeito para o negcio - disse ele
untuosamente. - As folhas so velhas, como vedes, mas ainda
servem bem. Vede!
 Antes de ela poder dizer fosse o que fosse, ele pegou num
objecto comprido e achatado e raspou a pgina com ele,
apagando vrias letras.
 - Parai! - Joana falou asperamente, lembrando-se de um outro
pedao de pergaminho e de uma outra faca. - Parai!
 O vendedor olhou para ela com curiosidade.
 - No vos afligeis, menina,  apenas um escrito pago - e
apontou orgulhosamente para a pgina. - Estais a ver? Bela e
limpa, pronta para poder ser escrita!
 Levantou o instrumento para voltar a mostrar a habilidade,
mas Joana agarrou-lhe a mo.
 - Dou-vos um denrio por ele - disse ela com firmeza.


 142


 O homem fingiu sentir-se insultado.
 - Eles valem trs denrios, pelo menos.
 Joana tirou a moeda do bolso e estendeu-lha.
 - Um - repetiu ela. -  tudo o que tenho.
 O vendedor hesitou, olhando para ela pensativamente.
 - Muito bem - disse ele, de mau humor -, levai-os.
 Joana deu-Lhe a moeda e pegou no precioso pergaminho, antes
que ele mudasse de ideias. Correu ao encontro de Geraldo.
 - Olha! - disse ela, excitada.
 Geraldo olhou para as pginas.
 - No percebo as letras.
 - Est escrito em grego - explicou Joana - e  muito antigo.
Um tratado de engenharia, penso eu. Ests a ver os diagramas?
 Apontou para uma das pginas e Geraldo observou os desenhos.
 - Uma espcie de mecanismo hidrulico - o seu interesse era
o de uma criana. - Fascinante. s capaz de traduzir o texto?
 - Sou.
 - Ento, talvez eu seja capaz de o construir.
 Sorriram um para o outro, dando incio a uma nova
conspirao.
 - Pai!
 A voz de Gisla atravessou o rudo da multido. Geraldo
virou-se,  procura dela. Ele era mais alto do que todos os
outros; ao sol, o seu espesso cabelo vermelho brilhava como
ouro. O corao de Joana saltou-lhe no peito ao olhar para
ele. s a minha prola, tinha dito ele. Agarrou os pergaminhos
com fora, observando-o, apreciando aquele momento.
 - Pai! Joana! - Gisla apareceu finalmente, furando pelo meio
da multido, seguida de um dos criados da casa, com os braos
carregados de compras.
 - Andei  tua procura por todo o lado! - protestou ela
suavemente. - O que tens a?
 Joana comeou a explicar, mas Gisla sorriu com um gesto de
impacincia.
 - Oh, mais um dos teus tolos livros velhos. Olha o que eu
descobri - disse ela. Desdobrou um pedao de tecido colorido.
- Para o meu vestido de casamento. No  perfeito?
 O tecido brilhava enquanto Gisla o segurava. Examinando-o
mais de perto, Joana viu que era bordado com esplndidos fios
de ouro e de prata.
 -  espantoso. - disse ela com sinceridade.
 Gisla riu-se.


 143


 - Eu sei! - sem esperar pela resposta, pegou em Joana pelo
brao e dirigiu-se para uma barraca um pouco mais adiante. -
Oh, olha - disse ela - um leilo de escravos! Vamos ver!
 - No.
 Joana recuou. Tinha visto os mercadores de escravos passarem
por Ingelheim, com a sua carga humana atada com cordas
grossas. Muitos deles eram saxnios, como a sua me.
 - No - voltou ela a dizer e no se mexeu.
 - s uma tola! - Gisla puxava Joana, brincalhona. - No
passam de pagos. No tm sentimentos, pelo menos, no como
ns.
 - O que estar aqui? - disse Joana, ansiosa por distra-la.
 Levou Gisla para uma pequena barraca, no fim da fila. Era
escura e estava fechada. Luke deu uma volta pelas suas
paredes, cheirando-as com curiosidade.
 - Que estranho - disse Gisla.
 Numa tarde de sol, com o negcio em efervescncia por todo
lado, aquela barraca escura e silenciosa era uma coisa
estranha. Curiosa, Joana bateu gentilmente na porta fechada.
 - Entrai - disse uma voz rouca vinda do interior.
 Gisla deu um salto, mas no recuou. As duas meninas deram a
volta  barraca e puxaram cautelosamente a porta em madeira
prensada, que rangeu ao abrir para trs. Uma torrente de sol
infiltrou-se na escurido.
 Entraram. Havia um cheiro estranho na barraca, enjoativo e
doce, como mel fermentado. No centro da barraca, uma pequena
figura - uma velha, vestida apenas com uma tnica solta e
escura - estava sentada de pernas cruzadas. Parecia
inacreditavelmente idosa, talvez tivesse mais de setenta
invernos; quase no tinha cabelo, apenas uns pequenos fios
brancos e finos no alto da cabea, que tremia constantemente,
como se ela sofresse de sezes. Mas, os seus olhos penetravam
na escurido, alerta, concentrando-se intensamente em Joana e
Gisla.
 - Lindas pombinhas - crocitou ela - to belas e to jovens.
O que quereis da Velha Baltilda?
 - S queramos... - Joana hesitou, procurando em vo uma
explicao. O olhar da mulher era perturbador.
 - Ver o que se vende aqui - disse Gisla.
 - O que h para vender? O que h para vender? - cacarejou a
velha. - Uma coisa que quereis, mas que nunca possuireis.
 - O qu? - perguntou Gisla.


 144


 - Uma coisa que j  vossa, apesar de ainda no a terdes - a
mulher riu-se para elas com uma boca desdentada. - Uma coisa
que no tem preo e que, no entanto, pode ser comprada.
 - O que e? - perguntou Gisla, impaciente com os enigmas da
velha.
 - O futuro. - Os olhos da velha brilharam na escurido. - O
vosso futuro, minha pombinha. Tudo o que ser e ainda no .
 - Oh, tu s uma cartomante! - Gisla bateu palmas, satisfeita
por ter desvendado o mistrio. - Quanto queres?
 - Um soldo.
 Um soldo! Era o preo de uma boa vaca leiteira ou de um par
de bons carneiros!
 -  muito caro.
 Gisla estava agora nas suas sete quintas, confiante e segura
de si, como um cliente arguto a tentar fazer negcio.
 - Um obole - ofereceu ela.
 - Cinco denrios - contraps a velha.
 - Dois. Um por cada uma.
 Gisla tirou as moedas do bolso e mostrou-as  mulher.
 A velha hesitou, depois, pegou nas moedas, e fez sinal s
raparigas para que elas se sentassem no cho perto dela. Elas
sentaram-se; a mulher tomou a mo forte e jovem de Joana nas
suas mos trementes e examinou-a com um ar estranho. Ficou
calada durante muito tempo; depois, comeou a falar:
 - Bela quimera, sois o que no sereis; o que sereis no  o
que sois.
 Isto no fazia muito sentido, a no ser que quisesse dizer
apenas que ela seria em breve uma mulher adulta. Mas, ento,
porque lhe tinha a velha chamado bela quimera?
 Baltilda continuou:
 - Aspirais quilo que  proibido.
 Joana ficou surpreendida e a velha apertou-lhe mais a mo.
 - Sim, bela quimera, vejo o desejo secreto do vosso corao.
No sofrereis desiluso. Sereis grande, maior do que sonhais e
sofrereis mais do que imaginais.
 Baltilda largou a mo de Joana e virou-se para Gisla, que
piscou o olho a Joana, como quem diz no foi engraado?
 A velha pegou nas mos de Gisla com as suas unhas curvas e
compridas em torno das unhas macias e rosadas de Gisla.
 - Casar-vos-eis em breve e casareis bem - disse ela.
 - Sim!- Gisla riu-se. - Mas, velha senhora, no vos paguei
para me dizerdes o que eu j sei. A unio ser feliz?


 145


 - No mais do que a maior parte delas, mas tambm no menos
- disse Baltilda.
 Gisla levantou os olhos ao tecto num desespero trocista.
 - Sereis esposa, mas nunca me - grasnou Baltilda,
balanando ao ritmo das palavras, com uma voz cantada,
meldica.
 O sorriso de Gisla desvaneceu-se.
 - Ento, serei estril?
 - O vosso futuro  sombrio e vazio. - A voz de Baltilda
subiu de tom, tornando-se um lamento. - Conhecereis a dor, a
confuso e o medo.
 Gisla ficou petrificada como um pardal hipnotizado pelo
olhar de uma cobra.
 - Basta!
 Joana tirou a mo de Gisla das mos da velha.
 - Vem comigo - disse ela.
 Gisla obedeceu como uma criana.
 Fora da barraca, Gisla comeou a chorar.
 - No sejas tola - consolou-a Joana - a velha era louca, no
lhe ligues. No existe ponta de verdade nestas cartomncias.
 Gisla estava inconsolvel. Fartou-se de chorar; por fim,
Joana levou-a s barracas de guloseimas, onde compraram figos
aucarados e se empanturraram, at Gisla se sentir um pouco
melhor.
 Nessa noite, quando contaram a Geraldo o que se tinha
passado, ele ficou furioso.
 - Agora temos feitiaria? Joana e Gisla, amanh vo levar-me
a essa barraca. Tenho umas coisas a dizer a uma velha que mete
medo a jovens. Entretanto, Gisla, no ligues a um disparate
desses. Porque tiveste a ideia de procurar um conselho desses?
 E disse  Joana, em tom de desaprovao:
 - Esperava que, pelo menos tu, tivesses outro comportamento.
 Joana aceitou a censura. Mesmo assim, uma parte dela queria
acreditar nos poderes de Baltilda. A velha no tinha dito que
ela realizaria um desejo secreto? Se tinha razo, ento Joana
alcanaria grandeza, apesar de no passar de uma rapariga,
apesar daquilo que toda a gente considerava ser possvel.
 Mas, se Baltilda tinha razo quanto ao futuro de Joana,
ento, tambm tinha razo quanto ao de Gisla.
 Quando voltaram  barraca com Geraldo, no dia seguinte, ela
estava vazia. Ningum lhes soube dizer para onde a velha tinha
ido.


 146


 * * *


 Em Winnemanoth, Gisla casou-se com o conde Hugo. Tinha
sido um pouco difcil encontrar uma data adequada para a
consumao imediata do casamento. A Igreja proibia relaes
maritais aos domingos, s quartas e sextas-feiras, assim como
nos quarenta dias que antecediam a Pscoa, nos oito dias a
seguir ao Pentecostes e nos cinco dias anteriores a tomar a
comunho ou na vspera de grandes festas ou dias de guarda. Ao
todo, era proibido ter relaes sexuais cerca de duzentos e
vinte dias do ano; considerando estes dias, assim como as
regras mensais de Gisla, no havia muitos dias por onde
escolher. Mas, acabaram por marcar o casamento para o dcimo
quarto dia do ms, uma data que agradou a todos, menos 
Gisla, que estava ansiosa pelas festividades.
 Por fim, chegou o grande dia. Toda a casa se levantou antes
da aurora, para servir Gisla. Primeiro, ajudaram-na a vestir a
tnica interior de mangas compridas, em linho amarelo. Por
cima desta, vestiram-lhe uma tnica nova resplandecente, feita
do pano enfeitado a fios de prata e ouro que tinham comprado
na feira de So Dinis. Caa-lhe dos ombros at ao cho em
pregas graciosas, que rematavam nas mangas largas, a partir
dos cotovelos. Ataram-lhe s ancas uma cintura pesada,
enfeitada com pedras da sorte - gatas para a guardar da
febre, giz para a defender do mau-olhado, calcednias para a
fertilidade, jaspe para um bom parto. Por fim, cobriram-lhe a
cabea com um vu fino em seda. Cobria-a at ao cho,
tapando-lhe os ombros e ocultando completamente o seu cabelo
castanho-avermelhado. Com o seu vestido de noiva, mal podendo
mexer-se ou sequer sentar-se, com medo de o amarrotar, parecia
um pssaro extico, pensou Joana, caado, preparado e pronto
para ser trinchado.
 A mim, nunca tal me acontecer, jurou Joana. Ela no queria
casar, apesar de, dali a sete meses, ir fazer quinze anos, uma
idade mais do que casadoira. Dali a trs anos, era uma velha.
Ela no compreendia por que motivo as raparigas da sua idade
tinham tanta pressa em casar porque o casamento mergulhava a
mulher imediatamente num estado de servido permanente. O
marido tinha um controlo absoluto sobre os bens e propriedades
da sua esposa, sobre os seus filhos e at sobre a sua vida.
Depois de ter suportado a tirania do pai, Joana tinha decidido
que nunca voltaria a dar a ningum um tal poder sobre ela.


 147


 Gisla, uma criatura simples, foi para o casamento cheia de
entusiasmo, corada e a rir nervosamente. O conde Hugo,
magnfico na sua capa debruada a arminho, esperava-a no
prtico da catedral. Ela aceitou a sua mo e ficou
orgulhosamente de p, enquanto Wido, o intendente de Villaris,
enumerava publicamente as terras, servos, animais e bens que
Gisla trazia como dote. Depois, a comitiva entrou na catedral,
onde Fulgncio esperava diante do altar para dizer a missa
solene do casamento.
 - Quod Deus conjunxit homo non separet.
 As palavras em latim saam titubeantes da boca de Fulgncio.
Ele tinha sido militar antes de herdar o episcopado. Tinha
comeado a estudar muito tarde, pelo que nunca conseguiu
dominar as formas latinas.
 - In nomine Patria et Filia...
 Joana sorriu quando Fulgncio deu a bno, confundindo as
declinaes, de maneira que, em vez de dizer em nome do Pai e
do Filho e do Esprito Santo, disse Em nome da Ptria e da
Filha.
 Ao terminar a bno, Fulgncio, visivelmente aliviado,
comeou a falar tudesco.
 - Que esta mulher seja amvel como Raquel, fiel como Sara,
frtil como Lia - pousou delicadamente a mo sobre a cabea de
Gisla. - Que ela d  luz muitos filhos vares para honrar a
casa do seu esposo.
 Joana viu os ombros de Gisla tremerem e apercebeu-se de que
ela estava a controlar o riso.
 - Que ela imite o comportamento de um co, com o corao e
os olhos sempre no seu senhor; mesmo que o dono lhe bata e o
apedreje, o co segue-o, abanando a cauda.
 Isto pareceu de mais a Joana, mas Fulgncio olhava para
Gisla com uma expresso bondosa e afectiva, pelo que era bvio
que no a queria ofender.
 - Por isso - continuou ele - uma mulher deve ter um amor
perfeito e indestrutvel pelo seu marido.
 Voltou-se para o conde Hugo.
 - Que este homem seja valente como David, sbio como
Salomo, forte como Sanso. Que as suas propriedades aumentem
tanto quanto a sua fortuna. Que ele seja um senhor justo para
a sua senhora, nunca lhe administrando mais castigos do que
aqueles que ela merece. Que viva para ver os seus filhos
vares honrarem o seu nome.
 Comearam a trocar os votos. O conde Hugo prometeu primeiro,
depois colocou um anel de turquesa bizantina no dedo anelar de
Gisla, no qual se encontra a veia que vai para o corao.


 148


 Depois, foi a vez de Gisla. Joana ouvia Gisla recitar os
seus votos de casamento. O seu tom de voz era sonoro e feliz,
sem que pela sua mente passasse qualquer dvida, parecendo que
o futuro estava assegurado.
 O que me reserva o futuro?, pensou Joana.
 No podia continuar na escola para sempre - quanto muito,
poderia ficar mais trs anos. Comeou a sonhar acordada,
imaginando-se a ensinar numa das grandes escolas das
catedrais, em Reims, talvez, ou mesmo na Escola Palatina,
passando os dias a explorar a sabedoria dos antigos com mentes
to ansiosas e curiosas como a sua. Sonhar acordada era sempre
agradvel.
 Mas - a ideia atingiu-a como uma seta - isso significaria
ter de deixar Villaris. Deixar Geraldo.
 Ela sabia que teria de deixar Villaris um dia. Mas, nos
ltimos meses, tinha afastado esse pensamento, contentando-se
em viver o presente, em gozar quotidianamente da companhia de
Geraldo.
 Olhou para ele. Tinha um perfil slido e bem talhado, alto e
forte; o seu cabelo ruivo caa em caracis at aos ombros.
 O homem mais belo que eu j vi, pensou ela, no pela
primeira vez.
 Como se lesse o seu pensamento, ele virou-se na sua
direco. Os seus olhares cruzaram-se. Algo na sua expresso -
uma doura, uma ternura momentnea - a perturbou. Antes que
ela tivesse sequer a certeza de que tinha acontecido, o olhar
j tinha desaparecido, mas a sua ternura permaneceu.
 No tenho motivo para me preocupar, pensou ela. No 
preciso decidir nada agora.
 Trs anos era muito tempo.
 Podia acontecer muita coisa em trs anos.


 Na semana seguinte, Joana encontrou Geraldo  sua espera no
prtico, quando ela voltou da escola.
 - Vem comigo.
 O seu tom de voz indicava que ele tinha uma surpresa para
ela. Aproximou-se dela e dirigiu-se para o porto exterior.
Depois de passarem pelo porto em madeira, seguiram pela
estrada ao longo de vrias milhas, depois viraram subitamente
na direco da floresta e mergulharam nela, emergindo pouco
depois numa pequena clareira, no meio da qual se encontrava
uma cabana. Como estava desabitada, estava em runas. Mas, em
tempos, devia ter sido o refgio de um homem livre porque as
paredes de adobe ainda pareciam firmes e a porta era em
madeira slida. Lembrou a Joana a sua casa de Ingelheim,


 149


apesar de esta cabana ser muito mais pequena e de o seu tecto
estar podre.
 Pararam diante dela.
 - Espera aqui. - disse Geraldo.
 Joana olhou com curiosidade, enquanto ele deu uma volta ao
edifcio, regressando depois e ficando ao lado dela, de frente
para a porta.
 - Olha - disse Geraldo com uma solenidade fingida.
 Levantando as mos acima da cabea, bateu sonoramente as
palmas trs vezes.
 No aconteceu nada. Joana olhou interrogativamente para
Geraldo, que fixava a cabana, na expectativa. Era evidente que
seria suposto acontecer alguma coisa. Mas, o qu?
 A porta em madeira comeou a abrir-se lentamente,
rangendoprimeiro, devagar, depois mais depressa, mostrando o
interior escuro da cabana. A Joana espreitou para dentro da
cabana. No havia l ningum. A porta tinha-se mexido sozinha.
 Espantada, a Joana olhou para a porta. Passaram dzias de
perguntas pela sua mente, mas, s conseguiu formular uma:
 - Como?
 Geraldo ergueu os olhos para o cu numa piedade simulada.
 - Milagre.
 Joana bufou.
 Ele riu-se.
 - Ento, feitiaria.
 Olhou para ela desafiadoramente, gozando a brincadeira.
 Joana aceitou o desafio. Dirigiu-se para a porta e
examinou-a.
 - s capaz de a fechar? - perguntou ela.
 Geraldo voltou a erguer as mos. Bateu as palmas trs vezes.
Depois de uma pausa, a porta rangeu e comeou a fechar-se.
Joana acompanhou-a enquanto ela se fechava, estudando-a. As
pesadas ombreiras em madeira eram macias e estavam bem feitas
- no havia sinal de nada fora do comum. Tambm no havia nada
de estranho no puxador em madeira. Examinou as dobradias.
Eram em ferro comum. Era desesperante. No conseguia perceber
o que fazia mover a porta.
 A porta j se tinha fechado quase completamente. Era um
mistrio.
 - Ento?
 Os olhos anil de Geraldo brilhavam de divertimento.
 Joana hesitou, contrariada por perder o jogo.
 Quando estava prestes a admitir a derrota, ouviu qualquer
coisa, o som de um fio a roar vindo de algures por cima da
cabea dela.


 150


Primeiro, no conseguiu localiz-lo; o barulho era familiar e
estranho, ao mesmo tempo.
 Depois, reconheceu-o. gua. O som de gua a correr.
 Disse, excitada:
 - O mecanismo hidrulico! O do manuscrito da feira de So
Dinis! Construste-o!
 Geraldo riu-se.
 - Adaptei-o. Porque foi desenhado para puxar gua, no para
abrir e fechar portas!
 - Como funciona?
 Geraldo mostrou-lhe o mecanismo, escondido mesmo por cima do
telhado da cabana, a dez passos da porta, motivo pelo qual ela
no o tinha visto. Mostrou-lhe como funcionava o complicado
sistema de alavancas, roldanas e contrapesos, ligados a duas
correntes em ferro presas ao interior da porta, quase
invisveis. Geraldo tinha activado o sistema puxando uma
corda, quando tinha dado a volta  cabana.
 - Espantoso! - disse ela, quando ele acabou de explicar. -
Faz outra vez.
 Agora que ela tinha percebido como o engenho funcionava,
queria v-lo a trabalhar.
 - No posso. Teria de ir buscar mais gua.
 - Ento, vamos busc-la - disse ela. - Onde esto os
cntaros?
 Geraldo riu-se.
 - s incorrigvel!
 Apertou-a num abrao afectuoso. O seu peito era rijo e
firme, os seus braos fortes apertavam-na. Joana sentiu-se a
derreter por dentro.
 Ele soltou-a abruptamente.
 - Vamos, ento - disse ele bruscamente. - Os cntaros esto
ali.
 Levaram os cntaros vazios para o ribeiro, a um quarto de
milha dali, encheram-nos e trouxeram-nos de volta, encheram o
recipiente, depois voltaram para ir buscar mais. Fizeram o
mesmo percurso trs vezes e,  terceira vez, comearam a
sentir-se um pouco tontos. O sol estava quente, o ar cheio de
promessas primaveris e as suas cabeas cheias de excitao por
causa do seu empreendimento e da alegria que sentiam na
companhia um do outro.
 - Geraldo, olha! - disse Joana, metendo-se na gua fresca
at aos joelhos.
 Quando ele chegou ao p dela, ela comeou a atirar-lhe gua
do cntaro, molhando a parte da frente da sua tnica.


 151


 - Meu diabinho! - disse ele.
 Ele encheu o seu cntaro e comeou a molh-la tambm.
Continuaram a molhar-se um ao outro, numa agitao de
borrifos, at que Joana foi atingida por um chapo de gua do
cntaro de Geraldo, precisamente no momento em que se tinha
inclinado para encher o dela. Desequilibrou-se, escorregou e
caiu desamparada dentro de gua. A gua fria fechou-se por
cima da cabea dela e, por uns momentos, ela entrou em pnico,
sem conseguir pr-se em p sobre os seixos escorregadios do
leito do rio.
 Ento, os braos de Geraldo puxaram-na e levantaram-na.
 - J te agarrei, Joana, j te agarrei.
 A sua voz, perto do ouvido dela, era quente e reconfortante.
Joana sentiu que o seu corpo tremia todo quela cadncia.
Agarrou-se a ele. As suas roupas molhadas colaram-se umas s
outras, moldando os seus corpos unidos numa inequvoca
intimidade.
 - Amo-te - disse ela, simplesmente. - Amo-te.
 - Oh, minha querida, minha menina perfeita - murmurou
Geraldo a custo, e os seus lbios colaram-se aos dela e ela
beijou-o, numa paixo alimentada pela sbita expresso de
emoes controladas durante tanto tempo.
 O ar parecia murmurar ao ouvido de Joana. Geraldo, cantava
ele. Geraldo.
 Nenhum deles sabia que, por trs da copa das rvores, no
cimo da colina, algum estava a observ-los.
 Odo ia a caminho de Hristal para retribuir uma visita ao
seu tio, um dos santos irmos daquela abadia, quando a sua
mula se tinha desviado do caminho, atrs de um monte de erva
que lhe pareceu especialmente suculento. Ele amaldioou a
mula, puxou pelas rdeas e deu-Lhe vergastadas, mas ela era
teimosa e ele no a conseguiu dissuadir. No tinha outro
remdio seno deixar a estrada e seguir aquela estpida besta.
Foi ento que, ao baixar os olhos, na direco do rio, viu.
 Uma mulher instruda nunca  casta. Palavras de So Paulo ou
seriam de Jernimo? No interessava. Odo sempre tinha
acreditado nelas e agora tinha a prova diante dos seus olhos!
 Odo deu uma pancadinha no flanco da mula. Hoje  noite, vais
ter rao reforada, pensou ele. Depois, reconsiderou. A
comida era cara e, alm disso, o animal s tinha sido um
instrumento de Deus.
 Odo apressou-se a regressar  estrada. A sua visita tinha de
esperar. Primeiro, tinha de ir a Villaris.


 152


 Pouco depois, j se avistavam as torres de Villaris.
Excitado como estava, tinha caminhado mais depressa do que era
costume. Passou pelo porto e foi saudado por um guarda.
 Odo retribuiu o cumprimento:
 - Levai-me  senhora Richild - ordenou ele. - Tenho de falar
com ela imediatamente.


 Geraldo retirou os braos de Joana do seu pescoo e
afastou-se.
 - Anda - disse ele, com a voz embargada pela emoo. - Temos
de regressar.
 Estonteada pelo amor, Joana dirigiu-se a ele, para o abraar
novamente.
 - No - disse Geraldo com firmeza. - Tenho de te levar para
casa, enquanto ainda sou capaz.
 Joana olhou para ele, confusa.
 - No... me desejas?
 Baixou a cabea antes de ele responder.
 Geraldo levantou-lhe o queixo suavemente, obrigando-a a
olhar para ele.
 - Desejo-te mais do que alguma vez desejei uma mulher.
 - Ento, porqu...?
 - Pelo amor de Deus, Joana! Eu sou um homem e tenho desejos
de homem. No me tentes para alm dos meus limites!
 Geraldo parecia quase zangado. Vendo que ela ia comear a
chorar, suavizou o tom da sua voz.
 - O que queres que eu faa, meu amor? Que te faa minha
amante? Ah, Joana, eu tomava-te j aqui se pensasse que isso
te ia fazer feliz. Mas, ditaria a tua runa, no vs?
 Os olhos anil de Geraldo retinham os dela numa ordem. Era
to belo que Lhe cortava a respirao. Tudo o que ela queria
era que ele voltasse a tom-la nos seus braos. Ele acariciou
o seu cabelo dourado. Ela queria falar, mas a sua voz
sumiu-se. Respirou fundo, tentando controlar as suas emoes,
cheia de vergonha e de frustrao.
 - Anda.
 Geraldo pegou na mo de Joana, escondendo-a na sua,
ternamente. Ela no protestou quando ele a levou de volta ao
caminho. Sem dizerem palavra, de mos dadas, regressaram a
Villaris, percorrendo as milhas que os separavam de casa.


 153


 @11


 - Senhora Richild, condessa de Villaris - anunciou o
arauto, quando Richild entrou soberanamente na sala de
audincias do bispo.
 - Eminncia. - fez uma vnia graciosa.
 - Senhora, sede bem-vinda - disse Fulgncio. - Que novas me 
trazeis do vosso senhor? Queira Deus que no lhe tenha
acontecido nenhum infortnio durante a sua viagem?
 - No, no.
 Agradou-lhe encontr-lo to transparente. Claro que ele
devia estar curioso acerca do motivo da sua visita! Devia ter
pensado que, como o Geraldo j tinha partido havia cinco dias,
j podia ter encontrado algum infortnio em estradas
perigosas.
 - No recebemos nenhuma m notcia, Eminncia, nem esperamos
ouvir. Geraldo levou vinte homens com ele, bem armados e bem
guarnecidos; ele no iria correr riscos pelo caminho, para
mais, indo em misso imperial.
 - J ouvimos dizer. Foi como missus...  Westphalia, no
foi?
 - Sim. Para resolver uma disputa por casa de wergeld. Tambm
havia algumas questes de propriedade para serem resolvidas.
Estar ausente mais um dia ou dois.
 O tempo de que preciso, pensou ela, precisamente o tempo de
que preciso.
 Falaram um pouco de assuntos locais - a falta de cereais no
moinho, a reparao do telhado da catedral, da quantidade de
bezerros nascidos. Richild tinha o cuidado de observar as
cortesias necessrias e nada mais. Sou rebento de melhor cepa
do que ele. Era bom recordar-lho, antes de entrar no assunto
da sua visita. Era bvio que ele no suspeitava de nada. Ainda
bem; a surpresa seria a sua aliada nesta empreitada.


 154


 Por fim, ela achou que tinha chegado o momento.
 - Vim pedir-vos ajuda para uma questo domstica.
 Ele pareceu lisonjeado.
 - Querida senhora, terei muito gosto em ajudar. Qual a
natureza da vossa dificuldade?
 -  a Joana. J no  uma criana; ela... - Richild escolheu
as palavras cuidadosamente - atingiu agora a idade adulta. J
no  prprio continuar a viver em nossa casa.
 - Compreendo - disse Fulgncio, apesar de no parecer.Bem,
penso que poderemos arranjar outra resid...
 - Arranjei um casamento vantajoso - interrompeu Richild.Com
o filho de Bodo, o ferrador.  um bom rapaz, abastado, e ser
ferreiro quando o pai morrer - ele no tem mais filhos.
 - Isso apanha-me de surpresa. A rapariga expressou alguma
inclinao para o casamento?
 - Certamente no  a ela que compete decidir.  um casamento
muito melhor do que ela teria direito de esperar. A sua
famlia  pobre como os coloni e os seus modos estranhos
deram-lhe alguma... reputao.
 - Talvez - respondeu o bispo amavelmente. - Mas ela parece
dedicada aos estudos. E  evidente que no poderia continuar a
ir  escola se casasse com o filho do ferreiro.
 - Foi por isso que vim. Como fostes vs que decidistes
cham-la para a escola, tereis de ser vs a dar autorizao
para que ela seja dispensada.
 - Compreendo - voltou ele a dizer, apesar de continuar a
parecer que no estava a compreender. - E o que pensa o conde
acerca do casamento?
 - Ele ainda no sabe. Esta oportunidade surgiu agora.
 - Bem, ento - Fulgncio parecia aliviado. - Esperaremos que
ele regresse. Certamente, no h necessidade de nos
precipitarmos.
 Richild insistiu:
 - Pode perder-se esta oportunidade. O rapaz est renitente -
parece que se apaixonou por uma das raparigas da cidade - mas,
claro que eu tratarei de fazer com que o casamento constitua
um benefcio para ele. O seu pai e eu j chegmos a um acordo
quanto ao dote. Agora, o rapaz diz que cumprir a vontade do
pai - mas, ele  jovem e de disposio instvel.  melhor que
o casamento seja j.
 - Mesmo assim...
 - Recordo-vos, Eminncia, que sou a senhora de Villaris e
que a rapariga foi colocada sob a minha tutela. Sou
perfeitamente capaz de tomar uma deciso na ausncia do meu
esposo. De facto, estou em melhor posio para o fazer.


 155


Para dizer a verdade, a preferncia que Geraldo tem pela
rapariga tolda o seu juzo quando se trata de assuntos
relacionados com ela.
 - Compreendo - disse Fulgncio e, desta vez, compreendeu-o
bem de mais.
 Richild apressou-se a dizer:
 - A minha preocupao  estritamente monetria, como
compreendeis. Geraldo gastou uma pequena fortuna a comprar
livros para a rapariga - uma despesa intil, uma vez que ela
no tem futuro como intelectual. Algum tem de olhar pelo
futuro dela; ora, foi isso que eu fiz. Tendes de concordar que
o casamento  bom.
 - Sim - admitiu Fulgncio.
 - Bem. Ento, concordais em a dispensar?
 - As minhas desculpas, querida senhora, mas a minha deciso
tem de esperar pelo regresso do conde. Asseguro-vos que
discutirei a questo com ele. E com a rapariga. Pois, apesar
de o casamento ser... vantajoso, como dizeis, no quero
compromet-la com ele contra a sua vontade. Se o casamento se
revelar agradvel a todos, procederemos imediatamente.
 Ela comeou a falar, mas ele interrompeu-a:
 - Sei que pensais que o casamento poder ficar comprometido
se no for consumado imediatamente. Mas, perdoai-me, senhora,
eu no posso concordar. Um dia, ou mesmo um ms, fazem pouca
diferena.
 Ela voltou a tentar protestar, mas ele voltou a
interromp-la.
 - Estou decidido. No vale a pena prosseguir esta conversa.
 As suas faces arderam com o insulto. Louco presunoso! Quem
pensa ele que  para me dar ordens? A minha famlia
frequentava os palcios reais enquanto a sua ainda trabalhava
no campo!
 Ela olhou-o sem pestanejar.
 - Muito bem, Eminncia, se  essa a vossa deciso, eu tenho
de a aceitar.
 Comeou a calar as suas luvas de montar, como se estivesse
a preparar-se para sair.
 - A propsito - o seu tom era deliberadamente casual -
acabei de receber uma carta do meu primo, Sigismundo, bispo de
Troyes.
 O rosto do bispo mostrou um respeito lisonjeador.
 - Um grande homem, um grande homem.
 - Sabeis que ele presidir ao snodo que ir reunir-se em
Aachen neste Vero?
 - J ouvi dizer.


 156


 Agora que ela tinha deixado de o pressionar, ele voltou 
sua atitude jovialmente descontrada.
 -  possvel que tambm tenhais ouvido dizer qual ser o
tema principal da discusso nessa reunio?
 - Gostaria de saber - respondeu ele delicadamente, sem se
aperceber aonde ela queria chegar.
 - Certas... irregularidades - ela lanou a armadilha com
cuidado - na conduta do episcopado.
 - Irregularidades?
 Ele no percebeu o que ela queria dizer. Ela tinha de ser
mais directa.
 - O meu primo pensa levantar a questo dos votos episcopais,
especialmente - e olhou-o directamente nos olhos - do voto de
castidade.
 Ele empalideceu.
 - Ah sim?
 - Parece que ele tenciona fazer disso um dos grandes temas
do snodo. Reuniu provas acerca dos episcopados francos, que
ele considera muito perturbantes. Mas, ele no conhece to bem
os episcopados nesta parte do imprio, portanto, tem de
confiar em testemunhas locais. Nesta carta, ele pede-me
expressamente que partilhe com ele alguma informao que eu
possa ter sobre o vosso episcopado, Eminncia.
 Ela utilizou o ttulo com desprezo evidente e ficou contente
ao v-lo tremer.
 - Tencionava responder-lhe agora - continuou ela, suavemente
- mas, os pormenores do enxoval da rapariga tm-me mantido
muito ocupada. Alis, os planos para a festa de casamento
tornar-me-iam impossvel responder-lhe. Claro que, agora, que
o casamento vai ser adiado...
 Deixou o raciocnio em suspenso.
 Ele ficou como uma pedra, calado, prudente. Ela ficou um
pouco surpreendida. Ele era mais esperto do que ela pensava.
 Houve apenas uma coisa que o traiu. No fundo dos seus olhos
sonolentos e papudos, havia uma centelhazinha inegvel de
medo.
 Richild sorriu.


 Joana estava sentada numa pedra, preocupada e triste. Luke,
deitado  sua frente, colocou a cabea no seu colo, olhando-a
fixamente com os seus olhos opalescentes.
 - Tambm tens saudades dele, no ? - disse ela, coando
gentilmente o plo do lobo branco.


 157


 Se no fosse o Luke, ela estava completamente sozinha.
Geraldo j tinha partido havia uma semana. Joana sentia a sua
falta com uma dor quase fsica que a surpreendia. Podia
colocar a mo sobre o local exacto do peito onde a dor era
mais aguda; era como se o seu corao lhe tivesse sido
retirado do peito, desfeito, e tivesse sido substitudo.
 Ela sabia por que motivo ele tinha partido. Depois do que se
tinha passado entre eles junto ao rio, ele teve de partir.
Precisavam de estar um tempo afastados para arrumarem as
ideias e deixarem arrefecer a paixo. Ela compreendia, mas o
seu corao revoltava-se.
 Porqu?, perguntava-se ela a si mesma milhares de vezes.
Porque tem de ser assim? Richild no amava Geraldo, nem ele a
amava.
 Discutia consigo mesma, ensaiando os argumentos a favor
desta situao, tentando convencer-se de que era melhor assim,
mas acabava sempre por voltar quele que era um facto
inaltervel: ela amava Geraldo.
 Abanou a cabea, furiosa consigo prpria. Se Geraldo era
suficientemente forte para fazer isto por ela, como poderia
ela no o ser? O que no podia ser alterado tinha de ser
suportado. Concentrou-se numa nova resoluo: quando Geraldo
voltasse, tudo seria diferente. Bastar-lhe-ia estar perto
dele, falar e rir com ele, como tinham feito sempre... antes.
Seriam como mestre e pupilo, padre e freira, irmo e irm. Ela
apagaria da memria os seus braos em redor dela, os seus
lbios nos dela...
 Wido, o intendente, aproximou-se subitamente.
 - A senhora quer falar contigo.
 Joana seguiu-o, passando pelo porto, a caminho do ptio,
com o Luke a correr ao seu lado. Quando chegaram ao corredor
interior, Wido apontou para Luke:
 - O lobo, no.
 Richild no gostava de ces e proibiu que eles entrassem em
casa, como nas outras manses.
 Joana ordenou a Luke que ele se deitasse e esperasse no
ptio.
 O guarda levou-a atravs do prtico coberto, para o salo
grande, cheio de servos que preparavam a refeio da tarde.
Prosseguiram a caminho do terrao, onde Richild esperava.
 - Mandastes-me chamar, senhora?
 - Senta-te.
 Joana ia a sentar-se numa cadeira que estava ali, mas
Richild mandou-a sentar num banco em madeira, junto a uma
pequena escrivaninha. Joana sentou-se.


 158


 - Vais escrever uma carta.
 Tal como todas as outras senhoras nobres nesta regio do
Imprio, Richild tambm no sabia ler nem escrever. Wala, o
capelo de Villaris, normalmente, era o seu escriba. Wido
tambm sabia escrever um pouco e, por vezes, servia Richild
nesta tarefa.
 Ento, porque me ter ela mandado chamar a mim?, pensou
Joana.
 Richild bateu com o p impacientemente. Com um ar entendido,
Joana observou as penas que se encontravam sobre a mesa e
escolheu a mais afiada. Pegou numa folha de pergaminho fresco,
mergulhou a pena no tinteiro e acenou a Richild.
 - De Richild, condessa, senhora de Villaris - ditou Richild.
 Joana escreveu rapidamente. O som da pena a esgravatar ecoou
no silncio de morte da sala.
 - Ao cnego de Ingelheim, saudaes.
 Joana levantou os olhos.
 - Para o meu pai?
 - Continua - ordenou Richild num tom que indicava que no
toleraria perguntas. - A vossa filha, Joana, tendo atingido
quase quinze anos de idade, estando, portanto, em idade
casadoira, no ser autorizada a prosseguir os seus estudos na
escola.
 Joana parou imediatamente de escrever.
 - Como tutora da rapariga e zelando pelo seu bem-estar -
continuou Richild, tencionando prosseguir o ditado - arranjei
um casamento vantajoso com Iso, filho do ferreiro da cidade,
um homem prspero. O casamento ocorrer dentro de dois dias.
Os termos do acordo so os seguintes...
 Joana levantou-se de um salto, fazendo cair o banco.
 - Porque fazeis isto?
 - Porque assim o decidi - havia um sorrizinho malvolo nos
lbios de Richild. - E porque posso faz-lo.
 Ela sabe, pensou Joana. Ela sabe de Geraldo e de mim. O
sangue subiu-lhe ao rosto to rapidamente que ela pensou que a
sua pele ia arder.
 - Sim, Geraldo contou-me tudo acerca do interludiozinho
ridculo  beira-rio - Richild riu-se divertidamente. -
Acreditaste mesmo que os teus beijos desajeitados Lhe tinham
agradado? Rimo-nos deles nessa mesma noite.
 Joana estava demasiado chocada para responder.
 - Ests surpreendida? No devias estar. Pensaste que eras a
pri meira? Minha querida, s apenas a ltima conta no longo
colar de conquistas de Geraldo. No o devias ter levado to a
srio.


 159


 Como sabe ela o que se passou entre ns? O Geraldo
contou-lhe? Joana sentiu de repente um frio como se tivesse
sido exposta a uma corrente de ar.
 - No o conheceis - disse ela com firmeza.
 - Sou a sua esposa, criana insolente.
 - No o amais.
 - No - admitiu ela. - Mas, tambm no tenciono ser...
incomodada por uma insignificante filha de coloni!
 Joana tentou organizar os seus pensamentos.
 - No podeis fazer isto sem a aprovao do bispo Fulgncio.
Foi ele que me trouxe para a escola; no me podeis tirar dela
sem a sua autorizao.
 Richild deu-lhe para a mo uma folha de pergaminho com o
selo de Fulgncio.
 Joana leu-a rapidamente, depois, voltou a l-la mais
devagar, para ter a certeza de no ter cometido um erro. No
havia dvida: Fulgncio tinha suspendido os seus estudos na
escola. O documento tinha tambm a assinatura de Odo. Joana
imaginava o prazer que lhe devia ter dado fazer aquela
assinatura.
 O corao de Richild rejubilava ao ver Joana a ler. A
arrogante insignificanciazinha estava a descobrir como era
insignificante. E disse:
 - No vale a pena continuar a discutir. Senta-te e acaba a
carta para o teu pai.
 Joana respondeu em tom de desafio:
 - Geraldo no vos deixar fazer isto.
 - Criana tola, foi ideia dele.
 Joana pensou rapidamente.
 - Se o casamento  ideia de Geraldo, porque haveis esperado
a sua partida para o arranjar?
 - Geraldo  demasiado... mole. Faltou-lhe a coragem para te
dizer. J o vi fazer o mesmo com outras. Pediu-me que eu
resolvesse o problema. E foi o que eu fiz.
 - No acredito em vs - Joana recuou, lutando para reter as
lgrimas. - No acredito em vs.
 Richild suspirou.
 - O assunto est arrumado. Terminas a carta ou tenho de
chamar Wala?
 Joana rodopiou e saiu da sala. Antes de ter chegado ao
salo, ouviu a campainha de Richild a tocar, chamando o seu
capelo.


 160


 Luke estava  espera onde ela o tinha deixado. Joana caiu de
joelhos ao lado dele. O seu corpo aconchegou-se ao dela
afectuosamente, colocando a cabea sobre os seus ombros. A sua
presena reconfortante ajudou a acalmar a efervescncia de
emoes que Joana sentia.
 No posso entrar em pnico.  isso que ela quer.
 Tinha de pensar, planear o que havia de fazer. Mas, o seu
pensamento rodopiava e voltava sempre ao mesmo.
 Geraldo.
 Onde est ele?
 Se ele estivesse aqui, Richild nunca teria podido fazer
isto. A no ser que ela esteja a dizer a verdade e o casamento
tenha sido mesmo ideia do Geraldo.
 Joana afastou o pensamento de traio. Geraldo amava-a;
nunca permitiria que ela casasse contra a sua vontade com um
homem que nem sequer conhecia.
 Talvez voltasse a tempo de o impedir. Talvez...
 No. Ela no podia deixar que o seu futuro estivesse
dependente de um golpe da sorte. O pensamento de Joana,
embotado pelo choque e o medo, continuava suficientemente
lcido para compreender isto.
 Geraldo no deve voltar nas prximas duas semanas. o
casamento ocorrer daqui a dois dias.
 Ela tinha de se livrar daquela situao. No podia levar
aquele casamento por diante.
 O bispo Fulgncio. Tenho de ir ter com ele, falar com ele,
convenc-lo de que este casamento no pode acontecer.
 Joana tinha a certeza que Fulgncio no tinha assinado
aquele documento de bom grado. Ele j tinha demonstrado que
gostava de Joana, atravs de pequenas delicadezas, e que
ficava satisfeito com o seu aproveitamento na escola -
especialmente porque era um espinho no corao de Odo.
 Richild deve ter algum poder sobre ele para ter conseguido
que ele concordasse com isto.
 Se a Joana falasse com ele, talvez o convencesse a desmarcar
o casamento - ou, pelo menos, a adi-lo, at que Geraldo
regressasse.
 Talvez ele no me receba. Por muito que tivesse sido forado
a aceitar o casamento, teria relutncia - talvez at vergonha
- em a receber agora. Se ela pedisse uma audincia, ser-lhe-ia
negada, provavelmente.
 Sufocou o medo, forando-se a si mesma a pensar logicamente.
No domingo, Fulgncio vai celebrar o pontifical. Entrar em
procisso na catedral. Aproximar-me-ei dele e, se for preciso,
arrojar-me-ei aos seus ps. No me interessa. Ele h-de parar
e ouvir-me-; eu obrig-lo-ei a faz-lo.


 161


Olhou para o Luke:
 - Ser que vai resultar, Luke? Ser que bastar para me
salvar?
 Ele inclinou a cabea, num tom interrogativo, como se
estivesse a tentar compreender. Era um gesto que divertia
sempre o Geraldo. Joana abraou o lobo branco, enterrando a
cara no plo alto do seu pescoo.
 Os notrios e os outros clrigos vinham  frente, numa
procisso solene a caminho da catedral. Atrs deles, a cavalo,
vinham os membros do clero, diconos e subdiconos, todos
esplendorosos. Odo cavalgava entre eles, vestido com
paramentos castanhos, com uma expresso altiva e desagradvel.
Quando viu a Joana, junto ao grupo de pedintes e peticionrios
 espera do bispo, os seus lbios esboaram um sorriso
malvolo.
 Por fim, apareceu o bispo, vestido de seda branca, montando
um corcel magnfico ajaezado de carmesim. Imediatamente atrs,
seguiam os altos dignitrios do palcio episcopal: o
tesoureiro, o camareiro-mor e o encarregado das esmolas. A
procisso parou e os pedintes andrajosos formaram
imediatamente um crculo  sua volta, pedindo esmolas em nome
de Santo Estvo, patrono dos indigentes. O responsvel pelas
esmolas distribua esmolas entre eles.
 Joana aproveitou para se aproximar do local onde o bispo
esperava, com o cavalo a bater com os cascos no cho,
impaciente.
 Caiu de joelhos.
 - Eminncia, ouvi a minha splica...
 - J sei do que se trata - disse o bispo sem olhar para ela
- j tratei do assunto. No vou ouvir esta peticionria.
 Esporeou o cavalo, mas Joana levantou-se e agarrou-se s
rdeas, fazendo-o parar.
 - Este casamento ser a minha runa - ela falava depressa e
baixinho para que ningum ouvisse. - Se no podeis fazer nada
para o impedir, pelo menos, podeis, pelo menos, adi-lo por um
ms?
 Ele fez meno de prosseguir, mas Joana continuava a segurar
as rdeas. Dois dos guardas precipitaram-se sobre ela e
t-la-iam tirado dali se o bispo no lhes tivesse feito um
sinal com a mo.
 - Um dia? - pediu Joana. - Peo-vos, Eminncia, dai-me um
dia!
 Mortificada, porque tinha decidido mostrar-se forte, comeou
a soluar.


 162


 Fulgncio era um homem fraco, com muitos pecados, mas o seu
corao no era duro. Os seus olhos encheram-se de simpatia,
enquanto se baixava para acariciar o cabelo dourado de Joana.
 - Minha filha, no te posso ajudar. Tens de te resignar ao
teu destino que, afinal,  natural para uma mulher -
debruou-se e sussurrou. - Mandei tirar informaes acerca do
rapaz que ser teu marido.  um homem simples; no ters
dificuldade em suportar a tua sorte.
 Fez sinal aos guardas, que retiraram as rdeas das mos de
Joana e a empurraram para o meio da multido. Abriu-se uma ala
para ela passar. Ao faz-lo, tentando esconder as suas
lgrimas, Joana ouviu os aldees a rirem-se baixinho.
 No meio da multido, viu Joo. Foi ter com ele, mas ele
virou-lhe as costas.
 - Vai-te embora! - gritou ele. - Odeio-te!
 - Porqu? O que fiz eu?
 - Sabes muito bem o que fizeste!
 - Joo, o que se passa? O que aconteceu?
 - Tenho de deixar Dorstadt! - gritou ele. - Por tua causa!
 - No percebo.
 - O Odo disse-me: tu no pertences aqui. - Joo imitou a
entoao nasalada do mestre de escola. - S te deixmos ficar
por causa da tua irm.
 Joana estava chocada. Tinha estado to envolvida no seu
prprio dilema que no tinha pensado nas suas consequncias
para o Joo. Ele era um estudante fraco; eles s tinham ficado
com ele por causa da sua forte ligao a ela.
 - Este casamento no  uma escolha minha, Joo.
 - Tu sempre estragaste a minha vida e, agora, ests a
faz-lo outra vez!
 - No ouviste o que eu acabei de dizer ao bispo?
 - No me interessa!  tudo culpa tua.  sempre tudo por tua
culpa! Joana estava atnita. - Tu detestas estudar. Porque
ests preocupado se te mandarem embora da escola?
 - Tu no compreendes - ele olhou por cima do ombro
dela.Nunca compreendes. Joana virou-se e viu os rapazes da
escola a conversarem uns com os outros. Um deles, apontou para
eles e segredou qualquer coisa aos outros, ao que todos
comearam a rir-se.


 163


 Ento, eles j sabem, pensou Joana. Claro. Odo no teve
qualquer respeito pelos sentimentos de Joo. Olhou para o
irmo, com pena. Devia ter sido difcil, quase insuportvel,
separar-se dos seus amigos por causa dela. Tinha-se juntado a
eles contra ela, muitas vezes. Mas, Joana compreendia porqu.
Joo nunca tinha querido seno ser aceite, ser acolhido.
 - Vais ficar bem, Joo - disse ela, docemente. - Agora, s
livre de voltar para casa.
 - Livre? - Joo soltou uma gargalhada amarga. - Livre como
um monge!
 - O que queres dizer com isso?
 - Tenho de ir para o mosteiro de Fulda! O pai mandou
instrues ao bispo pouco depois de ns termos chegado. Se eu
no conseguisse progredir na escola, tinha de ir para a
irmandade de Fulda!
 Ento era esta a origem da fria do Joo. Uma vez aceite na
irmandade, no poderia sair. Nunca poderia ser um soldado, nem
cavaleiro do exrcito imperial, como ele sonhava.
 - Talvez ainda haja uma soluo - disse Joana. - Podemos
voltar a pedir ao bispo. Talvez se formos os dois a pedir-lhe,
ele...
 O seu irmo fulminou-a com o olhar, procurando palavras para
exprimirem o que sentia.
 - Quem... quem me dera que nunca tivesses nascido!
 Virou-lhe as costas e fugiu.
 Profundamente abatida, Joana regressou a Villaris.
 Joana sentou-se perto da ribeira onde ela e Geraldo se
tinham beijado algumas semanas antes. Parecia que tinha
passado uma eternidade desde ento. Olhou para o Sol; faltava
apenas uma ou duas horas para a hora sexta. Por essa altura,
no dia seguinte, ela estaria casada com o filho do ferreiro.
 A no ser que...
 Observou a linha de rvores que marcava o limite da mata. A
floresta que rodeava Dorstad era to densa e extensa que uma
pessoa podia esconder-se nela dias ou semanas a fio, sem ser
descoberta. Geraldo regressava dali a um ou dois dias. Ser
que ela conseguiria sobreviver at l?
 A floresta era perigosa; havia animais selvagens e auroques
e... lobos. Ela lembrou-se da violncia selvagem da me de
Luke, quando se atirou contra as grades da jaula, com os
dentes afiados brilhando ao luar.


 164


 Levo o Luke comigo, pensou ela. Ele proteger-me- e
ajudar-me- a arranjar comida. O jovem lobo era j um lesto
caador de coelhos e de outras presas abundantes naquela poca
do ano.
 O Joo, pensou ela. E o Joo? Ela no podia fugir sem lhe
dizer.
 Ele pode vir comigo! Claro! Era uma soluo para os
problemas dos dois. Ficavam juntos na floresta,  espera que
Geraldo voltasse. Geraldo havia de tratar de tudo, no s no
que Lhe dizia respeito a ela, mas tambm ao seu irmo.
 Tinha de falar com o Joo. Dizer-lhe para ele se encontrar
com ela na floresta, naquela noite, para trazer o seu arco e a
sua flecha e a sua besta.
 Era um plano desesperado. Mas, ela estava desesperada.
 Encontrou Dhuoda no quarto. Apesar de s ter dez anos, ela
era uma rapariga alta, bem desenvolvida para a idade. A sua
semelhana com a sua irm Gisla era iniludvel. Saudou Joana,
excitada.
 - Acabei de ouvir! Amanh,  o dia do teu casamento!
 - No se eu o conseguir evitar - respondeu Joana rudemente.
 Dhuoda ficou surpreendida. Gisla estava to ansiosa, quando
foi do seu casamento.
 - Ento, ele  feio! - a sua face brilhou com um horror
infantil -  desdentado? Tem escrfula?
 - No. - Joana no conseguiu deixar de sorrir. -  jovem e
normal, segundo me dizem.
 - Ento, porque...
 - No tenho tempo para te explicar, Dhuoda - disse Joana,
apressadamente. - Vim pedir-te um favor. s capaz de guardar
um segredo?
 - Sim, claro! - Dhuoda aproximou-se dela, curiosa.
 Joana tirou do bolso um pedao de pergaminho enrolado.
 - Esta carta  para o meu irmo, Joo. Leva-Lho  escola. Eu
podia l ir, mas esto  minha espera no terrao para provar
uma tnica nova para o casamento. s capaz de fazer isso por
mim?
 Dhuoda ficou a olhar para o pedao de pergaminho. Tal como a
sua me e a sua irm, tambm ela no sabia ler nem escrever.
 - O que diz aqui?
 - No te posso dizer, Dhuoda. Mas  importante, muito
importante.
 - Uma mensagem secreta! - o seu rosto corou de excitao.
 - A escola fica s a duas milhas daqui. Podes ir e vir numa
hora, se te despachares.


 165


 Dhuoda pegou no pergaminho.
 - Volto em menos tempo do que isso!
 Dhuoda passou a correr pelo ptio principal, procurando
evitar os criados e valetes que enchiam o local quela hora do
dia. A ideia da aventura espevitou-a. Sentia o frio macio do
pergaminho na mo e teve pena de no poder ler o que ali
estava escrito. A sabedoria de Joana enchia-a de admirao.
 Esta aventura misteriosa era uma mudana bem-vinda na
monotonia do seu quotidiano em Villaris. Alm disso, estava
contente de poder ajudar a Joana. Joana era sempre simptica
com ela; explicava-lhe todo o tipo de coisas interessantes -
ao contrrio da mam, que perdia a pacincia e se zangava com
tanta facilidade.
 Estava quase no porto de sada, quando ouviu um grito.
 - Dhuoda!
 A voz da mam. Dhuoda continuou, como se no tivesse ouvido,
mas, quando ia a passar pelo porto, o porteiro agarrou-a e
obrigou-a a esperar.
 Ela virou-se para a me.
 - Dhuoda! Onde vais?
 - A parte nenhuma.
 Dhuoda escondeu o pergaminho atrs das costas. Richild
apercebeu-se do movimento rpido e desconfiou.
 - O que  isso?
 - N-nada - titubeou Dhuoda.
 - D-me isso.
 Richild estendeu a mo imperativamente.
 Dhuoda hesitou. Se desse  me o pergaminho, trairia o
segredo que Joana lhe tinha confiado. Se desobedecesse...
 A me olhou para ela, com os olhos exprimindo ira.
 Ao olhar para aqueles olhos, Dhuoda compreendeu que no
tinha alternativa.


 Na ltima noite antes do casamento de Joana, Richild
insistiu que ela dormisse num quartinho perto da sua prpria
cmara - um privilgio reservado, normalmente, apenas a
crianas doentes ou  sua aia favorita. Era uma honra especial
concedida  noiva, segundo tinha dito Richild, mas Joana tinha
a certeza que ela apenas queria vigi-la. No importava.
Quando Richild adormecesse, Joana podia esgueirar-se do quarto
to facilmente como se estivesse no dormitrio.


 166


 Ermentrude, uma das criadas, entrou no quartinho, trazendo
uma malga de vinho tinto com especiarias.
 - Da parte da senhora Richild - disse ela - para vos
presentear nesta noite.
 - No quero - Joana afastou a malga. No aceitava favores de
uma inimiga.
 - Mas, a senhora Richild disse para eu ficar aqui enquanto o
bebeis e para levar a malga comigo.
 Ermentrude desejava fazer tudo quanto lhe mandavam, uma vez
que s tinha doze anos e era nova no servio da casa.
 - Ento, bebe-o tu - disse Joana, irritada. - Ou derrama-o
para o cho. Richild nunca vir a saber.
 O rosto de Ermentrude iluminou-se. No lhe tinha ocorrido
fazer aquilo.
 - Sim, menina. Obrigado, menina.
 Virou-se para se ir embora.
 - Um momento.
 Joana voltou a cham-la, reconsiderando. A malga estava
cheia de um vinho aromtico, espesso, brilhando na luz
nocturna. Se queria sobreviver de noite na floresta, ia
precisar de todo o sustento que conseguisse. No podia
permitir-se gestos de um orgulho tolo. Pegou na malga e bebeu
o lquido de um trago. Ficou com a marca do lquido da malga
em torno dos lbios e com um sabor estranho na boca. Limpou-a
com a manga, depois devolveu a malga a Ermentrude que saiu
apressadamente.
 Joana apagou a vela e deitou-se no escuro,  espera. O
colcho de penas envolveu-a com uma maciez que lhe era
estranha; estava acostumada  palha simples da sua cama, no
dormitrio. Antes queria que Richild a tivesse deixado dormir
na sua prpria cama, ao lado de Dhuoda. No a tinha visto
desde que lhe tinha entregado a mensagem. Ela tinha ficado
toda a tarde enclausurada nos aposentos de Richild, rodeada de
criadas ocupadas a arranjar o seu vestido de noiva e a juntar
as roupas e pertences que iriam com ela, como dote.
 Ser que Dhuoda tinha entregado a mensagem ao Joo? No
podia ter a certeza. Esperaria pelo Joo na clareira da
floresta; se ele no viesse, ela e Luke partiriam sozinhos.
 Ouviu a respirao profunda e lenta de Richild, no quarto ao
lado. Esperou mais um quarto de hora para ter a certeza de que
ela estava a dormir. Depois, levantou-se, esgueirou-se
silenciosamente de entre os cobertores.


 167


 Entrou no quarto de Richild. Ela estava deitada imvel,
respirando regular e profundamente. Joana passou junto 
parede, saindo pela porta.
 Mal saiu, os olhos de Richild abriram-se.
 Joana deslocou-se em silncio atravs das salas, at chegar
ao ptio exterior. Respirou fundo, sentindo-se um pouco tonta.
 Estava tudo silencioso. Havia um nico guarda, encostado 
parede, perto do porto, com a cabea cada sobre o peito,
ressonando. A sombra de Joana avolumou-se grotescamente sobre
a terra, ao luar. Mexeu a mo e um gesto gigantesco imitou-a.
 Joana assobiou baixinho para chamar o Luke. O guarda
mexeu-se. Luke no apareceu. Mantendo-se na sombra, dirigiu-se
para o canto onde Luke costumava dormir; no queria correr o
risco de acordar o guarda, com o barulho.
 De repente, sentiu que o cho Lhe fugia debaixo dos ps.
Sentiu uma nusea e agarrou-se, estonteada, a um poste.
Benedicite. No posso ficar doente agora.
 Lutando contra as tonturas, atravessou o ptio. Viu Luke no
canto oposto. O jovem lobo estava deitado de lado, com os seus
olhos opalescentes a olharem, cegos, para a Lua e com a lngua
pendente fora da boca. Ela baixou-se para Lhe tocar e sentiu o
seu corpo frio por baixo do macio plo branco. Os seus olhos
caram num pedao de carne abocanhada, cado no cho. Ficou a
olhar para ele, espantada. Pousou uma mosca no sangue hmido
que rodeava a carne. Ficou ali, a beber, depois, levantou voo,
deu umas voltas no ar e caiu subitamente no cho. No voltou a
mexer-se.
 Joana comeou a sentir um silvo agudo nos ouvidos. Parecia
que o ar ondulava  sua volta. Recuou, voltando-se para
comear a correr, mas o cho voltou a fugir-lhe debaixo dos
ps, acabando por se levantar, ao seu encontro.
 No sentiu os braos que a levantaram do local onde ela caiu
e a levaram outra vez para dentro.


 O ranger das rodas mantinha um ritmo melanclico,
acompanhado pelo bater dos cascos dos cavalos, enquanto a
carruagem avanava na direco da catedral, levando Joana para
a missa do seu casamento.
 Tinha sido acordada  fora naquela manh, demasiado tonta
para se aperceber do que se estava a passar. Com os sentidos
embotados, deixou que as criadas, que giravam  sua volta, Lhe
vestissem o vestido de noiva e a penteassem.


 168


 Mas, os efeitos da droga estavam a passar e Joana comeou a
recuperar a memria. Foi o vinho, pensou ela. Richild ps
qualquer coisa no vinho. Joana pensou em Luke, jazendo frio e
sozinho na noite. A garganta apertou-se-lhe. Tinha morrido sem
consolo e companhia; Joana esperava que ele no tivesse
sofrido muito. Devia ter dado prazer a Richild envenenar a sua
carne; ela sempre o tinha detestado porque sentia que ele
representava a ligao existente entre Geraldo e Joana.
 Richild seguia no carro,  frente. Estava magnificamente
vestida com uma tnica de seda azul, com o cabelo preto
enrolado elegantemente em torno da cabea e preso com uma
tiara em prata com esmeraldas encrostadas. Ela era bonita.
 Porque no me matou a mim tambm?, pensou a Joana
lentamente.
 Sentada num carro que se aproximava cada vez mais da
catedral, doente no corpo e no corao, com Geraldo longe e
sem maneira de fugir, Joana antes queria que ela o tivesse
feito.
 As rodas batiam barulhentamente no piso irregular do ptio
da catedral e o cocheiro fez sinal para mandar parar os
cavalos. Apareceram imediatamente dois criados de Richild. Com
uma solenidade de circunstncia, ajudaram Joana a sair do
carro.
 Junto da catedral, tinha-se juntado uma multido enorme. Era
a Festa dos Primeiros Mrtires, um feriado religioso, assim
como a missa do casamento de Joana e toda a cidade se tinha
reunido para a ocasio.
  frente da multido, Joana reparou num rapaz alto, rude,
ossudo, junto aos seus pais. O filho do ferreiro. Reparou na
sua expresso taciturna e no seu abatimento. Quer-me tanto
para esposa como eu o quero para esposo. Porque haveria de
querer?
 O seu pai empurrou-o; ele aproximou-se de Joana e
ofereceu-lhe o brao. Ela aceitou-o e ficaram lado a lado,
enquanto Wido, o intendente de Richild, leu a lista do dote de
Joana.
 Joana olhou na direco da floresta. Agora, j no podia
correr e esconder-se l. A multido rodeava-a e os homens de
Richild estavam junto dela, vigiando-a.
 Entre os curiosos, Joana viu Odo. Junto dele, estavam os
rapazes da escola, a cochichar, como costume. Joo no estava
com eles. Ela procurou na multido e encontrou-o do outro
lado, ignorado pelos seus companheiros. Agora, estavam ambos
sozinhos, s se tinham um ao outro. Os olhos dela
procuraram-no, oferecendo-Lhe conforto. Surpreendentemente,
ele no desviou os olhos e retribuiu-lhe o olhar, com um rosto
que manifestava sofrimento.


 169


 Tinham sido estranhos um ao outro durante muito tempo, mas,
naquele momento, voltavam a estar os dois juntos, irmo e
irm, unidos numa compreenso mtua. Joana manteve os olhos
fixos nele, sem querer quebrar o frgil elo que os unia.
 O intendente acabou a leitura. A multido aguardava, na
expectativa. O filho do ferreiro levou Joana para a catedral.
Richild e a sua comitiva seguiram atrs deles, seguidos pelos
aldees.
 Fulgncio estava  espera diante do altar. Quando Joana e o
rapaz se aproximaram, ele mandou-os sentar. Primeiro, seria
celebrada a missa solene, depois, a do casamento.
 - Omnipotens sempiterne Deus qui me peccatoris.
 Como costume, Fulgncio titubeava o latim, mas Joana mal
reparou. Ele fez sinal a um aclito para que ele preparasse o
ofertrio e comeou a orao de oblao.
 - Suscipe sanctum Trinitas...
 Ao seu lado, o filho do ferreiro baixou a cabea
reverentemente. Joana tentou rezar tambm, baixando a cabea e
balbuciando as palavras, mas no havia substncia para a
forma; dentro dela, s havia um enorme vazio.
 Comeou o momento da mistura da gua com o vinho.
 - Deus qui humanae substantiae...
 As portas da catedral abriram-se com um estrondo. Fulgncio
abandonou a sua luta com a missa em latim e olhou para a
entrada, incrdulo. Joana virou a cabea, tentando descobrir a
origem desta intromisso sem precedentes. Mas, as pessoas
atrs dela tapavam-lhe a viso.
 Depois, viu-o. Uma criatura enorme, com a aparncia de um
homem, mas um palmo mais alto do que qualquer outro homem, a
contraluz,  entrada da porta. A sua sombra projectava-se na
escurido interior. O seu rosto no tinha expresso, parecia
feito em metal. Os seus olhos estavam to escondidos nas suas
rbitas que Joana mal os conseguia ver. No cimo da cabea,
tinha cornos dourados.
 Do meio da multido, ouviu-se uma mulher gritar.
 Woden, pensou Joana. H muito que tinha deixado de acreditar
nos deuses de sua me, mas aquele era Woden, tal como a me o
tinha descrito, subindo a nave central.
 Veio salvar-me?, pensou ela.
 Quando ele se aproximou, ela viu que o rosto metlico e os
cornos eram uma mscara, parte de um complicado elmo de
combate. A criatura era um homem, no era um deus. Saa-Lhe
uma longa cabeleira loura encaracolada do seu elmo, caindo-lhe
sobre os ombros.


 170


 - Normandos! - gritou algum.
 O intruso continuou sem parar. Ao chegar ao altar, levantou
uma pesada espada, de dois gumes, e desfechou-a brutalmente na
tonsura de um dos clrigos assistentes. O homem caiu, com o
sangue espirrando do buraco onde tinha estado a sua cabea.
 Caiu tudo no caos.  volta de Joana, toda a gente gritava e
procurava fugir. Joana foi arrastada pela multido, entalada
de tal forma entre corpos que se debatiam, que os seus ps
deixaram de tocar o cho. A onda de aldees aterrorizados
dirigiu-se para a porta, depois, parou abruptamente.
 A sada estava bloqueada por outro intruso, vestido para o
combate, como o primeiro, mas trazendo um machado, em vez de
uma espada.
 A multido hesitou. Joana ouviu gritar l fora e, depois,
apareceram  porta mais normandos - pelo menos, uma dzia.
Vieram a correr direitos  multido, soltando gritos medonhos
e brandindo machados em ferro enormes.
 Os aldees lutavam e passavam uns por cima dos outros para
fugirem aos golpes assassinos. Joana foi empurrada por trs e
caiu ao cho. Sentiu que Lhe passavam por cima das costas e
levantou os braos para proteger a cabea. Algum Lhe pisou a
mo direita com toda a fora e ela gritou:
 - Mam! Ajuda-me! Mam!
 Lutando para se libertar de ser esmagada, rastejou at
chegar a um canto livre. Olhou para o altar e viu Fulgncio
cercado de normandos. Lutava com eles, brandindo a grande cruz
de madeira que estava por trs do altar, que ele tinha
arrancado da parede. Balanava-a com fora, ao mesmo tempo que
os seus atacantes avanavam e recuavam, tentando atingi-lo com
as espadas, mas sem conseguirem entrar no crculo da sua
defesa. Fulgncio desferiu um golpe num normando que fez com
que ele voasse para o outro lado do coro.
 Ela rastejou no meio do barulho e do fumo - havia fogo? - 
procura do Joo.  sua volta, ouviam-se gritos lancinantes,
gritos de guerra e gemidos de dor e terror. O cho estava
coberto de cadeiras viradas e de corpos a escorrer sangue.
 - Joo - chamou ela.
 Ali, o fumo era mais espesso; ardiam-lhe os olhos e no
conseguia ver bem.
 - Joo!
 Mal ouvia a sua voz, no meio da confuso.


 171


 Sentiu uma corrente de ar passar-lhe pelas costas. Atirou-se
para o lado, instintivamente. A lmina do normando, que tinha
sido apontada ao seu pescoo, fez-Lhe apenas um golpe na face.
O golpe atirou-a ao cho, onde ela se contorceu de dores, com
a mo na cara.
 O normando ficou diante dela, com um brilho assassino nos
seus olhos azuis. Ela recuou, tentando fugir, mas foi em vo.
 O normando levantou a espada para desferir o golpe final.
Joana protegeu a cabea com os braos, virando a cara para o
lado.
 O golpe no veio. Ela abriu os olhos para ver a espada a
cair das mos do seu agressor. O sangue corria-lhe dos cantos
da sua boca, enquanto ele caa lentamente no cho. Por trs
dele, estava Joo, segurando a lmina ensanguentada da faca de
cabo de osso do seu pai.
 Os seus olhos brilhavam com um entusiasmo estranho.
 - Trespassei-lhe o corao! Viste? Ele ia matar-te!
 Ela ficou horrorizada.
 - Vo matar-nos a todos! - agarrou-se a Joo. - Temos de
fugir, temos de nos esconder!
 Ele libertou-se dela.
 - Apanhei outro. Ele veio direito a mim com um machado, mas
eu cortei-lhe a garganta.
 Joana procurava desesperadamente um stio para se esconder.
A alguns passos dela, havia um oratrio. A sua fachada em
madeira esculpida estava coberta de painis representando a
vida de So Germano. E era oco. Talvez tivesse espao
suficiente...
 - Depressa - gritou ela para o Joo - anda!
 Puxou pela manga da sua tnica para ele se baixar ao seu
lado. Fazendo-Lhe sinal para que a seguisse, rastejou na
direco do oratrio. Sim! Havia espao suficiente para se
esconderem.
 Estava escuro. Passava apenas um fio de luz por uma pequena
fenda na juno dos painis.
 Ela escondeu-se num canto, encolhendo as pernas para que
Joo tambm coubesse. Mas, ele no apareceu. Ela rastejou
novamente para a sada e espreitou.
 A alguns passos dela, viu-o debruado sobre o corpo do
normando que ele matara. Estava a puxar as roupas ao homem,
como se estivesse  procura de qualquer coisa.
 - Joo! - gritou ela. - Aqui! Depressa!
 Ele olhou para ela, com um olhar enlouquecido, com as mos
ainda a mexerem no normando. Ela no se atreveu a voltar a
gritar, com medo de revelar o precioso esconderijo. Depois,
ele soltou um grito triunfante e levantou-se, com a espada do
normando na mo.


 172


 Ela fez-Lhe sinal para que ele viesse ter com ela. Ele
levantou a espada, saudando-a, e fugiu.
 Hei-de ir ter com ele? Aproximou-se da abertura.
 Algum - uma criana? - gritou perto dela. Um urro tremendo,
que ecoou no ar, e, depois, cessou repentinamente. O medo
apoderou-se dela e ela recuou. A tremer, espreitou pela nesga
entre os painis,  procura de Joo.
 Travava-se um combate mesmo  sua frente. Ela ouvia o som de
metal a bater em metal, viu de relance um pedao de tecido
amarelo, o reluzir de uma espada erguida. Um corpo caiu
pesadamente. A luta prosseguiu, deslocando-se um pouco para o
lado e ela olhou pela nave abaixo, na direco da entrada da
catedral. As amplas portas continuavam entreabertas, foradas
pelo amontoar grotesco de corpos.
 Os normandos estavam a remover as suas vtimas da entrada,
deslocando-as para o lado direito da catedral.
 A entrada ficou desimpedida.
 Agora, disse ela para si mesma. Corre para a porta. Mas, no
era capaz de se mexer; os seus membros estavam bloqueados.
 Apareceu um homem perto do seu estreito campo de viso.
Parecia to louco e desgrenhado, que, por momentos, ela no
reconheceu que se tratava de Odo. Ele cambaleava na direco
da porta, arrastando a perna esquerda. Tinha a grande Bblia
do altar-mor apertada nos braos.
 J estava quase a chegar  porta quando dois escandinavos o
interceptaram. Ele enfrentou os seus atacantes, brandindo a
Bblia, como se ela o protegesse de espritos malignos. Uma
espada pesada cortou o livro e acertou-lhe directamente no
peito. Ele ficou por momentos atnito, segurando as duas
metades do livro nas mos. Depois, caiu para trs e no se
mexeu mais.
 Joana escondeu-se no escuro. Ouvia gritos de moribundos por
todos os lados. Enrolada sobre si mesma, enterrou a cabea nos
braos. Sentia as batidas apressadas do seu corao nos
ouvidos.
 Os gritos cessaram.
 Ela ouviu os normandos chamarem-se uns aos outros na sua
lngua gutural. Ouviu-se um grande rudo de madeira a partir.
Inicialmente ela no compreendeu o que estava a acontecer;
depois, apercebeu-se de que eles estavam a despojar a catedral
dos seus tesouros. Os homens riam e gritavam. Estavam
eufricos.


 173


 No demoraram muito a terminar o saque. A Joana ouviu-os
gemer ao peso dos seus despojos. As suas vozes ressoavam 
distncia.
 Hirta como uma esttua, ela sentou-se no escuro e ps o
ouvido  escuta. Estava tudo sossegado. Dirigiu-se para a
entrada do oratrio e meteu a cabea de fora.
 A catedral estava destruda. Os bancos tinham sido
derrubados, as tapearias tinham sido arrancadas das paredes,
as imagens estavam quebradas no cho. No havia sinais dos
normandos.
 Havia corpos por todo o lado, amontoados de forma catica. A
alguns passos dela, no cimo das escadas que conduziam ao
altar, jazia Fulgncio, junto  grande cruz em madeira. Ela
estava partida e cheia de sangue. Junto dele, jaziam os corpos
de dois normandos com os crnios esmagados dentro dos seus
elmos. Joana moveu-se, saindo de dentro do oratrio.
 No canto oposto, mexeu-se qualquer coisa. Joana voltou a
fugir da luz.
 Um pedao de roupa torceu-se, libertando-se da pilha de
corpos.
 Tinha sobrevivido algum!
 Uma jovem levantou-se, de costas para Joana. Tremendo,
comeou a cambalear em direco  porta.
 O seu vestido dourado estava rasgado e ensanguentado e o seu
cabelo solto caa-lha sobre os ombros em caracis arruivados.
 - Gisla!
 Joana chamou-a e ela virou-se, cambaleando em direco ao
oratrio.
 Ouviu-se um sbito explodir de gargalhadas fora da catedral.
 Gisla ouviu e virou-se para fugir, mas era tarde de mais. Um
grupo de normandos entrou pela porta. Caram sobre Gisla com
um grito triunfante, levantando-a no ar, acima das suas
cabeas.
 Levaram-na para ao p do altar e prenderam-na pelos pulsos e
os tornozelos. Ela torcia-se violentamente, tentando
libertar-se. O homem mais alto levantou-Lhe a tnica,
cobrindo-Lhe a cara e caiu em cima dela. Gisla gritou. O homem
agarrou os seus seios com as mos. Os outros riam-se e
gritavam, encorajando-o, enquanto ele a violava. Joana tapou
a boca com a mo para no gritar.
 O normando levantou-se e deu o lugar a outro. Gisla estava
imvel no cho. Um dos homens pegou-Lhe pelos cabelos e
torceu-os, para a obrigar a reagir.
 Um terceiro apossou-se dela e um quarto; depois,
abandonaram-na, enquanto colocavam vrios sacos daquilo que
tinham pilhado junto  porta.


 174


Ouviu-se o tilintar do metal quando os moveram; os sacos
deviam estar cheios de tesouros pilhados em vrias catedrais.
 Tinha sido por causa disso que tinham voltado atrs.
 Antes de partirem, um dos homens voltou  procura de Gisla.
 puxou-a, ainda imvel e sem oferecer resistncia, e
colocou-a ao ombro, como um saco de cereais.
 Saram pela porta grande.
 Escondida dentro do oratrio, Joana ouvia apenas o silncio
que ressoava na catedral.
 A luz que entrava pela fisga do oratrio projectava grandes
sombras. H horas que no se ouvia nada. Joana mexeu-se e
arrastou-se pela passagem estreita.
 O altar-mor ainda estava de p, apesar de ter sido despojado
de todos os seus adornos a ouro. Joana debruou-se sobre ele,
olhando  sua volta. A sua tnica nupcial estava manchada de
sangue - seria dela? No sabia dizer. A face latejava-Lhe de
dor. A custo, comeou a vaguear entre os cadveres amontoados,
 procura.
 Deparou com o ferreiro e o seu filho numa pilha de cadveres
perto da porta. Estavam abraados, como se se tivessem tentado
proteger um ao outro. Morto, o rapaz parecia mais baixo e mais
velho. Umas horas antes, estava ao seu lado na catedral, alto,
robusto e cheio de vigor juvenil. Agora, j no h casamento,
pensou Joana. Na vspera, aquele pensamento t-la-ia enchido
de um alvio e uma alegria profundas, agora, s sentia um
enorme vazio. Deixou-o jazendo ao lado do seu pai e continuou
 procura.
 Encontrou Joo a um canto, com a mo ainda agarrando uma
espada normanda. A sua nuca tinha sido esmagada com o golpe de
uma espada, mas, a violncia da sua morte no tinha deixado
qualquer marca no seu rosto. Os seus olhos azuis estavam
lmpidos e abertos, a sua boca um pouco entreaberta, naquilo
que parecia ser um sorriso.
 Tinha morrido como um soldado.
 Ela correu, aos tropees, na direco da porta e puxou-a,
para a abrir. O painel caiu porque os normandos tinham partido
os gonzos com os seus machados. Saiu e respirou o ar fundo e
doce em grandes golfadas, libertando-se do fedor da morte. 
Estava tudo deserto. O fumo subia em rolos lentos por cima dos
telhados que, ainda naquela manh, constituam um burgo em
torno da catedral.


 175



 Dorstadt estava em runas.
 No havia vivalma. Ningum tinha sobrevivido. Estavam todos
reunidos na catedral para a missa.
 Ela olhou para ocidente. Por cima das rvores que lhe
ofuscavam a viso, subia uma grossa coluna de fumo,
escurecendo o cu.
 Villaris.
 Tinham-na queimado.
 Ela sentou-se no cho e tapou a cara com as mos para
aliviar a sua ferida.
 Geraldo.
 Ela precisava que ele falasse com ela, que a consolasse, que
fizesse com que o mundo voltasse a ser reconhecvel. Olhando
para o horizonte com os olhos semicerrados, tinha uma vaga
esperana de que ele aparecesse, que viesse ao seu encontro
montado no Pistis, com o cabelo vermelho adejando ao vento
como um estandarte.
 Tenho de esperar por ele. Se ele volta e no me encontra,
pensa que eu fui levada pelos normandos, como a pobre Gisla.
 Mas, eu no posso ficar aqui. Olhou ao seu redor, receosa,
observando a paisagem destruda. No havia sinais dos
normandos. Tinham partido? Ou ser que iriam regressar, 
procura de mais despojos?
 E se eles me encontram? Ela tinha visto a compaixo que uma
mulher indefesa podia esperar deles.
 Onde havia de se esconder? Dirigiu-se para as rvores que
assinalavam o incio da floresta que circundava a cidade,
primeiro, lentamente, depois, a correr. Comeou a soluar; a
cada passo, esperava que aparecesse uma mo a agarr-la pelas
costas, virando-a, forando-a a enfrentar as mscaras
hediondas dos normandos. Quando alcanou a segurana das
rvores, atirou-se para o cho.
 Passado um grande bocado, obrigou-se a levantar-se. Era
noite. A floresta em torno dela era escura e ameaadora. Ouviu
um restolhar de folhas e encolheu-se, cheia de medo.
 Os normandos podiam andar por perto, acampados naquelas
florestas.
 Tinha de fugir de Dorstadt e arranjar maneira de avisar
Geraldo do local para onde tinha ido.
 Mam. Tinha saudades da me, mas no podia ir para casa. O
pai nunca lhe tinha perdoado. Se ela voltasse agora, com a
notcia da morte do nico filho varo que lhe restava, ele
iria vingar-se nela, era certo.
 Se eu no fosse uma rapariga. Se eu...
 Lembrar-se-ia daquele momento para o resto da sua vida,
perguntando-se sempre qual teria sido a fora, boa ou m, que
tinha guiado os seus pensamentos.


 176


Mas, agora, no tinha tempo para pensar. Era a sua nica
oportunidade. Talvez no voltasse a haver outra.
 O Sol vermelho brilhava no horizonte. Ela tinha de agir
rapidamente.
 Encontrou o Joo deitado, tal como o tinha deixado, estirado
no interior escuro da catedral. O seu corpo estava mole e no
ofereceu resistncia, quando ela o virou de lado. Ainda no
tinha chegado  rigidez da morte.
 - Perdoa-me - murmurou ela, ao despir Joo do seu manto.
 Quando terminou, tapou-o com o manto que tinha despido.
Fechou-lhe os olhos docemente e colocou-o numa posio o mais
decente que lhe foi possvel. Levantou-se, esticando os
braos, adaptando-se ao peso e  sensao causada pelas suas
novas vestes. No eram assim to diferentes das suas, excepto
nas mangas, que eram apertadas nos pulsos. Apalpou a faca de
cabo de osso que tinha tirado do cinto do Joo.
 A faca do pai. Era velha, com o cabo em osso escurecido e
gasto, mas a lmina era afiada.
 Dirigiu-se ao altar. Tirando a touca, colocou o cabelo sobre
o altar. Ele espalhou-se por cima da pedra macia, quase branco
 luz plida.
 Levantou a faca.
 Lenta e deliberadamente, comeou a cortar.
 Na penumbra, um jovem saiu pela porta da catedral em runas,
perscrutando a paisagem com os seus olhos
cinzento-esverdeados. A Lua levantava-se num cu estrelado.
 Por trs dos edifcios destrudos, brilhava ao luar uma
estrada para ocidente, emergindo da escurido.
 A figura esgueirou-se furtivamente da sombra da catedral.
Ningum tinha sobrevivido para ver quando Joana se apressou
pela estrada, em direco ao grande mosteiro de Fulda.


 177


 @12


 A sala estava apinhada e barulhenta, cheia de gente que
tinha vindo dos arredores da pequena cidade da Westphalia para
assistir ao processo de mallus. Acotovelavam-se, arrastando
com os ps a palha seca que tinha sido colocada sobre o cho
em terra batida para absorver os restos de cerveja, escarros
e excrementos de animais que se encontravam por baixo. O
cheiro a gente invadia o ar quente e abafado. Mas, ningum
reparava porque estes cheiros eram habituais na casa dos
francos. Alm disso, as atenes da multido estavam
concentradas noutra coisa: no conde frgio ruivo que tinha
sido enviado para julgar e conceder justia em nome do 
imperador.
 Geraldo virou-se para Frambert, um dos sete scabini
encarregados de o assistirem no seu trabalho.
 - Quantos faltam ainda?
 O mallus tinha-se reunido ao romper da aurora; a tarde j ia
a meio e eles tinham procedido ao seu trabalho durante mais de
oito horas. Os seus homens apoiavam-se sobre as suas espadas,
cansados, por trs da mesa  qual Geraldo estava sentado. Ele
tinha trazido vinte dos seus melhores homens para prevenir.
Depois da morte do imperador Carlos, o Imprio tinha cado no
caos; a posio dos missi imperiais era cada vez mais
precria. Por vezes, eram confrontados com o desafio descarado
dos senhores ricos e poderosos das localidades, homens que no
estavam habituados a ver a sua autoridade posta em causa. A
lei no valia nada se no pudesse ser cumprida; por isso  que
Geraldo tinha levado tantos homens, apesar de isto ter
significado deixar Villaris apenas com um punhado de
defensores.


 178


Mas, as fortes paliadas em madeira eram garantia suficiente
contra as depredaes de assaltantes solitrios e de larpios,
a nica ameaa  paz e segurana daquelas paragens, havia
muitos anos.
 Frambert verificou a lista de queixosos, escrita num rolo de
pergaminho com oito polegadas de largura e quinze ps de
comprimento.
 - Mais trs, por hoje, senhor - disse Frambert.
 Geraldo suspirou enfadado. Estava cansado e esfomeado; a sua
pacincia para lidar com a torrente interminvel de acusaes,
contestaes e queixas insignificantes era muito pouca. Quem
lhe dera estar em Villaris, com a Joana.
 Joana. Como sentia a sua falta - a sua voz rouca, o seu riso
aberto, os seus olhos verde-acinzentados fascinantes, que o
olhavam com uma inteligncia e um amor enormes. Mas, no podia
pensar nela. Afinal, tinha sido por isso que tinha aceitado
servir como missus - para se afastar dela, dando-lhe tempo de
recuperar o controlo sobre a intensidade ingovernvel de
emoes que se tinham avolumado dentro dele.
 - Chamai o caso seguinte, Frambert - ordenou Geraldo, pondo
termo aos seus pensamentos errantes.
 Frambert desenrolou o pergaminho e leu alto, esforando-se
por se fazer ouvir sobre o murmrio da multido.
 - Abo queixa-se do seu vizinho Hunaldo, acusando-o de lhe
ter sido infiel e de lhe ter ficado com o seu gado, sem lhe
dar a devida recompensa.
 Geraldo abanou a cabea, em sinal de que sabia do que se
tratava. A situao era muito comum. Naqueles tempos
iletrados, raro era o proprietrio que possua registos
escritos dos seus haveres; a ausncia destes registos deixava
campo aberto para todos os tipos de ladroagem e de fraudes.
 Hunaldo, um homem grande e corado, ricamente vestido de
linho escarlate, avanou, para negar a acusao.
 - Os animais so meus. Trazei-me o relicrio.
 Apontou para a caixa de relquias sobre a mesa.
 - Perante Deus - fez uma pausa dramtica, levantando as mos
ao Cu - juro a minha inocncia sobre estes ossos sagrados.
 - As vacas so minhas, senhor, no de Hunaldo, como ele bem
sabe - respondeu Abo, um homenzinho cujo comportamento
discreto e o traje simples contrastava com o de Hunaldo. -
Hunaldo pode jurar o que quiser; a verdade no muda.
 - O qu, Abo, tu pes em causa o juramento diante de
Deus?ripostou Hunaldo.


 179


A sua voz assinalava o tom exacto da indignao piedosa, mas
Geraldo apercebeu-se da arrogncia que ela escondia.
 - Vede, senhor conde, isto  blasfmia!
 - Tendes alguma prova de que os animais so vossos? -
perguntou Geraldo a Abo.
 A pergunta era bastante invulgar; a noo de testemunho ou
de apresentao de provas no existia no pas dos Francos.
Hunaldo olhou intrigado para Geraldo. O que estava este
estranho conde frgio a tentar fazer?
 - Prova? - essa era nova; Abo teve de pensar um pouco.Bem,
Berta -  a minha mulher - pode dizer os nomes de cada um
deles e os meus quatro filhos tambm porque os conhecem desde
que eles nasceram. Podem dizer-vos quais as que so difceis
de ordenhar e quais os que preferem forragem a erva. -
Veio-lhe  ideia mais uma coisa. - Levai-me junto deles e
deixai que eu os chame; eles viro imediatamente ao meu
encontro porque conhecem o som da minha voz e o toque da minha
mo.
 Nos olhos de Abo flamejou uma pequenina esperana.
 - Que disparate! - explodiu Hunaldo. - Dever este tribunal
preferir as aces irreflectidas de animais estpidos s leis
sagradas dos Cus? Exijo um julgamento justo por compurgao.
Trazei o relicrio e deixai-me jurar!
 Geraldo coou a barba, pensativo. Hunaldo era o acusado;
estava no direito de requerer o juramento. Deus no permitiria
que ele jurasse falso com uma mo sobre o relicrio sagrado,
pelo menos, assim o dizia a lei.
 O imperador dava muita importncia a tais provas, mas
Geraldo tinha as suas dvidas. Havia homens que, mais
preocupados com as vantagens slidas deste mundo do que com os
terrores vagos e abstractos do prximo, no hesitavam em
mentir. Se fosse preciso, eu prprio o faria, pensou Geraldo,
se o que estivesse em causa fosse suficientemente importante.
Ele juraria falso sobre uma carrada de relquias para proteger
a segurana de algum que ele amasse.
 Joana. A imagem dela voltou a emergir irresistivelmente na
sua mente e ele fez um esforo por a afastar. Teria muito
tempo para tais pensamentos quando o trabalho do dia estivesse
terminado.
 - Senhor - Frambert sussurrou ao seu ouvido - eu posso
testemunhar a favor de Hunaldo. Ele  um bom homem, generoso,
e esta queixa contra ele  falsa.
 Por baixo da mesa, sem que a multido visse, Frambert
brincava com um anel magnfico, uma ametista encrostada em
prata, gravada com a figura de uma guia.


 180


F-lo rodar no dedo para que Geraldo pudesse ver como reluzia.
 - Ah, sim, um homem muito generoso. - Frambert tirou o anel
do dedo. - Hunaldo quis que eu vos dissesse que isto  vosso.
Um gesto de apreo pelo vosso apoio.
 Sorria levemente.
 Geraldo pegou no anel. Era uma pea magnfica, a melhor pea
que ele j tinha visto. Manipulou-a, admirando o seu peso e o
trabalho perfeito do seu arteso.
 - Obrigado, Frambert - disse ele, com firmeza. - Isto
facilita a minha deciso.
 Frambert abriu-se num sorriso conspirativo.
 Geraldo virou-se para Hunaldo.
 - Desejais submeter-vos ao julgamento de Deus?
 - Sim, senhor.
 Hunaldo estava cheio de segurana, depois de ter
testemunhado a troca entre Geraldo e Frambert. O servo com o
relicrio avanou, mas Geraldo mandou-o parar.
 - Procuraremos o julgamento de Deus atravs do judicium
aquae ferventis.
 Hunaldo e Abo no perceberam; tal como os outros na sala,
eles tambm no sabiam latim.
 - Kesselfang - traduziu Geraldo.
 - Kesselfang!
 Hunaldo empalideceu; no tinha pensado nisso. O processo da
gua a ferver era uma forma bastante conhecida de julgamento,
mas h muitos anos que no era utilizada naquela parte do
Imprio.
 - Trazei um caldeiro - ordenou Geraldo.
 Fez-se um silncio profundo durante alguns momentos. Depois,
a sala irrompeu num caos de murmrios e movimentaes. Houve
vrios scabini que se apressaram a sair para procurarem um
caldeiro com gua j a ferver nas casas mais prximas.
Voltaram alguns minutos depois, trazendo um caldeiro em ferro
negro, com a profundidade de um brao de um homem, cheio de
gua quente. Puseram-no no cho no meio da sala, com a gua a
fumegar e a borbulhar.
 Geraldo manifestou-se satisfeito. Dado o talento de Hunaldo
para o suborno, o caldeiro podia ser mais pequeno.
 Hunaldo franziu o sobrolho.
 - Senhor conde, eu protesto! - o medo tinha-o tornado
indiferente s aparncias. - E o anel?
 - Foi exactamente o que eu pensei, Hunaldo.


 181


 Geraldo segurou o anel, de forma a que todos o vissem,
depois atirou-o para o caldeiro.
 - Por sugesto do acusado, este anel ser o instrumento do
julgamento de Deus.
 Hunaldo engoliu em seco. O anel era pequeno e escorregadio;
era extremamente difcil de encontrar. Mas, ele no podia
recusar o julgamento sem admitir a sua culpa e devolver as
vacas a Abo - e elas valiam bem mais de setenta soldos.
Amaldioou o conde estrangeiro, to inexplicavelmente imune
aos benefcios de uma troca de favores que tinham
caracterizado a sua relao com outros enviados. Respirou
fundo e mergulhou o brao no caldeiro.
 A sua face contorceu-se de dor, quando a gua a ferver lhe
queimou a pele. Procurou freneticamente o anel dentro do
caldeiro. Escapou-lhe dos lbios um urro de desespero quando
ele lhe escorregou da mo. Os seus dedos torturados
apressavam-se na busca e - graas a Deus! - apanhou-o.
Levantou a mo trazendo o anel.
 - Aaaaaaah.
 A multido soltou um murmrio de espanto, quando viram o
brao de Hunaldo. J se estavam a comear a formar bolhas
sobre a superfcie vermelha da sua pele.
 - Dez dias - anunciou Geraldo - ser o tempo que durar o
julgamento de Deus.
 Houve um rebulio entre a multido, mas no se ouviu
qualquer protesto. Toda a gente conhecia a lei: se as feridas
das mos e dos braos de Hunaldo se curassem dentro de dez
dias, estava provada a sua inocncia e o gado era seu. Se no,
ele seria declarado culpado de roubo e o gado seria devolvido
ao seu legtimo dono, Abo.
 Pessoalmente, Geraldo duvidava que as feridas sarassem em
to pouco tempo. Era essa a sua ideia porque ele no tinha
dvida de que Hunaldo era culpado daquele crime. E se as
feridas de Hunaldo sarassem no perodo de tempo estipulado -
bem, o processo f-lo-ia pensar duas vezes antes de voltar a
roubar o gado do seu vizinho. Era uma justia dura, mas era
aquela que a lei permitia e era melhor do que nada. Lex dura,
sed lex. Os estatutos imperiais eram os nicos pilares sobre
os quais se apoiava a lei nestes tempos conturbados; se se
passasse por cima deles, quem sabe que ventos intempestivos
soprariam pelo pas, derrubando tanto fracos como poderosos.
 - Chama o prximo caso, Frambert.
 - Aelfric acusa Fulrad de recusar pagar o preo de sangue
estipulado por lei.


 182


O caso parecia bastante simples. O filho de Fulrad, Tenbert,
um rapaz de dezasseis anos, tinha morto uma jovem, uma das
coloni de Aelfric. O crime em si no estava em discusso, mas
sim o preo de sangue. As leis imperiais acerca do wergeld
eram precisas e diferentes para cada um, segundo o seu nvel,
a sua fortuna, idade e sexo.
 - A culpa foi dela - disse Tenbert, um rapaz alto e ossudo,
com a pele sardenta e uma expresso insolente. - Ela no
passava de uma colona; no devia ter resistido.
 - Ele violou-a - explicou Aelfric. - Apareceu quando ela
andava a vindimar na minha vinha e embeiou-se por ela. Ela
era uma coisinha bonita com apenas doze invernos - ainda uma
criana, na realidade - e no compreendeu. Pensou que ele lhe
queria fazer mal. Como no se lhe submeteu de livre vontade,
ele bateu-Lhe brutalmente.
 Ouviu-se um longo murmrio entre a multido; Aelfric fez uma
pausa, para que ficasse registado.
 - Ela morreu no dia seguinte, espancada e inchada, a chamar
pela me.
 - No tendes de que vos queixar - interrompeu Fulrad, o pai
de Tenbert, exaltado. - Eu no paguei o wergeld na semana
seguinte? Cinquenta soldos em ouro, uma soma generosa. E a
rapariga no passava de uma colona!
 - A rapariga morreu; no volta a vindimar. E a me dela, uma
das minhas melhores tecedeiras, est to desgostosa que j no
serve para nada. Exijo o wergeld justo: cem soldos em ouro.
 - Um ultraje!
 Fulrad abriu os braos, apelando:
 - Senhor, com o que lhe dei, Aelfric pode comprar vinte
vacas leiteiras - que toda a gente sabe que valem mais do que
uma pobre rapariga, a sua me e um tear juntos!
 Geraldo franziu as sobrancelhas. Este regateio sobre preo
de sangue era repelente. A rapariga tinha mais ou menos a
mesma idade de Dhuoda, filha de Geraldo. A ideia deste jovem
rude e desagradvel a for-la era grotesca. Claro que estas
coisas estavam sempre a acontecer - qualquer colona que
conseguisse chegar aos catorze anos com a sua virgindade
intacta ou tinha tido uma sorte extraordinria, ou era feia,
ou ambas as coisas. Geraldo no era ingnuo, sabia como era o
mundo, mas isso no significava que lhe agradasse.
 Sobre a mesa  sua frente estava um grande cdex encadernado
em pele, com o selo imperial. Nele estavam escritas as velhas
leis do Imprio, a Lex Salica, assim como a Lex Carolina, que
inclua revises e adies ao cdigo legal do imperador
Carlos. Geraldo conhecia a lei e no precisava do livro.


 182


Mesmo assim, consultou-o solenemente; a sua presena
impressionava sempre os litigantes e a sentena que ele ia dar
requeria toda a sua autoridade.
 - O cdigo slico  muito claro neste ponto - acabou ele por
dizer. - Cem soldos  o wergeld legal pela colona.
 Fulrad praguejou alto. Aelfric sorriu.
 - A rapariga tinha doze anos de idade - continuou
Geraldo.Portanto, tinha chegado  idade frtil. Por lei, o seu
preo de sangue tem de ser triplicado para trezentos soldos em
ouro.
 - O qu? O tribunal enlouqueceu? - gritou Fulrad.
 - A soma - prosseguiu Geraldo, impassvel - deve ser paga da
seguinte forma: duzentos soldos para Aelfric, o senhor legal
da rapariga, e cem para a famlia da vtima.
 Agora, foi a vez de Aelfric se sentir ultrajado.
 - Cem soldos para a famlia dela? - disse ele, incrdulo. -
Para coloni? Eu sou o senhor da propriedade; o wergeld da
rapariga  meu por direito!
 - Estais a tentar arruinar-me? - interrompeu Fulrad,
demasiado absorvido nos seus prprios problemas para se
comprazer com o desagrado do seu inimigo. - Trezentos soldos 
quase o preo de sangue de um guerreiro! De um padre! -
dirigiu-se agressivamente para a mesa a que Geraldo estava
sentado. - Talvez, mesmo de um conde?
 A ameaa na sua voz era iniludvel.
 A multido murmurou, alarmada, quando uma dzia de homens de
Fulrad se aproximaram. Estavam armados de espadas e pareciam
ser homens habituados a us-las.
 Os homens de Geraldo avanaram tambm, levando as mos s
espadas, prontos a puxarem por elas. Geraldo conteve-os com um
gesto.
 - Em nome do imperador - disse Geraldo, com uma voz afiada
como a lmina de uma faca - a sentena neste caso est dada e
recebida.
 Os seus frios olhos azuis olharam para Fulrad.
 - Chamai o prximo caso, Frambert.
 Frambert no respondeu. Tinha-se escapado do seu lugar e
estava escondido debaixo da mesa.
 Passou um tempo num silncio tenso, durante o qual o
murmrio inquieto da multido acalmou completamente.
 Geraldo recostou-se na sua cadeira, aparentando uma total
segurana e -vontade, mas com a mo direita pousada
negligentemente sobre a sua espada, com os dedos apalpando o
ao frio.


 184


De repente, praguejando, Fulrad virou-se. Agarrando rudemente
em Tenbert pelo brao, arrastou-o para a porta. Os homens de
Fulrad seguiram-os, com a multido a abrir alas para os deixar
passar. Ao sarem a porta, Fulrad deu uma sapatada na cabea
de Tenbert. O grito de dor do rapaz ecoou na sala e a multido
explodiu num riso rouco, aliviado.
 Geraldo sorriu. Se sabia alguma coisa acerca da natureza
humana, Tenbert preparava-se para apanhar uma tareia. Talvez
lhe servisse de lio ou talvez no. Fosse como fosse, j no
adiantava nada para a rapariga assassinada. Mas, a sua famlia
receberia uma parte do seu wergeld. Com ele, podiam comprar a
sua liberdade e construir uma vida melhor com os filhos que
tinham ficado e com os filhos dos seus filhos.
 Geraldo fez sinal aos seus homens; eles voltaram a embainhar
as suas espadas e regressaram s suas posies por trs da
mesa do tribunal.
 Frambert saiu de debaixo da mesa e voltou a ocupar o seu
lugar com um ar de dignidade atingida. Estava plido e a sua
voz tremeu ao ler o ltimo caso.
 - Ermoin, o moleiro, e a sua mulher queixam-se da sua filha,
dizendo que ela, contrariando a sua ordem expressa, casou
voluntariamente com um escravo.
 A multido voltou a abrir alas para deixar passar um casal
idoso, de cabelo grisalho, patrcios vestidos com belas vestes
- testemunho do sucesso de Ermoin no seu negcio. Atrs deles,
vinha um jovem, vestido com uma tnica usada e velha de
escravo e, por fim, uma jovem, que entrou com a cabea baixa,
modestamente.
 - Senhor, - Ermoin falou sem esperar que lhe dessem a
palavra - olhai para a nossa filha, Hildegarda, a alegria dos
nossos velhos coraes, a nica filha que sobreviveu dos oito
que tivemos. Foi educada com demasiada brandura, senhor - como
ficmos a saber, para desgosto nosso. Pois pagou o nosso amor
com uma desobedincia e ingratido obstinadas.
 - Que reparao buscais neste tribunal? - perguntou Geraldo.
 - Ora, uma deciso, senhor - disse Ermoin, surpreendido. - A
roca ou a espada. Ela tem de escolher, como manda a lei.
 Geraldo fcou srio. Na sua carreira como missus nunca tinha
presidido a um caso daqueles; no desejava testemunhar outro.
 - A lei, como dizeis, legisla nestas circunstncias. Mas,
parece muito dura, especialmente para algum educado de uma
forma to... branda. No existe outra forma?


 185



 Ermoin percebeu onde ele queria chegar. Podia ser pago o
preo de um homem, o rapaz podia ser libertado da escravido,
tornado um homem livre.
 - No, senhor - abanou a cabea negativamente, com
veemncia.
 - Muito bem - disse Geraldo, resignado.
 No havia forma de o evitar. Os pais da rapariga conheciam a
lei e iriam insistir no terrvel procedimento, at ao fim.
 - Trazei uma roca - ordenou Geraldo. - E Hunric - apontou
para um dos homens - empresta-me a tua espada.
 Ele no queria usar a sua; nunca tinha atingido carne
indefesa, nem nunca o faria, enquanto fosse sua.
 Houve alguns momentos de confuso e perturbao, enquanto
foram procurar uma roca nas imediaes.
 A rapariga levantou os olhos quando a trouxeram. O seu pai
falou-lhe num tom severo e ela baixou imediatamente os olhos.
Mas, naquele breve momento, Geraldo viu o seu rosto, de
relance. Ela era bela - tinha grandes olhos de cornalina,
mergulhados num mar de pele branca e fina, sobrancelhas
delicadas, lbios docemente redondos. Geraldo compreendia a
irritao do pai: com um rosto daqueles, a rapariga podia ter
conquistado o corao de um grande senhor, at de um nobre,
aumentando a fortuna da famlia.
 Geraldo pousou uma mo sobre a roca; com a outra, levantou a
espada.
 - Se Hildegarda escolher a espada - disse Geraldo alto para
que todos ouvissem - o seu marido, o escravo Romualdo, morrer
imediatamente. Se escolher a roca, ento, tornar-se- ela
prpria escrava.
 Era uma escolha terrvel. Uma vez, Geraldo tinha visto uma
outra rapariga, no to bela, mas igualmente jovem, enfrentar
o mesmo dilema. Tinha escolhido a espada e ficou a ver,
enquanto o homem que ela amava era chacinado diante dos seus
olhos. Mas, o que poderia ela ter feito? Quem escolheria
livremente a humilhao, no s para si, mas tambm para os
seus filhos e todas as geraes futuras da sua sucesso?
 A rapariga ficou em silncio, imvel. Quando Geraldo
explicou o julgamento, ficou  mesma impassvel.
 - Compreendeis o significado da escolha que tendes de
fazer?perguntou-Lhe Geraldo com gentileza.
 - Compreende, senhor - disse Ermoin, apertando o brao da
filha. - Ela sabe exactamente o que tem de fazer.
 Geraldo j o sabia. A cooperao da filha tinha sido
assegurada atravs de ameaas e maldies, talvez at, de
forma violenta.


 186


 Os guardas que ladeavam o jovem agarraram-Lhe os braos,
para evitar que ele tentasse fugir. Ele deitou-Lhes um olhar
furioso. Tinha um rosto interessante - com sobrancelhas
cerradas, coberto com um cabelo desalinhado, mas tinha olhos
inteligentes, um maxilar bem feito e um nariz belo e forte;
parecia ter sangue dos antigos romanos.
 Podia ser um escravo, mas era corajoso. Geraldo fez sinal
aos guardas para que o largassem.
 - Vamos, menina! - disse Geraldo  rapariga. - Est na hora.
 O pai segredou-Lhe qualquer coisa ao ouvido. Ela abanou a
cabea e ele largou-lhe o brao e empurrou-a para a frente.
 Ela levantou a cabea e olhou para o jovem. O amor
indisfarvel que os seus olhos demonstravam surpreendeu
Geraldo.
 - No!
 O pai da rapariga tentou impedi-la, mas, era tarde de mais.
Com os olhos fixos no marido, ela aproximou-se, sem hesitar,
da roca, sentou-se e comeou a fiar.


 186


 Ao regressar a Villaris no dia seguinte, Geraldo pensou no
que tinha acontecido. A rapariga tinha sacrificado tudo: a
famlia, a fortuna e mesmo a liberdade. O amor que tinha visto
no seu rosto lanou fogo  sua imaginao e levou-o para
caminhos que ele no compreendia completamente. Tudo o que
sabia, com uma convico que punha tudo o resto de lado, era
aquilo que ele queria - aquela pureza e intensidade emocional
que fazia com que tudo o resto parecesse uma sombra,
insignificante. No era demasiado tarde para ele; certamente,
no era demasiado tarde. Ele tinha s vinte e nove anos -
talvez j no fosse um jovem, mas, ainda estava no apogeu das
suas foras. Nunca tinha amado a sua esposa, Richild, e ela
nunca tinha fingido que o amava. Ele sabia muito bem que ela
no sacrificaria sequer um pente por causa dele. O casamento
deles tinha sido um casamento de fortunas e famlias preparado
cuidadosamente. Era assim que devia ser e, at h pouco,
Geraldo nunca tinha querido mais. Quando, depois do nascimento
de Dhuoda, Richild tinha anunciado que no queria mais filhos,
ele tinha aceite o seu desejo sem qualquer sensao de perda.
No tinha tido dificuldades em encontrar parceiras com vontade
de partilhar prazeres fora do leito matrimonial. Mas agora,
por causa da Joana, tudo tinha mudado. Imaginou-a, o seu belo
cabelo dourado em torno da face, os seus olhos
verde-acinzentados, to srios que pareciam faz-la mais velha
do que era na realidade. A forma como a queria, que
ultrapassava o simples desejo, torturava-lhe o corao. Nunca
tinha conhecido ningum como ela. A sua inteligncia rara,


 187


a sua determinao em desafiar e pr em questo as ideias que
os outros aceitavam como verdades imutveis, enchiam-no de
admirao. No podia falar com ningum como falava com ela.
Podia confiar-lhe tudo, incluindo a sua prpria vida.
 Seria fcil fazer dela sua amante - o seu ltimo encontro na
margem do rio no tinha deixado dvida disso. Mas, ao
contrrio do que seria de esperar, ele tinha-se retrado, 
espera de mais qualquer coisa, apesar de, naquela altura, no
saber o qu.
 Agora, sabia.
 Quero que ela seja minha esposa.
 Seria difcil e dispendioso, sem dvida, libertar-se de
Richild, mas isso no importava. Joana ser minha esposa,se
quiser. Quando tomou esta resoluo, sentiu-se em paz.
Respirou fundo, aspirando os aromas ricos e excitantes da
floresta primaveril, sentindo-se feliz e vivo como no se
sentia havia anos.
 Estavam muito perto de casa. Havia uma nuvem baixa e negra
pairando no ar que impedia Geraldo de ver Villaris. Joana
estava l,  espera dele. Impaciente, ps Pistis a galope.
 Havia um cheiro desagradvel no ar, que lhe entrou pelo
nariz.
 Fumo.
 A nuvem sobre Villaris era fumo.
 Ento, comearam a galopar pela floresta, sem se importarem
com os ramos que se agarravam aos seus cabelos e s suas
vestes. Chegaram  clareira e pararam abruptamente,
estarrecidos.
 Villaris tinha desaparecido.
 Por baixo da nuvem de fumo que subia lentamente em espiral,
apenas restava um monte de escombros e cinzas daquilo que era
a casa que tinham deixado duas semanas antes.
 - Joana! - gritou Geraldo. - Dhuoda! Richild!
 Teriam fugido ou estavam mortas, soterradas por baixo do
monte de escombros fumegantes?
 Os seus homens ajoelharam-se no meio das cinzas, procurando
identificar qualquer coisa - um pedao de tecido, um anel, uma
tiara. Alguns deles, comearam a chorar ao remexerem as
cinzas, tal era o medo que tinham de encontrar de repente
aquilo que procuravam.
 Por baixo de um monte de vigas chamuscadas, num canto,
Geraldo viu uma coisa que lhe provocou um aperto no corao.


 188


Era um p. Um p humano.
 Correu e comeou a afastar as vigas, agarrando-as com as
mos, at elas comearem a sangrar, sem que ele se
apercebesse. Lentamente, o corpo que estava por baixo delas
comeou a aparecer. Era o corpo de um homem, de tal forma
carbonizado que as suas feies estavam praticamente
irreconhecveis, mas, pelo amuleto que tinha ao pescoo,
Geraldo apercebeu-se de que se tratava de Andulfo, um dos 
guardas. Na sua mo direita, tinha uma espada. Geraldo
baixou-se para lha tirar, mas, os dedos do homem recusaram-se
a larg-la. O calor do fogo tinha derretido o punho, fundindo
a carne e o ferro um no outro.
 Andulfo tinha morrido a lutar. Mas, com quem? Ou com o qu?
Geraldo olhou em redor com o olhar experiente de um soldado.
No havia sinais de acampamento, no tinham ficado para trs
nenhumas armas ou objectos que lhes permitissem perceber o que
se tinha passado. A floresta ao redor estava silenciosa, na
brisa da tarde primaveril.
 - Senhor!
 Os seus homens encontraram os corpos de mais dois guardas.
Tal como Andulfo, tambm eles tinham morrido em combate, tendo
ainda as armas nas mos. A descoberta levou-os a prosseguirem
a busca, mas em vo. No havia sinais de vida.
 Onde esto todos? Tinham deixado duas vintenas de pessoas em
Villaris. Elas no podiam ter desaparecido todas, sem
quaisquer vestgios de ossos ou sangue.
 O corao de Geraldo batia com uma esperana louca. Joana
estava viva, tinha de estar viva. Talvez estivesse perto,
escondida na floresta com os outros que tinham desaparecido.
Ou talvez tivessem fugido para a cidade!
 Montou Pistis de um salto, chamando os seus homens.
Dirigiram-se para a cidade a galope, abrandando apenas quando
chegaram s ruas vazias, desertas.
 Geraldo e os seus homens espalharam-se em reconhecimento
pela longa fila de casas silenciosas. Geraldo levou Worad e
Amalwin e dirigiu-se para a catedral. As pesadas portas em
madeira de carvalho pendiam dos gonzos partidos. Inquietos, os
homens desmontaram e aproximaram-se, de espadas em riste. Ao
subir as escadas, Geraldo escorregou numa coisa viscosa. Na
soleira da porta, havia uma poa de sangue escuro, formada
pelo sangue que escorria lentamente do lado de dentro da
porta.
 Geraldo entrou.


 189


 Por momentos, a escurido do interior obscureceu-lhe a
viso. Depois, comeou a ver melhor.
 Atrs dele, Amalwin comeou com vmitos. Geraldo sentiu um
vmito a subir-lhe na garganta, mas engoliu-o, controlando-se.
Tapou a boca e o nariz com as mangas e avanou pela nave
central da igreja. Era difcil evitar tropear no monte de
corpos espalhados. Ouviu Worad e Amalwin a praguejarem, ouviu
o som da sua prpria respirao rpida e fraca. Continuou,
como se estivesse a sonhar, avanando entre os despojos
humanos,  procura.
 Perto do altar-mor, encontrou os membros da sua casa. Estava
ali Wala, o capelo, e Wido, o intendente. Irminon, a criada
de quarto, estava perto, com os seus braos sem vida ainda a
segurarem o seu beb morto. Worad, o seu marido, deu um grito
quando a encontrou. Caiu de joelhos e abraou-os, apesar das
suas feridas e do sangue.
 Geraldo afastou-se. Os seus olhos caram numa jia em
esmeraldas e prata que lhe era familiar. A tiara de Richild.
Ela jazia junto dela, com o seu cabelo negro espalhado sobre o
corpo como se fosse uma mortalha. Ele pegou na tiara e ia a
colocar-lha no cabelo. Quando tocou na cabea de Richild, ela
virou-se grotescamente, depois rolou lentamente para longe do
corpo.
 Horrorizado, Geraldo recuou. O seu p pisou outro corpo e
ele quase caiu. Olhou para o cho. Aos seus ps, estava
Dhuoda, com o corpo retorcido como se tivesse tentado fugir
aos golpes dos seus agressores. Com um gemido de dor, Geraldo
caiu de joelhos ao lado do corpo da filha. Tocou-a docemente,
acariciando o seu belo e macio cabelo de criana, dispondo os
seus membros de forma a que ela ficasse numa posio menos
grotesca. Beijou-lhe a face e passou a sua mo sobre os seus
olhos vazios, fechando-os. Estava tudo errado. Deveria ter
sido ela a prestar-Lhe aquela ltima homenagem a ele.
 Com um pressentimento sinistro, levantou-se e continuou a
sua busca cruel atravs dos corpos espalhados. Joana devia
estar ali algures, entre os outros, tinha de a encontrar.
 Atravessou a nave, fixando todos os rostos frios e mortos,
reconhecendo em cada um deles as feies de um companheiro, de
um vizinho ou de um trabalhador. Mas, no encontrou Joana.
 Ser que ela tinha conseguido escapar, miraculosamente?
Seria possvel? Geraldo mal se atrevia a ter esperana.
Recomeou a procurar.
 - Senhor! Senhor!
 Fora da catedral, ouviam-se vozes aflitas. Geraldo chegou 
porta quando o resto dos homens se aproximaram, a cavalo.


 190


 - Normandos, senhor! Ao p do rio! A carregarem as suas
embarcaes...
 Mas, Geraldo j tinha sado, correndo na direco de Pistis.
 Galoparam a toda a brida em direco ao rio. Os cascos dos
seus cavalos ribombavam na terra seca do caminho. No pensaram
na surpresa que poderiam ter, entorpecidos pela dor, s
pensavam em vingar-se.
 Depois de uma curva, viram um navio comprido e bem equipado,
com uma grande proa em madeira com a forma de uma cabea de
drago, com uma grande boca e longos dentes. A maior parte dos
normandos j tinha embarcado, mas ainda havia um grupo na
margem, a guardarem o navio, enquanto era carregado o resto
dos despojos.
 Com um grande grito de guerra, Geraldo avanou, erguendo a
sua espada. Os seus homens seguiram-no de perto. Os normandos
apeados deitaram-se  gua ou puseram-se a correr em todas as
direces, vrios foram pisados pelos cascos dos cavalos.
Geraldo ergueu a sua azagaia, apontando ao normando que estava
mais perto, um gigante de barba amarela, com um elmo dourado.
O gigante virou-se, levantou o seu escudo e a azagaia caiu
sobre ele, fazendo um barulho surdo.
 De repente, o ar encheu-se de setas, os normandos
ripostavam. Pistis empinou-se furiosamente, depois, tombou,
atingida num olho por uma seta. Geraldo saltou para o cho,
mas caiu mal, ferindo-se na perna esquerda. Desembainhou a
espada e correu, coxeando, na direco do gigante, que
procurava arrancar a azagaia do seu escudo. Geraldo ps o p
na ponta da azagaia, atirando-a ao cho, e puxou o escudo do
normando para baixo, atirando-o para longe. O gigante olhou
para Geraldo, surpreendido, e levantou o seu machado, mas, era
tarde de mais, de um s golpe, Geraldo trespassou-Lhe o
corao. Sem esperar sequer que ele casse, Geraldo rodopiou e
atingiu outro normando, rachando-Lhe a cabea. Os salpicos de
sangue mancharam o rosto de Geraldo e ele pestanejou para
conseguir ver. Estava no centro da luta. Levantou a sua
espada, golpeando tudo  sua volta, desesperadamente, deixando
explodir as emoes que tinha controlado nas ltimas horas,
num delrio de morte e de sangue.
 - Esto a fugir! Esto a fugir!
 Os gritos dos seus homens soaram aos ouvidos de Geraldo, ele
olhou para a margem e viu o navio com cabea de drago a
levantar ferro, com a sua vela vermelha desfraldada ao vento.
Os normandos fugiam.


 191


 Um cavalo baio, sem cavaleiro, danava nervosamente a alguns
passos dele. Geraldo montou-o. O cavalo entrou em pnico, mas
Geraldo dominou-o. O cavalo virou-se rapidamente e cavalgou
para a margem. Com um grito para que os homens o seguissem,
Geraldo cavalgou pela gua dentro. Da sela, pendia uma lana
por usar. Geraldo pegou nela e atirou-a com uma fora tal que
quase foi projectado por cima do pescoo do cavalo. A lana
cortou o ar com a sua ponta em metal brilhando ao sol e caiu
na gua, perto da mandbula do drago.
 No navio, ouviu-se uma exploso de risos. Os normandos
insultavam-nos na sua lngua spera. Dois deles levantaram no
ar uma trouxa dourada para se divertirem. S que no era uma
trouxa: era uma mulher que pendia no meio deles, inanimada,
uma mulher de cabelo castanho.
 - Gisla! - gritou Geraldo, desesperado, ao reconhec-la.
 O que fazia ela ali? Devia estar em casa, a salvo, com o
marido.
 Levantando um pouco a cabea, Gisla gritou:
 - Pai! Paaaaaai!
 O grito dela ressoou nas fmbrias do seu ser.
 Geraldo esporeou o cavalo, mas ele relinchou e recuou,
recusando-se a avanar nas guas profundas. Ele golpeou-o com
a espada nos flancos traseiros, para o obrigar a obedecer,
mas, isso s serviu para o assustar ainda mais, saltou
furiosamente, de patas levantadas. Um cavaleiro menos treinado
teria sido projectado, mas Geraldo aguentou-se com
determinao, lutando para dobrar o cavalo  sua vontade.
 - Senhor! Senhor!
 Os homens de Geraldo rodearam-no, agarrando as rdeas e
puxando-o para trs.
 - No vale a pena, senhor! - Grifo, o lugar-tenente de
Geraldo falou-Lhe alto ao ouvido. - No podemos fazer mais
nada.
 As velas vermelhas do navio normando tinham comeado a
flutuar, enfunando-se,  medida que o navio deslizava
rapidamente, afastando-se da margem. No havia forma de o
perseguir, no havia barcos, mesmo que Geraldo e os seus
homens soubessem naveg-los, a arte da navegao h muito que
tinha sido esquecida na terra dos francos.
 Entorpecido, Geraldo deixou que Grifo levasse o cavalo para
a margem. O grito de Gisla continuava a ressoar nos seus
ouvidos. Paaaaaai! Estava perdida, irremediavelmente perdida.
Havia relatos de jovens que tinham sido levadas durante as
incurses cada vez mais frequentes dos normandos ao longo da
costa do Imprio, mas Geraldo nunca tinha pensado, nunca tinha
imaginado...


 192


 Joana! O pensamento atingiu-o com a fora de uma seta,
roubando-lhe a respirao. Tambm a tinham levado! Os
pensamentos desordenados de Geraldo rodopiavam, procurando
outra possibilidade, mas no Lhe surgiu nenhuma. Os brbaros
tinham raptado Joana e Gisla, tinham-nas roubado para as
fazerem passar por horrores inenarrveis, e no havia nada,
nada a fazer para as salvar.
 Os seus olhos caram num normando morto. Saltou do cavalo,
pegou no machado de cabo comprido que o morto ainda tinha na
mo e comeou a golpear o cadver. O corpo mutilado saltava a
cada golpe. O elmo dourado partiu-se, mostrando o rosto
imberbe de um rapazinho, mas Geraldo continuava a golpear,
levantando o machado uma e outra vez. O sangue espirrava por
todos os lados, manchando as suas vestes.
 Dois dos seus homens aproximaram-se para o deter, mas Grifo
f-los recuar.
 - No - disse ele baixinho. - Deixem-no estar.
 Geraldo acabou por largar o machado e caiu de joelhos
cobrindo o rosto com as mos. O sangue quente cobria-lhe as
mos, colando-as uma  outra. Comearam a subir-lhe soluos
pela garganta, e ele nem sequer procurou resistir. Chorou
copiosamente e sem vergonha.


 193


 @13


 Colmar


 24 de Junho de 833


 O Campo das Mentiras


 Anastcio desviou as pesadas cortinas que tapavam a
entrada da tenda do Papa e entrou sorrateiramente.
 Gregrio, o quarto com o mesmo nome a ocupar o Trono de So
 Pedro, ainda estava a rezar, ajoelhado numa almofada de
seda diante da bela figura de Cristo em marfim que ocupava o
lugar de honra na sua tenda. A figura tinha sobrevivido
inclume  perigosa viagem por estradas e pontes arruinadas,
atravs das altas e traioeiras passagens dos Alpes.
Impressionava tanto, nesta tenda montada em terra de Francos,
como na segurana e conforto da capela privada de Gregrio, 
no Palcio de Latro.
 - Deus illuminatio mea, Deus optimus et maximus - rezava
Gregrio, com o rosto iluminado pela devoo.
 Observando silenciosamente da porta, Anastcio perguntava-se
se alguma vez teria sido to sincero na sua f. Talvez
dantes, quando era pequeno. Mas, a sua inocncia tinha
morrido no dia em que o seu tio Teodoro tinha sido
assassinado diante dos seus olhos, no Palcio de Latro.
 - Olha - tinha-lhe dito o pai, ento - e aprende.
 Anastcio tinha visto e tinha aprendido - tinha aprendido a
esconder os seus verdadeiros sentimentos por trs de uma
mscara de boas maneiras, tinha aprendido a manipular e
enganar, mesmo a trair, se fosse necessrio. E essa cincia
tinha-se revelado proveitosa. Com dezanove anos, Anastcio j
era vestiarius - o homem mais jovem que alguma vez j tinha
chegado a um cargo to elevado. Arsnio, o seu pai,


 194


tinha muito orgulho nele. Anastcio tencionava torn-lo ainda
mais orgulhoso.
 - Cristo Jesus, dai-me a sabedoria de que necessito neste
dia - continuava Gregrio. - Mostrai-me o caminho para impedir
esta guerra mpia e para reconciliar os filhos rebeldes com o
imperador, seu pai.
 Ser possvel que ele ainda no se tenha apercebido daquilo
que vai acontecer hoje? Anastcio no podia crer. O Papa era
to inocente! Anastcio s tinha dezanove anos, menos de
metade da idade de Gregrio, mas sabia muito mais do mundo do
que ele.
 Ele no serve para Papa, pensou Anastcio, como j tinha
pensado outras vezes. Gregrio era uma alma piedosa, no havia
dvida, mas a piedade era uma virtude fora de moda. O homem
tinha uma natureza mais adequada para a clausura do que para a
corte papal, cujas polticas subtis estariam sempre fora do
seu alcance. O que estaria o imperador Lus a pensar quando
pediu a Gregrio para fazer a longa viagem entre Roma e o
Imprio dos Francos, para servir de mediador nesta crise?
 Anastcio tossiu discretamente para atrair a ateno de
Gregrio, mas ele estava perdido em orao, fixando a imagem
de Cristo com um olhar extasiado.
 - Est na hora, Santidade.
 Anastcio no hesitou em interromper as devoes do Papa.
Gregrio estava a rezar havia mais de uma hora e o imperador
estava  espera.
 Surpreendido, Gregrio olhou  sua volta e, ao ver Anastcio
abanou a cabea em sinal de assentimento, benzeu-se e
levantou-se, alisando a paenula prpura em forma de sino que
trazia por cima da dalmtica papal.
 - Vejo que procurastes apoio na imagem de Cristo, Santidade
- disse Anastcio, ajudando Gregrio a ajustar o pallium. - Eu
tambm j senti o seu poder.
 - Sim.  magnfico, no ?
 - De facto. Especialmente, a beleza da sua cabea, grande em
proporo ao corpo. Lembra-me sempre a Primeira Epstola aos
Corntios: E a cabea de Cristo  Deus. Uma expresso gloriosa
da ideia de que Cristo combina na Sua pessoa ambas as
naturezas, divina e humana.
 Gregrio sorriu aprovadoramente.
 - Penso que nunca tinha ouvido esse pensamento expresso de
uma forma to correcta. Sois um belo vestiarius, Anastcio, a
eloquncia da vossa f  uma inspirao.


 195


 Anastcio estava satisfeito. Um elogio destes da parte do
Papa poderia significar outra promoo - a nomenclator,
talvez, ou at mesmo primicerius. Ele era jovem, era verdade,
mas estas altas honrarias no estavam fora da sua ambio.
Alis, no eram seno estdios passageiros no caminho para a
nica ambio que Anastcio tinha na vida: vir ele prprio a
ser Papa, um dia.
 - Vs lisonjeais-me, Senhor - disse Anastcio, esperando que
as suas palavras soassem com modstia. -  a perfeio da
escultura e no as minhas palavras inadequadas, que merece o
vosso louvor.
 Gregrio sorriu.
 - Ditas com verdadeira humilitas.
 Ps a mo em cima do ombro de Anastcio, afectuosamente, e
disse com gravidade:
 -  obra de Deus o que vamos fazer hoje, Anastcio.
 Anastcio observou o rosto do Papa. Ele no desconfia de
nada. Ainda bem. Era bvio que Gregrio continuava a acreditar
que podia ser mediador de paz entre o imperador e os seus
filhos, sem saber que havia um acordo secreto, preparado
cuidadosa e silenciosamente por Anastcio, seguindo as
instrues exactas do seu pai.
 - A madrugada do dia de amanh ver uma nova paz nesta terra
conturbada - disse Gregrio.
 Isso  verdade, pensou Anastcio, apesar de a paz no ser
aquela que desejais.
 Se tudo corresse como planeado, na manh do dia seguinte o
Imperador acordaria para descobrir que as suas tropas tinham
desertado de noite, deixando-o indefeso perante os exrcitos
dos seus filhos. Tinha sido tudo combinado e pago, nada
daquilo que Gregrio dissesse ou fizesse nesse dia
interessaria minimamente.
 Mas, era importante que a mediao papal ocorresse como
planeado. A negociao com Gregrio iria impedir o imperador
de desconfiar e iria distrair a sua ateno nesta conjuntura
crucial.
 Era sensato encorajar Gregrio.
 - O que ides fazer hoje  da maior importncia, Santidade -
disse Anastcio - Deus aprov-lo- e aprovar-vos-.
 Gregrio assentiu:
 - Eu sei, Anastcio. Agora, mais do que nunca.
 - Gregrio, o Pacificador, assim vos chamaro, Gregrio, o
Grande" !
 - No, Anastcio - disse Gregrio, desaprovadoramente - se
eu for bem sucedido, ser obra de Deus, no minha. O futuro do
Imprio, do qual depende a segurana de Roma, est em jogo,
hoje. Se formos bem sucedidos, ser apenas graas  Sua ajuda.


 196


 A f abnegada de Gregrio fascinava Anastcio, que a
considerava uma aberrao da natureza, semelhante a possuir
seis dedos numa mo. Gregrio era um homem genuinamente
humilde, pensou Anastcio -, mas tambm, tendo em conta os
seus parcos talentos, tinha todos os motivos para ser humilde.
 - Acompanhai-me  tenda do imperador - disse
Gregrio.Gostaria que estivsseis presente quando eu falar com
ele.
 Est tudo a correr s mil maravilhas, pensou Anastcio.
Quando tudo estivesse acabado, bastava-lhe regressar a Roma e
esperar. Quando Lothar fosse coroado imperador no lugar do seu
pai, ele saberia como recompensar Anastcio pelo que ele tinha
feito aqui.
 Gregrio dirigiu-se para a entrada da tenda.
 - Vinde, ento. Vamos fazer o que deve ser feito.
 Dirigiram-se para o campo aberto cheio de tendas e
estandartes do exrcito imperial. Custava a crer que, na manh
seguinte, todo o tumulto colorido de actividade tivesse
desaparecido. Anastcio tentou imaginar a cara de Lus, quando
sasse da sua tenda e descobrisse que os campos diante dos
seus olhos estavam vazios.
 Passaram pela guarda real e chegaram  tenda imperial. 
porta, Gregrio parou para murmurar a ltima orao.
 - Verba mea auribus percipe, Domine...
 Anastcio olhava impacientemente, enquanto os lbios
carnudos, quase femininos, de Gregrio murmuravam
silenciosamente o salmo nmero cinco:
 - ... intende voci clamoris mei, rex meus et Deus meus...
 Louco piedoso. Naquele momento, o desprezo de Anastcio pelo
Papa era to profundo que ele teve de fazer um esforo por
manter um tom de voz respeitador.
 - Vamos, ento, Senhor?
 Gregrio levantou a cabea.
 - Sim, Anastcio, estou pronto.


 197


 @14


 Fulda Sob o luar que preludiava a madrugada, os irmos de
Fulda desciam as escadas e caminhavam serenamente numa nica
fila atravs do ptio interior, a caminho da igreja, com as
suas tnicas cinzentas confundindo-se com a escurido. O nico
som que quebrava o silncio profundo era o chinelar tranquilo
das suas sandlias em pele, os prprios melros s acordariam
muitas horas mais tarde. Os irmos entraram no coro e, com a
segurana de um velho hbito, dirigiram-se para os seus
lugares para a celebrao da viglia.
 O irmo Joo Anglicus ajoelhou-se como os outros, dobrando
os joelhos num movimento inconsciente, habitual para encontrar
a posio mais confortvel no cho de terra batida.
 Domine labia mea aperies... Comearam com um versculo,
depois, percorreram o salmo nmero trs, segundo a forma
estipulada na bendita regra de So Bento.
 Joo Anglicus gostava do primeiro ofcio do dia. A estrutura
imutvel da cerimnia deixava o seu esprito livre para
vaguear, enquanto os lbios pronunciavam as palavras
habituais. Havia vrios irmos a cabecearem com sono, mas Joo
Anglicus sentia-se maravilhosamente acordado, com todos os
sentidos despertos e alerta para o pequeno mundo iluminado
pelas chamas trmulas das velas, rodeado da firmeza
reconfortante daquelas paredes.
 O sentimento de pertena, de comunidade era particularmente
forte a esta hora da noite. Os contornos ntidos da luz do
dia, que expunham to rapidamente as personalidades, gostos e
desgostos, lealdades e deslealdades de cada um, submergiam nas
sombras mudas e no ressoar unssono das vozes dos irmos,
abafadas e meldicas no ar tranquilo da noite.


 198


 Te Deum laudamus... Joo Anglicus cantava a Aleluia com os
outros, com as suas cabeas redondas e calvas to indistintas
como sementes num saco.
 Mas, Joo Anglicus no era como os outros. Joo Anglicus no
pertencia a esta irmandade distinta e de renome. No era por
causa de nenhum defeito da mente ou de carcter. Tinha sido um
golpe do destino ou de um Deus cruel e indiferente que tinha
posto Joo Anglicus irremediavelmente  parte dos outros. Joo
Anglicus no pertencia aos irmos de Fulda porque Joo
Anglicus, nascido Joana de Ingelheim, era uma mulher.
 Tinham passado quatro anos desde que ela se tinha
apresentado ao porto da abadia disfarada como se fosse o seu
irmo Joo. Chamaram-Lhe Anglicus, por causa de o pai dela ser
ingls e ela depressa se distinguiu mesmo entre esta irmandade
de eruditos, poetas e intelectuais de elite.
 As qualidades mentais que, como mulher, lhe tinham alcanado
humilhao e desprezo, aqui eram apreciadas por todos. O seu
brilhantismo, o seu conhecimento da Escritura e a argcia de
raciocnio nas disputas acadmicas tornaram-se motivo de
orgulho para a comunidade. Ela era livre - no, encorajada -
para trabalhar at ao limite das suas capacidades. Entre os
novios, ela foi rapidamente promovida a seniorus, isto
deu-lhe ainda maior liberdade de acesso  famosa biblioteca de
Fulda - uma coleco enorme de mais de trezentos e cinquenta
manuscritos, incluindo uma coleco extraordinariamente
requintada de autores clssicos - Suetnio, Tcito, Virglio,
Plnio, Marcelino, entre outros. Ela rodeava-se de pilhas de
rolos, num transporte de prazer. Estava ali todo o
conhecimento do mundo, segundo parecia, e era todo dela, se
ela quisesse.
 Tendo-a encontrado um dia a ler um tratado de So
Crisstomo, o prior Jos ficou surpreendido ao descobrir que
ela sabia grego, conhecimento que nenhum outro irmo possua.
Disse ao abade Rbano, que a colocou imediatamente a trabalhar
na traduo da excelente coleco de tratados de medicina em
grego, que a abadia possua, estes incluam cinco dos sete
livros de aforismos de Hipcrates, o Tetrabiblios completo de
Acio, assim como fragmentos de obras de Dribsio e de
Alexandre de Trales. O irmo Benjamim, mdico da comunidade,
ficou to impressionado com o trabalho de Joana que a tornou
sua assistente. Ensinou-Lhe a cultivar e colher as plantas
medicinais do jardim e a usar as suas diversas propriedades
curativas: funcho para a obstipao, mostarda para a tosse,
cereflio para as hemorragias, absinto e folhas de salgueiro
para a febre.


 199


 No jardim de Benjamim havia remdios para todos os males
humanos possveis e imaginrios. Joana ajudava-o a fazer as
diversas cataplasmas, purgas, infuses e curativos que eram
baluartes da medicina do mosteiro e acompanhava-o  enfermaria
para cuidar dos doentes. Era um trabalho fascinante,
perfeitamente adequado ao seu esprito inquisitivo e
analtico. Passava os dias ocupada e a trabalhar, entre os
seus estudos e o trabalho com o irmo Benjamim, assim como
entre os sinos que tocavam regularmente sete vezes ao dia,
chamando a confraria para as oraes cannicas. Havia uma
liberdade e um poder nesta existncia masculina que ela nunca
tinha experimentado antes e Joana achava que gostava daquilo,
gostava muito.
 - Talvez no devesse estar a contar-te estas coisas todas
porque vo fazer inchar a tua cabea at o capuz deixar de lhe
servir - tinha acabado de lhe dizer no dia anterior o
bisbilhoteiro do velho Hatto, o porteiro, sorrindo, divertido
para ela perceber que ele estava s a brincar. - Mas, ontem,
ouvi o padre abade dizer ao prior Jos que tu tinhas a melhor
cabea da irmandade e que, um dia, trarias grandes honras a
esta casa.
 As palavras da velha cartomante da feira de So Dinis
ecoaram nos ouvidos da Joana: Conhecers uma glria muito para
alm das tuas expectativas., Seria isto que ela queria dizer?
A mulher tinha-lhe chamado quimera e tinha dito: s aquilo que
no sers, o que tu sers  diferente daquilo que s., Isso 
verdade, pensou Joana, apalpando a pequena mancha sem cabelo
no alto da sua cabea, quase escondida pelos espessos caracis
de cabelo dourado que a rodeava. O seu cabelo - o cabelo da
sua me - era a nica coisa de que Joana se envaidecia. Apesar
disso, tinha ficado contente por ele ter sido rapado. A sua
tonsura de monge, assim como a fina cicatriz deixada na sua
cara pela espada normanda, reforavam o seu disfarce masculino
- um disfarce do qual dependia a sua vida.
 Quando chegou a Fulda, cada dia era uma preocupao para ela
porque no sabia se iria surgir um aspecto novo e inesperado
da rotina monstica que desmascarasse subitamente a sua
identidade. Esforou-se por imitar os modos masculinos, mas
tinha medo de se revelar em dezenas de pequenas coisas, apesar
de nunca ningum ter reparado.
 Felizmente, a regra beneditina tinha sido estabelecida
cuidadosamente, de forma a proteger a modstia de todos os
membros da comunidade, desde o abade ao mais humilde dos
irmos. O corpo, vaso pecaminoso, tinha de estar o mais
escondido possvel.


 201


O longo e amplo hbito beneditino permitia-lhe disfarar
bastante bem as suas formas femininas, no entanto, como
precauo suplementar, ela ligava o peito com faixas de linho
grosso. A Regra de So Bento estipulava explicitamente que os
irmos dormissem vestidos e no mostrassem seno as mos e os
ps, mesmo nas noites mais quentes de Heuvimanoth. Eram
proibidos os banhos, excepto para os doentes. At mesmo as
necessaria, latrinas comunitrias, preservavam a modstia da
irmandade, atravs de divisrias entre todos os assentos em
pedra fria.
 Quando adoptou pela primeira vez o seu disfarce, na estrada
entre Dorstadt e Fulda, Joana aprendeu a estancar o
sangramento mensal com uma cataplasma espessa de folhas
absorventes, que enterrava depois. Na abadia, nem sequer era
necessrio tomar esta precauo. Limitava-se a deitar as
folhas sujas pelos buracos fundos e escuros da necessaria,
onde se misturavam indistintamente com outros excrementos.
 Toda a gente em Fulda pensava que ela era um rapaz. Uma vez
estabelecido o gnero de uma pessoa, ningum pensava mais
nisso, tinha concludo Joana. Ainda bem que era assim, porque
a descoberta da sua verdadeira identidade significaria
certamente a morte.
 Foi esta certeza que a impediu de tentar contactar Geraldo,
inicialmente. No havia ningum em quem pudesse confiar para
Lhe mandar uma mensagem e no havia forma de poder sair dali.
Como novia, era observada de perto todas as horas do dia e da
noite.
 Tinha ficado acordada horas a fio no seu dormitrio
estreito, atormentada pela dvida. Mesmo que conseguisse falar
com Geraldo, ser que ele a queria? Quando tinham estado
juntos pela ltima vez, na margem do rio, ela tinha desejado
que ele fizesse amor com ela - corava com a recordao - mas
ele tinha-se recusado. Depois, a caminho de casa, ele tinha-se
mostrado distante, quase como se estivesse zangado. Depois,
tinha aproveitado a primeira oportunidade para se ir embora.
 No o devias ter levado to a srio, tinha dito Richild. s
apenas a ltima conta na longa cadeia de conquistas de
Geraldo.
 Ser que Richild tinha razo? Na altura, no tinha
conseguido acreditar, mas, talvez ela estivesse a dizer a
verdade.
 Seria absurdo arriscar tudo, incluindo a prpria vida, para
contactar um homem que no a queria ou que talvez nunca a
tivesse querido. E, no entanto...
 Estava em Fulda havia trs meses quando testemunhou algo que
a ajudou a tomar a sua deciso. Ia a passar pelo ptio com um
grupo de novios, seus colegas, dirigindo-se para o mosteiro,


 201


quando uma discusso acesa perto do porto do porteiro lhe
chamou a ateno. Viu uma escolta de homens a cavalo a
passarem, seguidos por uma senhora, vestida sumptuosamente com
uma tnica em seda amarela, to elegante e direita na sua sela
como uma esttua de mrmore. Era bonita, as suas feies eram
delicadas e redondas e a sua pele branca estava enquadrada por
um cabelo castanho, brilhante, que caa em catadupas, mas os
seus olhos escuros e inteligentes tinham um ar misteriosamente
triste.
 - Quem ? - perguntou Joana intrigada.
 -  Judite, a esposa do Visconde de Walfair - respondeu o
irmo Rudolfo, o mestre de novios. - Uma mulher instruda.
Dizem que sabe ler e escrever latim como um homem.
 - Deo, juva nos - benzeu-se o irmo Gailo, amedrontado. - 
uma bruxa?
 - Tem reputao de ser muito piedosa. At escreveu um
comentrio sobre a vida de Ester.
 - Abominao - disse o irmo Toms, um dos outros novios.
 Era um jovem simples, com cara de melo, queixo pontiagudo e
olhos pestanudos. Toms estava convencido da superioridade da
sua virtude e aproveitava todas as oportunidades para a
exibir.
 - Uma grande violao da natureza. O que pode uma mulher,
uma criatura de vis paixes, saber destas coisas? Deus
castig-la-, certamente, pela sua arrogncia.
 - J o fez - respondeu o irmo Rudolfo - porque, apesar de o
visconde precisar de um herdeiro, a sua senhora  estril. No
ms passado, voltou a dar  luz outro beb morto.
 O cortejo de cavaleiros passou diante da igreja da abadia.
Joana viu Judite desmontar e aproximar-se da porta da igreja,
caminhando solenemente e trazendo uma vela na mo.
 - No deveis ficar a olhar, irmo Joo - repreendeu-a Toms,
piedosamente.
 Era frequente ele querer ficar bem visto aos olhos do irmo
Rudolfo,  custa dos seus companheiros novios.
 - Um bom monge deve manter os olhos castamente baixos diante
de uma senhora - disse ele, citando a regra, com ares de
santo.
 - Tens razo, Irmo - replicou Joana - Mas, nunca vi uma
senhora como ela, com um olho azul e outro castanho.
 - No disfarces o teu pecado com a falsidade, irmo Joo. A
senhora tem ambos os olhos castanhos.


 202


 - E como sabes tu isso, Irmo - perguntou Joana
astuciosamente - se no olhaste para ela?
 Os outros novios comearam-se a rir. At o irmo Rudolfo
no foi capaz de disfarar um sorriso.
 Toms olhou para Joana. Ela tinha-o feito passar por tolo e
ele no era pessoa de esquecer uma injria daquelas.
 A sua ateno concentrou-se no irmo Hildwin, o sacristo,
que correu a entrepor-se entre Judite e a igreja.
 - A paz esteja convosco, senhora - disse ele, em franco
vernculo.
 - Et cumspiritu tuo - respondeu ela docemente, num latim
perfeito.
 O irmo Hildwin voltou a dirigir-se a ela em vernculo,
propositadamente:
 - Se desejais comida ou alojamento, estamos prontos a
receber-vos e  vossa comitiva. Vinde, eu prprio vos
acompanharei  hospedaria para visitantes distintos e
informarei o nosso senhor Abade da vossa chegada. Ele querer
saudar-vos pessoalmente, no tenho dvida.
 - Sois muito gentil, Padre, mas eu no necessito de
hospitalitas - voltou ela a responder em latim. - Desejo
apenas acender uma vela na igreja, pelo meu beb morto.
Depois, seguirei o meu caminho.
 - Ah! Ento,  meu dever como sacristo desta igreja,
informar-vos, filha, de que no podeis passar por estas portas
enquanto ainda estiverdes - ele procurou a palavra adequada -
impura.
 Judite corou, mas no perdeu a compostura:
 - Eu conheo a lei, Padre - disse ela, calmamente. - Esperei
os trinta e trs dias prescritos, aps o parto.
 - O beb que destes  luz era uma menina, no era? - disse o
irmo Hildwin com ar condescendente.
 - Sim.
 - Ento, o tempo de... impureza...  mais longo. No podeis
entrar no recinto sagrado desta igreja seno sessenta e seis
dias aps o nascimento da criana.
 - Onde est isso escrito? No li essa lei.
 - Nem  adequado que o tenhais feito, sendo uma mulher.
 Joana comeou a indignar-se com a afronta. Recordando-se
daquilo por que ela prpria tinha passado, sentiu a vergonha
da humilhao por que Judite estava a passar. A instruo, a
inteligncia e a origem da senhora no valiam nada. O pedinte
mais vil, mais ignorante e mais sujo podia entrar na igreja
para rezar, mas Judite no podia, porque era impura.


 203


 - Voltai para casa, filha - continuou o irmo Hildwin - e
rezai na vossa prpria capela pela alma do vosso beb por
baptizar. Deus tem horror quilo que  contrrio  natureza.
Deixai a pena e pegai num fuso, que  um objecto apropriado 
actividade feminina, arrependei-vos da vossa soberba e Ele
retirar o fardo que vos imps.
 O rubor espalhou-se pelo rosto de Judite.
 - Este insulto no ficar sem resposta. O meu marido saber
dele e no ficar satisfeito.
 Tratou-se de uma tentativa de salvar a face porque a
autoridade temporal do Visconde de Walfair no tinha qualquer
peso ali, como ela bem sabia. De cabea erguida, virou as
costas e dirigiu-se para a sua escolta, que a aguardava.
 Joana afastou-se do pequeno grupo de novios.
 - Dai-me a vela, senhora - disse ela, levantando a mo - eu
acend-la-ei por vs.
 Pelos belos olhos negros de Judite perpassaram surpresa e
desconfiana. Seria mais uma tentativa para a humilhar?
 Durante um momento, as duas mulheres ficaram a olhar uma
para a outra, Judite, o eptome da beleza feminina, na sua
tnica dourada, com o seu cabelo comprido emoldurando o seu
rosto, numa nuvem, e Joana, a mais alta das duas, com um ar
arrapazado, sem qualquer adorno, com um simples hbito de
monge.
 Algo nos olhos verde-acinzentados que se cruzaram com os
dela com tamanha intensidade persuadiu Judite. Sem uma
palavra, colocou a vela na mo estendida de Joana. Depois,
voltou a montar e atravessou o porto.
 Joana acendeu a vela diante do altar, tal como tinha
prometido. O sacristo estava furioso.
 - Que descaramento intolervel! - disse ele.
 E, nessa noite, para grande deleite do irmo Toms, Joana
foi obrigada a fazer jejum para expiar a sua falta.
 Depois deste episdio, Joana decidiu que ia esquecer
Geraldo. Nunca poderia ser feliz vivendo a existncia limitada
de uma mulher. Alm disso, pensou ela, a sua relao com
Geraldo no era o que ela pensava. Ela era apenas uma criana,
inexperiente e ingnua, o seu amor tinha sido uma iluso
romntica nascida da solido e da carncia. Geraldo nunca a
tinha amado, seno, no a teria deixado.
 Aegra amans, pensou ela. Virglio tinha toda a razo: o amor
era uma forma de doena. Alterava as pessoas, fazia com que
elas se comportassem de uma forma estranha e irracional.


 204


Ela estava contente de ter acabado com aquilo. Nunca te
entregues a um homem. Voltou a lembrar-se das palavras da me.
Tinha-as esquecido no fervor da sua paixo infantil. Agora,
apercebia-se de como tinha tido sorte em escapar ao destino da
sua me. Tantas vezes repetiu isso a si prpria, que acabou
por acreditar.



 205


 @15


 Os irmos estavam reunidos na sala capitular, sentados
nas gradines - filas de assentos em pedra ao longo das paredes
da sala - por ordem de antiguidade. O captulo era a
assembleia mais importante do dia,  excepo dos ofcios
porque era onde se tratava dos assuntos temporais da
comunidade e onde se discutiam as questes relativas  gesto,
aos dinheiros, s nomeaes e aos litgios. Era tambm ali que
os irmos que tinham infringido a regra deviam confessar as
suas faltas e receber as suas penitncias, ou arriscarem-se a
serem acusados pelos outros.
 Joana ia sempre para o captulo com um certo nervosismo.
Ser que se tinha revelado inadvertidamente atravs de alguma
palavra ou gesto incautos? Se a sua verdadeira identidade se
revelasse alguma vez, seria ali que ela ficaria a sab-lo.
 O encontro comeava sempre com a leitura de um captulo da
Regra de So Bento, o livro de regras monsticas que orientava
a vida espiritual e administrativa da comunidade no dia-a-dia.
A regra era lida do princpio ao fim, um captulo por dia, de
forma que, ao longo de um ano, os irmos ouviam-na na ntegra.
 Depois da leitura e da bno, o abade Rbano perguntou:
 - Irmos, tendes faltas a confessar?
 Antes de ele ter terminado as palavras de exortao, o irmo
Thedo levantou-se de um salto.
 - Padre, eu tenho uma falta a confessar.
 - De que se trata, Irmo? - perguntou o abade Rbano com um
ar ligeiramente enfadado. O irmo Thedo era sempre o primeiro
a acusar-se das suas faltas.
 - Pequei na prtica opus manuum. Adormeci no scriptorium,
enquanto copiava a vida de Santo Amndio.


 206


 - Outra vez? - o abade Rbano ergueu uma sobrancelha.
 Thedo baixou a cabea humildemente.
 - Padre, sou pecador e indigno. Peo-vos que me imponhais a
pena mais dura.
 O abade Rbano suspirou:
 - Muito bem. Ficars dois dias de penitncia de p em frente
 igreja.
 Os irmos sorriram de esguelha. O irmo Thedo j tinha feito
tantas vezes penitncia  porta da igreja, que j parecia
fazer parte da decorao, como uma coluna viva de remorso.
 Thedo ficou desiludido.
 - Sois demasiado caridoso, Padre. Peo autorizao para
fazer penitncia durante uma semana por causa de ter cometido
uma falta de tal gravidade.
 - Deus no aceita o orgulho, Thedo, mesmo no sofrimento.
Lembra-te disso, enquanto pedes o Seu perdo para as tuas
outras faltas.
 A reprimenda acertou em cheio. Thedo corou e sentou-se.
 - H outras faltas a confessar? - perguntou Rbano.
 O irmo Hunric levantou-se.
 - Cheguei duas vezes atrasado ao ofcio da noite.
 O abade Rbano acenou com a cabea afirmativamente. O atraso
de Hunric tinha sido notado, mas, como ele tinha admitido a
falta e no tentou escond-la, a sua penitncia seria leve.
 - At ao dia de So Dinis, ficars de viglia durante a
noite.
 O irmo Hunric baixou a cabea. A Festa de So Dinis era
dali a dois dias, nas duas noites seguintes, ele tinha de
ficar acordado, a observar a evoluo da Lua e as estrelas no
cu para poder determinar com a maior exactido possvel a
chegada da oitava hora da noite, para acordar os irmos para a
celebrao da viglia. Estas viglias eram essenciais para a
observncia estrita do ofcio da noite porque o Sol era a
nica maneira de medir a passagem do tempo, e, como era
evidente, no ajudava nada quando estava escuro.
 - Durante a tua viglia - prosseguiu Rbano - ficars de
joelhos em orao incessante, sobre um monte de urtigas para
te lembrares bem da tua indolncia e para que isso te impea
de agravar a tua falta, voltando a adormecer.
 - Sim, Padre Abade.
 O irmo Hunric aceitou a penitncia sem rancor. Para uma
ofensa to grave, o castigo podia ter sido muito pior.
 Seguiram-se vrios irmos, que confessaram faltas to
insignificantes como partir pratos no refeitrio, erros de
escrita, enganos na orao, e todos receberam as respectivas
penitncias com humildade.


 207


 Quando terminaram, o abade Rbano fez uma pausa para ter a
certeza de que ningum mais desejava confessar-se. Depois,
disse:
 - Foram cometidas mais algumas infraces  regra? Que
aqueles que falarem o faam para bem da alma dos seus irmos.
 Era esta a parte da reunio que Joana temia. Percorrendo as
filas de irmos, os seus olhos caram no irmo Toms. Os seus
olhos pestanudos estavam a olhar para ela com uma hostilidade
inequvoca. Ela mexeu-se no seu lugar, pouco  vontade. Ser
que ele vai acusar-me de alguma coisa?
 Mas, Toms no fez qualquer movimento para se levantar. O
irmo Odilo, que estava sentado na fila de assentos mesmo por
trs dele, levantou-se.
 - No dia de jejum da sexta-feira, vi o irmo Hugo colher uma
ma do pomar e com-la.
 O irmo Hugo levantou-se, nervoso.
 - Padre,  verdade que colhi uma ma porque o trabalho de
arrancar as ervas daninhas  duro e, de repente, eu senti uma
grande fraqueza nas pernas. Mas, Santo Padre, eu no comi a
ma, s lhe dei uma dentadinha para recuperar foras, para
poder continuar a opus mannum.
 - A fraqueza da carne no  desculpa para a violao da
regra - respondeu o abade Rbano severamente. -  uma provao
mandada por Deus para testar a fortaleza de alma do fiel. Tal
como Eva, a me do pecado, tambm tu no resististe 
provao, irmo - uma falta grave, especialmente porque no
procuraste ser tu a confess-la. Em penitncia, jejuars uma
semana e renunciars a todas as pitanas at  Epifania.
 Uma semana de fome e nada de pitanas - as pequenas
guloseimas suplementares que acompanhavam a espartana dieta
monstica constituda por verduras, leguminosas e, de vez em
quando, peixe - at muito para alm da Missa de Cristo! Esta
ltima parte seria especialmente dura de suportar porque era
durante esta poca sagrada que as ofertas de comida chegavam 
abadia, provenientes de toda a regio, quando os cristos,
sentindo-se culpados, se preocupavam com o bem-estar das suas
almas imortais. Bolos de mel, empades, galinhas assadas e
outras indulgncias raras e maravilhosas, agraciavam
brevemente as mesas da abadia. O irmo Hugo olhou maldosamente
para o irmo Odilo.
 - Mais - prosseguiu o abade Rbano - em sinal de gratido
pela ateno prestada pelo irmo Odilo ao teu bem-estar
espiritual, prostrar-te-s diante dele esta noite e
lavar-lhe-s os ps com humildade e reconhecimento.


 208


 O irmo Hugo baixou a cabea. Faria, evidentemente, o que o
abade Rbano lhe tinha ordenado, mas Joana duvidava que se
sentisse agradecido. Os actos de penitncia eram mais fceis
de cumprir do que o arrependimento de corao.
 - H mais faltas que necessitem de ser reveladas? -
perguntou o abade Rbano. Como ningum respondeu, ele disse,
com gravidade:
 - Desgosta-me participar que existe entre ns algum que 
culpado do pior de todos os pecados, um crime detestvel aos
olhos de Deus que est nos Cus...
 O corao da Joana deu um salto, alarmado.
 ... a quebra do voto sagrado feito a Deus.
 O irmo Gottschalk ps-se de p num salto.
 - Foi o meu pai que fez o voto, no fui eu! - disse ele, com
a voz a tremer.
 Gottschalk era um jovem trs ou quatro anos mais velho do
que Joana, com cabelo escuro encaracolado e uns olhos to
fundos nas suas rbitas que pareciam duas ndoas negras. Tal
como Joana, tambm ele era um oblato, que o seu pai, um nobre
saxnio, tinha oferecido ao convento, em criana. Agora, que
era adulto, queria sair.
 -  lcito a um cristo dedicar o seu filho a Deus - disse o
abade Rbano, num tom severo. - Essa oferta no pode ser
retirada sem pecado grave.
 - No ser que  igualmente pecado obrigar um homem a viver
contra a sua natureza e a sua vontade?
 - Se um homem no se arrepender, Ele brandir a Sua espada -
disse o abade Rbano, com voz forte. - Ele quebrou o Seu voto
e preparou-se. Ele preparou-lhe os instrumentos de morte.
 - Isso  uma tirania e no a verdade! - gritou Gottschalk
apaixonadamente.
 - Oprbrio! Pecador! Envergonhai-vos, Irmo!
 O coro de assobios dos irmos era pontuado por gritos
insultuosos.
 - Meu filho, a tua desobedincia colocou a tua alma imortal
em perigo grave - disse o abade Rbano solenemente. - S
existe um remdio para essa doena - nas justas e terrveis
palavras do Apstolo: Tradere hujusmodi hominem in interitum
carnis, ut spiritussalvussit in diem Domini - tal homem tem de
ser entregue para que a sua carne seja destruda, de modo a
que o seu esprito ainda possa salvar-se no dia do Senhor.


 209


 A um sinal de Rbano, dois decani juniores, irmos
encarregados da disciplina monstica, pegaram em Gottschalk e
empurraram-no para o meio da sala. Ele no ofereceu
resistncia e eles fizeram-no ajoelhar, arrancando-lhe as
roupas, desnudando-lhe as ndegas e as costas. O irmo Germar,
deo dos diconos, foi buscar uma vara de salgueiro grossa,
que se encontrava num canto da sala para aquele fim. Era uma
vara comprida, com cordas com ns grossos na extremidade.
Colocando-se a jeito, levantou a vara e desferiu um golpe nas
costas de Gottschalk. O som da chicotada ecoou na assembleia
silenciosa.
 As cicatrizes nas costas de Joana arrepiaram-se. A carne tem
as suas prprias recordaes, mais agudas do que as da mente.
 O irmo Germar voltou a levantar a vara e a desfech-la
ainda com mais fora. O corpo de Gottschalk vacilou, mas ele
cerrou os lbios, recusando-se a dar ao abade Rbano a
satisfao de o ouvir gritar. A vara voltou a erguer-se e a
descer, a subir e a descer e Gottschalk continuava a no
ceder.
 Depois das habituais sete chicotadas, o irmo Germar baixou
o brao. O abade Rbano, furioso, fez-lhe sinal para que ele
continuasse. Com um ar surpreendido, o irmo Germar obedeceu.
 Mais trs chicotadas, quatro, cinco e depois ouviu-se um
estalo horrvel, quando a vara atingiu um osso. Gottschalk
atirou a cabea para trs e gritou - um grande grito,
terrvel, dilacerante, vindo do fundo do seu ser. O som
lancinante ecoou, depois, deu lugar a um choro convulsivo.
 O abade Rbano acenou com a cabea, satisfeito, e fez sinal
ao irmo Germar para ele parar. Quando levantaram Gottschalk e
o levaram da sala, melhor, o arrastaram, Joana viu uma coisa
branca a brilhar nas suas costas ensanguentadas. Era uma
costela de Gottschalk que tinha perfurado completamente a
carne.
 A enfermaria estava mais vazia do que o costume porque o dia
estava quente e ameno, e os idosos e os doentes crnicos
tinham sido levados para apanharem um pouco de sol.
 O irmo Gottschalk jazia na cama da enfermaria, meio
inconsciente, com as suas feridas abertas a tingirem os
lenis de sangue. O irmo Benjamim, o mdico, estava
debruado sobre ele, tentando estancar o sangue com a ajuda de
algumas ligaduras em linho, j completamente ensopadas.
Levantou os olhos para a Joana, quando ela entrou.
 - Ainda bem que chegaste. D-me algumas ligaduras da
prateleira.



 210


 Joana apressou-se a fazer o que ele lhe tinha pedido. O
irmo Benjamim desenrolou as ligaduras velhas, atirou-as para
o cho e aplicou as novas. Ao fim de algum tempo, tambm estas
estavam j ensopadas.
 - Ajuda-me a vir-lo - disse Benjamim. - Da maneira como ele
est deitado, o osso continua a retalhar-Lhe a carne. Temos de
voltar a colocar a costela no seu lugar, seno, ele no pra
de sangrar.
 Joana deu a volta  cama, colocando as suas mos de forma a
que bastasse um movimento rpido para devolver o osso ao
lugar.
 - Calma - disse Benjamim. - Apesar de ele estar meio
inconsciente, vai doer-Lhe muito. Quando eu disser, Irmo. Um,
dois, trs!
 Joana exerceu o efeito de traco, enquanto o irmo Benjamim
puxava. Ele voltou a sangrar, depois, o osso desapareceu por
baixo da carne rasgada.
 - Deo, juva me! - Gottschalk levantou a cabea, numa prece
torturada, depois, perdeu os sentidos.
 Eles estancaram o sangue e limparam as feridas de
Gottschalk.
 - Bem, irmo Joo, o que devemos fazer a seguir? - perguntou
o irmo Benjamim  Joana, depois de terem acabado.
 Ela respondeu rapidamente:
 - Talvez aplicar um unguento... de artemsia, misturado com
um pouco de poejo. Ensopar algumas ligaduras em vinagre e
aplic-las como emplastros curativos.
 - Muito bem - Benjamim estava satisfeito. - Aplicaremos
tambm um pouco de ligstica para evitar infeces.
 Trabalharam lado a lado, preparando a soluo, envolvidos
pelo cheiro intenso das ervas acabadas de cortar, que pairava
sobre as suas cabeas. Quando as ligaduras estavam impregnadas
e prontas, Joana deu-as ao irmo Benjamim.
 -  a tua vez de as colocares - disse ele.
 Depois, ps-se  parte, a apreciar como o seu jovem aprendiz
apertou firmemente os horrveis pedaos de carne e colocou as
ligaduras de uma forma correcta.
 Aproximou-se para observar o paciente. As ligaduras tinham
sido aplicadas de uma forma perfeita. Na realidade, ele no
teria feito melhor. Mesmo assim, no gostava do aspecto do
irmo Gottschalk. A sua pele, fria e flcida, quando tocada,
estava branca como algodo acabado de colher. A sua respirao
era irregular e a sua pulsao, que mal se apanhava, estava
perigosamente rpida.


 211


 Vai morrer, concluiu o irmo Benjamim, desgostoso, e, logo a
seguir, pensou: o padre abade vai ficar furioso. Rbano
tinha-se excedido no captulo e tinha conscincia disso, a
morte de Gottschalk serviria tanto como recriminao quanto
como embarao. E se a notcia chegasse ao rei Lus... bem, nem
mesmo os abades estavam livres de serem censurados e
despedidos.
 O irmo Benjamim comeou a pensar no que havia de fazer
mais. A sua farmacopeia era intil porque no podia
administrar nada por via oral, nem sequer gua para compensar
os lquidos perdidos, enquanto o seu paciente estivesse
inconsciente.
 A voz de Joo Anglicus despertou-o dos seus devaneios.
 - Devo acender a lareira e colocar algumas pedras a aquecer?
 Benjamim olhou para o seu assistente surpreendido. Pr
pedras aquecidas e embrulhadas em flanela  volta do paciente
era um procedimento mdico habitual no Inverno, quando o frio
podia ser superior s foras de um homem doente, mas, agora,
nos ltimos dias quentes do Outono...?
 - O tratado de Hipcrates sobre as feridas - recordou-lhe
Joana.
 Ela tinha-lhe dado a sua traduo da brilhante obra do
mdico grego, havia apenas alguns meses.
 O irmo Benjamim franziu o sobrolho. Ele gostava de ser
mdico e, dentro dos conhecimentos mdicos limitados da poca,
era um bom mdico. Mas, no era nenhum inovador, sentia-se
mais  vontade com os remdios seguros, conhecidos, do que com
ideias e teorias novas.
 - O choque provocado por ferimentos graves - continuou
Joana, mal conseguindo conter a impacincia. - Segundo
Hipcrates, pode matar um homem com um frio penetrante.
 -  verdade que j vi homens morrerem de repente, depois de
terem sido feridos, apesar de as suas feridas no parecerem
ser mortais - disse o irmo Benjamim, lentamente. - Deus vult,
pensei eu, vontade de Deus...
 O rosto inteligente do jovem Joo Anglicus irradiava
expectativa, esperando permisso para agir.
 - Est bem - concedeu o irmo Benjamim - acende a lareira,
no  provvel que faa qualquer mal ao irmo Gottschalk e
pode ser que lhe faa bem, como diz o mdico pago.
 Sentou-se num banco, grato por poder descansar as suas
pernas que sofriam de artrite, enquanto o seu enrgico
assistente corria pela sala para acender o lume e colocar as
pedras sobre as brasas.
 Quando as pedras j estavam quentes, Joana embrulhou-as em
pedaos de flanela grossa e colocou-as cuidadosamente  volta
de Gottschalk.


 212


Ps as duas pedras maiores por baixo dos ps dele, de forma a
que estes ficassem um pouco elevados, tal como Hipcrates
recomendava. Por fim, cobriu tudo com um cobertor em l para
manter o calor.
 Pouco depois, as plpebras de Gottschalk abriram-se, gemeu e
comeou a mexer-se. O irmo Benjamim aproximou-se da cama. A
pele de Gottschalk tinha recuperado um tom rosado, saudvel, e
ele estava a respirar melhor. Tomando-lhe o pulso, verificou
rapidamente que ele revelava um batimento forte e regular do
corao.
 - Deus seja louvado.
 O irmo Benjamim suspirou, aliviado. Sorriu para Joo
Anglicus, que se encontrava do lado oposto da cama. Ele tem
dom, pensou o irmo Benjamim, com um orgulho quase paternal,
ligeiramente tingido de inveja. O rapaz desde o princpio que
se tinha revelado de um brilhantismo promissor - por isso 
que Benjamim o tinha convidado para seu assistente - mas,
nunca tinha esperado que ele fosse to longe to rapidamente.
Em apenas alguns anos, Joo Anglicus dominava as competncias
que o irmo Benjamim tinha levado uma vida inteira para
adquirir.
 - Tens o dom da cura, irmo Joo - disse ele com
benevolncia. - Hoje, foste mais longe do que o teu velho
mestre, em breve, j no terei nada a ensinar-te.
 - No digas isso - respondeu Joana, desgostosa porque
gostava muito de Benjamim. - Sei muito bem que ainda tenho
muito que aprender.
 Gottschalk voltou a gemer. Os seus lbios retorceram-se,
deixando os dentes  mostra.
 - Ele est a comear a sentir dores - disse o irmo
Benjamim.
 Apressou-se a fazer uma poo com vinho tinto e salva, na
qual deitou umas gotas de sumo de papoila. Um preparado
daqueles exigia o maior cuidado porque aquilo que administrado
em pequenas quantidades fornecia um alvio abenoado para as
dores mais insuportveis, tambm podia matar. A diferena
dependia apenas da habilidade do mdico.
 Quando terminou, o irmo Benjamim deu a taa a transbordar a
Joana, que a levou  cama e a ofereceu a Gottschalk. Ele
afastou-a, orgulhoso, apesar de aquele simples movimento o ter
levado a soltar um grito de dor.
 - Bebe, Irmo - insistiu Joana, gentilmente, e levou a taa
aos lbios de Gottschalk.


 213


- Tens de melhorar, se queres ganhar algum dia a tua liberdade
- acrescentou ela num murmrio conspirativo.
 Gottschalk lanou-Lhe um olhar surpreendido. Deu alguns
goles, depois, comeou a beber rpida e avidamente, como um
homem que chega a um poo depois de caminhar durante um dia
inteiro ao sol.
 De repente, ouviu-se uma voz autoritria por trs deles:
 - No coloqueis a vossa esperana em ervas e poes.
 Voltando-se, Joana viu o abade Rbano, acompanhado de um
grupo de irmos. Ela pousou a taa e levantou-se.
 - O Senhor concede a vida aos homens e torna-os saudveis.
S a orao pode devolver a sade a este pecador.
 O abade Rbano fez sinal aos irmos, que rodearam a cama,
silenciosamente.
 O abade Rbano orientou-os na orao pelo doente. Gottschalk
no se juntou a eles. Ficou imvel, com os olhos fechados,
como se estivesse a dormir, apesar de a Joana saber que, pela
maneira como respirava, ele no estava a dormir.
 O corpo dele sarar, pensou ela, mas no a sua alma ferida.
Joana teve pena do jovem monge. Ela compreendia a sua recusa
teimosa em se submeter  tirania de Rbano porque se lembrava
muito bem da sua prpria luta titnica contra o seu pai.
 - Oremos e agradeamos a Deus.
 A voz do abade Rbano elevava-se acima da dos outros irmos.
 Joana associou-se ao louvor a Deus, mas, interiormente, deu
tambm graas ao pago Hipcrates, adorador de dolos, cujos
ossos j se tinham transformado em p muitos anos antes de
Cristo ter nascido, mas cuja cincia tinha atravessado o tempo
para curar um dos Seus filhos.


 - As feridas esto a fechar muito bem - confirmou Joana a
Gottschalk depois de ter retirado as ligaduras e de ter
desnudado as suas costas para o observar.
 Tinham passado duas semanas desde o dia da sua flagelao e
a costela partida j tinha solidificado e os rebordos
irregulares das feridas estavam a fechar bem - apesar de, tal
como tinha acontecido com ela, tambm Gottschalk fosse ficar
para sempre com as marcas do seu castigo.
 - Estou-te grato pelo trabalho que tens tido, Irmo -
respondeu Gottschalk -, mas, mais cedo ou mais tarde, vai
voltar a ficar tudo na mesma porque  apenas uma questo de
tempo at ele me mandar castigar outra vez.


 214


 - S o provocars se o enfrentares directamente. Uma
abordagem mais discreta ser melhor para ti.
 - Desafi-lo-ia, nem que fosse a ltima coisa que fizesse.
Ele  mau - exclamou ele.
 - J pensaste em dizer-lhe que lhe entregars a parte da
terra a que tens direito, em troca da tua liberdade? -
perguntou-Lhe Joana.
 Um oblato era sempre oferecido a um mosteiro juntamente com
uma oferta de terra bastante substancial, se, depois, o oblato
renunciasse aos seus votos, a terra ser-Lhe-ia devolvida.
 - Pensas que no lhe fiz j essa oferta? - respondeu
Gottschalk. - No  a terra que lhe interessa, sou eu, ou
melhor, a minha submisso, de corpo e alma. E isso, ele nunca
ter, nem que me mate.
 Ento, era uma medio de foras entre ambos! Gottschalk
nunca venceria. Era melhor sair dali antes que acontecesse
alguma coisa terrvel.
 - Tenho pensado no teu problema - disse Joana. - No ms que
vem h um snodo em Mainz. Os bispos da Igreja estaro todos
presentes. Se submeteres uma petio reclamando a tua
libertao, eles tero de a analisar - e a sua vontade
sobrepor-se-  do abade Rbano.
 Gottschalk respondeu, num tom triste:
 - O snodo nunca contrariar a vontade do grande Rbano
Mauro. Ele tem demasiado poder.
 - No seria a primeira vez que o poder de abades e mesmo de
arcebispos seria vencido - argumentou Joana. - E tu tens um,
argumento forte pelo facto de teres sido oferecido como um
oblato quando eras criana, antes de teres atingido a idade da
razo. Eu fiz uma pesquisa na biblioteca e encontrei algumas
passagens de Jernimo que coadjuvaro um argumento desse tipo.
 Joana puxou de um rolo de pergaminho que tinha escondido no
hbito.
 - Aqui est. V por ti mesmo - eu assentei tudo.
 Os olhos escuros de Gottschalk iluminaram-se, ao ler.
Levantou os olhos para ela, entusiasmado.
 -  brilhante! Nem mesmo uma dzia de rbanos podiam refutar
uma argumentao to bem construda!
 Mas, os seus olhos voltaram a toldar-se.
 - Mas... no tenho possibilidade de apresentar isto diante
do snodo. Ele nunca me dar autorizao para me ausentar, nem
que seja de dia, e muito menos para ir a Mainz.


 215


 - Burchard, o mercador de tecidos, pode levar a missiva por
ti. Ele vem c regularmente, por causa dos seus negcios. Eu
conheo-o bem porque ele vem  enfermaria buscar um remdio
para a sua mulher, que sofre de dores de cabea.  um bom
homem e podemos confiar que ele leva a petio a Mainz.
 Gottschalk perguntou, desconfiado:
 - Porque fazes isto? Joana encolheu os ombros:
 - Um homem deve ser livre de viver a vida que escolhe. - E,
para si prpria, acrescentou, e o mesmo deveria poder fazer
uma mulher.
 Correu tudo como planeado. Quando Burchard veio  enfermaria
buscar o remdio para a sua mulher, Joana entregou-Lhe a
petio, que ele meteu dentro do seu alforge, por uma questo
de segurana.
 Algumas semanas mais tarde, a abadia recebeu uma visita
inesperada de Otgar, bispo de Trier. Depois das saudaes
formais no ptio, o bispo pediu uma audincia com o abade, nos
seus aposentos.
 As notcias que o bispo trazia eram espantosas: Gottschalk
foi dispensado dos seus votos. Podia deixar Fulda quando
quisesse.
 Ele decidiu partir imediatamente, uma vez que no desejava
permanecer nem mais um momento do que o necessrio sob o olhar
maligno de Rbano. No havia problemas em fazer as malas,
apesar de ter vivido toda a sua vida no mosteiro, Gottschalk
no tinha nada que pudesse levar consigo porque um monge no
podia ter quaisquer bens pessoais. O irmo Anselmo, o
cozinheiro, arranjou um saco de comida para os primeiros dias
de caminho, e foi tudo.
 - Para onde vais? - perguntou Joana.
 - Para Speyer - respondeu ele. - Tenho l uma irm casada,
posso ficar uns tempos com ela. Depois... no sei.
 Tinha lutado pela liberdade durante tanto tempo e com to
pouca esperana que no tinha parado para pensar o que faria
se a conseguisse alcanar. Nunca tinha conhecido outra vida
que no fosse a monstica, a sua rotina segura e previsvel
fazia parte dele, da mesma forma que a respirao. Apesar de
ser demasiado orgulhoso para o admitir, Joana percebeu nos
seus olhos que ele se sentia inseguro e tinha medo.
 Os irmos no se reuniram para uma despedida formal porque
Rbano o tinha proibido. Apenas Joana e alguns outros irmos,
cuja ous mannum os fez terem de passar pelo ptio naquele
momento, estavam presentes para ver Gottschalk a sair o
porto, finalmente, um homem livre. Joana ficou a v-lo a
descer a rua. A sua figura esguia e alta foi-se sumindo, at
desaparecer no horizonte.


 216


 Ser que ele iria ser feliz? Joana esperava que sim. Mas,
parecia um homem fadado para desejar sempre aquilo que no
podia ter, para escolher para si prprio o caminho mais
pedregoso e mais difcil. Ela iria rezar por ele, assim como
por todas as outras almas tristes e atribuladas que tinham de
percorrer sozinhas o caminho da sua vida.


 217


 @16


 No Dia de Todos os Santos, a irmandade de Fulda
congregava-se no ptio para a separatio leprosorum, a liturgia
solene que separava os leprosos do resto da sociedade. Naquele
ano, tinham sido identificados na zona de Fulda sete daqueles
desgraados, quatro homens e trs mulheres. Um deles era um
jovem com cerca de catorze anos, ainda pouco marcado pelos
sinais da doena; outro, era uma idosa de mais de sessenta
anos cujos olhos sem plpebras, a boca sem lbios e as mos
sem dedos atestava um estdio avanado da doena. Estavam
todos cobertos com trapos negros e tinham sido reunidos no
ptio, onde tinham formado um pequeno grupo.
 A irmandade aproximou-se numa procisso solene.  frente,
vinha o abade Rbano, vestido com toda a pompa, como era digno
de um abade.  sua direita, vinha Jos, o prior, e  sua
esquerda, o bispo Otgar. Atrs deles, vinha o resto da
irmandade, por ordem de idades.
 Dois irmos leigos terminavam a procisso, puxando uma
carroa cheia de terra do cemitrio.
 - Probo-vos de entrardes em qualquer igreja, moinho,
padaria, mercado ou qualquer outro local de reunio. - O abade
Rbano dirigia-se aos leprosos com toda a solenidade. -
Probo-vos de usardes as estradas e caminhos comuns.
Probo-vos de vos aproximardes de qualquer pessoa, sem
tocardes os vossos sinos, em sinal de aviso. Probo-vos de
tocar em crianas ou de lhes dar seja o que for.
 Uma das mulheres comeou a chorar. Tinha duas manchas de
humidade na parte da frente da sua tnica de l velha, 
altura do peito. Uma me que amamenta, pensou Joana. Onde est
o seu beb? Quem ir tomar conta dele?

 
 218


 - Probo-vos de comerdes ou beberdes em companhia de algum
que no seja leproso, como vs - prosseguiu o abade Rbano. -
Probo-vos de lavardes alguma vez as vossas mos ou a vossa
cara ou quaisquer outros objectos de vosso uso na margem do
rio ou de qualquer fonte ou ribeiro. Probo-vos de
conhecimento carnal com vossos esposos ou de qualquer outra
pessoa. Probo-vos de gerarem filhos ou de os alimentardes.
 O choro angustiado da mulher intensificou-se. As lgrimas
corriam-lhe pela face ulcerada.
 - Como vos chamais?
 O abade Rbano dirigiu-se  mulher em vernculo, com uma
irritao mal disfarada. O irromper inesperado das suas
emoes estava a perturbar a simetria bem ordenada da
cerimnia com a qual Rbano tinha esperana de impressionar o
bispo. De facto, parecia que Otgar no tinha vindo a Fulda
apenas para dar a notcia da dispensa de Gottschalk, mas
tambm para observar e fazer um relatrio da forma como Rbano
governava a abadia.
 - Madalgis - soluou a mulher, em resposta. - Por favor,
senhor, deixai-me voltar para casa porque tenho quatro rfos
 espera do seu jantar.
 - O Cu se encarregar dos inocentes. Haveis pecado,
Madalgis, e Deus castigou-vos - explicou Rbano com uma
pacincia teatral, como se estivesse a falar com uma criana.
- No deveis chorar, mas sim agradecer a Deus porque na vida
que h-de vir, sofrereis menos.
 Madalgis ficou fora de si, como se duvidasse se tinha ouvido
bem. Depois, o seu rosto retorceu-se e recomeou a chorar,
mais alto ainda, com o rosto vermelho desde o pescoo at 
raiz dos cabelos.
 Estranho, pensou Joana.
 Rbano virou as costas  mulher.
 - De profundis clamavi ad te, Domine... - comeou a orao
pelos mortos. A irmandade acompanhou-o em unssono.
 Joana repetia as palavras mecanicamente, com os olhos postos
em Madalgis.
 Quando a orao terminou, Rbano passou para a parte final
da cerimnia, na qual cada leproso seria separado do mundo.
Colocou-se diante do primeiro, o rapaz de catorze anos, com
poucos sinais da doena.
 - Sis mortuus mundo, vivens iterum Deo - disse o abade
Rbano. - Estais morto para o mundo e vivo aos olhos de Deus.


 219


 Fez um sinal ao irmo Magenard, que enterrou uma p na
carroa, retirou um pouco de terra do cemitrio e a atirou ao
rapaz, sujando-lhe as roupas e o cabelo.
 A cerimnia repetiu-se cinco vezes, terminando sempre com a
terra a ser atirada. Quando chegou  vez de Madalgis, ela
tentou fugir, mas os dois irmos leigos taparam-Lhe a
passagem. Rbano fitou-a, com o sobrolho carregado.
 - Sis mortuus mundo, vivens iter...
 - Um momento! - gritou Joana.
 O abade Rbano calou-se. Toda a gente se virou na direco
da interrupo inusitada.
 Com todos os olhos postos nela, Joana avanou em direco a
Madalgis e examinou-a com um olhar rpido. Depois, virou-se
para o abade:
 - Padre, esta mulher no  leprosa.
 - O qu? - Rbano esforava-se por conter a sua clera para
que o bispo no a visse.
 - Estas leses no so devidas a lepra. Vede como a sua pele
muda de cor, alimentada pelo sangue que se encontra por baixo
dela. Esta infeco de pele no  infecciosa; pode ser curada.
 - Se ela no  leprosa, ento o que provocou estas
lceras?perguntou Rbano.
 - Podem ter sido provocadas por vrias coisas.  difcil
dizer sem outros exames. Mas, seja qual for a sua origem, uma
coisa  certa: no  lepra.
 - Deus assinalou esta mulher com a manifestao visvel do
pecado. No devemos desafiar a Sua vontade!
 - Ela est marcada, mas no com a lepra - respondeu Joana
com firmeza. - Deus deu-nos o conhecimento para discernirmos
entre aqueles que Ele escolheu para carregarem este fardo e
aqueles que Ele no escolheu. Ser que Ele ficar satisfeito
se condenarmos a uma morte em vida algum que Ele prprio no
escolheu?
 Era um argumento inteligente. Consternado, Rbano reparou
que os outros ficaram tocados por ele.
 - Como sabemos se interpretaste correctamente a vontade de
Deus? - argumentou ele. - Ser o teu orgulho to grande que
sejas capaz de lhe sacrificar a tua irmandade? - porque para
socorreres esta mulher, podes colocar-nos a todos em grande
perigo.
 Esta afirmao levantou um burburinho de preocupao. Nada,
a no ser os inimaginveis tormentos do Inferno, inspirava
mais horror, repulsa e medo do que a lepra.


 220


 Madalgis lanou-se aos ps de Joana, soltando um grito.
Tinha seguido a discusso sem compreender porque tanto Joana
como Rbano tinham falado em latim, mas tinha-se conseguido
aperceber de que Joana intercedia a seu favor e que a disputa
no estava a correr bem.
 Joana pousou a mo sobre o seu ombro, tanto para a acalmar,
como para a fazer calar.
 - Ningum mais na irmandade tem de correr qualquer risco,
para alm de mim prprio. Com a vossa permisso, Padre, irei
com ela para sua casa, levando os medicamentos necessrios.
 - Sozinho? Com uma mulher? - Rbano ergueu as sobrancelhas,
com um horror piedoso. - Joo Anglicus, talvez a tua inteno
seja inocente, mas s um jovem, sujeito s vis paixes da
carne, por isso, como teu pai espiritual,  meu dever
proteger-te.
 Joana abriu a boca para responder, depois, fechou-a,
frustrada. Ningum estava mais a salvo da tentao com uma
mulher do que ela, mas no havia forma de o poder explicar a
Rbano.
 A voz rouca do irmo Benjamim soou por trs dela:
 - Eu acompanharei o irmo Joo. Sou velho, h muito que
passou o tempo de ter essas tentaes. Padre, podeis confiar
no irmo Joo, quando ele diz que a mulher no  leprosa
porque, se ele fala com tanta certeza,  porque tem razo. A
sua competncia nestes assuntos  muito grande.
 Joana lanou-lhe um olhar agradecido. Madalgis agarrou-se a
ela. Os seus gritos foram temperados por um choro silencioso,
reconfortado pela Joana.
 O abade Rbano hesitou. O que ele queria era dar uma valente
reprimenda a Joo Anglicus pela sua desobedincia presunosa.
Mas, o bispo Otgar estava a ver, Rbano no podia parecer
intransigente ou impiedoso.
 - Muito bem - disse ele, contrariado. - Irmo Joo, depois
das vsperas, tu e o irmo Benjamim acompanhareis esta
pecadora e fareis o que pode ser feito em nome de Deus para a
curar do seu mal.
 - Obrigado, Padre - disse Joana.
 Rbano fez o sinal da cruz sobre eles.
 - Que Deus, na Sua bondade misericordiosa, vos proteja do
mal.
 A mula transportando os sacos de medicamentos caminhava
vagarosa e calmamente, indiferente ao sol poente. A cabana de
Madalgis ficava a cerca de cinco milhas de caminho; a este
passo lento, teriam de se esforar muito para conseguirem
chegar antes de escurecer.


 221


 Joana bateu na mula, impaciente. Para a satisfazer, a mula
deu cinco ou seis passos mais rpidos, depois, regressou
confortavelmente ao seu passo original.
 Enquanto caminhavam, Madalgis falava com a energia nervosa
que se segue frequentemente a um grande susto. Joana e
Benjamim ficaram a saber toda a sua triste histria. Apesar de
parecer pobre, ela no era nenhuma colona, mas sim uma mulher
livre cujo marido tinha obtido o ttulo de independncia a
troco de uma herdade com cerca de doze hectares. Aps a sua
morte, ela tentou sustentar a famlia trabalhando ela prpria
na terra, mas este esforo herico tinha sido truncado
abruptamente pelo seu vizinho, o senhor Rathold, que cobiava
a prspera propriedade. O senhor Rathold tinha chamado a
ateno do abade Rbano para os trabalhos de Madalgis, que a
proibiu, sob pena de excomunho, de voltar a fazer fosse o que
fosse.
 -  sacrilgio uma mulher fazer o trabalho de um homem -
tinha-lhe dito ele.
 Para no morrer  fome, Madalgis viu-se obrigada a vender a
propriedade e a sua casa ao senhor Rathold por muito menos do
que ela valia, recebendo em troca apenas alguns soldos e uma
pequena cabana numa povoao prxima, com um pedacinho de
pastagem para as suas vacas.
 Ela tinha comeado a fazer queijo, assim, tinha conseguido
garantir uma subsistncia mnima, trocando os frutos do seu
trabalho por outra comida e outras coisas necessrias.
 Quando avistou a sua casa, Madalgis gritou de contentamento
e correu  frente, desaparecendo rapidamente no seu interior.
Joana e o irmo Benjamim entraram alguns minutos mais tarde e
descobriram-na quase submersa por uma confuso de crianas,
todas rindo, chorando e falando ao mesmo tempo. Ao verem os
dois monges entrar, as crianas gritaram assustadas e rodearam
Madalgis para a protegerem, temendo que ela lhes fosse levada.
Madalgis falou com eles e eles voltaram a sorrir, apesar de
observarem os dois estranhos com curiosidade.
 Entrou uma mulher com dois bebs ao colo. Fez uma vnia
respeitosa aos dois monges, depois, apressou-se a entregar uma
das crianas a Madalgis, que lhe pegou, alegremente, e lhe deu
o peito, que ela comeou a sugar esfomeada. A outra mulher
parecia uma senhora de mais de cinquenta anos, mas Joana
reparou que, embora a sua face estivesse marcada pelas
preocupaes, no era assim to velha -. talvez no tivesse
mais de vinte e nove ou trinta anos.


 222


 Ela tem amamentado o beb de Madalgis juntamente com oseu,
compreendeu Joana. Reparou, com pena, no peito cado e no
abdmen inchado da mulher e no tom plido pouco saudvel da
sua pele. Joana j tinha visto aqueles sintomas: as mulheres
tinham frequentemente o primeiro filho com treze ou catorze
anos e, da para a frente, viviam num estado de gravidez
permanente, trazendo ao mundo um beb atrs de outro com uma
regularidade terrvel. No era raro uma mulher ter vinte ou
trinta gravidezes durante a sua vida - apesar de,
inevitavelmente, algumas terminarem rapidamente em aborto.
Quando uma mulher chegava  mudana de idade - se  que vivia
at l chegar porque o parto implicava riscos considerveis -
o seu corpo estava gasto, o seu esprito abatido pela
exausto. Joana tomou nota mentalmente para no se esquecer de
fazer um tnico de raiz de carvalho e de salva para fortalecer
a mulher contra o Inverno que se aproximava.
 Madalgis trocou algumas palavras com o seu filho mais velho,
um rapazote de doze ou treze anos. Ele dirigiu-se para a porta
e voltou pouco depois com uma fatia de po e um pedao de
queijo raiado de azul, que ofereceu  Joana e ao irmo
Benjamim. O irmo Benjamim pegou no po, mas recusou o queijo
porque era bvio que ele tinha bolor. Joana tambm teve nojo
do queijo, mas para agradar ao rapaz, partiu um pedacinho e
meteu-o na boca. Para sua surpresa, ele sabia muito bem - era
rico, aromtico, espantosamente saboroso - muito melhor do que
qualquer queijo que aparecia nas mesas em Fulda.
 - Mas,  delicioso!
 O rapaz sorriu.
 - Como te chamas? - perguntou-lhe ela.
 - Arn - respondeu ele timidamente.
 Enquanto comia, Joana observou o ambiente. A casa de
Madalgis era uma cabana pequena, sem janelas, feita em ripas
cruzadas, cobertas com lama e revestida com palha e folhas.
Havia grandes rachas nas paredes, atravs das quais entrava,
agora, o ar frio da noite, levantando o fumo do lume trreo. A
um canto, havia um curral para os animais; dali a um ms,
Madalgis traria para ali as suas vacas, para o Inverno -
prtica comum entre os pobres. Assim, no s protegia o seu
precioso sustento, como tambm traria uma bem precisa fonte
suplementar de calor para aquecer a casa. Infelizmente, para
alm do calor do seu corpo, os animais tambm traziam doenas:
carraas, moscas, mosquitos e uma srie de outros vermes, que
se entranhavam na palha que cobria o cho e nas enxergas. Os
mais pobres andavam sempre cobertos de mordidas e infeces,


 223


facto documentado nas igrejas locais, cujas paredes
apresentavam representaes de Job, com o corpo coberto de
lceras, raspando as chagas com uma faca.
 Alguns - e Joana suspeitava que Madalgis era um deles -
desenvolviam fortes e estranhas alergias s mordidas dos
insectos. A sua pele inchava em grandes chagas que, irritadas
pelas roupas de tecido grosseiro e pela l suja, acabavam por
infectar.
 Mas, o teste ao diagnstico de Joana tinha de esperar,
porque, agora, estava completamente escuro. Amanh, pensou
Joana, antes de adormecer, comeamos amanh.
 No dia seguinte, limparam a pequena cabana de cima a baixo.
A palha velha que cobria o cho foi retirada e o cho em terra
foi completamente varrido. As enxergas foram queimadas e
substitudas por enxergas em palha nova. At mesmo o telhado
em colmo, que tinha comeado a apodrecer com a idade, foi
substitudo.
 A parte mais difcil era convencer Madalgis a tomar um
banho. Como todos os outros, ela limitava-se a lavar
regularmente a cara, as mos e os ps, mas, a ideia de uma
imerso total era-lhe estranha, alis, considerava-a mesmo
perigosa.
 - Vou apanhar gripe e vou morrer! - gritou ela.
 - Morres, se no o fizeres - respondeu Joana com firmeza. -
A existncia de um leproso  a morte em vida.


 Os ventos frios de Herbistmanoth tinham tornado demasiado
frio o ribeiro que corria por trs do prado para tomar banho.
Tiveram de ir buscar gua e aquec-la ao lume para, depois, a
deitarem no tanque da roupa. Enquanto os dois monges Lhe
viravam as costas, Madalgis entrou no tanque, apesar de
contrariada e lavou-se com sabo e gua.
 Depois do banho, Madalgis vestiu uma tnica nova lavada, que
Joana tinha pedido ao irmo Conrad, o despenseiro, prevendo
que ia ser necessria. Em linho fino, no era suficientemente
quente para Madalgis passar o Inverno, mas era muito mais
macia e menos irritante para a pele do que a l.
 Depois de lavada, com a casa liberta de vermes e brilhando
do telhado at ao cho, Madalgis comeou imediatamente a
melhorar. As suas leses secaram e ela comeou a mostrar
sinais de cura.
 O irmo Benjamim estava extasiado.
 - Tinhas razo! - disse ele a Joana. - No  lepra! Temos de
voltar e mostrar aos outros!
 - Mais alguns dias - disse Joana, prudentemente. - No pode
haver qualquer dvida de que ela est curada, quando
regressarmos.


 224


 * * *


 - Mostra-me outra. - pediu Arn.
 Joana sorriu. Nos ltimos dias tinha ensinado ao rapaz o
mtodo clssico de computao digital, de Beda, e ele tinha-se
mostrado um estudante apto e esforado.
 - Primeiro, tens de me mostrar que te lembras daquilo que eu
j te ensinei. O que representa isto?
 Ela levantou os ltimos trs dedos da sua mo esquerda.
 - As unidades - disse o rapaz, sem hesitao. - E estes -
levantou o polegar esquerdo e o dedo indicador - so decimais.
 - Muito bem. E na mo direita?
 - Estes representam as centenas e estes, os milhares. -
Levantou os dedos adequados para exemplificar.
 - Muito bem, escolhe dois nmeros.
 - Doze, que  a minha idade. E... - pensou durante alguns
momentos - trezentos e sessenta e cinco, que  o nmero de
dias de um ano! - disse ele, orgulhoso em mostrar mais outra
coisa que tinha aprendido.
 - Doze vezes trezentos e sessenta e cinco. Vejamos... - os
dedos de Joana moveram-se rapidamente, mostrando o total. -
So quatro mil, trezentos e oitenta.
 Arn bateu as palmas, encantado.
 - Experimenta tu - disse Joana, repetindo a operao mais
devagar para que ele tivesse tempo de imitar cada um dos seus
gestos. Depois, mandou-o repeti-los sozinho.
 - Excelente! - disse ela, depois de ele o ter feito.
 Arn sorriu, encantado com o jogo e com o elogio. Depois, o
seu rostinho ficou srio.
 - At onde sois capaz de contar? - perguntou ele. - Podeis
faz-lo com uma centena e um milhar? Com... um milhar e outro
milhar? Joana acenou que sim. - Toca no peito assim... vs?
Isto faz dezenas de milhar. E se tocares na tua coxa, assim,
obtns centenas de milhar. Portanto - os seus dedos voltaram a
mexer-se - mil e cem vezes duas mil e trezentas ... dois
milhes, quinhentos e trinta mil!
 Os olhos de Arn abriram-se de espanto. Os nmeros eram to
grandes que ele nem sequer conseguia imagin-los.
 - Mostrai-me outro! - pediu ele.


 225


 A Joana riu-se. Gostava de ensinar o rapaz porque ele
absorvia o conhecimento sofregamente. Lembrava-Lhe ela
prpria, quando criana. Que pena que esta chispa de
inteligncia esteja destinada a extinguir-se na escurido da
ignorncia, pensou ela.
 - Se eu conseguisse tratar de tudo - disse ela -, gostarias
de estudar na escola da abadia? Podias continuar a aprender l
- no s nmeros, mas tambm a ler e a escrever.
 - A ler e a escrever? - repetiu Arn, maravilhado.
 Estas habilidades extraordinrias estavam reservadas a
sacerdotes e a grandes senhores, no a pessoas como ele.
Perguntou, ansiosamente:
 - Tenho de me tornar monge?
 Joana estava divertida. Arn tinha a idade em que os rapazes
comeam a desenvolver um forte interesse pelo sexo oposto, a
ideia de uma vida de castidade era compreensivelmente
aberrante para ele.
 - No - disse ela. - Estudarias na Escola Externa, a que 
para estudantes leigos. Mas isso quereria dizer que tinhas de
sair de casa e ir viver para a abadia. E tinhas de estudar
muito porque o professor  muito rigoroso.
 Arn no hesitou um momento que fosse.
 - Oh, sim! Sim, por favor!
 - Muito bem. Amanh, regressamos a Fulda. Eu falarei com o
professor.


 - Finalmente! - o irmo Benjamim suspirou de alvio.
  sua frente, onde a estrada pedregosa se fundia com o
horizonte, erguiam-se as muralhas cinzentas de Fulda,
enquadradas pelas duas torres da igreja da abadia.
 O pequeno grupo de viajantes tinha passado por uma viagem
cansativa desde a cabana de Madalgis e a humidade tinha
agravado o reumatismo de Benjamim, transformando cada passo
num tormento.
 - J falta pouco - disse Joana. - Daqui a uma hora, podereis
pr os ps  lareira num quarto quente.
  distncia, o repicar dos sinos anunciava a chegada deles -
ningum se aproximava das portas de Fulda sem ser anunciado.
Ao ouvir os sinos, Madalgis apertou nos braos o seu beb,
nervosa. Tinha sido difcil a Joana e ao irmo Benjamim
convencerem-na a regressar  abadia, mas, ela tinha acabado
por concordar, mas s com a condio de os filhos a poderem
acompanhar.
 A irmandade estava reunida no ptio para os receber,
alinhados cerimoniosamente por ordem de importncia, com o
abade Rbano de cabelo grisalho e majestosamente de p, 
frente.


 226


 Madalgis encolheu-se com medo, escondendo-se por trs de
Joana.
 - Aproxima-te - disse Rbano.
 - Est tudo bem, Madalgis - tranquilizou-a Joana. - Faz como
o padre abade te diz.
 Madalgis avanou e ficou de p, a tremer, no meio de
estranhos. Um suspiro de espanto perpassou as fileiras dos
irmos, quando a viram. Os ndulos abertos e ulcerosos e as
leses tinham desaparecido,  excepo de algumas marcas secas
e a fechar, a pele bronzeada do seu rosto e dos seus braos
estava limpa e lisa, cheia de sade. No havia qualquer
dvida: mesmo o mais inexperiente podia dizer que a mulher que
estava diante de si no era leprosa.
 -  maravilhoso sinal da graa! - exclamou o bispo Otgar em
louvor. - Tal como Lzaro, ela foi trazida da morte para a
vida!
 A irmandade reuniu-se em crculo, empurrando o pequeno grupo
de viajantes, triunfalmente, na direco da igreja.
 O facto de Joana ter curado Madalgis foi considerado nada
menos do que um milagre. Fulda encheu-se de louvores a Joo
Anglicus. Quando o irmo Aldwin, um dos irmos mais velhos e
um dos dois padres da comunidade, morreu durante o sono, a
irmandade no tinha muitas dvidas acerca de quem lhe devia
suceder.
 Mas, o abade Rbano era de uma opinio diferente. Joo
Anglicus tinha uma natureza demasiado frontal e presunosa
para o seu gosto. Rbano preferia o irmo Toms, que, apesar
de se saber que era menos brilhante, era muito mais previsvel
- qualidade que Rbano apreciava.
 Mas, a deciso cabia ao bispo Otgar. O bispo sabia que
Gottschalk tinha estado  beira da morte por causa de ter sido
castigado, acontecimento que se reflectiu negativamente no
prestgio de Rbano. Se Rbano preterisse Joo Anglicus a
favor de um irmo menos qualificado, podiam levantar-se
questes acerca do seu servio na abadia. E se o rei recebesse
um relatrio negativo acerca dele, ele podia ser retirado da
abadia - o que era impensvel. Era melhor ser prudente na
escolha de quem seria padre, pensou Rbano - pelo menos, de
momento.
 Anunciou no captulo:
 - Como vosso pai espiritual, o direito de nomeao de um
padre de entre vs pertence-me. Depois de muita orao e
reflexo, decidi escolher um irmo habilitado para o cargo em
virtude dos seus grandes conhecimentos: o irmo Joo Anglicus.
 Ouviu-se um murmrio de aprovao entre a irmandade. Joana
corou de excitao. Eu, padre! Ser admitida aos mistrios
sagrados, administrar os santos sacramentos!


 227


Tinha sido a ambio do pai para Mateus e, depois de Mateus
ter morrido, para Joo. Que ironia se essa ambio acabasse
por se concretizar atravs da sua filha!
 Sentado do outro lado da sala, o irmo Toms olhou,
sombriamente, para Joana. Este sacerdcio  meu, pensou ele,
amargamente. Fui eu o escolhido de Rbano, no foi o que ele
disse h umas semanas atrs?
 O facto de Joo Anglicus ter curado a mulher leprosa tinha
mudado tudo. Era ultrajante. Madalgis no era ningum, era uma
serva, ou pouco mais. Que diferena fazia se ela tivesse ido
para a leprosaria, vivido ou morrido? Tanto fazia!
 Que o prmio fosse para Joo Anglicus era uma humilhao
amarga. Toms tinha-o detestado desde o princpio - odiava a
sua rapidez de raciocnio, que ele tinha sentido na pele
tantas vezes, odiava o -vontade com que ele dominava as suas
lies. Essas coisas no tinham sido fceis para Toms. Ele
tivera de estudar como um escravo para aprender as frmulas
latinas e decorar os captulos da regra. Mas, o que faltava a
Toms em brilhantismo tinha ele em persistncia e no esforo
que punha nas prticas piedosas. Quando terminava as
refeies, tinha o cuidado de poisar a sua faca e o seu garfo
perpendicularmente, em homenagem  Santa Cruz. Nunca bebia o
seu vinho de uma vez, como os outros, mas em trs golos de
cada vez, reverentemente, numa piedosa ilustrao do milagre
da Trindade. Joo Anglicus no se preocupava com tais actos de
devoo.
 Toms olhou para o seu rival, com um ar to angelical com o
seu cabelo dourado. Que o Inferno o consuma nas suas chamas, a
ele e ao ventre maldito que o gerou!


 O refeitrio ou sala de jantar dos monges era uma sala com
quarenta ps de largura e cem ps de comprimento, amplo, para
acomodar ao mesmo tempo os trezentos e cinquenta irmos de
Fulda. Com sete janelas altas na parede sul e seis na parede
norte, voltadas na direco da luz do Sol ao longo de todo
ano, era uma das salas mais agradveis do mosteiro. As amplas
vigas de madeira e as traves-mestras que suportavam as vigas
ostentavam pinturas coloridas com cenas da vida de So
Bonifcio, patrono de Fulda, estas contribuam para aumentar a
impresso de brilho e luz, pelo que a sala, tanto agora, nos
dias frios e curtos do Heilagmanoth, como nos dias de Vero,
era um espao acolhedor e agradvel.
 Era a hora nona e os irmos estavam reunidos no refeitrio
para jantar, a primeira das duas refeies quotidianas. O
abade Rbano estava sentado a uma comprida mesa em forma de U,
cujo centro se encontrava do lado da parede oriental.


 228


Estava rodeado de doze irmos  sua esquerda e doze irmos 
sua direita, representando os apstolos de Cristo. Sobre as
longas mesas encontravam-se pratos simples com po, legumes e
queijo. Os ratos corriam pelo cho de terra batida, por baixo
da mesa,  procura de migalhas cadas.
 De acordo com a Regra de So Bento, os irmos tomavam sempre
as suas refeies sem falarem uns com os outros. O silncio
rigoroso s era quebrado pelo tilintar do metal das facas e
dos copos e pela voz do leitor da semana, que ficava de p, no
plpito, lendo uma passagem dos Salmos ou da Vida dos Padres.
 - Tal como o corpo mortal necessita de comida terrena -
gostava de dizer o abade Rbano - assim tambm a alma deve
prover ao seu sustento espiritual.
 A regula taciturnitis - ou regra do silncio - era um ideal
elogiado por todos, mas respeitado por poucos. Os irmos
tinham engendrado um esquema complicado de gestos e expresses
faciais atravs das quais comunicavam durante as refeies.
Era possvel desenvolver longas conversas atravs deste
sistema, especialmente quando o leitor era fraco, como era o
caso naquele dia. O irmo Toms lia com uma voz lenta e com
tanto sotaque que se perdia completamente a cadncia potica
dos Salmos, para obviar s suas poucas capacidades, Toms lia
alto. A sua voz feria os ouvidos da irmandade. O abade Rbano
pedia frequentemente ao irmo Toms para ler, preferindo-o aos
leitores do mosteiro mais capacitados porque, como ele dizia,
uma voz demasiado doce convida o demnio a entrar no corao.
 - Pssst.
 Um bichanar abafado chamou a ateno de Joana. Levantando os
olhos do seu prato, viu o irmo Adalgar a fazer-lhe sinais do
outro lado da mesa.
 Ele levantou quatro dedos. O nmero simbolizava um captulo
da Regra de So Bento, um veculo frequente para este tipo de
comunicao fraterna, que favorecia as referncias enigmticas
e as circunlocues.
 Joana recordou-se das frases iniciais do captulo quarto:
Omnessupervenientes hospites tamquam Christussuscipiantur,
dizia ele. Que todos os que chegam sejam recebidos como
Cristo.
 Joana percebeu imediatamente o que o irmo Adalgar queria
dizer. Tinha chegado uma visita a Fulda - algum importante,
ou o irmo Adalgar no se teria dado ao trabalho de o
mencionar. Fulda recebia para cima de doze visitantes por dia,


 229



ricos e pobres, peregrinos bem vestidos e peregrinos
andrajosos, viajantes cansados que vinham porque sabiam que
ningum os mandaria embora, que, ali, encontrariam repouso,
abrigo e comida por alguns dias, antes de continuarem o seu
caminho.
 A curiosidade de Joana aguou-se.
 - Quem? - perguntou ela, silenciosamente, erguendo um pouco
as sobrancelhas.
 Nesse momento, o abade Rbano fez sinal e os irmos
levantaram-se da mesa todos ao mesmo tempo, alinhados por
ordem de antiguidade. Ao sarem do refeitrio, o irmo Adalgar
foi ter com ela.
 - Parens - murmurou ele e apontou para ela. - Parentes teus.
 Joana seguiu a irmandade, saindo do refeitrio com o passo
calmo e comedido, assim como com a expresso plcida, adequada
a um monge de Fulda. No havia nada na sua expresso exterior
que trasse a sua profunda agitao.
 Ser que o irmo Adalgar tinha razo? Ser que algum parente
seu tinha vindo a Fulda? A sua me ou o seu pai? Parens, tinha
dito Adalgar, o que podia significar uma coisa ou a outra. E
se fosse o pai dela? No esperaria encontr-la a ela, mas sim
ao seu irmo, Joo. Joana ficou assustada com este pensamento.
Se o pai descobrisse a sua impostura, de certeza que a
denunciaria logo.
 Mas, talvez fosse a sua me. Gudrun no trairia o seu
segredo. Ela compreenderia que essa revelao custaria a vida
a Joana.
 Mam. H dez anos que Joana no a via e, quando se
separaram, tinha sido difcil. De repente, Joana desejou mais
do que tudo ver o rosto familiar e amado de Gudrun, desejou
abra-la e que ela a abraasse, ouvi-la falar no ritmo
cadenciado da Lngua Antiga.
 O irmo Samuel, o irmo hospitaleiro, interceptou-a, quando
ela ia a sair do refeitrio.
 - Ests dispensado das tuas obrigaes desta tarde, veio
algum para te visitar.
 Dividida entre a esperana e o medo, Joana no disse nada.
 - No fiques to srio, Irmo, no  o Diabo que vem buscar
a tua alma imortal.
 O irmo Samuel riu-se com vontade. Era um homem de bom
corao, jovial, amigo de gracejos e de graas. O abade Rbano
tinha-o castigado anos a fio por causa das suas qualidades
pouco espiri tuais, mas, tinha acabado por desistir e por o
nomear hospitaleiro, uma funo cujas tarefas mundanas de
receber e cuidar dos visitantes se adequava perfeitamente ao
irmo Samuel.


 230


 - Est aqui o teu pai - disse Samuel alegremente, satisfeito
por dar uma boa notcia. - Est  tua espera no jardim.
 O medo estilhaou a mscara de impassibilidade de Joana. Ela
recuou, abanando a cabea:
 - No irei v-lo. Eu... eu no posso.
 O sorriso desapareceu dos lbios do irmo Samuel.
 - Ora, Irmo, no pode ser. O teu pai viajou desde Ingelheim
at aqui para falar contigo.
 Ela tinha que encontrar uma explicao.
 - As coisas no esto bem entre ns. Ns... discutimos...
quando eu sa de casa.
 O irmo Samuel passou o brao pelo seu ombro:
 - Eu compreendo - disse ele, num tom condescendente.Mas, ele
 teu pai e veio de muito longe. Ser uma obra de caridade
falar com ele, nem que seja s por breves momentos.
 Incapaz de encontrar um argumento contra isto, Joana ficou
em silncio.
 O irmo Samuel tomou o seu silncio por aquiescncia.
 - Anda. Vou levar-te at ele.
 - No! - ela sacudiu o brao com que ele a abraava.
 O irmo Samuel estava espantado. Esta no era forma de se
dirigir ao hospitaleiro, um dos sete ofcios da abadia aos
quais se devia obedincia.
 - O teu esprito est perturbado, Irmo - disse ele
asperamente. - Precisas de orientao espiritual.
Discuti-lo-emos no captulo de amanh.
 O que posso fazer?, pensou Joana consternada. Seria difcil,
se no mesmo impossvel, esconder do pai a sua verdadeira
identidade. Mas, uma discusso no captulo seria catastrfica.
No havia desculpa para o seu comportamento. Se se descobrisse
a sua desobedincia, como tinha sido descoberta a de
Gottschalk...
 - Nonnus, perdoa - disse ela, utilizando o ttulo de
respeito devido a um irmo mais velho - a minha falta de
temperana e de humildade. Apanhaste-me de surpresa e, na
minha confuso, esqueci o meu dever para contigo. Peo-te
perdo, com toda a humildade.
 Era uma boa desculpa. O ar srio do irmo Samuel
dissolveu-se num sorriso, ele no era homem para guardar
ressentimentos.
 - Ests perdoado, Irmo. Anda. Iremos juntos para o jardim.
 Enquanto saam do mosteiro, passando pelos armazns de
vveres, pelo moinho e a estufa de secagem, Joana avaliava
rapidamente as suas hipteses.


 231


Da ltima vez que o pai a tinha visto, ela era uma criana de
doze anos. Tinha mudado muito nos dez anos seguintes. Talvez
ele no a reconhecesse. Talvez...
 Chegaram ao jardim com os seus canteiros semeados em filas
rectilneas - treze ao todo. O nmero tinha sido escolhido
cuidadosamente para simbolizar a sagrada congregao de Cristo
e dos Doze na ltima Ceia. Cada canteiro tinha exactamente
sete ps de largura, isso tambm tinha um significado, uma vez
que sete era o nmero de dons do Esprito Santo, o que
simbolizava a plenitude de todas as coisas criadas.
 O seu pai estava ao fundo do jardim, de costas para eles,
entre canteiros de mastruo e de cereflio. O seu corpo
atarracado, o seu pescoo grosso e a posio resoluta foram
imediatamente familiares a Joana. Ela escondeu bem a sua
cabea dentro do capuz volumoso, de maneira a cobrir bem o
cabelo e, tanto quanto possvel, o rosto.
 Ao ouvir os seus passos a aproximarem-se, o cnego virou-se.
O seu cabelo escuro e as suas sobrancelhas fartas, que tinham
despertado, em tempos, tanto terror a Joana, estavam
completamente grisalhos.
 - Deus tecum - o irmo Samuel deu um empurrozinho
encorajador  Joana. - Deus esteja contigo.
 Depois, deixou-os.
 O seu pai atravessou o jardim hesitante. Era mais baixo do
que ela pensava, ela reparou, com surpresa, que ele utilizava
uma bengala para se apoiar. Quando ele se aproximou, Joana
virou-se e, sem falar, fez-Lhe sinal para que ele a
acompanhasse. Levou-o do sol do meio-dia, que brilhava a
pique, para a capela sem janelas que ficava junto ao jardim,
onde a escurido era mais segura. Uma vez l dentro, esperou
que ele se sentasse num banco. Depois, sentou-se ela prpria
na outra ponta do banco, de cabea baixa, de forma a que o
capuz Lhe escondesse o perfil.
 - Pater Noster qui es in caelis, sanctificatur nomen tuum...
 O seu pai comeou a rezar o Pai-Nosso. As suas mos cruzadas
tremiam de velhice, falava no tom trmulo e frgil de um
velho. Joana juntou a sua voz  dele e as palavras de ambos
fundiram-se e ecoaram na pequena sala com paredes em pedra.
 Depois de terminada a orao, ficaram em silncio durante
algum tempo.
 - Meu filho - disse, finalmente, o cnego - fizeste bem. O
irmo hospitaleiro disse-me que vais ser padre. Honras a nossa
famlia como eu esperei, um dia, que o teu irmo fizesse.


 232


 Mateus. A Joana apalpou o medalho de Santa Catarina que
tinha pendurado ao pescoo, aquele que Mateus lhe tinha dado
havia tanto tempo.
 O pai apercebeu-se do seu gesto.
 - A minha vista tornou-se fraca. Isso  o medalho da tua
irm Joana?
 Joana largou-o, maldizendo a sua estupidez, no tinha
pensado em escond-lo.
 - Fiquei com ele como recordao... depois. - Ela no
conseguia falar do horror do ataque dos normandos.
 - A tua irm morreu sem ser... desonrada?
 Joana lembrou-se de repente de Gisla, gritando de dor e de
medo enquanto os normandos a violavam  vez.
 - Morreu pura.
 - Deo gratias. - O cnego benzeu-se. - Ento, foi a vontade
de Deus. Criana teimosa e desnaturada, nunca ficaria em paz
com o mundo, foi melhor assim.
 - Ela no teria dito isso.
 Se o cnego se apercebeu da ironia na sua voz, no o deu a
entender.
 - A sua morte foi um grande desgosto para a tua me.
 - Como est a minha me?
 O cnego demorou muito tempo a responder. Quando,
finalmente, acabou por o fazer, a sua voz tremia ainda mais do
que antes.
 - Foi-se.
 - Foi-se?
 - Para o Inferno - disse o cnego - para arder para toda a
eternidade.
 - No - Joana atingiu os limites da sua compreenso. - No.
 A mam, no, com o seu belo rosto, os seus olhos bondosos,
as mos delicadas que lhe davam ternura e conforto - a mam,
que a amava.
 - Morreu h um ms - disse o cnego - sem absolvio e sem
se reconciliar com Cristo, invocando os seus deuses pagos.
Quando a parteira me disse que ela no sobreviveria, eu fiz o
que pude, mas ela no aceitou os Santos Sacramentos. Eu
meti-lhe a Hstia Sagrada na boca, mas ela cuspiu-ma na cara.
 - A parteira? No quereis dizer...
 A sua me tinha mais de cinquenta anos, j tinha passado,
havia muito, a idade de ter filhos, no tinha concebido mais
nenhuma criana desde que Joana tinha nascido.


 233


 - No me deixaram enterr-la no cemitrio cristo por causa
da criana no baptizada que lhe ficou no ventre.
 Ele comeou a chorar. O seu corpo estremecia todo com
grandes soluos.
 Ento, ele amava-a? Tinha uma forma estranha de o
demonstrar, com os seus acessos de fria brutal, a sua
crueldade e a sua luxria, a sua luxria egosta, que tinha
acabado por a matar.
 Os soluos do cnego acalmaram e ele comeou a rezar pela
morta. Desta vez Joana no o acompanhou. Silenciosamente,
entredentes, comeou a recitar o Juramento, invocando o nome
sagrado de Thor, o deus do trovo, tal como a mam Lhe tinha
ensinado havia muito tempo.
 O pai pigarreou desconfortavelmente.
 - H uma coisa, Joo. A misso na Saxnia... achas que...
quer dizer, ser que os irmos precisam da minha ajuda no seu
trabalho de converso dos pagos?
 Joana estava perplexa.
 - Ento e o vosso trabalho em Ingelheim?
 -  que a minha posio em Ingelheim tornou-se difcil. A
recente... desgraa... com a tua me.
 Joana compreendeu imediatamente. As restries ao casamento
do clero, que tinham sido raramente aplicadas durante o
reinado do imperador Carlos, tinham endurecido no reinado do
seu filho, cujo zelo religioso lhe tinha granjeado o ttulo de
Lus, o Piedoso. O recente snodo de Paris tinha reafirmado
veementemente tanto a teoria quanto a prtica do celibato do
clero. A gravidez de Gudrun, prova evidente da falta de
castidade do cnego, no podia ter vindo em pior altura.
 - Haveis perdido o vosso lugar?
 O pai confirmou, relutante.
 - Mas Deo volente, ainda tenho fora e capacidade para fazer
o trabalho de Deus. Se pudesses interceder por mim junto do
abade Rbano...
 Joana no respondeu. Estava cheia de desgosto, ira e dor,
no havia lugar no seu corao para a compaixo pelo seu pai.
 - No me respondes. Tornaste-te orgulhoso, meu filho.
 Ele levantou-se e a sua voz assumiu algo do seu velho tom de
comando.
 - Lembra-te que fui eu que te permiti que viesses para aqui
e que adquirisses a posio que tens agora na vida.
Contritionem praecedi suerbia, et ante ruinam exaltatio
spiritus - admoestou-a ele, rigidamente.


 234


- O orgulho leva  destruio e um esprito altivo,  queda.
Provrbios, captulo dezasseis.
 - Bonum est homini mulierem non tangere - ripostou Joana. -
 bom que o homem no toque numa mulher, Primeira aos
Corntios, captulo sete.
 O pai levantou a bengala para lhe bater, mas o movimento fez
com que ele perdesse o equilbrio e casse. Ela estendeu a mo
para o ajudar, mas ele agarrou-se a ela, atirando-a ao cho.
 - Meu filho - a sua voz soava chorosa aos seus ouvidos - meu
filho. No me abandones. s tudo quanto eu tenho.
 Enojada, ela recuou com tal violncia que o seu capuz lhe
escorregou da cabea. Ela puxou-o rapidamente, mas, era tarde
de mais.
 O rosto do seu pai ostentava uma expresso horrorizada ao
reconhec-la.
 - No - disse ele, aterrado - no, no pode ser.
 - Pai...
 - Filha de Eva, o que fizeste? Onde est o teu irmo, Joo?
 - Morreu.
 - Morreu?
 - Os normandos mataram-no, na igreja de Dorstadt. Eu tentei
salv-lo, mas...
 - Bruxa! Feiticeira! Demnio do Inferno!
 Fez o sinal da cruz no ar, diante de si.
 - Pai, por favor, deixai-me explicar... - pedia Joana,
desesperadamente. Ela tinha de o acalmar antes que os seus
gritos atrassem os outros.
 Ele pegou na bengala e lutava desesperadamente para se pr
de p, com o corpo todo a tremer. Joana aproximou-se para o
ajudar, mas ele repeliu-a e disse, num tom acusador:
 - Mataste o teu irmo mais velho. No podias ter poupado o
mais novo?
 - Eu amava o Joo, Pai. Nunca lhe faria mal. Foram os
normandos, vieram de surpresa, com espadas e machados. - Ela
controlou-se para no comear a chorar, tinha de continuar a
falar, fazer com que ele compreendesse. - O Joo tentou
resistir, mas eles mataram todos, todos. Eles...
 Ele virou-se para a porta.
 - Tenho de pr termo a isto, antes que faas mais algum mal.
 Ela agarrou-Lhe o brao.
 - Pai, no, por favor, eles matam-me, se...
 Ele virou-se para ela, ameaador:


 235



 - Demnio tentador! Devias ter morrido no ventre da tua me
pag antes de teres nascido! - Lutava para se libertar dela,
com o rosto a enrubescer de uma forma alarmante. - Deixa-me!
 Ela continuava a agarr-lo, desesperada. Se ele passasse por
aquela porta, a sua vida estava condenada.
 Soou uma voz da porta. Era o irmo Samuel:
 - Irmo Joo. - com o seu rosto bondoso crispado de
preocupao. - Passa-se alguma coisa?
 Surpreendida, Joana abrandou a presso no brao do pai. Ele 
libertou-se e dirigiu-se ao irmo Samuel.
 - Levai-me ao abade Rbano. Eu tenho... eu ten... - ele
interrompeu-se de repente com um olhar surpreendido.
 Ficou com uma expresso estranha. A sua pele tinha-se
tornado ainda mais vermelha, o seu rosto estava retorcido
grotescamente, com o olho direito mais fechado do que o
esquerdo e a boca retorcida para um lado.
 - Pai! - Ela aproximou-se, hesitando, estendendo a mo.
 Ele dirigiu-se para ela, com o brao direito mexendo-se como
se tivesse perdido o controlo sobre ele.
 Aterrada, Joana recuou.
 Ele gritou qualquer coisa incompreensvel, depois, caiu como
uma rvore cortada.
 O irmo Samuel gritou por ajuda. Apareceram imediatamente
cinco irmos  porta.
 Joana ajoelhou-se ao lado do pai e segurou-o nos seus
braos., A sua cabea pendia pesadamente contra o seu ombro. O
seu cabelo juntava-se aos seus dedos. Ao fit-lo nos olhos,
Joana ficou chocada com o dio maligno que viu neles.
 Os seus lbios moviam-se determinados:
 - M... m... m...!
 - No tenteis falar - disse Joana. - No estais bem.
 Ele fitou-a com uma fria selvagem. Com um ltimo esforo
explosivo, cuspiu uma nica palavra:
 - M... m... m... mulier!
 Mulher!
 A sua cabea virou-se convulsivamente para o lado e ficou
nessa posio. Os seus olhos ficaram a fitar o vazio.
 Joana debruou-se sobre ele, procurando sinais de respirao
vindos dos seus lbios retorcidos, assim como qualquer
pulsao no seu pescoo exausto. Depois, fechou-lhe os olhos.
 - Est morto.


 236


 O irmo Samuel e os outros benzeram-se.
 - Pensei que o tinha ouvido falar antes de morrer - disse o
irmo Samuel. - O que  que ele disse?
 - Ele... ele invocou Maria, me de Cristo.
 O irmo Samuel abanou a cabea gravemente.
 - Um santo homem.
 E disse para os outros:
 - Levai-o para a igreja. Prepararemos o seu corpo com a
cerimnia devida.


 - Terra es, terram ibis - entoou o abade Rbano.
 Tal como o resto da irmandade, Joana inclinou-se para pegar
num punhado de terra, depois lanou-o para a sepultura e ficou
a ver os torres de terra escura e hmida a escorregarem sobre
a madeira macia do caixo do seu pai.
 Ele sempre a tinha odiado. Mesmo quando ela era pequena,
antes de ter sido declarada guerra entre ambos, ela nunca
tinha obtido dele mais do que uma tolerncia azeda e
condescendente. Para ele, ela no passava de uma rapariga
estpida e intil. Mesmo assim, ela estava chocada por causa
de se ter apercebido de como ele estava disposto a
denunci-la, de como ele a teria entregado, sem hesitao, a
uma morte inenarrvel.
 Apesar disso, quando as ltimas ps de terra cobriram a
sepultura do seu pai, Joana sentiu uma melancolia estranha e
inesperada. Ela no se lembrava de alguma vez no ter ficado
ofendida com o seu pai, de no o ter temido, mesmo odiado.
Mas, sentia uma estranha sensao de perda. Mateus, Joo, a
Mam - todos tinham partido. O seu pai era a ltima ligao a
casa,  rapariga que ela tinha sido em tempos. J no havia
nenhuma Joana de Ingelheim, s havia o Joo Anglicus,
sacerdote e monge da casa beneditina de Fulda.


 237


 @17


 Fontenoy, 841


 O prado brilhava  luz sombria e parda da madrugada,
atravessado pelas suaves linhas sinuosas de um ribeiro.
Cenrio pouco adequado a uma batalha, pensou Geraldo,
amargamente.
 O imperador Lus tinha morrido havia menos de um ano, mas o
fogo da rivalidade entre os trs filhos j tinha ateado uma
guerra civil.
 O mais velho, Lothar, tinha herdado o ttulo de
Imperador, mas as terras do Imprio foram divididas entre ele
e os seus dois irmos mais novos, Carlos e Lus - combinao
insensata e perigosa que deixou todos os trs filhos
descontentes. Mesmo assim, a guerra poderia ter sido evitada
se Lothar fosse mais habilidoso na diplomacia. Peremp 
trio e desptico por natureza, Lothar tratava os seus irmos
mais novos com uma arrogncia que os levou a unirem-se em
rebelio aberta contra ele. Assim, os trs herdeiros ao trono
acabaram por vir aqui a Fontenoy, determinados em resolver os
seus diferendos atravs do derramamento de sangue.
 Depois de uma longa hesitao, Geraldo acabou por tomar o
partido por Lothar. Ele conhecia bem os defeitos de Lothar,
mas, enquanto Imperador sagrado, ele era a nica esperana
para um reino franco unido. As divises que tinham assolado o
pas ao longo do ano anterior tinham custado um preo
terrvel: os normandos, aproveitando-se do caos resultante da
desordem poltica, tinham intensificado os seus ataques 
costa franca, provocando grande destruio. Se Lothar
obtivesse uma vitria decisiva aqui, os seus irmos no teriam
outra opo seno apoi-lo. Um pas governado por um tirano
era, melhor do que no haver, sequer, pas.
 Comeou o bater das tbuas para reunir os homens. Lothar
tinha decidido que haveria uma missa de manh cedo para
encorajar tropas, antes da batalha.


 238


Geraldo deixou as suas meditaes solitrias e regressou ao
acampamento.
 Vestido com uma casula dourada, o bispo de Auxerre estava em
cima de um carro de mantimentos para que todos pudessem v-lo.
 - Libera me, Domine, de morte aeterna - cantava ele numa voz
de bartono, enquanto dezenas de aclitos passavam entre os
homens , distribuindo a hstia consagrada.
 Muitos dos soldados eram coloni e camponeses sem qualquer
experincia no exrcito, homens que, normalmente, estariam
isentos do bannum imperial requerido para o servio militar.
Mas, estes dias no eram normais. Muitos tinham sido
arrancados ao lar, tendo-lhes sido dada pouco mais de uma
hora para tratar dos seus negcios ou para se despedirem dos
seus entes queridos. Estes recebiam a hstia distrai damente,
no estando preparados para a morte. Os seus pensamentos 
estavam ainda agarrados s coisas deste mundo das quais tinham
sido separados de uma forma to abrupta: os seus campos, os
seus haveres, as suas dvidas, as suas esposas e as crianas
que tinham deixado. Fora de si e assustados, ainda no se
tinham apercebido da situao tremendamente perigosa em que se
encontravam, no podiam acreditar que os esperava a luta e a
morte em terra desconhecida, em nome de um imperador cujo
nome, alguns dias atrs, no passava de um eco distante nas
suas vidas. Quantos destes inocentes sobrevivero para ver o
Sol a pr-se hoje?, pensou Geraldo.
 -  Senhor dos Exrcitos - rezava o bispo, ao concluir a
missa - Campeo contra o inimigo, Granjeador de vitrias,
concedei-nos a proteco da Vossa ajuda e a espada da Vossa
glria para a destruio dos nossos inimigos. men.
 - men.
 O ar reverberou com o som de milhares de vozes. Pouco
depois, os primeiros raios de sol assomaram no horizonte,
espalhando a sua luz pelo campo, fazendo brilhar as pontas das
suas espadas e flechas como pedras preciosas. Os homens deram
um grito de alegria.
 O bispo retirou o pallium e deu-o a um aclito que esperava.
Ao tirar a sua casula, deixou-a cair ao cho e, por baixo
dela, apareceu a cota de um soldado: a brunia, o grosso casaco
em cabedal mergulhado em cera quente e cerzido com placas de
ao, e a bauga, as chuteiras em metal.
 Ento, ele tenciona combater, pensou Geraldo.
 A rigor, o ministrio sagrado do bispo proibia que ele
derramasse sangue de outro homem, mas, na prtica, este ideal
piedoso era muitas vezes esquecido, os bispos e os sacerdotes
lutavam ao lado dos seus reis como qualquer outro vassalo
real.



 239


 Um dos aclitos estendeu ao bispo uma espada com o sinal da
cruz gravado. O bispo levantou a espada e a cruz em ouro
reluziu ao sol.
 - Louvado seja Jesus Cristo! - gritou ele. - Ao ataque, bons
cristos!
 Geraldo comandava o flanco esquerdo, colocado no cimo de uma
colina que bordejava o extremo sul do campo. Na colina oposta,
o sobrinho de Lothar, Pepino, comandava o flanco direito, um
contingente enorme e bem armado de aquitanos. A vanguarda,
comandada pelo prprio Lothar, encontrava-se por trs da orla
de rvores que marcava o extremo oriental da pradaria, de
frente para o inimigo.
 O garanho baio de Geraldo baixou a cabea, assoprando
impacientemente. Inclinando-se, Geraldo passou a mo pelo seu
pescoo russo, acalmando-o. Era melhor reservar aquela energia
fogosa para o ataque, quando ele viesse.
 - J vai, - murmurou ele firmemente - j vai.
 Olhou para o cu. Eram seis horas, a primeira hora da manh.
O Sol, ainda baixo no horizonte, batia directamente nos olhos
do inimigo. Ainda bem, pensou Geraldo.  uma vantagem que
podemos utilizar. Olhou para Lothar,  espera do sinal para
avanar. Passou um quarto de hora e no vinha nenhum sinal. Os
exrcitos inimigos estavam alinhados frente a frente,
fitando-se atravs da grande extenso de verde. Passou outro
quarto de hora. Depois, outro. E mais outro.
 Geraldo rompeu as fileiras e cavalgou colina abaixo, em
direco  linha da frente, onde Lothar estava montado sob uma
floresta de estandartes.
 - Majestade, porque esperamos? Os homens esto impacientes
para avanar.
 Lothar olhou do alto do seu nariz empinado, irritado:
 - Eu sou o Imperador, no  adequado que seja eu a ir ao
encontro dos inimigos.
 Ele no gostava de Geraldo, que era demasiado independente
para o seu gosto, resultado, sem dvida, dos anos que tinha
passado entre pagos e brbaros no Norte do Imprio.
 - Mas, Senhor, olhai para o Sol! Agora, somos ns que
estamos em vantagem, mas, dentro de uma hora, ela ter
desaparecido!
 - Confiai em Deus, conde Geraldo - ripostou Lothar
altivamente. - Eu sou o rei consagrado pelos Cus, Ele no
deixar de nos conceder a vitria.


 240


 Pelo tom decidido de Lothar, Geraldo compreendeu que no
valia a pena continuar a insistir. Curvou-se com rigidez,
virou o cavalo e regressou  sua posio.
 Talvez Lothar tivesse razo e Deus lhes concedesse a
vitria. Mas, ser que Ele no estaria  espera de uma
ajudinha dos homens?
 Eram quase dez horas, o Sol estava a aproximar-se do znite.
Maldio, praguejou Geraldo entredentes. O que raio est
Lothar a pensar? H quase quatro horas que estavam  espera. O
sol batia nas suas cotas em ao, aquecendo-as de tal forma que
os homens se torciam, desconfortveis. Aqueles que tinham de
fazer as suas necessidades, eram obrigados a faz-las onde
estavam porque no podiam quebrar a forma, o cheiro
desagradvel comeava a fazer-se sentir no ar quente.
 Nestas circunstncias difceis, Geraldo ficou contente ao
ver que se aproximava um pequeno grupo de servos, trazendo
barris de vinho. Os homens tinham calor e tinham sede, um bom
copo de vinho era justamente aquilo que precisavam para animar
os seus espritos abatidos. Ouviu-se um suspiro de satisfao,
 medida que os homens comearam a circular, distribuindo
copos cheios de vinho tinto dos Francos. Geraldo serviu-se e
sentiu-se muito melhor. Mas, no se permitiu nem permitiu aos
seus homens que bebessem mais do que um copo. Enquanto um
pouco de vinho podia aumentar a coragem de um homem, muito
vinho podia fazer dele um tolo, tornando-o um perigo para si
prprio e para os seus companheiros.
 Lothar no manifestava essa preocupao. Generoso, encorajou
os seus a continuarem a beber. Gritando e tagarelando,
vangloriando-se da sua habilidade com as armas, os homens da
sua vanguarda disputavam uma posio, atropelavam-se uns aos
outros para ganharem a honra de ficarem na fila da frente,
empurrando-se e dando encontres uns aos outros como crianas
desobedientes - que eram, de facto, tirando um punhado de
veteranos experientes, a maior parte no tinha mais de dezoito
anos.
 - Eles vm a! Eles vm a!
 O grito ecoou pelas filas de soldados. O exrcito inimigo
avanava, devagar, de forma a que os pees e archeiros apeados
pudessem acompanhar a cavalaria, que avanava  sua frente. O
efeito era solene, majestoso, parecendo mais uma procisso
religiosa do que o cenrio de uma batalha. Na vanguarda de
Lothar, havia uma desordem enorme, enquanto os homens
procuravam recuperar os elmos, lanas e escudos espalhados.


 241


Tinham acabado de conseguir montar quando a cavalaria inimiga
que se ps a galope, abatendo-se sobre eles com uma velocidade
terrvel, fazendo com que a terra vibrasse com um ribombar
ensurdecedor, como se se tratasse de milhares de troves.
 Os estandartes da vanguarda imperial caram e voltaram a
levantar-se, assinalando a carga de resposta. A cavalaria
avanou, com os cascos dos cavalos pisando a turfa verde 
medida que avanavam com os pescoos esticados.
 O baio de Geraldo saltou em resposta, Geraldo puxou-lhe as
rdeas.
 - Ainda no.
 Geraldo e os seus homens tinham de esperar, o flanco
esquerdo seria o ltimo a entrar em campo, depois de Lothar e
Pepino.
 Como duas grandes ondas, os exrcitos inimigos avanaram um
para o outro. Quarenta mil nobres, o orgulho da nobreza franca
cavalgando em filas cerradas com meia milha de comprimento e
de fundura.
 Com um grito selvagem, um grupo da vanguarda imperial saiu
da forma, esporeando os cavalos numa corrida desordenada,
fazendo corridas uns com os outros para disputarem a glria de
serem os primeiros a enfrentar o inimigo diante do imperador.
 Geraldo olhava, desgostoso. Se continuassem assim, chegariam
ao regato demasiado cedo e seriam apanhados dentro de gua,
enquanto o inimigo os combateria a partir da margem.
 brios de vinho e de juventude, os cavaleiros de Lothar
avanaram direitos ao rio e colidiram com o inimigo,
provocando um estrondo to ensurdecedor como o de dois ossos
gigantescos a partirem. Lutaram corajosamente, em grande
desvantagem porque tinham de atacar a partir de uma posio
inferior, enquanto o inimigo se encontrava na margem, falhando
o alvo quando os cavalos tropeavam, para se conseguirem
equilibrar nas pedras escorregadias. Os que eram atingidos,
caam na gua onde atolados em lama e lutando para se levantar
contra o peso das suas cotas, eram pisados pelos seus prprios
cavalos, em pnico.
 Os homens das fileiras anteriores viram o que se passava 
frente, mas aproximavam-se a uma velocidade tal que no podiam
parar sem serem atropelados violentamente pelos que vinham
atrs deles. Tambm eles eram forados a entrar nas guas
barrentas, que corriam, agora, umas vezes brancas, outras,
vermelhas de sangue, levando involuntariamente os
sobreviventes da primeira carga ao encontro das espadas do
inimigo.
 A cavalaria, que inclua Lothar, conseguiu-se aperceber a
tempo, rodaram os seus cavalos e recuaram, cavalgando pelo
campo, de uma forma desordenada, que fez com que chocassem de
frente com as filas de homens apeados que seguiam atrs deles.


 242


Estes entraram numa confuso frentica, tentando libertar-se
das suas armas e escapar pelos lados, para evitar a investida
precipitada.
 Era uma confuso. A nica esperana estava nos flancos,
comandados por Pepino e por Geraldo. Na posio em que se
encontravam, podiam irromper pelo campo por trs do ribeiro e
atacar directamente o rei Lus, no centro. Olhando para a
encosta em frente, Geraldo viu que Pepino e os seus aquitanos
se tinham virado, lutando de costas para o campo. O rei Carlos
devia ter dado a volta, atacando-os pelas costas.
 No havia nada a fazer.
 Geraldo voltou a olhar para o campo de batalha. A maior
parte dos homens de Lus tinham atravessado o ribeiro,
perseguindo Lothar, em retirada, enfraquecendo
involuntariamente as suas fileiras e deixando, assim, o rei
momentaneamente indefeso. Era uma hiptese em mil, mas uma
hiptese desesperada era melhor do que nenhuma hiptese.
 Geraldo ps-se de p nos seus estribos, erguendo a sua
lana.
 - Avanar! - gritou ele - Em nome do Imperador!
 - Em nome do Imperador!
 O grito ergueu-se como o ladrar de uma matilha de ces e
ficou a ecoar atrs deles, enquanto eles desciam a colina,
como se fossem uma grande cunha em voo, dirigida para o local
onde o estandarte escarlate e azul de Lus adejava  luz do
sol de Vero.
 O pequeno bando de homens que tinham ficado com o rei lutava
para cerrar fileiras diante dele. Geraldo e os seus homens
desceram ao seu encontro, abrindo caminho pelo meio das
fileiras.
 Geraldo atingiu o primeiro homem com uma lana, que lhe
trespassou o peito e se partiu com o impacto do golpe. O homem
saltou da sela, levando a lana espetada consigo. Armado
apenas com a sua espada, Geraldo avanou com uma determinao
selvagem, desferindo golpes  esquerda e  direita para abrir
caminho, persistentemente, atravs da turba, na direco do
estandarte flutuante. Os seus homens entraram pelos lados e
por trs, alargando o caminho que ele tinha aberto.
 Jarda a jarda, palmo a palmo, a guarda de Lus cedia 
investida. Ento, de repente, o caminho ficou livre. Mesmo 
frente de Geraldo, ergueu-se o estandarte real, um grifo
vermelho sobre um fundo azul. Diante dele, montado num cavalo
branco, estava o prprio rei Lus.
 - Rendei-vos - gritou Geraldo a plenos pulmes para se fazer
ouvir no meio do barulho. - Rendei-vos e sereis poupado!


 243


 Em resposta, Lus desfechou um golpe de espada sobre
Geraldo, partindo-lhe a espada. Lutaram corpo a corpo num
combate igual em fora e habilidade, at que um cavalo que se
encontrava perto desfechou um coice, ao ser atingido por uma
seta, fazendo com que a montada de Geraldo se empinasse e
casse violentamente. Lus aproveitou-se da situao de
vantagem em que tinha ficado momentaneamente, desferindo um
golpe oportuno no pescoo de Geraldo. Geraldo desviou-se e
descaiu para o lado de dentro, por baixo do brao com o qual o
rei empunhava a espada, espetando a sua prpria lmina entre
as costelas do rei.
 Lus tossiu e veio-lhe  boca uma golfada de sangue; o seu
corpo torceu-se lentamente e escorregou da sela, batendo no
cho pisado.
 - O rei morreu! - gritaram os homens de Geraldo, exultantes. 
- Lus foi derrotado!
 O grito fez-se ouvir, ecoando no meio das hostes.
 O corpo de Lus estava pendurado na sela, com um p preso
nos arreios. O seu cavalo empinou-se, dando patadas no ar e
arrastando o corpo do rei pela terra revolvida. O elmo cnico
com a placa protectora do nariz soltou-se e caiu, mostrando um
rosto morto, com um nariz largo, completamente desconhecido.
 Geraldo praguejou. Era um truque de um cobarde, indigno de
um rei. Aquele no era Lus, mas sim um ssia, vestido como o
rei para os enganar.
 No havia tempo para lamentos porque foram imediatamente
rodeados pelas tropas de Lus. Guardando os flancos uns dos
outros, Geraldo e os seus homens procuravam escapar da cilada
do inimigo, lutando com determinao para sarem do permetro
do crculo.
 Geraldo viu subitamente um pedao de verde e respirou uma
lufada de ar fresco e perfumado. Mais alguns metros e estariam
livres, com campo aberto e espao de manobra para retirarem.
 Um homem atravessou-se no caminho de Geraldo, plantando-se
como uma rvore. Geraldo tomou nota, rapidamente, da sua
altura - era um homem alto, corpulento, com uma grande
barriga, braos possantes, brandindo uma maa, uma arma de
fora, no habilidade. Geraldo desfechou a sua espada 
esquerda; quando o homem se voltou para lhe responder, Geraldo
recuou rapidamente, desferindo um golpe penetrante no outro
brao. O homem praguejou e passou a maa rapidamente para a
mo esquerda.
 Por trs dele, fez-se ouvir um som sussurrante, como o do
bater de asas de pssaros.


 244


Geraldo sentiu uma dor sbita e atordoante nas costas no
momento em que uma seta lhe trespassou o brao direito.
Indefeso, viu a sua prpria espada escorregar-lhe dos seus
dedos subitamente dormentes.
 O homenzarro levantou a sua pesada maa e rodopiou. Geraldo
moveu-se para Lhe tentar fugir, sabendo que era tarde de mais.
 Pareceu-lhe que algo tinha explodido dentro da sua cabea
quando o golpe o atingiu, mergulhando-o numa escurido total.
 As estrelas brilhavam com uma beleza imperturbvel sobre o
campo, mergulhado na escurido e pejado de corpos daqueles que
tinham cado na batalha. Vinte mil homens tinham acordado
naquela manh e jaziam, agora, mortos ou moribundos na noite
escura - nobres, vassalos, camponeses, mercadores, pais,
filhos, irmos - a grandeza passada de um imprio e a
esperana esfumada do seu futuro.
 Geraldo mexeu-se e abriu os olhos. Ficou acordado por alguns
momentos, olhando para as estrelas, incapaz de se recordar de
onde estava e do que tinha acontecido. Chegou-lhe s narinas
um cheiro forte, desagradvel e enjoativamente conhecido.
 Sangue.
 Geraldo sentou-se. O movimento brusco provocou-lhe uma
exploso de dor dentro da cabea e a dor fez com que ele
recuperasse a memria. Tocou no seu ombro direito; a seta que
o tinha atingido ainda se encontrava alojada no ombro,
trespassando a carne de um lado ao outro, mesmo por cima do
seu brao. Tinha de sair, seno a ferida infectava. Apertando
o brao contra o corpo, puxou a ponta em ao, depois puxou a
mo esquerda e, de um s golpe, puxou a ponta da seta.
 Gritou e praguejou por causa da dor aguda, lutando para
permanecer consciente. Depois, a dor comeou a abrandar e ele
tomou conscincia do que se passava  sua volta. O cho estava
cheio de espadas abandonadas, de escudos partidos, membros
decepados, estandartes esfarrapados, cadveres rgidos - os
despojos sinistros de uma batalha.
 Da colina onde Carlos e Lus estavam acampados, subiam sons
da celebrao da vitria, gracejos bbulos e risos roucos, que
ecoavam no silncio profundo do vale. A luz das tochas dos
vitoriosos luzia, tremelicante, iluminando o campo com uma luz
sombria. Do acampamento do imperador, na colina oposta, no
vinha qualquer som, nem havia nenhuma fogueira; a colina
estava silenciosa, escura e calma.
 Lothar tinha sido derrotado. As suas tropas, ou o que
restava delas, tinha-se refugiado na floresta da cercania,
procurando esconder-se como podiam do inimigo.


 245


 Geraldo levantou-se, lutando contra as nuseas. Alguns
passos mais adiante, encontrou o seu garanho baio,
horrivelmente ferido, agitando no ar as patas da frente. Tinha
sido atingido por trs; as suas entranhas saam-lhe pela
ferida que tinha no ventre. Quando Geraldo se aproximou dele,
uma forma pequena e furtiva mexeu-se, alerta: era um co magro
e esfomeado, que vinha para o festim do banquete nocturno.
Geraldo esbracejou ameaadoramente e o co fugiu, de lado,
ressentido. Geraldo ajoelhou-se junto ao seu cavalo,
afagando-lhe o pescoo, falando-lhe baixinho; em resposta ao
toque familiar, as convulses angustiantes abrandaram, mas os
olhos estavam abertos na agonia da dor. Geraldo tirou a sua
faca do cinto. Premindo-a com fora, para ter a certeza de que
atingia a veia, passou o fio pelo pescoo do cavalo. Depois,
segurou-o, falando-lhe mansamente ao ouvido, at que as
grandes pernas deixaram de tremer e o flanco musculoso relaxou
mansamente entre as suas mos.
 De repente, ouviu-se um murmrio de vozes por trs de
Geraldo:
 - Olha! Aqui est um elmo que vale pelo menos um soldo!
 - Deixa-o - disse outra voz, mais grave e autoritria. - No
vale a pena, est rasgado na parte detrs, no vs? Aqui,
rapazes, aqui h coisas melhores para levar!
 Larpios. O rescaldo da guerra atraa este tipo de
foras-da-lei, afastando-os das estradas e caminhos, onde
assaltavam habitualmente, porque os mortos eram presa mais
fcil do que os vivos. Moviam-se furtivamente no escuro,
despojando as suas vtimas de roupas, armas, armaduras e anis
- tudo o que valesse alguma coisa.
 Soou uma voz perto:
 - Este est vivo!
 Ouviu-se o som de uma pancada e um grito que cessou
bruscamente.
 - Se houver outros - disse outra voz - trata-os da mesma
maneira. No queremos testemunhas para que ainda nos ponham
uma corda ao pescoo.
 Dali a pouco, estariam junto dele. Geraldo levantou-se,
cambaleando. Depois, mantendo-se na sombra, esgueirou-se na
escurido dos bosques por trs.


 246


 @18


 A irmandade de Fulda no foi muito afectada pela contenda
entre os irmos da realeza franca. Tal como uma pedra lanada
a um charco, a Batalha de Fontenoy criou grandes ondas nos
centros de poder, mas, aqui, na parte oriental do Imprio, no
passou de uma pequena ondulao.  verdade que alguns dos
maiores senhores feudais da regio tinham ido servir no
exrcito de Lus; de acordo com a lei, qualquer homem livre
que possusse mais de quatro quintas tinha de responder 
chamada para o servio militar. Mas, a vitria rpida e
decisiva de Lus implicou o regresso a salvo de todos os
homens da regio,  excepo de dois.
 Os dias corriam como antes, urdidos de forma indistinta na
trama imutvel da vida monstica. A colheita bem sucedida
tinha resultado num tempo de abundncia sem precedentes. Os
celeiros da abadia estavam a abarrotar; at os porcos
austrasianos, magros e secos, tinham engordado graas  boa
alimentao que recebiam.
 Ento, de repente, aconteceu um desastre. Semanas de chuva
ininterrupta arruinaram a cultura da Primavera. A terra estava
demasiado hmida para aceitar os pequenos regos necessrios
para plantar e as sementes apodreceram  superfcie. O pior de
tudo foi a humidade que penetrou nos celeiros, apodrecendo os
cereais armazenados.
 A fome do Inverno seguinte foi a pior de que havia memria.
Para horror da Igreja, alguns chegaram a praticar canibalismo.
As estradas tornaram-se mais perigosas porque os viajantes
eram assassinados no s por causa dos bens que traziam, mas
tambm por causa do sustento que os seus cadveres forneciam.
Depois de um enforcamento pblico em Lorsch, a multido
esfomeada assaltou a plataforma e arrancou a forca, lutando
pela carne ainda quente.


 247


 Enfraquecido pela fome, o povo era presa fcil de doenas.
Milhares morreram de peste. Os sintomas eram sempre os mesmos:
dores de cabea, arrepios e confuso, seguidos de febre alta e
de uma tosse violenta. Havia pouco a fazer, para alm de
despir os doentes, embrulhando-os em panos frescos, para que a
temperatura descesse. Se sobrevivessem  febre, tinham alguma
possibilidade de recuperar. Mas, eram muito poucos os que
sobreviviam  febre.
 A santidade das paredes do mosteiro tambm no oferecia
qualquer proteco contra a peste. O primeiro a cair doente
foi o irmo Samuel, o hospitaleiro, cuja posio o levava a
ter contactos frequentes com o mundo exterior. Morreu em dois
dias. O abade Rbano atribuiu esta desgraa ao carcter
mundano de Samuel e  sua afeio intemperada pelos gracejos;
afirmou que as aflies da carne no passavam de manifestaes
exteriores da decadncia moral e espiritual. Depois, o irmo
Aldoardo, reconhecido por todos como um modelo de piedade e
virtude monstica, tambm foi atingido, seguido de muito perto
pelo irmo Hildwin, o sacristo, e muitos outros.
 Para surpresa da irmandade, o abade Rbano anunciou que ia
fazer uma peregrinao ao santurio de So Martinho para rezar
pela interveno do santo mrtir contra a peste.
 - O prior Jos substituir-me- em tudo enquanto eu estiver
ausente - disse Rbano. - Obedecei-lhe porque a sua palavra 
exactamente como se fosse a minha.
 A forma abrupta como Rbano deu a notcia, assim como a
precipitao da sua partida deu muito que falar. Alguns dos
irmos louvavam o abade por causa de ele ir empreender uma
viagem to difcil para bem de todos. Outros murmuravam que o
abade se tinha ausentado para escapar ao perigo.
 Joana no tinha tempo para debater esses assuntos. Estava
ocupada de manh  noite a dizer a missa, a ouvir confisses e
a administrar os rituais da unctio extrema, cada vez com maior
frequncia.
 Uma manh, deu pela ausncia do irmo Benjamim durante a
viglia. Alma devota como ele era, nunca falhava aos ofcios
dirios. Quando terminou a cerimnia, Joana apressou-se a ir 
enfermaria. Ao entrar na sala comprida e rectangular, veio-lhe
ao nariz o cheiro penetrante de gordura de ganso e de
mostarda, conhecidas como remdio para doenas de pulmes. A
sala estava a abarrotar, camas e enxergas estavam colocadas
lado a lado e estavam todas ocupadas. Entre as camas, os
irmos cuja opus mannum era na enfermaria circulavam,


 248


ajeitando cobertores, oferecendo gua, rezando em silncio
junto queles que j estavam suficientemente longe para no
necessitarem de qualquer outro conforto.
 O irmo Benjamim estava sentado numa cama, explicando ao
irmo Deodato, um dos irmos mais novos, a melhor forma de
aplicar o emplastro de mostarda. Ao ouvi-lo, Joana lembrou-se
da primeira vez em que ele lhe tinha ensinado esse mesmo
tratamento, havia muito tempo.
 Sorriu enternecida, ao record-lo. Certamente que se
Benjamim ainda era capaz de dirigir as coisas na enfermaria,
era porque no estava muito doente, pensou ela.
 Um sbito ataque de tosse interrompeu a rapidez com que as
palavras do irmo Benjamim fluam. Joana dirigiu-se
rapidamente para a sua cama. Mergulhando um pano na malga com
gua de rosas que se encontrava junto  cama, colocou-a
suavemente sobre a fronte de Benjamim. A sua pele estava
incrivelmente quente. Benedicite! Como era possvel que ele
estivesse lcido com uma febre to alta?
 Por fim, a tosse parou e ele ficou deitado de olhos fechados 
 , respirando com dificuldade. O seu cabelo
grisalho circundava a sua cabea como uma urea fraca. As suas
mos, mos grossas e grandes de lavrador, que possuam uma
gentileza e habilidade inesperadas, jaziam sobre a coberta,
abertas e indefesas como as mos de um beb. O corao de
Joana apertou-se.
 O irmo Benjamim abriu os olhos, viu Joana e sorriu.
 - Vieste - disse ele, fraco. - Ainda bem. Como vs, estou a
precisar dos teus servios.
 - Um pouco de mileflio e de p de salgueiro pem-vos bom
num instante - disse Joana num tom mais animado do que ela se
sentia.
 Benjamim abanou a cabea.
 -  como padre e no como mdico que eu preciso de ti agora.
Tens de me ajudar a passar para o outro mundo, irmozinho,
porque eu estou a partir deste.
 Joana pegou-Lhe na mo:
 - No vos entregarei sem lutar.
 - Aprendeste tudo quanto te ensinei. Agora, tens de aprender
a resignar-te.
 - No aceitarei perder-vos - respondeu ela firmemente.
 Nos dois dias que se seguiram, Joana lutou determinadamente
pela vida de Benjamim. Utilizou todas as tcnicas que ele lhe
tinha ensinado, tentou todos os remdios de que se lembrou.


 249


A febre continuava a subir. O corpo largo e bem guarnecido de
Benjamim mirrava como a pelcula vazia de um casulo depois de
o enxame ter partido. Sob a irrupo da febre, comeou a
aparecer uma lividez horrvel.
 - Confessa-me. Quero estar plenamente consciente quando
receber o Sacramento.
 Ela no podia negar-lho mais tempo.
 - Quid me advocasti? - comeou ela, segundo as cadncias
cerimoniais da liturgia. - O que pretendeis de mim?
 - Ut mihi unctionem trados - respondeu ele. - D-me a uno.
 Mergulhando o dedo numa mistura de cinzas e gua, Joana fez
o sinal da cruz sobre o peito do irmo Benjamim, depois
colocou um pedao de serapilheira, smbolo da penitncia,
sobre o desenho que tinha feito.
 Benjamim voltou a ser agitado por um forte ataque de tosse.
Quando este terminou, Joana reparou que ele tinha cuspido
sangue. Subitamente assustada, apressou-se a recitar os sete
salmos penitenciais e a uno ritual dos olhos, ouvidos,
nariz, boca, mos e ps. Parecia que tinha passado muito
tempo. Quando terminou, Benjamim jazia com os olhos fechados,
completamente imvel. Joana no sabia se ele ainda estava
consciente.
 Finalmente, chegou o momento de administrar o vitico. Joana
ostentou a Hstia Sagrada, mas Benjamim no respondeu.  tarde
de mais, pensou a Joana. No lhe fiz o que ele queria.
 Chegou a hstia aos lbios de Benjamim; ele abriu os olhos e
engoliu-a. Joana abenoou-o. A sua voz tremia quando comeou a
orao sacramental:
 - Corpus et Sanguis Domini nostri Jesu Christi in vitam
aeternam te perducat...
 Ele morreu de madrugada, quando os suaves cnticos dos
Laudes perpassavam o ar da manh. Joana mergulhou num profundo
desgosto. Desde o momento em que, doze anos antes, Benjamim a
tinha apadrinhado, tinha sido sempre um amigo e um mentor.
Mesmo quando as suas obrigaes como sacerdote a tinham
afastado da enfermaria, ele tinha continuado a ajud-la, a
encoraj-la, a apoi-la. Tinha sido um verdadeiro pai para
ela.
 Incapaz de encontrar consolo na orao, Joana entregou-se ao
trabalho. A missa diria estava ainda mais cheia do que o
costume, desde que o espectro da morte tinha trazido o rebanho
de fiis  igreja num nmero sem precedentes.


 250


 Um dia, enquanto Joana oferecia o clice comum a um dos
comungantes, um homem idoso, olhou para os seus olhos
lacrimosos e para o tom sombrio e febril das suas faces.
Passou ao seguinte, uma jovem me com uma criancinha com um
rostinho doce nos braos. A mulher estendeu a criana para que
ela recebesse o Sacramento; os pequeninos lbios rosados
abriram-se para beber do mesmo stio onde tinha poisado a boca
do velho.
 Joana afastou o clice. Pegando num pedao de po, molhou-o
no vinho e deu-o  criana. Surpreendida, a menina olhou para
a me, que acenou encorajadoramente; era um desvio  norma,
mas o padre da abadia sabia certamente o que estava a fazer.
Joana prosseguiu pela fila, molhando o po no vinho, at todos
os comungantes terem recebido o Sacramento.
 Imediatamente a seguir  missa, o prior Jos apareceu. Joana
estava satisfeita de ser a Jos e no a Rbano que tinha de
responder. Jos no era homem para se agarrar  tradio sem
apelo nem agravo, se existisse um argumento suficientemente
bom para a mudana.
 - Fizeste uma alterao na missa, hoje - disse Jos.
 - Sim, Padre.
 - Porqu?
 A pergunta no era um desafio, apenas fruto da curiosidade.
Joana explicou-lhe.
 - O velho doente e a criana saudvel - repetiu Jos,
pensativamente. - Uma incongruncia repelente, concordo.
 - Mais do que uma incongruncia - respondeu Joana - penso
que pode ser uma forma de transmisso da doena.
 Jos ficou confundido.
 - Como pode ser?  certo que os espritos malignos podem
estar em toda a parte.
 - Talvez no sejam espritos malignos que provocam a doena
- pelo menos, no so s os espritos malignos. Pode ser que
ela se transmita por contacto fsico com as suas vtimas, ou
com um objecto em que elas tenham tocado.
 Era uma ideia nova, mas no radicalmente. Era sabido que
algumas doenas eram contagiosas; afinal, era por causa disso
que os leprosos eram estritamente segregados da sociedade.
Tambm era indiscutvel que a doena atingia famlias
inteiras, ceifando as vidas em poucos dias, seno mesmo, em
algumas horas. Mas, no se sabia ao certo qual era a sua
causa.
 - Transmitida atravs de contacto fsico? Como?


 251


 - No sei - admitiu Joana. - Mas, hoje, quando vi o homem
doente e as lceras abertas na sua boca, senti... - calou-se,
frustrada. - No sei explicar, Padre, pelo menos, ainda no.
Mas, enquanto no souber mais qualquer coisa, gostaria de
deixar de passar o clice comunitrio e de, em vez disso,
molhar o po no vinho.
 - Baseias esta mudana numa simples... intuio? - perguntou
Jos.
 - Se estiver enganado, no resultar nenhum dano do meu erro
porque os fiis continuaro a comungar tanto o Corpo como o
Sangue - argumentou Joana. - Mas, se a minha... intuio
estiver certa, ento teremos salvo vidas.
 Jos pensou por alguns momentos. Uma alterao na missa no
era algo para tomar de nimo leve. Por outro lado, Joo
Anglicus era um irmo instrudo, conhecido pelos seus talentos
como mdico. Jos no se tinha esquecido de que ele tinha
curado a mulher leprosa. Ento, como agora, no havia muito
maior fundamento do que a intuio de Joo Anglicus. Estas
intuies no deviam ser desprezadas porque eram um dom de
Deus, pensou Jos.
 - Podes agir assim, por agora - disse ele. - Quando o abade
Rbano voltar, ele dar a sua opinio sobre a questo.
 - Obrigado, Padre.
 Joana fez uma vnia e saiu rapidamente, antes que o prior
Jos mudasse de ideias.
 Intinctio, era como chamavam  imerso da hstia no vinho e,
para alm de alguns irmos mais idosos, renitentes nos seus
hbitos, a prtica recebeu grande apoio por parte da irmandade
porque satisfazia tanto a esttica da missa como os requisitos
de limpeza e higiene. Um monge de Corbie, que passou pelo
mosteiro a caminho de casa, ficou to impressionado que levou
a ideia para a sua prpria abadia, que tambm a adoptou.
 Entre os fiis, a frequncia das novas ocorrncias de peste
abrandou consideravelmente, apesar de no ter cessado. Joana
comeou a regis tar cuidadosamente os novos casos de doena,
estudando-os para de tectar a origem da infeco.
 Os seus esforos foram suprimidos pelo regresso do abade
Rbano. Pouco depois da sua chegada, ele chamou Joana aos seus
aposentos e confrontou-a com um ntido tom de reprovao.
 - O Cnone da Missa  sagrado. Como ousaste alter-lo?
 - Padre Abade, a mudana  apenas na forma, no na
substncia. E eu acredito que est a poupar vidas.


 252


- Joana comeou a explicar o que tinha observado, mas Rbano
interrompeu-a.
 - Essas observaes so inteis porque no provm da f, mas
dos sentidos fsicos, nos quais no se pode confiar. So
instrumentos do Diabo, com os quais ele afasta os homens de
Deus e os aproxima das conjecturas intelectuais.
 - Se Deus no desejasse que ns observssemos o mundo
material - ripostou Joana - ento porque nos teria dado olhos
para ver, ouvidos para ouvir e um nariz para cheirar?
Certamente no  pecado pisar os dons que Ele Prprio nos deu.
 - Lembra-te das palavras de Santo Agostinho: A f serve para
acreditarmos naquilo que no vemos.
 Joana respondeu-Lhe  letra:
 - Agostinho tambm diz que ns no poderamos acreditar se
no tivssemos mentes racionais. Ele no nos mandaria
desprezar o que os sentidos e a razo nos dizem.
 Rbano franziu o sobrolho. A sua mente era de um tipo
rigidamente convencional e sem qualquer imaginao, pelo que
no gostava de trocas de argumentos racionais, preferindo o
cho mais seguro da autoridade.
 - Recebe o conselho do teu pai e obedece-lhe - disse ele,
citando a regra sentenciosamente. - Regressa a Deus pelo
caminho difcil da obedincia, porque te afastaste dEle
seguindo a tua prpria vontade.
 - Mas, Padre...
 - Basta, j disse! - Rbano explodiu em ira. O seu rosto
estava lvido. - Joo Anglicus, a partir deste momento ests
dispensado dos teus deveres como padre. Aprenders a humildade
regressando  enfermaria, onde assistirs o irmo Odilo,
servindo-o com devoo e obedincia.
 Joana ia protestar, mas, depois, pensou melhor. Rbano tinha
sido provocado at ao limite; se continuasse a discutir, podia
ser muito prejudicada.
 Esforou-se por dobrar a cabea.
 - Como mandais, Padre Abade.
 Mais tarde, reflectindo no que tinha acontecido, Joana
compreendeu que Rbano tinha razo; ela tinha sido orgulhosa e
desobediente. Mas, para que servia a obedincia, se os outros
tinham de sofrer por causa dela? A Intinctio significava
salvar vidas; ela tinha a certeza. Mas, como poderia convencer
o abade? Ele no toleraria qualquer outro argumento vindo
dela. Mas, talvez se se deixasse persuadir pelo peso da
autoridade estabelecida.


 253


Portanto, agora, para alm da Opus Dei e dos seus deveres na
enfermaria, a Joana passava longas horas a estudar na
biblioteca, investigando os textos de Hipcrates, Oribasius e
Alexandre de Tralles,  procura de qualquer coisa que pudesse
apoiar a sua teoria. Trabalhava permanentemente, dormindo
apenas duas ou trs horas por noite. At que chegou a um ponto
de exausto.
 Um dia, ao debruar-se sobre um captulo de Oribasius,
encontrou aquilo que procurava. Estava a copiar a parte mais
importante, traduzindo-a, quando comeou a sentir dificuldade
em escrever; doa-Lhe a cabea e no era capaz de pegar na
pena como devia ser. Pensou que era a consequncia natural de
pouco sono e continuou a trabalhar. De repente, a pena
escorregou-lhe da mo, inexplicavelmente, e rolou sobre a
pgina, manchando o vellum limpo com borres de tinta, que 
taparam vrias palavras. Sorte maldita, pensou ela. Tenho de
limpar isto. e recomear. Tentou pegar na pena, mas os seus
dedos tremiam tanto que ela no era capaz de os controlar.
 Levantou-se, apoiada  secretria, sentindo-se tonta.
Cambaleando em direco  porta, conseguiu sair precisamente
no momento em que lhe subiu um vmito  boca, fazendo com que
ela se dobrasse e ficasse de gatas, vomitando tudo quanto
tinha no estmago.
 Sem saber como, conseguiu arrastar-se at  enfermaria. O
irmo Odilo deitou-a numa cama vazia e ps-Lhe a mo na testa.
A ela, pareceu-lhe que a sua mo estava gelada.
 Joana pestanejou, surpreendida:
 - Acabaste de lavar as mos?
 O irmo Odilo abanou a cabea:
 - As minhas mos no esto frias, irmo Joo. Tu  que ests
a arder de febre. Temo que tenhas sido atingido pela peste.
 A peste! Joana estava estonteada. No, no pode ser. Estou
cansada, nada mais. Se ficar a descansar um pouco...
 O irmo Odilo colocou-lhe na fronte uma compressa de linho
embebida em gua de rosas.
 - Fica deitado quieto, enquanto eu vou buscar um pouco de
linho fresco. No demoro nada.
 A sua voz parecia vir de muito longe. Joana fechou os olhos.
Sentia o tecido fresco sobre a pele. Era bom estar deitada,
envolvida num aroma agradvel, mergulhando docemente numa
escurido bem-vinda.
 De repente, abriu muito os olhos. Iam cobri-la com um pano
de linho molhado para fazerem descer a febre. Para o fazerem,
tinham de a despir completamente.


 254


 Ela tinha de o impedir. Ento, apercebeu-se de que, por
muito que resistisse - e, nas condies em que se encontrava,
no seria capaz de resistir muito - os seus protestos seriam
tomados como delrios febris.
 Sentou-se e ps os ps no cho. A dor de cabea regressou
imediatamente, latejante e insistente. Comeou a dirigir-se
para a porta. A sala rodopiava, mas ela forou-se a si
prpria a continuar a andar e a sair. Depois, avanou
rapidamente em direco ao porto. Quando estava prxima,
respirou fundo, obrigando-se a endireitar-se  medida que se
aproximava de Hatto, o porteiro. Ele olhou para ela com
curiosidade, mas no fez nada para a impedir. Uma vez no
exterior dirigiu-se para o rio.
 Benedicite. O barquinho da abadia encontrava-se ali, atado
com uma simples corda a um ramo de uma rvore. Ela desatou a
corda e subiu para o barco, inclinando-se para a margem
verdejante para o puxar. Quando o barco se afastou da margem,
ela desmaiou.
 O barco ficou muito tempo imvel dentro de gua. Depois, a
corrente levou-o, fazendo-o rodar, antes de o impelir para a
veloz torrente.
 O cu movia-se lentamente, transformando as nuvens altas e
brancas em desenhos exticos. Um Sol vermelho-escuro tocava o
horizonte com os seus raios mais quentes do que o fogo,
batendo no rosto de Joana, cegando-a. Ela ficou a olhar,
fascinada, enquanto o seu rebordo desaparecia e se dissolvia,
formando uma figura humana.
 O rosto do seu pai pairava  sua frente, uma cabea de morto
horrenda e retorcida, sem carne entre as linhas escuras das
sobranceLhas. A boca sem lbios abriu-se. Mulier - gritava
ela, mas, no era a voz do pai, era a da sua me. A boca
abriu-se mais e Joana viu que no era uma boca, mas sim um
porto escancarado para uma caverna escura. Ao fundo, havia um
fogo a arder, lanando grandes labaredas vermelhas-azuladas.
Havia pessoas dentro das chamas e os seus corpos retorciam-se
em pantomimas grotescas de dor. Um deles olhou para a Joana.
Aterrada, ela reconheceu os olhos azuis e o cabelo saxnio
alourado da sua me. Ela chamava pela Joana, estendendo-Lhe os
braos. Joana dirigiu-se para ela; de repente, o cho por
baixo dos seus ps desapareceu e ela caiu em direco ao
porto com forma de garganta.
 - Mam! - gritou ela, quando caiu nas chamas...
 Estava num campo coberto de neve. Villaris brilhava 
distncia, o sol a derreter a neve no seu telhado, fazendo com
que as gotas de gua a cair brilhassem como milhares de
pequenas pedras preciosas.


 255


Ela ouviu o rufar de cascos e virou-se para ver Geraldo
aproximar-se dela, montado na Pistis. Ela correu para ele
atravs do campo; ele aproximou-se dela, debruou-se e
pegou-lhe, colocando-a  sua frente sobre a montada. Ela
inclinou-se para trs, aconchegando-se nos seus braos que a
apertavam com uma fora terna. Estava a salvo. No Lhe
aconteceria nada porque o Geraldo no permitiria. Cavalgaram
juntos em direco s torres reluzentes de Villaris, com o
trote do cavalo a embal-los suavemente, a embal-los, a
embal-los...
 A viso tinha terminado. Joana abriu os olhos. Por cima da
borda do barco, as copas das rvores eram silhuetas negras e
imveis contra o cu estrelado. O barco tinha encalhado.
 Ouviu um murmrio de vozes vindas de algum lado, mas Joana
no era capaz de compreender o que diziam. Umas mos
pegaram-lhe e tiraram-na do barco. Lembrou-se vagamente de que
no podia deixar que a levassem para Fulda, pelo menos,
enquanto estivesse doente. Lutou furiosamente, agitando os
braos e as pernas, dando pontaps. Ouviu praguejar ao longe.
Sentiu uma dor curta e aguda no queixo e, depois, no sentiu
mais nada.
 Joana emergiu lentamente de um poo de escurido. A cabea
latejava-lhe e a garganta estava to seca como se estivesse em
carne viva. Passou a lngua seca pelos lbios crestados,
aspirando gotinhas de sangue da pele rebentada. Doa-lhe o
maxilar. Estremeceu quando os seus dedos exploraram um inchao
visvel no seu queixo. Onde arranjei isto?, pensou ela.
 Depois, uma pergunta mais urgente: onde estou?
 Estava deitada num colcho de penas num quarto que no
conhecia.;, A avaliar pela quantidade e qualidade da moblia,
o proprietrio era prspero: para alm da cama enorme na qual
ela estava deitada, havia bancos estofados com um tecido
macio, uma cadeira de espaldar coberta com almofadas, uma mesa
com um tabuleiro comprido, uma escrivaninha e vrios bas e
malas, muito bem gravadas. Perto dela, ardia uma lareira e,
havia pouco, tinham sido colocados sobre as brasas um par de
pes frescos, cujo aroma tinha comeado a fazer-se sentir.
 A alguns passos de distncia, encontrava-se uma jovem
rolia, de costas para Joana, amassando massa de farinha.
Quando terminou, sacudiu a farinha da tnica e os seus olhos
poisaram em Joana. Dirigiu-se apressadamente para a porta e
chamou alto:
 - Marido! Vinde depressa. A nossa visita acordou!


 256


 Apareceu imediatamente um jovem de rosto largo, grande e
desengonado.
 - Como est ela? - perguntou ele.
 Ela? pensou Joana ao ouvir a palavra. Olhou para baixo e viu
que o seu hbito de monge tinha desaparecido; no seu lugar,
tinham-na vestido com uma tnica de mulher em linho azul e
macio.
 Eles sabem.
 Esforou-se para se levantar da cama, mas os seus membros
estavam to pesados e fracos como gua.
 - No deveis fazer esforos.
 O jovem tocou-lhe no ombro carinhosamente, metendo-a
novamente na cama. Tinha um ar agradvel e honesto, com os
olhos redondos e azuis como centureas.
 Quem  ele?, pensou Joana. Ser que ele vai contar ao abade
Rbano e aos outros acerca de mim... ou ser que j o fez?
Serei realmente sua convidada, ou serei uma prisioneira?
 - Se... sede - titubeou ela.
 O jovem mergulhou uma taa num balde em madeira que se
encontrava junto  cama e encheu-a at cima com gua.
Encostou-a aos lbios da Joana e inclinou-a cuidadosamente,
deixando cair uma corrente de pequenas gotas na sua boca.
 Joana agarrou a taa, inclinando-a para que a gua
escorresse mais depressa. O lquido fresco era a coisa mais
doce que ela alguma vez j tinha provado. O jovem acautelou-a:
 -  melhor no beber de mais. H mais de uma semana que no
tem bebido seno umas colheres.
 H mais de uma semana! Estava ali havia tanto tempo?
 No se lembrava de nada, depois de ter entrado no pequeno
barco de pesca.
 - On... onde estou? - murmurou ela a custo.
 - Estais na propriedade do senhor Riculf, cinquenta milhas a
sul de Fulda. Encontrmos o vosso barco encalhado nos ramos
das rvores junto  margem do rio. Estveis a delirar de
febre. Mas, doente como estveis, ainda haveis tentado
impedir-nos de vos trazermos.
 Joana tocou no inchao que tinha no maxilar. O jovem
sorriu.
 - Perdo. No era possvel chamar-vos  razo no estado em
que estveis quando vos encontrmos. Mas, no vos preocupeis,
pois destes quase tanto quanto haveis recebido.
 Ele levantou a manga, mostrando uma ndoa negra, enorme e
com mau aspecto, no seu ombro direito.


 257


 - Haveis-me salvado a vida - disse joana. - Obrigado.
 - De nada, No fiz mais do que retribuir o que haveis feito
por mim e pelos meus.
 - Eu... conheo-vos? - perguntou ela, surpreendida. O jovem
sorriu.
 - Imagino que mudei bastante desde a ltima vez que nos
vimos. Nessa altura, eu tinha apenas doze anos, quase treze,
Vejamos... - Comeou a contar pelos dedos, utilizando o mtodo
de contagem beda, - Foi h seis anos. Seis vezes trezentos e
sessenta e cinco dias, bem, so... dois mil cento e noventa
dias!
 Os olhos de joana abriram-se, ao reconhec-lo.
 - Arn! - gritou ela, e ele abraou-a, imediatamente,
entusiasmado.
 No falaram mais um com o outro nesse dia porque joana ainda
estava muito fraca e Arn no queria que ela se esforasse.
Depois de ter comido algumas colheres de caldo, adormeceu
imediatamente. Acordou no dia seguinte, sentindo-se mais forte
e, mais encorajador ainda, esfomeada, Tomando o pequeno-almoo
com Arn, no que comeu uma fatia de po e um pedao de queijo,
ouviu atentamente enquanto ele lhe contava tudo quanto tinha
acontecido desde a ltima vez que se tinham encontrado.
 - Tal como haveis previsto, o padre abade ficou to
satisfeito com o nosso queijo que nos aceitou como
prebendarii, prometendo-nos uma vida desafogada em troca de
cem libras de queijo por ano, mas isso j vs sabeis.
 joana abanou a cabea afirmativamente, O extraordinrio
queijo miado de azul, de aspecto repelente e sabor requintado
tinha-se tornado o alimento principal  mesa do refeitrio, Os
hspedes da abadia, tanto leigos como monges, ficavam to
encantados com a sua qualidade, que a procura aumentou em toda
a regio.
 - Como est a vossa me? - perguntou a joana.
 - Muito bem. Voltou a casar com um homem bom, um criador de
gado. O leite dos seus animais permitiu"nos fazer ainda mais
queijo, O negcio aumenta de dia para dia e eles so felizes e
prsperos.
 - No menos do que tu. - Com um gesto, joana apontou para a
casa grande e bem cuidada. - Devo-vos a minha boa sorte -
disse Arn. - Na escola abadia aprendi a ler e a trabalhar com
nmeros - capacidades que me deram muito jeito  medida que o
negcio crescia e se tornou necessrio fazer contas exactas.


 258


Ao saber o que eu sabia fazer, o senhor Riculf tomou-me para
seu intendente. Administro a sua propriedade aqui e guardo-a
de Caadores e pescadores furtivos. Foi assim que eu encontrei
o vosso barco.
 joana abanou a cabea, pensativa, recordando-se de Arn e da
sua me, havia seis anos, vivendo na sua cabana exgua como
criados e coloni - condenados, segundo parecia, a uma vida de
pobreza e fome. E agora, Madalgis tinha voltado a casar, era
uma negociante prspera e o seu filho um intendente de um
senhor poderoso! Vitaem regit fortuna, pensou joana. Na
verdade,  a sorte, que governa a vida humana - a minha e a
de todos os outros.
 - Esta  a minha mulher, Bona, e a nossa filhinha, Arnalda -
disse Arn, orgulhoso. Bona era uma jovem bonita com os olhos
sorridentes e de sorriso pronto, mais nova do que o seu marido
- tinha dezassete invernos, no mximo, j era me e o seu
ventre inchado revelava que estava outra vez grvida. Arnalda
parecia um anjinho, de olhos azuis muito redondos e cabelo
louro aos caracis. Tinha as faces rosadas e era adorvel.
Sorriu para joana, mostrando uma fila de dentes de leite.
 - Uma bela famlia - disse joana. Arn sorriu e virou-se Para
a mulher e a filha:
 - Venham falar... - hesitou, - Como vos hei-de chamar? -
Irmo Joo  estranho, sabendo ns.,. o que sabemos.
 - joana - a palavra era simultaneamente estranha e familiar
para os ouvidos dela.
 - Chamai-me joana porque  esse o meu verdadeiro nome.
 - Joana - repetiu Arn, satisfeito por lhe ter sido confiado
esse segredo, - Contai-nos, ento, se quiserdes, como viestes
viver Para os Beneditinos de fulda, porque isso  uma coisa
que parece quase impossvel. Como haveis conseguido? O que vos
levou a faz-lo? Algum sabia o vosso segredo? - Ningum
desconfiava?
 joana riu-se.
 - Vejo que o tempo no abrandou a tua curiosidade.
 No valia a pena decepcion-lo. joana contou tudo a Arn,
desde a sua educao pouco ortodoxa na escola de Dorstadt, at
aos anos que passou em Fulda e ao seu acesso no presbiterado.
 - Ento, os irmos ainda no sabem nada de vs - disse Arn,
pensativo, quando ela terminou.
 - Pensmos que talvez tivsseis sido descoberta e que
tivesse sido por isso que haveis sido forada a fugir...
Ento, podeis regressar! Podeis faz-lo, se quiserdes. Mais
depressa morreria na forca do que algum me conseguiria
arrancar o vosso segredo!


 259


 Joana sorriu. Apesar de parecer um homem, Arn continuava a
ser o rapazinho que ela tinha conhecido.
 Ela disse:
 - Felizmente, no  necessrio tal sacrifcio. Fugi a tempo;
a irmandade no tem motivo para desconfiar de mim. Mas... no
estou certa de que voltarei.
 - Ento, o que ireis fazer?
 - Boa pergunta - disse Joana. - Uma pergunta mesmo muito
boa. Por agora, ainda no sei a resposta.
 Arn e Bona tratavam dela como um par de mes-galinha
ansiosas, recusando-se a deix-la levantar-se da cama durante
mais uns dias.
 - Ainda no estais suficientemente forte - insistiam eles.
 Joana no tinha grande alternativa seno resignar-se 
solicitude deles. Passava o tempo a ensinar as letras e os
nmeros  pequena Arnalda. Apesar de ainda ser muito novinha,
j manifestava as aptides do pai para aprender e respondia
depressa, encantada com a ateno de uma companhia to
divertida.
 Quando, ao fim do dia, Arnalda ia dormir, Joana ficava
acordada a pensar no seu futuro. Deveria regressar a Fulda?
Tinha passado quase doze anos na abadia, tinha crescido dentro
dos seus muros; era difcil imaginar-se em qualquer outro
lugar. Mas, tinha de enfrentar os factos: tinha vinte e sete
anos, j no era jovem. Os irmos de Fulda, gastos pelo clima
rigoroso, a dieta espartana e os quartos frios, raramente
viviam para alm dos quarenta anos; o irmo Deodato, o mais
velho da comunidade, tinha cinquenta e quatro anos. Quanto
tempo poderia ela resistir ao envelhecimento - antes de voltar
a ser atingida pela doena e de ser forada a voltar a fugir
ao risco de ser descoberta e morta?
 Alm disso, havia que considerar o abade Rbano. Ele estava
decidido a hostiliz-la e no era homem para mudar de atitude.
Se ela regressasse, que rigores e castigos teria ainda que
enfrentar?
 O seu esprito exigia mudana. No havia livro na biblioteca
de Fulda que ela no tivesse lido, no havia racha no tecto do
dormitrio que ela no conhecesse de cor. H anos que ela
tinha deixado da acordar de manh na alegre expectativa de
acontecer algo novo e interessante. Desejava explorar um mundo
maior.
 Para onde poderia ir? Regressar a Ingelheim? Agora, que a
mam tinha morrido, no havia l nada que lhe interessasse.
Dorstadt? O que poderia encontrar l - Geraldo, ainda 
espera, acalentando o seu amor por ela, depois de tantos anos?


 260


Que tolice. Era quase certo que ele tinha voltado a casar e
no ficaria contente com o reaparecimento sbito de Joana.
Alm disso, havia muito que ela tinha escolhido uma vida
diferente - uma vida em que o amor por um homem no
desempenhava qualquer papel.
 No, tanto Geraldo quanto Fulda pertenciam ao passado. Ela
tinha de olhar determinadamente para o futuro - qualquer que
ele fosse.
 - Bona e eu decidimos - disse Arn. - Tendes de ficar
connosco. Seria bom ter outra mulher em casa para fazer
companhia  Bona e a ajudar a cozinhar e a fiar -
especialmente agora, com a vinda do beb.
 A sua condescendncia era irritante, mas a oferta tinha boa
inteno, pelo que Joana respondeu com delicadeza:
 - Temo que esse negcio no seja bom. Eu sempre fui uma
fraca costureira, sem jeito para fiar e sem qualquer prstimo
na cozinha.
 - Bona teria todo o prazer em ensinar-v...
 - A verdade  que eu vivi demasiado tempo como um homem para
voltar a ser uma mulher como deve ser, se  que alguma vez o
fui! - interrompeu Joana. - No, Arn - ela deu largas ao seu
protesto - a vida de um homem serve-me. Gosto demasiado dos
seus benefcios para prescindir deles de bom grado.
 Arn pensou durante algum tempo e disse:
 - Ento, mantende o vosso disfarce. No importa. Podeis
ajudar no jardim... ou ensinar a Arnaldinha! J a haveis
cativado com as vossas lies e jogos, como haveis feito
comigo.
 Era uma oferta generosa. Ela no podia pedir maiores
facilidades ou segurana do que aquela que encontraria no seio
desta famlia feliz e prspera. Mas, o mundo deles, estreito e
protegido, era demasiado pequeno para conter o esprito de
aventura que ela tinha redescoberto. No trocaria quatro
paredes por outras quatro.
 - Bendito sejais, Arn, pelo vosso corao bondoso. Mas,
tenho outros planos.
 - Quais?
 - Vou tomar o caminho dos peregrinos.
 - Para Tours e o tmulo de So Martinho?
 - No - disse Joana - para Roma.
 - Roma! - Arn estava espantado. - Estais louca?
 - A guerra j terminou, haver outros a fazerem a mesma
peregrinao.


 261


 Arn abanou a cabea.
 - O meu senhor Riculf disse-me que Lothar no resignou,
apesar da sua derrota em Fontenoy. Retirou-se para o palcio
imperial em Aachen e anda  procura de homens para preencherem
os lugares vazios nas suas hostes, O meu senhor diz que ele
at se manifestou aberto aos Saxnios, oferecendo-lhes a
possibilidade de voltarem a adorar os seus deuses pagos se
estiverem dispostos a lutar por ele!
 Como a me se teria rido, pensou Joana, com esta mudana
inesperada no rumo dos acontecimentos: um rei cristo a
oferecer-se para restabelecer o culto dos antigos deuses. Ela
imaginava o que a me teria dito: o gentil deus-mrtir dos
cristos pode servir para coisas comuns, mas, para ganhar
batalhas,  preciso invocar Thor e Odin e os outros destemidos
deuses-guerreiros do seu povo.
 - No podeis ir com as coisas por resolver como esto -
disse Arn. -  demasiado perigoso.
 Ele tinha razo. O conflito entre os irmos reais tinha
resultado num colapso completo da ordem civil. As estradas sem
guarda tinham-se tornado alvos fceis para bandos de
malfeitores assassinos e fora-da-lei.
 - Eu saberei proteger-me - disse Joana. - Quem querer
alguma coisa de um padre peregrino, sem nada de valor, a no
ser a roupa que traz no corpo?
 - Alguns desses demnios matar-vos-iam pela roupa, quanto
mais pelos paramentos! Proibo-vos de irdes sozinha! - Ele
falou com uma autoridade que nunca teria assumido se ainda
pensasse que ela era um homem.
 Ela disse num tom seco:
 - Eu sou dona de mim mesmo, Arn. Vou onde quero.
 Reconhecendo o seu erro, Arn arrependeu-se imediatamente.
 - Pelo menos, esperai trs meses - sugeriu ele. - Os
mercadores de especiarias aparecem nessa altura para trocarem
as suas mercadorias. Viajam bem escoltados porque no querem
correr riscos com a sua mercadoria preciosa. podem dar-vos
proteco at Langres.
 - Langres! Essa no  a estrada mais directa, pois no?
 - No - concordou Arn. - Mas,  a mais segura. Em Langres h
uma hospedarie para peregrinos que se dirigem para sul; no
haver dificuldade em encontrar um grupo de viajantes que
sejam compa nhia segura.
 Joana pensou.
 - Talvez tenhais razo.


 262


 - O meu senhor Riculf fez a mesma peregrinao h alguns
anos. Tem um mapa do caminho que seguiu; tenho-o aqui.
 Abriu uma arca, pegou num pedao de pergaminho e
desenrolou-o com cuidado. Estava enegrecido e gasto peloS
anoS, mas a tinta no tinha desaparecido. as linhas percebiam-
se nitidamente, assinalando o caminho para Roma.
 - Farei como sugeres, Arn - disse Joana. - Trs meses de
atraso no  muito. D-me mais tempo para estar com a Arnalda.
Ela  muito esperta e vai muito bem nas lies!
 Arn comeou a enrolar o pergaminho.
 - Gostaria de ter mais tempo para estudar o mapa, se for
possvel.
 - Gastai o tempo que quiserdes, Vou aos estbulos ver como
est a tosquia.
 Arn saiu a sorrir, contente por ter sido capax de a
convencer. Joana respirou fundo, enchendo os pulmes com os
aromas doces do incio da Primavera, O seu esprito elevou-se
como um falco liberto das sues grilhetas, subitamente
entregue  liberdade miraculosa do vento e do cu. quela
hora, os irmos de Fulda estavam reunidos dentro da sala
escura do captulo, apinhados nos bancos em pedra, ouvindo o
irmo Ecnomo a prestar as contas da abadia, Mas, ela estava
ali, livre e sem impedimentos, com a aventura da sue vida
diante dos olhos.
 Joana estudou o mapa, sentindo uma onda de excitao. Havia
uma estrada boa e larga dali at Langres. Em Langres, a
estrada rumava para sul, passando por Besanon e Orbe,
descendo ao longo do lago de So Maurice e entrando em
LeValais. No sop dos Alpes, havia uma hospedaria monstica
onde os peregrinos podiam descansar e abastecer-se para o
rduo caminho pelas montanhas, atravs de So Bernardo - a
passagem dos Alpes melhor e mais frequentada. Uma vez passados
os Alpes, a longa Via Francigena passava directamente por
Aosta, Pavia e Bologna, na Toscnia, e chegava a Roma. Roma.
Os maiores pensadores do mundo reuniam-se naquela cidade; as
suas igrejas albergavam tesouros incontveis, as suas
bibliotecas acumulavam uma sabedoria centenria. Certamente
que, ali, junto dos tmulos sagrados dos apstolos, Joana
haveria de descobrir o que procurava. Em Roma, descobriria o
seu destino.


 263


 Estava a carregar a sua mula - Arn tinha insistido que ela a
levasse para a viagem - quando a pequena Arnalda saiu de casa
a correr, com o seu cabelo louro ainda desalinhado de ter
estado a dormir.
 - Onde vais? - perguntou o rostinho angelical, ansiosamente.
 Joana ajoelhou-se de forma a que o seu rosto ficasse ao
nvel do da criana.
 - Vou para Roma - respondeu ela - a Cidade das Maravilhas,
onde vive o Papa.
 - Gostas mais do Papa do que de mim?
 Joana riu-se.
 - Nunca o vi. E no h ningum de quem eu goste tanto como
gosto de ti, pardalinho.
 Afagou o cabelo macio da criana.
 - Ento, no vs - Arnalda ps os braos em torno do pescoo
de Joana. - Eu no quero que tu vs.
 Joana abraou-a. O corpinho da criana encostou-se ao seu,
enchendo os seus braos e o seu corao. Eu podia ter tido uma
menina assim, se tivesse escolhido outro caminho. Uma menina
em quem pegar e a quem mimar - e ensinar. Recordou-se do
desgosto que tinha sentido quando Asclpios tinha partido.
Tinha-lhe deixado um livro para ela poder continuar a estudar.
Mas, ela, que tinha fugido do mosteiro apenas com a roupa que
tinha no corpo, no tinha nada para dar  criana.
 Excepto...
 Joana meteu a mo na tnica e puxou o medalho que tinha
usado desde o dia em que Mateus Lho tinha posto ao pescoo:
 - Esta  a Santa Catarina. Ela era muito inteligente e muito
corajosa, como tu.
 Contou-Lhe a histria de Santa Catarina.
 Os olhos de Arnalda ficaram ainda mais redondos de espanto.
 - Ela era uma rapariga e fez isso?
 - Sim. E tu tambm podes fazer, se continuares a estudar.
 Joana tirou o medalho do pescoo e p-lo ao pescoo de
Arnalda.
 - Agora,  teu. Toma conta dele.
 Arnalda agarrou no medalho, com o rostinho contorcido, num
esforo para no chorar.
 Joana despediu-se de Arn e de Bona, que tinha sado para se
despedir dela. Bona deu-lhe um farnel e um odre em pele cheio
de cerveja.
 - Tendes a po e queijo e um pouco de carne seca - o
suficiente para um dia, at chegardes  hospedaria.


 264


 - Obrigado - disse Joana. - Nunca esquecerei a vossa
generosidade.
 Arn disse:
 - Lembrai-vos, Joana. Sois sempre bem-vinda. Esta casa 
vossa.
 Joana abraou-os.
 - Ensina a menina - disse ela. - Ela  inteligente e to
desejosa de aprender como to eras.
 Montou na mula. A pequena famlia rodeou-a, com um ar
triste. Parecia ser seu destino deixar sempre para trs
aqueles que amava. Era o preo a pagar pela vida estranha que
tinha escolhido, mas ela sabia o que fazia, pelo que no valia
a pena lamentar-se.
 Joana ps a mula a trote. Com um ltimo aceno por cima do
ombro, virou-se para a estrada do sul - e para Roma.


 265


 @19


 Roma, 844


Anastcio poisou a sua pena, esticando os dedos para se
libertar de uma cibra. Observou com orgulho a pgina que
tinha acabado de escrever - a ltima entrada na sua
obra-prima, o Liber pontificalis, ou Livro dos Papas, um
registo pormenorizado dos papados do seu tempo.
Anastcio passou a mo, carinhosamente, pelo velum imaculado
que estava diante de si. Naquelas pginas em branco seriam um
dia registados os feitos, os triunfos, a glria do seu papado.
Como o seu pai, Arsnio, ficaria orgulhoso! Apesar de a
famlia de Anastcio ter acumulado muitos ttulos e honrarias
ao longo dos anos, tinha-lhes escapado a honra mxima do trono
papal. Uma vez, tinha parecido a Arsnio que a ia alcanar,
mas, o tempo e as circunstncias tinham conspirado contra ele
e a oportunidade tinha passado.
Agora, era a vez de Anastcio. Ele tinha de fazer, ele ia
fazer jus  f que o seu pai depositava nele, tornando-se
Senhor Papa e Bispo de Roma.
No imediatamente,  claro. A ambio desmedida de Anastcio 
no o impedia de ver que o seu tempo ainda no tinha chegado.
Ele s tinha trinta e trs anos e a sua posio como
primicerius, apesar de ser de um grande poder, era um cargo
demasiado secular para poder ascender a partir dele  catedral
Sagrada de So Pedro.
Mas, a sua situao em breve iria mudar. O papa Gregrio jazia
no seu leito de morte. Uma vez passado o tempo formal de luto,
haveria eleies para o novo Papa - uma eleio cujos
resultados Arsnio tinha influenciado de forma determinante
atravs de uma mistura habilidosa de diplomacia, suborno e
ameaa. O Papa seguinte seria Srgio, cardeal da Igreja de So
Martinho, fraco e descendente corruptvel de uma famlia
romana nobre.


 266


Ao contrrio de Gregrio, Srgio era um homem que sabia muito
bem como era o mundo; saberia como exprimir a sua gratido
queles que o tinham ajudado a chegar ao seu lugar. Pouco
depois da eleio de Srgio, Anastcio seria nomeado bispo de
Castellum, posio perfeita a partir da qual ascenderia ao
trono papal, depois de chegar a vez de Srgio partir.
Era um quadro perfeito, excepto num pormenor - Gregrio ainda
vivia. Como uma vinha envelhecida, cujas razes se tinham
aprofundado para sugar alimento do solo rido, o velho homem
estava teimosamente agarrado  vida. Prudente e contemplativo
na sua vida pessoal, tal como no seu papado, Gregrio agia com
uma lentido desesperante, at na sua morte.
Tinha reinado durante dezassete anos, mais tempo do que
qualquer outro papa desde Leo III, de boa memria. Um homem
bom, modesto, bem intencionado, piedoso, Gregrio era muito
amado pelo povo romano. Tinha sido patrono solcito da
populao da cidade, constituda por peregrinos miserveis,
dando-lhes abrigo e arranjando-lhes casas de refgio,
providenciando para que fossem distribudas esmolas generosas
em todos os dias de festa e nas procisses.
Anastcio sentia uma mistura complexa de emoes em relao a
Gregrio, da qual fazia parte uma quantidade igual de
admirao e de desprezo: admirao pela sinceridade da piedade
e da f do homem, mas desprezo pela sua simplicidade e
lentido de raciocnio, que o expunha constantemente ao engano
e  manipulao. O prprio Anastcio tinha-se aproveitado
frequentemente da ingenuidade do Papa, sobretudo no Campo das
Mentiras, quando tinha combinado a traio das negociaes de
paz de Gregrio com o Imperador Franco Lus, mesmo  sua
frente. O seu estratagemazinho tinha sido pago de forma
generosa; o beneficiado, Lothar, filho de Lus, tinha sabido
exprimir a sua gratido e, agora Anastsio era um homem rico.
Mais importante ainda: Anastcio tinha conseguido ganhar a
confiana e o apoio de Lothar.  certo que, durante um tempo,
Anastcio tinha temido que a sua aliana com o herdeiro franco
- cultivada de forma to cuidadosa - tivesse cado por terra.
De facto, a derrota de Lothar em Fontenoy tinha sido um
desastre, era preciso admiti-lo. Mas, Lothar tinha conseguido
chegar a um acordo com seus irmos rebeldes, no Tratado de
Verdun, uma pea notvel de malabarismo poltico que lhe tinha
permitido manter tanto a coroa como os seus territrios.
Lothar tinha voltado a ser o imperador incontestado - facto
que viria a revelar-se de muita importncia para o futuro de
Anastcio.


 267


 O som dos sinos despertou Anastcio dos seus devaneios. Os
sinos tocaram uma, duas, trs vezes. Anastcio bateu nas
ancas, rejubilante. Finalmente!
 J tinha vestido o fato de luto quando lhe bateram  porta,
como ele esperava. O notrio do Papa entrou silenciosamente.
 - O Apostlico juntou-se a Deus - anunciou ele, compungido.
- A Vossa presena, primicerius,  requisitada na cmara
papal.
 Lado a lado, em silncio, percorreram o seu caminho atravs
dos corredores em labirinto do Palcio de Latro, at aos
aposentos papais.
 - Era um homem de Deus - disse o notrio, quebrando o
silncio. - Um pacificador, um santo.
 - Era, de facto, um santo - respondeu Anastcio e pensou
para si prprio: sendo assim, em que lugar melhor poderia ele
estar seno no Cu?
 - Quem poder substitu-lo? - perguntou o notrio, com voz
trmula.
 Anastcio reparou que o homem estava a chorar. Ficou
impressionado com a manifestao de emoo autntica. Ele, por
seu lado, era demasiado artificial, estava demasiado
consciente do efeito que tudo quanto ele fazia e dizia tinha
sobre os outros para se comprometer em lacrimae rerum. Mesmo
assim, a emoo do notrio lembrou-o de que devia preparar a
sua prpria manifestao de desgosto.  medida que se
aproximavam da cmara papal ele susteve a respirao,
contraindo o rosto, at os olhos lhe comearem a arder. Era um
truque que ele utilizava para fazer com que lhe brotassem
lgrimas quando ele queria; utilizava-o raramente, mas sempre
com bons resultados.
 A cmara estava aberta para que nela se reunisse a multido
de enlutados. Gregrio estava deitado numa grande cama de
penas, com os olhos fechados e os braos cruzados de forma
ritual sobre uma cruz em ouro. Os outros optimates,
funcionrios principais da corte papal, ladeavam o leito de
morte: Anastcio viu Arighis, o vic-e-dominus; Compulus, o
nomenclator; e Estvo, o vestiarus.
 - Anastcio, o primicerius - anunciou o secretrio, quando
Anastcio entrou. Os outros levantaram os olhos para o verem
mergulhado na dor, com o rosto desfigurado e as faces banhadas
em lgrimas.


 Joana levantou a cabea e ofereceu o rosto s carcias do
sol romano. Ainda no se tinha acostumado quele tempo
agradvel, temperado, em Wintarmanoth - ou Janeiro, como Lhe
chamavam no Sul do Imprio, onde reinavam costumes romanos,
no francos.



 268


 Roma no era o que ela imaginava. Ela tinha imaginado uma
cidade esplendorosa, pavimentada a ouro e mrmore, com
centenas de baslicas erguendo-se para o Cu num testemunho
glorioso da existncia de uma verdadeira Civitas Dei, uma
Cidade de Deus na terra.
 A realidade revelou-se muito diferente. Caticas, sujas,
apinhadas de gente, as ruas estreitas e tortas de Roma
pareciam ter sido engendradas no Inferno, no no Cu. Os seus
velhos monumentos - aqueles que no tinham sido convertidos em
igrejas crists - estavam em runas. Os templos, anfiteatros,
palcios e termas tinham sido despojados do seu ouro e prata e
deixados a cu aberto. As trepadeiras enrolavam-se em torno
das suas colunas cadas; os jasmins e as ervas cresciam nos
buracos das suas paredes; porcos e cabras e bois de grandes
cornos vagueavam pelos seus prticos destrudos. As esttuas
dos imperadores estavam espalhadas pelo cho; os sarcfagos
dos heris, vazios, eram utilizados agora como lavadouros,
cisternas e manjedouras para os animais.
 Era uma cidade de contradies antigas e aparentemente
irreconciliveis: a maravilha do mundo e um turbilho sujo e
decadente; um lugar de peregrinao dos cristos, cuja arte
grandiosa celebrava deuses pagos; um centro de livros e de
ensino, cujo povo chafurdava na ignorncia e na superstio.
 Apesar destas contradies, talvez por causa delas, Joana
adorava Roma. O tumulto esfervilhante das suas ruas
estimulava-a.
 Nestes corredores apinhados de gente convergiam os cantos
mais afastados do mundo: romanos, lombardos, germnicos,
bizantinos e muulmanos acotovelavam-se uns aos outros, numa
mistura excitante de costumes e lnguas. Passado e presente,
pago e cristo estavam intertecidos numa tapearia rica e
colorida. O melhor e o pior do mundo inteiro encontrava-se
dentro destes velhos muros. Em Roma, Joana encontrou o mundo
de oportunidades e de aventura que tinha procurado ao longo de
toda a sua vida.
 Passava a maior parte do tempo no Borgo, onde as vrias
scholae ou sociedades de estrangeiros estavam situadas.
Chegada perto de um ano antes, tinha-se dirigido primeiro 
Schola Francorum, naturalmente, mas no conseguiu entrar
porque o local estava a abarrotar com peregrinos e emigrantes
francos. Por isso, tinha ido para a Schola Anglorum, onde a
sua ascendncia inglesa, por parte do pai, assim como o seu
apelido, Anglicus, Lhe tinham proporcionado uma recepo
calorosa.
 A profundidade e vastido da sua educao depressa lhe
angariaram reputao de grande intelectual. Vinham telogos de
todas as partes de Roma para debaterem com ela;


 269


e partiam abismados com a vastido dos seus conhecimentos e a
sue habilidade de argumentao nas disputes. Como teriam
ficado consternados se soubessem que tinham sido superados por
uma mulher, pensava Joana, sorrindo intimamente.
 Os seus deveres regulares incluiam celebrar missa
diariamente numa pequena igreja mesmo ao p da schola, Depois
da refeio do meio-dia e de uma pequena sesta (porque era
costume no Sul dormir durante as horas mais abrasadoras da
tarde), ela dirigia-se  enfermaria, onde passava o resto do
die a tratar dos doentes. A sua cincia era-lhe til porque a
prtica da medicina aqui no em de maneira nenhuma to
avanada como na terra dos francos. Os romanos conheciam mal
as propriedades teraputicas das ervas e das plantas e no
sabiam nada acerca do exame da urina para diagnosticar e
tratar doenas.
 Os sucessos da Joana como mdica tornaram os seus servios
muito requisitados. LEvava uma vida activa e ocupada, como
gostava, oferecia-lhe todas as oportunidades da vida monstica
e nenhuma das sues desvantagens, podia exercer completamente
toda a sue inteligncia, sem controlo ou censura. Tinha acesso
 biblioteca da schola, uma coleco pequena, mas requintada
de mais de cinquenta volumes e ningum a vigiava para lhe
perguntar se tinha escolhido ler Ccero ou Suetnio, em vez de
Agostinho.
 Era livre de sair e entrar quando quisesse, de pensar como
gostava, de exprimir os seus pensamentos sem ter medo de ser
flagelada ou denunciada.
 O tempo passava depressa, escoando-se no cumprimento do
trabalho quotidiano. Assim poderiam ter prosseguido as coisas
indefinidamente, se o papa Srgio, recm-eleito, no tivesse
adoecido. Desde o Domingo da Septuagsima que o papa tinha
sido acometido de um conjunto de sintomas vagos, mas
preocupantes: como m digesto, insnia, torpor e inchao dos
membros; pouco antes da pscoa, foi atacado por uma dor to
intensa que quase se tornou insuportvel, todo o palcio
acordava noite aps noite com os seus gritos.
 A sociedade de medicina mandou uma dzia dos seus melhores
homens para tratarem do papa achacado, experimentaram uma
quantidade de procedimentos para obterem uma cura: trouxeram
um fragmento do crnio de So Policarpo para Srgio lhe tocar;
massajaram os seus membros doridos com leo retirado da
lmpada que tinha ardido toda a noite no tmulo de So Pedro,
medida que se sabia curar mesmo as aflies mais desesperadas;


 270


sangraram-no repetidas vezes e purgaram-no com emticos to
fortes que todo o seu corpo foi sacudido por violentos
espasmos. Quando at mesmo estes curativos to poderosos
falharam, eles tentaram dissipar a dor atravs de uma
contra-irritao, colocando tiras de cera a ferver sobre as
veias das pernas.
Nada resultava. Quando o estado do Papa se agravou, a
populao de Roma comeou a alarmar-se: se Srgio morresse to
pouco tempo depois do seu predecessor, deixando o Trono de S.
Pedro novamente vacante, o imperador franco, Lothar, talvez
tentasse descer  cidade para impor sobre eles a sua
autoridade imperial.
O irmo de Srgio, Bento tambm estava preocupado - no devido
a qualquer sentimento fraternal, mas porque a doena do seu
irmo representava uma ameaa para os seus prprios
interesses. Tendo persuadido Srgio a nomea-lo para seu
missus papal, Bento tinha utilizado habilmente a sua posio
para concentrar a autoridade dos funcionrios papais em si
prprio. Em resultado disso, cinco meses depois de ter
iniciado o seu papado, j Srgio s governava de nome; o poder
efectivo em Roma estava nas mos de Bento - para considervel
aumento da sua fortuna pessoal.
Bento teria preferido ter tambm o ttulo e a honra do cargo
papal, mas sabia muito bem que isso estava fora do seu
alcance. No tinha nem educao nem polimento para um cargo
to elevado. Era o segundo filho e em Roma no era costume
dividir a propriedade e os ttulos entre os herdeiros, como na
terra dos francos. Como primognito, Srgio tinha cumulado de
todos os privilgios familiares possveis - roupa cara,
tutores privados. Era terrivelmente injusto, mas no havia
nada a fazer e, ao fim de pouco tempo, Bento tinha abandonado
a atitude amuada e tinha procurado prazeres mais mundanos, os
quais, como ele veio a descobrir rapidamente, no faltavam em
Roma. A sua me tinha resmungado com os seus hbitos
dissolutos, mas no tinha feito nenhuma tentativa efectiva
para os impedir; o seu interesse e a sua esperana tinham
estado sempre concentradas em Srgio.
Agora, finalmente, os longos anos de esquecimento da sua
pessoa tinham chegado ao fim. No tinha sido difcil conseguir
que Srgio o nomeasse missus papal; Srgio sempre se tinha
sentido culpado da preferncia que lhe tinha sido dada, em
detrimento do seu irmo mais novo. Bento sabia que o seu irmo
era fraco, mas ainda tinha sido mais fcil corromp-lo do que
ele estava  espera. Depois de tantos anos de estudo
incessantes e privaes monsticas, Srgio estava mais do que
pronto para gozar a vida. Bento no procurou tentar o seu
irmo com mulheres porque Srgio estava firmemente agarrado ao
voto de castidade sacerdotal.


 271


De facto, os seus sentimentos neste ponto aproximavam-se da
obsesso, a tal ponto que Bento teve de se esforar por manter
em segredo as suas prprias aventuras sexuais.
 Mas, Srgio tinha outra fraqueza - um apetite insacivel
pelos prazeres da mesa. Enquanto consolidava o seu prprio
poder, Bento tratava de manter o seu irmo distrado com um
desfile interminvel de prazeres gastronmicos. A capacidade
de Srgio para comer e beber era prodigiosa. Sabia-se que era
capaz de comer cinco trutas, duas galinhas assadas, uma dzia
de empades de carne e uma perna de veado numa s refeio.
Uma vez, depois de uma orgia assim, tinha aparecido na missa
matinal to empanturrado e inchado, que vomitou por cima da
Hstia Sagrada sobre o altar para horror da comunidade
reunida.
 A seguir a este episdio vergonhoso, Srgio resolveu
regenerar-se, regressando  dieta simples, constituda por po
e verduras, na qual tinha sido criado. Este regime espartano
restabeleceu-o; comeou a interessar-se novamente pelos
assuntos de Estado. Isto tinha interferido nos planos de
Bento. Mas, Bento esperou pela sua hora. Quando achou que
Srgio j tinha feito experincia suficiente de uma
mortificao piedosa, comeou a tent-lo com ofertas
extravagantes: exticos bombons recheados, pastis de carne e
sopas, leites assados, barris de vinho da Toscana. Srgio
depressa regressou s suas comezainas.
 Mas, desta vez, a comezaina tinha ido longe de mais. Srgio
ficou doente, perigosamente doente. Bento no tinha pena do
seu irmo mais velho, mas no queria que ele morresse. A morte
de Srgio significaria o fim do poder do prprio Bento.
 Era preciso fazer qualquer coisa. Os mdicos que estavam a
tratar de Srgio eram uns incompetentes que atribuam a doena
do Papa a demnios poderosos, contra cuja maldade s a orao
podia prevalecer. Cercaram Srgio de uma quantidade de padres
e monges, que choravam e rezavam junto  sua cama de dia e de
noite, erguendo as suas vozes pungentes ao Cu. Mas no
resultava: Srgio continuava a piorar.
 Bento no estava disposto a deixar que o seu futuro
estivesse dependente de um fio de orao. Tenho de fazer
qualquer coisa. Mas, o qu?
 - Senhor.
 Bento foi despertado dos seus sonhos pela vozinha hesitante
de Celestino, um dos cubicularu ou camareiros do Papa. Como a
maior parte dos seus colegas, Celestino era proveniente de uma
famlia romana rica e aristocrata que tinha pago generosamente
pela honra de ter o seu jovem filho ao servio como camareiro
do Papa.


 272



Bento olhou para o rapaz com antipatia. O que sabia esta
criana desmamada e privilegiada acerca da sua vida, da dura
luta para sair da obscuridade?
 - O que ?
 - Monsenhor Anastcio pede uma audincia convosco.
 - Anastcio? - Bento no se lembrava do nome.
 - Bispo de Castellum - esclareceu Celestino, aprontadamente.
 - Ousas ensinar-me?
 Furioso, Bento deu uma bofetada a Celestino.
 - Isto  para aprenderes a respeitar os teus superiores.
Desaparece e traz-me c o bispo.
 Celestino saiu apressadamente, esfregando a bochecha com os
olhos rasos de gua. A mo de Bento ficou-lhe a doer;
fechou-a, sentindo-se melhor.
 Anastcio entrou pouco depois pela porta. Alto e elegante, o
eptome da elegncia aristocrtica estava perfeitamente ciente
da impresso que causava a Bento.
 - Pax vobiscus - saudou-o Bento, num latim atrapalhado.
 Anastcio reparou no barbarismo, mas preocupou-se em no Lhe
mostrar o desprezo que sentia por ele.
 - Et cum spiritu tuo - respondeu ele, suavemente.
 Sua Santidade o Papa?
 - Como est?
 - Mal. Muito mal.
 - Desgosta-me ouvi-lo.
 Isto era mais do que delicadeza. Anastcio estava realmente
preocupado. Ainda no tinha chegado a hora certa para Srgio
morrer. Anastcio s teria trinta e cinco anos - a idade
mnima requerida para um Pontfice - dali a mais de um ano. Se
Srgio morresse - agora, podia ser eleito um homem mais novo
do que ele e isso poderia significar que a Ctedra de So
Pedro s voltaria a vagar dali a vinte anos. Anastcio no
tencionava esperar tanto para realizar a ambio da sua vida.
 - Espero que o vosso irmo esteja a ser bem tratado?
 - Est rodeado noite e dia por santos homens, que oferecem
oraes pelas suas melhoras.
 - Ah!
 Fez-se silncio. Ambos eram cpticos relativamente 
eficcia daquelas medidas, mas nenhum deles podia manifestar
as suas dvidas abertamente.
 - H uma pessoa na Schola Anglorum - aventurou-se Anastcio.
- Um padre com uma grande reputao como mdico.


 273


 - Ah, sim?
 - Joo Anglicus, penso que  assim que se chama. Um
estrangeiro, Parece que  um homem muito instrudo. Dizem que
 capaz de fazer curas verdadeiramente milagrosas.
 - Talvez eu possa mandar cham-lo - disse Bento.
 - Talvez - concordou Anastcio.
 Depois, deixou o assunto morrer, Bento no era homem para
ser pressionado, segundo lhe parecia. Tacticamente, Anastcio
desviou a conversa para outro tema. Quando lhe pareceu que j
tinha passado um lapso de tempo suficiente, levantou-se para
sair.
 - Dominus tecum, benedictus.
 - Deus vobiscus - titubeou Bento novamente.
 Imbecil ignorante, pensou Anastcio. Era uma vergonha que um
homem daqueles pudesse ter tanto poder, era uma ndoa na
reputao da Igreja. Com uma vnia e um movimento elegante das
suas vestes, Anastcio virou-se e saiu. Bento ficou a v-lo
partir, Nada mal, para um aristocrata. Vou mandar chamar esse
pequeno curandeiro, chamado Joo Anglicus. Provavelmente, ia
haver problemas por causa de ele mandar chamar algum que no
era membro da sociedade de medicina, mas no importava. Bento
havia de arranjar uma forma. Havia sempre uma maneira, quando
se sabia o que se queria.
 Aos ps da grande cama sobre a qual repousava Srgio havia
trs dzias de velas. Por trs delas, ajoelhava-se uma
multido de monges vestidos de preto, desfiando litanias em
unssono, em voz baixa.
 Endio, arquiatro de Roma, levantou o seu lancete de ferro e
enterrou-o profundamente no antebrao esquerdo de Srgio,
atingindo a veia principal. O sangue escorreu da ferida para
dentro de uma taa em prata segurada por um aprendiz de
Endio. Endio abanou a cabea, ao examinar o sangue na taa.
Era grosso e escuro; o humor mrbido que estava a causar a
doena ao Papa estava concentrado no corpo e no saa. Endio
deixou a ferida aberta, deixando o sangue correr mais do que o
costume; no iria poder sangrar Srgio durante alguns dias
porque a Lua estava a passar para Gmeos, um stio impropcio
s sangrias.
 - Como est ele? - perguntou Florus, um colega mdico.
 - Mal. Muito mal.
 - Saiamos - sussurrou Florus. - Preciso de falar convosco.
 Endio estancou a ferida, juntando a pele e fazendo presso
com a mo. Deixou para o seu aprendiz a tarefa de ligar a
ferida com as folhas de arruda,


 274


cobertas em gordura, embrulhadas em pano. Depois de ter lavado
as mos, seguiu Florus, saindo para o corredor.
 - Mandaram chamar mais algum - disse Florus apressadamente
logo que ficaram sozinhos.
 - Um mdico da Schola Anglorum.
 - No!
 Endio estava consternado. Era suposto a prtica da medicina
dentro da cidade estar estritamente confinada aos mdicos da
sociedade de medicina - apesar de, na verdade, haver um
pequeno exrcito desconhecido de presumveis mdicos que
exerciam os seus talentos duvidosos entre a populaa. Eram
tolerados, desde que atuassem anonimamente entre os pobres.
Mas, o reconhecimento oficial de um deles, trazendo-o ao
palcio do prprio papa, representava uma ameaa inegvel.
 - Joo Anglicus, chama-se o homem - disse Florus. - Existem
rumores de que ele possui poderes extraordinrios. Dizem que 
capaz de diagnosticar uma doena apenas atravs do exame da
urina do paciente.
 Endio suspirou:
 - Um charlato.
 -  bvio. Mas, alguns destes impostores so bastante
dotados. Se este Joo Anglicus conseguir fazer parecer que tem
alguma habilidade, pode ser danoso.
 Florus tinha razo. Numa profisso como a deles, onde os
resultados eram, frequentemente, desapontadores e sempre
imprevisveis, a reputao era tudo. Se este estranho
obtivesse sucesso onde era visvel que eles tinham falhado...
 Endio pensou por um momento.
 - Ele examina a urina, dizeis vs. Bem, ento, ns damos-lhe
uma amoStra.
 - Ora, a ltima coisa que ns vamos fazer  ajudar um
estranho!
 Endio sorriu.
 - Eu disse que lhe amos dar uma amostra, Florus. No disse
de quem.
 Guiada por uma escolta de guardas papais, Joana dirigiu-se
rapidamente para o Patriarchum, o palcio enorme que albergava
a residncia papal, assim como a multiplicidade de servios
administrativos que constituiam a sed do governo em Roma.
Passando pela grande baslica de Constantino, com as suas
linhas magnficas de janelas em arco, entraram no patriarchum.
Dentro, subiram um pequeno lance de escadas,


 275


que levavam ao triclinium major, ou grande sala do palcio
cuja construo tinha sido ordenada pelo papa Leo, de boa
memria; A parede era revestida a mrmore e decorada com
mirades de mosaicos, trabalhados com um grau de qualidade
artstica que deixava a Joana maravilhada. Nunca tinha visto
cores to brilhantes, nem figuras to vivas. Ningum na terra
dos francos - bispo, abade, conde, nem sequer o prprio
imperador - podiam aspirar a tamanha magnificncia.
 No meio do triclinium, estava reunido um grupo de homens. Um
deles dirigiu-se a ela, cumprimentando-a. Era moreno, com uns
olhos pequenos e inchados e uma expresso enrgica.
 - Sois o padre Joo Anglicus? - perguntou ele.
 - Sou, sim.
 - Eu sou Bento, o missus papal e irmo do papa Srgio.
Mandei chamar-vos para curardes Sua Santidade.
 - Farei o que puder - disse Joana.
 Bento baixou a voz, num murmrio de conspirao:
 - H quem no deseje que vs tenhais sucesso.
 Joana compreendeu imediatamente. A maior parte dos membros
daquele grupo pertenciam  sociedade elitista e exclusiva dos
mdicos. No receberiam bem uma pessoa de fora.
 Veio juntar-se a eles um outro homem - alto, magro, com um
olhar penetrante e nariz curvo. Bento apresentou-o como Endio
arquiatro da sociedade de medicina.
 Endio cumprimentou Joana com um pequeno aceno.
 - Descobrireis por vs mesmos, se fordes capaz, que Sua
Santidade  afligido por demnios, cuja influncia perniciosa
no ser desalojada por medicinas ou purgas.
 Joana no disse nada. Dava pouco crdito a teorias daquelas.
Por que haveria de se procurar uma explicao sobrenatural,
quando h tantas causas de doena de ndole fsica e
detectvel?
 Endio estendeu-Lhe um frasquinho com um lquido amarelo.
 - Esta amostra de urina foi tirada a Sua Santidade h menos
de uma hora. Estamos curiosos para ver o que ides descobrir
nela.
 Ento, vo pr-me  prova, pensou Joana. Bom, suponho que
seja uma maneira de comear to boa como qualquer outra.
 Pegou no frasquinho e p-lo diante da luz. O grupo fez um
semicrculo. O nariz adunco de Endio tremeu enquanto a
observava com uma expectativa manhosa.
 Ela virou e revirou o frasquinho para ver bem o seu
contedo. Estranho. Cheirou-o e voltou a cheir-lo. Mergulhou
um dedo lquido, chegou-o  lngua e provou-o cuidadosamente.


 276


A tenso na sala, agora, era quase palpvel.
 Voltou a cheir-lo e a prov-lo. No havia dvida.
 Um ardil astucioso, substituir a urina do Papa pela de uma
mulher grvida. Eles tinham-na confrontado com um verdadeiro
dilema. Como um simples padre e um estranho, ela no podia
acusar uma companhia to augusta de a querer enganar
deliberadamente. Por outro lado, se no detectasse a
substituio, seria denunciada como uma fraude.
 A armadilha tinha sido lanada com habilidade. Como haveria
de lhe escapar?
 Ps-se a pensar.
 Depois, virou-se e anunciou com prontido:
 - Deus acabou de realizar um milagre. Dentro de trinta dias,
Sua Santidade dar  luz.


 Bento ria s bandeiras despregadas ao sair do triclinium.
 - A cara daqueles velhos! Tive de me esforar para no
comear a rir alto!
 Ele estava divertidssimo com aquilo que tinha acontecido.
 - Haveis demonstrado a vossa arte e exposto o seu embuste
sem pronunciar uma nica palavra de acusao. Brilhante!
 Ao aproximarem-se da cmara papal, ouviram uma gritaria
vinda do outro lado da porta.
 - Viles! Vampiros! Ainda no morri!
 Ouviu-se um estrondo, como se se tivesse partido qualquer
coisa.
 Bento abriu a porta. Srgio estava sentado na cama, com o
rosto contorcido de fria. No meio do quarto, estava um vaso
partido, que tinha sido atirado a um grupo de padres
assustados. Srgio tinha agarrado uma taa em ouro, que estava
em cima da mesa de cabeceira, e estava prestes a atir-la aos
infelizes prelados, quando Bento se apressou a tirar-lha das
mos.
 - Ento, Irmo. Sabes o que os mdicos disseram. Ests
doente; no deves exaltar-te.
 Srgio disse, num tom acusador:
 - Acordei e apercebi-me de que me estavam a ungir. Estavam a
tentar administrar-me a extrema-uno.
 Os prelados alisaram as vestes com uma dignidade ofendida.
Pareciam ser homens importantes; um deles, que usava o pallium
de arcebispo, disse:
 - Pensmos que era melhor, como Vossa Santidade estava a
piorar...


 277


 - Sa imediatamente! - interrompeu Bento.
 Joana estava espantada; Bento devia ser poderoso, realmente,
para se dirigir a um arcebispo de uma forma to incivilizada.
 - Pnsai bem, Bento - avisou-o o arcebispo. - Quereis pr em
perigo a alma imortal do vosso irmo?
 - Rua! - Bento agitou os braos, como se estivesse a enxotar
um bando de corvos. - Sa todos!
 Os prelados recuaram rapidamente, sentindo-se todos
igualmente indignados.
 Srgio caiu pesadamente sobre as suas almofadas.
 - As dores, Bento - lamentou-se ele. - No consigo suportar
as dores.
 Bento pegou num jarro que se encontrava sobre a mesa, encheu
uma taa de ouro com vinho e chegou-a aos lbios de Srgio.
 - Bebe - disse ele. - Vai aliviar-te.
 Srgio bebeu com sofreguido.
 - Mais - pediu ele, mal tinha acabado de esvaziar a taa.
 Bento encheu a taa novamente, depois, voltou a ench-la. O
vinho escorria pelos cantos da boca de Srgio. Ele era pequeno
de ossos, mas muito gordo. A sua figura era constituda por
uma sri de esferas ligadas umas s outras: o rosto redondo
ligava-se ao queixo redondo, os olhos redondos ocupavam o
centro de duas rbitas circulares.
 - Agora, - disse Bento, quando a sede de Srgio j tinha
sido saciada - olha o que eu fiz por ti, Irmo! Trouxe-te uma
pessoa que te pode ajudar.  Joo Anglicus, um mdico de
grande repu tao.
 - Outro mdico? - disse Srgio, desconfiado.
 Mas, no fez qualquer objeco quando Joana puxou os
cobertores para trs para o examinar. Ela ficou chocada com o
estado em que ele estava. As suas pernas estavam tremendamente
inchadas, com a carne esticada a abrir fissuras e a estalar.
Sofria de uma inflamao grave nas articulaes; Joana
suspeitou da sua origem mas tinha de se certificar. Examinou
as orelhas de Srgio. Como seria de esperar, encontrou sinais
de tofo, pequenas excrescncias esbranquiadas, semelhantes a
olhos de caranguejo, cuja presena s podia significar uma
coisa, que Srgio estava a sofrer um ataque agudo de gota.
Como era possvel que os mdicos no tivessem descoberto?
 Joana passou cuidadosamente os dedos pela carne avermelhada
e lustrosa, sentindo a origem da inflamao.


 278


 - Pelo menos, este no tem mos de lavrador - reconheceu o
Srgio.
 Era espantoso que ele ainda estivesse lcido porque estava a
arder em febre. Joana tomou-Lhe o pulso, reparando nas
diversas feridas que ele tinha no brao, em resultado das
sangrias. A pulsao era fraca e o seu parecer, agora que j
lhe tinha passado o acesso de clera, era de um branco-azulado
doentio.
 Benedicite, pensou ela. No admira que ele tenha febre.
Sangraram-no at  morte.
 Virou-se para o camareiro e disse.
 - Trazei-me gua. Depressa.
 Ela tinha que diminuir o inchao, antes que este o matasse.
Graas a Deus que tinha trazido p de clquico. Joana pegou no
seu saco e tirou um pedao de pergaminho encerado,
desdobrando-o cuidadosamente para no desperdiar o p
precioso. O camareiro voltou com um jarro de gua. Joana
deitou um pouco numa taa, depois deitou-lhe dois dracmas de
raiz em p, a dose recomendada. Acrescentou-lhe mel diludo,
para disfarar o sabor amargo e uma pequena dose de meimendro,
para adormecer Srgio - porque o sono era o melhor remdio
contra a dor e o descanso a melhor esperana de cura.
 Deu o copo a Srgio, que o bebeu de um s trago.
 - Pah! - disse ele, cuspindo-o. - Isto  gua!
 - Bebei-o - disse Joana com firmeza.
 Para sua surpresa, Srgio obedeceu-Lhe.
 - E agora? - perguntou ele, depois de ter esvaziado a taa.
- reis purgar-me?
 - Pensava que estveis farto dessas torturas.
 - Quer dizer que no ides fazer mais nada seno isto? -
desafiou-a Bento. Um simples reforo, mais nada?
 Joana suspirou. J se tinha deparado com reaces daquele
tipo Em outras ocasies. O senso comum e a moderao no eram
apreciadas na arte da cura. As pessoas exigiam medidas mais
dramticas. Quanto mais sria era a doena, mais violenta se
esperava que fosse a cura.
 - Vossa Santidade sofre de gota. Dei-Lhe meimendro, um
medicamento especialmente indicado para esta doena. Daqui a
pouco, ele vai adormecer e, Deo volente, as dores e o inchao
que o tm afligido abrandaro daqui a alguns dias.
 Como que a comprovar a verdade daquilo que ela tinha acabado
de dizer, a respirao ofegante de Srgio comeou a abrandar;
encostou-se s almofadas, relaxado, e fechou os olhos
sossegadamente.


 279


 A porta abriu-se com um estrondo. Entrou um homem pequeno e
tenso, com um rosto semelhante ao de um galo de Bantam
preparado para atacar. Brandiu um rolo de pergaminho diante do
nariz de Bento.
 - Eis o documento. S preciso da assinatura.
 Pela forma como estava vestido e como falava, parecia ser um
mercador.
 - Agora no, Aio - respondeu Bento.
 Aio abanou a cabea furiosamente:
 - No, Bento, no voltareis a mandar-me embora. Toda a
cidade de Roma sabe que o Papa est gravemente doente. E se
ele morrer esta noite?
 Joana olhou preocupada para Srgio, mas ele no tinha
ouvido. Estava a dormir profundamente.
 O homem agitou um saco com moedas diante dos olhos de Bento.
 - Mil soldos, como combinado. Assinai o papel agora e isto,
- levantou outro saquinho - tambm ser vosso.
 Bento levou o pergaminho para a cama e desenrolou-o sobre o
lenol.
 - Srgio?
 - Ele est a dormir - protestou Joana. - No o acordeis.
 Bento ignorou-a.
 - Srgio! - agarrou o irmo pelos ombros e abanou-o.
 Srgio abriu os olhos. Bento pegou numa pena que se
encontrava sobre uma mesa ao lado da cama, mergulhou-a na
tinta e meteu-a na mo de Srgio.
 - Assina isto - ordenou-Lhe ele.
 Atordoado, Srgio colocou a pena sobre o pergaminho. A sua
mo tremeu, espalhando a tinta sobre o pergaminho num rabisco
torto. Bento pegou na mo do irmo e ajudou-o a fazer a
assinatura papal.
 De onde estava, Joana via bem o papel. Era uma formata
nomeando Aio bispo de Alatri. O contrato que tinha sido feito
mesmo  frente de Joana era um suborno para comprar uma
nomeao para bispo!
 - Agora, descansa, Irmo - disse Bento, satisfeito por ter
conseguido o que queria.
 Voltando-se para Joana, disse:
 - Ficai com ele.
 Joana assentiu. Bento e Aio saram do quarto.
 Joana tapou Srgio com os cobertores, aconchegando-os
suavemente. Tinha o queixo espetado, posio caracterstica
dela, que demonstrava determinao.


 280


Era evidente que as coisas no palcio papal corriam mal. E no
era provvel que se endireitassem enquanto Srgio estivesse
doente e o seu irmo venal governasse em seu lugar. A sua
tarefa era simples: restabelecer a sade do Papa o mais
depressa possvel.
 Nos dias que se seguiram, Srgio manteve-se em estado grave.
O canto constante dos padres impedia-o de dormir, por isso, a
pedido insistente de Joana, a sua viglia junto ao leito papal
terminou. Tirando uma pequena ida  Schola Anglorum para ir
buscar alguns medicamentos, Joana no saiu de ao p de Srgio.
Durante o dia, vigiava o seu estado; durante a noite, dormia
numa pilha de almofadas ao lado da cama.
 Ao terceiro dia, o inchao comeou a diminuir e a pele que o
cobria comeou a descamar. De noite, Joana acordou de um sono
agitado para descobrir que Srgio tinha deixado de transpirar.
Benedicite, pensou ela. A febre passou.
 Ele acordou na manh seguinte.
 - Como vos sentis? - perguntou Joana.
 - No sei - disse ele, vacilante. - Acho que me sinto
melhor.
 - Estais com muito melhor aspecto.
 O seu ar macilento tinha desaparecido, assim como o tom
cinzento-azulado doentio da sua pele.
 - As minhas pernas... sinto um formigueiro!
 Ele comeou a coar as pernas desesperadamente.
 - A comicho  um bom sinal; quer dizer que as pernas esto
a voltar  vida - disse Joana. - Mas, no deveis irritar a
pele porque ainda h perigo de infeco.
 Ele retirou a mo. Mas, a comicho era intensa; pouco
depois, estava outra vez a coar as pernas. Joana
administrou-Lhe uma dose de meimendro para o acalmar e ele
voltou a adormecer.
 Quando abriu os olhos no dia seguinte, estava lcido,
perfeitamente consciente do que se passava  sua volta.
 - J no tenho dores! - Olhou para as pernas. - E o inchao!
 O que viu animou-o; sentou-se. Ao ver um camareiro atravs
da porta, disse:
 - Tenho fome. Trazei-me um pedao de presunto e um pouco de
vinho.
 - Um prato de legumes e um copo de gua - contra-ordenou 
Joana.
 O camareiro desapareceu apressadamente, antes que Srgio
pudesse protestar.


 281


 Srgio ergueu as sobrancelhas, surpreendido.
 - Quem sois vs?
 - O meu nome  Joo Anglicus.
 - No sois romano.
 - Nasci no pas dos francos.
 - No Norte! - Os olhos de Srgio tornaram-se mais
penetrantes. -  uma regio assim to brbara como dizem?
 Joana sorriu:
 - H menos igrejas, se  isso que quereis dizer.
 - Porque vos chamais Anglicus - perguntou Srgio - se haveis
nascido no pas dos francos?
 Ele estava espantosamente lcido, dado tudo aquilo por que
tinha passado.
 - O meu pai era ingls - explicou Joana. - Veio pregar a f
aos saxnios.
 - Aos saxnios? - Srgio franziu o sobrolho. - Uma tribo
mpia.
 Mam. Joana sentiu aquela onda de vergonha e amor que lhe
era familiar e disse:
 - A maior parte deles, agora, so cristos - tanto quanto 
possvel a quem foi trazido para a f pelo fogo e a espada.
 Srgio olhou para ela com severidade.
 - No concordais com a misso da Igreja de converter os
pagos?
 - Que valor pode ter qualquer compromisso obtido pela fora?
Sob tortura, uma pessoa pode confessar seja que mentira for,
apenas para pr termo ao sofrimento.
 - Mas, nosso Senhor mandou-nos anunciar a Palavra de Deus;
Ide e ensinai todas as naes, baptizando-as em nome do Pai e
do Filho e do Esprito Santo.
 -  verdade - concordou Joana. - Mas... - interrompeu-se, L
estava ela outra vez a deixar-se arrastar para um debate
imprudente e, possivelmente, at perigoso, desta vez, com o
prprio Papa!
 - Continuai - incitou Srgio.
 - Perdoai-me, Santidade. No estais bem.
 - Tambm no estou assim to mal que no possa raciocinar -
retorquiu Srgio, impacientemente. - Prossegui.
 - Bem... - ela escolheu as palavras com cuidado. - Pensai na
ordem dos mandamentos dados por Cristo: primeiro, ensinai as
naes, depois, baptizai-as.


 282


No nos  ordenado que administremos o sacramento do baptismo
antes que o pensamento abrace a f pela prtica, primeiro,
ensinai, disse Cristo, depois baptizai.
 Srgio observou-o com interesse.
 - Pensais bem, Onde fostes educado?
 - Um grego de nome Asclpios, um homem de grande saber, foi
meu tutor em criana. Depois, mandaram-me para a escola da
catedral de Dorstadt e, mais tarde, para Fulda.
 - Ah, Fulda! Ainda  pouco tempo recebi um manuscrito de
Rbano Mauro com iluminuras lindssimas, contendo um poema da
sua autoria sobre a Santa Cruz de Cristo. Quando lhe escrever
para lhe agradecer, hei-de contar-Lhe os servios que haveis
prestado  nossa pessoa.
 Joana pensava que se tinha livrado do abade Rbano para
sempre; ser que o seu dio tirnico a ia perseguir at aqui,
pondo em perigo a vida nova que ela tinha construdo para si
prpria?
 - Temo que no vos mandem boas informaes de l acerca da
minha pessoa.
 - porqu?
 - O abade considera a obedincia o maior de todos os votos
religiosos. Mas, para mim, sempre foi o mais difcil.
 - E os vossos outros votos? - perguntou Srgio, solenemente.
- O que haveis feito deles?
 - Nasci na pobreza e acostumada a ela. Quanto  castidade -
acrescentou ela esforando-se por no deixar transparecer
qualquer ironia na sua voz -, sempre resisti  tentao das
mulheres.
 A expresso de Srgio suavizou-se.
 - Folgo em ouvi-lo. Porque, neste aspecto, eu no concordo
com o abade Rbano; de todos os votos religiosos, a castidade
 certamente u maior e aquele que mais agrada a Deus.
 Joana ficou surpreendida com os seus pensamentos. O ideal da
castidade sacerdotal estava longe de ser praticado
universalmente em Roma. No era nada fora do comum um
sacerdote romano ter uma esposa, assim como no existia
qualquer proibio de acesso de homens casados ao sacerdcio,
desde que concordassem em renunciar a todas as relaes
conjugais ulteriores - acordo que, como seria de esperar, era
mais quebrado do que cumprido. Uma mulher raramente se opunha
a que o seu marido quisesse ser padre porque partilhava com
ele o prestgio da sua posio; a mulher de um padre recebia o
ttulo honorfico de sacerdotisa" ou de diaconisa", se fosse
esposa de um dicono, O papa Leo III era casado quando
ascendeu ao trono papal e ningum tinha pensado mal dele em
Roma por causa disso.


 283


 O camareiro voltou com uma salva de prata com po e legumes,
que colocou diante de Srgio. Este pegou num pedao de po e
deu-lhe uma dentada, esfomeado.
 - Agora, contai-me tudo o que se passou entre vs e o abade
Rbano - disse ele.



 @20


 Joana veio a aperceber-se que era como se o Srgio fosse
duas pessoas: uma, dissoluta, ordinria e m; a outra, culta,
inteligente e ponderada. Tinha lido num livro de Celso que
havia casos destes: animae divisae, chamava-Lhes ele - almas
divididas.
 Era o que se passava com Srgio. Mas, no seu caso, era a
bebida que desencadeava a metamorfose. Gentil e bondoso,
quando sbrio, tornava-se um terror sob o efeito da bebida. Os
criados do palcio, sempre prontos para a maledicncia,
contaram a Joana que, uma vez, Srgio tinha condenado um deles
 morte apenas porque no Lhe tinha levado o jantar a horas.
Tinha voltado ao estado de sobriedade a tempo de impedir a
execuo, mas no a tempo de impedir que o servo tivesse sido
vergastado e exposto no pelourinho.
 Os seus mdicos, afinal, no estavam assim to enganados,
como veio a descobrir Joana: Srgio estava possesso, apesar de
os demnios que o afligiam no terem nada a ver com o Diabo,
mas sim com ele prprio.
 Assim que se apercebeu das suas melhores qualidades, Joana
fez sua a misso de o recuperar. Colocou-o sob uma dieta
rigorosa constituda por vegetais e gua de cevada. Srgio
resmungou, mas obedeceu, temendo que as dores voltassem.
Quando ela considerou que ele j estava pronto, instituiu um
regime de passeios dirios a p nos jardins lateranenses. Ao
incio, ele tinha de ser levado at l na sua cadeira,
carregado por trs criados, que gemiam sob o seu peso. No
primeiro dia, mal conseguiu andar alguns passos, caiu
imediatamente na sua cadeira, esgotado. Com a persistncia de
Joana, cada dia foi um pouco mais longe; ao fim de um ms, j
era capaz de dar uma volta completa ao jardim.


 285


O inchao residual em torno das suas articulaes diminuiu e a
pele recuperou um tom rosado saudvel. Os seus olhos
desincharam e as suas feies ganharam um contorno mais
definido, pelo que Joana se apercebeu de que ele era um homem
muito mais novo do que ela tinha pensado inicialmente - talvez
no tivesse mais do que quarenta e cinco ou cinquenta anOS.


 - Sinto-me um homem novo - disse Srgio um dia a Joana,
durante o seu passeio quotidiano.
 Era Primavera e os lilases j estavam em flor, perfumando o
ar com o seu aroma activo.
 - No tendes tonturas, nem sentis fraqueza ou dores? -
perguntou Joana.
 - No, nada. Realmente, Deus operou um milagre.
 - Bem podeis diz-lo, Santidade - disse Joana com um sorriso
de lado, - Mas, pensai no estado em que estveis, quando
apenas Deus vos servia de mdico!
 Srgio puxou afectuosamente a orelha de Joana.
 - Deus mandou-vos para realizardes o Seu milagre!
 Riram-se os dois. Estimavam-se mutuamente,  este o momento,
pensou Joana.
 - Se vos sentis realmente bem... - e deixou as palavras a
pairar no ar.
 - Sim?
 - Estava s a pensar que... o tribunal papal se rene hoje.
O vosso irmo Bento preside no vosso lugar, como  costume.
Mas, se vos sentis bem...
 Srgio disse, Resolutamente:
 - Bento est habituado a presidir. Certamente, no 
preciso...
 - As pessoas no escolheram Bento para seu senhor. precisam
de vs, Santidade.
 Srgio suspirou, Fez-se um longo silncio.
 A Joana pensou: falei cedo de mais e de forma demasiado
clara.
 Srgio disse:
 - O que dizeis  verdade, Joo Anglicus, Negligenciei estas
coisas durante demasiado tempo.
 A tristeza que os seus olhos exprimiam davam ao seu rosto
uma expresso de sabedoria.
 Joana respondeu suavemente:
 - O remdio, meu senhor, est em agir.
 Srgio olhou para ela, Depois, virou-se de repente,
encaminhando-se para a entrada do jardim.


 286


 - Joo, ento! -- chamou-a ele. .-.. Que esperais?
 Joana apressou-se a segui-lo.
 Havia dois guardas encostados  parede exterior da sala do
tribunal, conversando um com o outro. Ao verem Srgio, deram
um salto, pondo-se direitos e abriram as portas.
 - Sua Santidad o Papa, Srgio, bispo metropolita de Roma! -
Anunciou um deles, com voz forte.
 Srgio e Joana entraram na sala. Por uns momentos, fez-se um
silncio atnito, ao qual se seguiu um ranger de cadeiras,
quando As pessoas se puseram de p para saudar a entrada do
Papa. Quer dizer, menos Bento, que ficou sentado na cadeira
papal, de boca aberta.
 - Fecha a boca, irmo, a no ser que queiras engolir uma
mosca - disse Srgio.
 - Santidad! Ser prudent? - Exclamou Bento. - No deveis
colocar em risco a vossa sade, assistindo a esta audincia!
 - Obrigado, Irmo, mas sinto-me bastant bem - respondeu
Srgio. - E no vim para assistir, mas para presidir.
 Bento levantou-se.
 - Folgo em ouvi-lo, como toda a cidade de Roma. - a sua voz
soava a tudo menos a alegria.
 Srgio sentou-se confortavelmente na cadeira acolchoada.
 - Qual  o assunto que tendes em mos?
 O notrio apressou-se a p-lo ao corrente dos pormenores.
Mamertus, um mercador abastado, pedia permisso para renovar o
Orphanotrophium, um albergue e uma escola para rfos
instalada num edifcio em ruinas, perto do Laterano. Mamertus
props reconstrui-lo completamente e transform-lo num abrigo
para peregrinos abastados.
 - O Orphanotrophium - murmurou Srgio. - Conheo bem o
local; vivi l durante algum tempo, depois da morte da minha
me.
 - Santidade, o edifCio est a cair - disse Mamertus. - 
uma vergonha, uma ndoa para a nossa grande cidade. A minha
proposta vai transform-lo num palcio!
 - E os rfos? - perguntou Srgio.
 Mamertus enColheu os ombros.
 - Podem procurar caridade noutro stio. H albergues que os
podem receber.
 Srgio parecia ter dvidas. 
-  muito duro expulsarem-nos da nossa casa!


 287


 - Santidade, esta hospedaria ser o orgulho de Roma! Os
duques no hesitaro em l dormir, nem os reis!
 - Os rfos no so menos amados por Deus do que os reis.
No foi Cristo quem disse: bem-aventurados os pobres, porque
deles  o Reino de Deus?
 - Santidade, peo-vos que considereis o meu pedido. Pensai
naquilo que a existncia deste estabelecimento pode fazer por
Roma!
 Srgio abanou a cabea:
 - No sancionarei a destruio deste orfanato. A petio 
negada.
 - Protesto! - disse Mamertus, exaltado. - O vosso irmo e eu
j tnhamos chegado a um acordo; o edifcio foi confiscado e o
pagamento feito.
 - Pagamento? - Srgio ergueu o sobrolho.
 Bento fez um sinal aflito a Mamertus.
 - Eu... eu... - Mamertus levantou os olhos, procurando as
palavras. - Eu fiz uma oferta, uma oferta muito generosa ao
altar de So Servatius para apressar o sucesso deste
empreendimento.
 - Ento, estais de parabns - disse Srgio. - Tanta caridade
traz consigo a sua prpria recompensa porque sofrereis menos
na vida eterna.
 - Mas...
 - Tendes a nossa gratido, Mamertus, por haverdes chamado a
nossa ateno para o estado em que se encontra o
Orphanotrophium. Ser nossa preocupao imediata repar-lo.
 A boca de Mamertus abriu-se e fechou-se vrias vezes, como a
de um peixe fora da gua. Lanando um ltimo olhar turvo a
Bento, saiu da sala.
 Srgio sorriu para Joana, que sorriu tambm em troca.
 Bento apercebeu-se da troca de olhares. Ento  Joo, pensou
ele. Recriminou-se a si prprio por no ter reparado antes.
Tinha sid uma poca muito ocupada para o tribunal pontifcio,
a poca do ano mais lucrativa para Bento; tinha estado to
ocupado com estas coisas que no tinha prestado ateno
suficiente ao grau de influncia que o padrezinho estrangeiro
tinha adquirido junto do seu irmo.
 No faz mal, disse ele de si para si. O que est feito pode
ser desfeito. Todos tm um ponto fraco. Tratava-se apenas de
descobrir qual era o ponto fraco de Joo Anglicus.
 Joana apressou-se pelo corredor, a caminho do triclinium.


 288


Como mdico pessoal de Srgio era-Lhe permitido jantar  sua
mesa - um privilgio que Lhe permitia vigiar de perto tudo
quanto o Papa comia e bebia. O seu estado de sade ainda
estava longe de ser robusto; um desleixo podia voltar a
provocar um ataque de gota.
 - Joo Anglicus.
 Ela virou-se e viu Arighis, o vicedominus, ou principal
mordomo do palcio, que se dirigia para ela.
 - Est uma senhora em estado muito grave no Trastevere
deveis ir assisti-la.
 Joana suspirou. J tinha sido chamada trs vezes naquela
semana para incumbncias daquele gnero. As notcias da cura
do papa Srgio tinham-se espalhado por toda a cidade. Para
grande consternao dos membros da sociedade de medicina, os
servios da Joana como mdi ca tinham passado a ser muito
procurados.
 -- Porque no mandais um mdico da schola? - sugeriu Joana.
 Arighis franziu o sobrolho. No estava habituado a ser
contrariado: como vicedominus, assistia-lhe o direito e o
dever de exercer controlo sobre todos os assuntos relacionados
com a casa papal e o seu pessoal - facto que este
estrangeirinho impertinente no percebia.
 - J prometi os vossos servios.
 Joana irritou-se com esta afirmao de autoridade; como
mdica pessoal de Srgio, em rigor, no estava sob a
autoridade de Arighis. Mas, no valia a pena discutir por
causa disso, alm disso, um pedido de ajuda com urgncia tem
de ser atendido, por muito inoportuno que fosse o momento da
sua chegada.
 - Est bem - assentiu Joana. - Vou buscar a minha mala de
medicamentos.
 Ao chegar  morada indicada, a Joana deparou-se com uma
grande casa, do estilo de uma velha domus romana. Um criado
guiou-a atravs de uma srie de ptios interligados e de um
jardim, at a uma cmara interior decorada prodigamente com
mosaicos brilhantemente coloridos, conchas encrostadas no
estuque e pinturas trompe l'oeil desenhadas para dar a iluso
de paisagens e quartos distantes. Esta sala fantstica exalava
um cheiro doce a mas maduras. Ao fundo da sala estava uma
grande cama, alumiada com velas, como um altar. No meio da
cama, estava deitada uma langorosa mulher numa pose langorosa.
Era a mulher mais bonita que Joana j tinha visto, mais bonita
do que Richild, ainda mais bonita do que a sua me, Gudrun,
que Joana, at quele momento, pensava ser a mulher mais bela
da Criao.
 - Eu sou Marioza.


 289


 A voz da mulher era de um mel lquido.
 - S-senhora - titubeou Joana, com a lngua presa diante de
tanta perfeio. - Eu sou Joo Anglicus e vim em resposta ao
vosso apelo.
 Marioza sorriu, satisfeita com a impresso que causava.
 - Aproximai-vos, Joo Anglicus - ordenou a voz melada.Ou
quereis examinar-me da?
 O cheiro a ma doce era mais forte perto da cama. Joana
pensou: conheo este cheiro. Mas, de momento, no foi capaz de
o identificar.
 Marioza tinha uma taa com vinho na mo.
 - No quereis beber  minha sade?
 Joana bebeu, por delicadeza, esvaziando o copo, como era
costume. De perto, Marioza era ainda mais bela. A sua pele era
de uma alvura marmrea, os seus olhos, enormes, com umas
rbitas de um violeta profundo, que as grandes pupilas negras
tornavam num negro de bano.
 Demasiado grandes, pensou a Joana subitamente. Uma dilatao
to grande das pupilas era realmente anormal. A observao
clnica quebrou o feitio da beleza de Marioza.
 - Dizei-me, senhora - Joana poisou o copo - o que vos
atormenta?
 - To belo e to atarefado? - suspirou ela.
 - Desejo ajudar-vos, senhora. Que aflio me chamou a vs
com tanta urgncia?
 - J que insistis,  o meu corao - disse Marioza,
visivelmente contrariada.
 Uma queixa fora de comum numa mulher da sua idade, pensou
Joana; Marioza no tinha mais do que vinte e dois anos. Bem,
sabia-se que havia casos daqueles, que havia crianas nascidas
sob uma m estrela, com um mal no corao que transformava
cada suspiro da sua breve existncia num tormento e numa
agonia. Mas aqueles que sofriam dessa aflio no tinham o
aspecco de Marioza cujo ser, para alm daquelas pupilas
misteriosamente dilatadas irradiava boa sade.
 Joana pegou no pulso de Marioza e sentiu-Lhe a palpitao
forte regular. Examinou as mos de Marioza. Tinham boa cor e a
ponta dos dedos era cor-de-rosa por baixo das unhas. A pele
reagia ao tacto, sem qualquer marca ou descolorao. Joana
examinou as pernas e os ps de Marioza com o mesmo cuidado,
voltando a no encontrar qualquer sinal de necrose; a
circulao de Marioza parecia saudvel e forte, assim como
todas as partes do corpo.


 290


 Marioza encostou-se s almofadas, com os olhos semicerrados.
 - Procurais o meu corao? - brincou ela. - No o
encontrareis a, Joo Anglicus!
 Abriu o robe de seda, mostrando o peito de uma brancura
marmrea.
 Benedicite. Pensou Joana. Esta deve ser a clebre Marioza, a
mais clebre hetaera ou cortes de toda a cidade de Roma!
Dizia-se que entre os seus clientes se encontravam alguns dos
homens mais importantes da cidade. Est a tentar seduzir-me,
percebeu Joana. O absurdo da situao provocou-lhe um sorriso.
 Interpretando mal o sorriso da Joana, Marioza sentiu-se
encorajada. Este padre no ia ser to difcil de seduzir como
Bento tinha dito quando requisitou os seus servios. Padre ou
no, Joo Anglicus era um homem e ainda no tinha nascido o
homem que fosse capaz de Lhe resistir.
 Com um desinteresse ostensivo, Joana concentrou-se na sua
consulta. Examinou as costas de Marioza,  procura de costelas
magoadas; a dor que um ferimento desses causava era
interpretada muitas vezes como um problema de corao. Marioza
no se queixou nem deu qualquer sinal de desconforto.
 - Tendes umas mos muito macias - disse ela, colocando-se
numa posio em que as curvas sedutoras do seu corpo se
notassem melhor. - Que mos macias e fortes.
 Joana virou-se para o lado direito.
 - A ma de Satans!
  mesmo de um padre, pensou a Marioza, falar de pecado num
momento destes. Bom, os padres no Lhe eram estranhos; sabia
como lidar com estas crises de conscincia de ltima hora.
 - No reprimais os vossos sentimentos, Joo, porque eles so
naturais, so um dom de Deus. No est escrito na Bblia que
os dois sero uma s carne! Na realidade, Marioza no tinha a
certeza se aquelas palavras se encontravam na Bblia, mas
achava que sim.; tinham-lhe sido ditas por um arcebispo, numa
situao muito semelhante quela.
 - Alm disso, - acrescentou ela - ningum saber nunca
daquilo que se passou aqui entre ns, a no ser ns prprios.
 Joana abanou a cabea com veemncia.
 - No era isso que eu queria dizer. O cheiro neste quarto -
 mandrgora - uma coisa a que se chama, s vezes, ma de
Satans.
 O fruto amarelo era um narctico; isso explicava as pupilas
dilatadas de Marioza.


 291


 - Mas, de onde vem o cheiro? - Joana cheirou uma vela que se
encontrava perto da cama. - O que fizestes, misturastes o sumo
com a cera da vela?
 Marioza suspirou. J tinha visto aquelas reaces em jovens
prelados virgens. Embaraados e inseguros, tentavam desviar a
conversa para um terreno mais seguro.
 - Vinde - disse ela - deixai o assunto das poes. H
maneiras melhores de passarmos o tempo.
 Passou a mo pela parte da frente da tnica de Joo
Anglicus,  procura dos seus rgos ntimos.
 Antes que ela l chegasse, Joana deu um salto para trs.
Cheirou a vela e agarrou a mo de Marioza com fora.
 - Ouve, Marioza. A mandrgora - que usas por causa das suas
qualidades afrodisacas - eu sei, tens de a deitar fora porque
o seu vapor  venenoso.
 Marioza franziu o sobrolho. Isto no estava a correr como
planeado. Ela tinha de conseguir arranjar maneira de desviar o
homem das suas doutorices.
 Ouviram-se passos no andar de baixo. No havia tempo para o
convencer. Agarrou a parte de cima do robe com ambas as mos e
rasgou-o de repente.
 - Oh! - gemeu ela - estou a sentir uma dor! Ouvi-me!
 Agarrou a cabea da Joana e encostou-a ao seu peito.
 Joana tentou afastar-se, mas Marioza agarrava-a com fora.
 - Oh, Joo - a voz dela era lquido puro - no posso
resistir ao poder da vossa paixo!
 A porta abriu-se de repente. Irromperam pela sala uma dzia
de guardas papais e agarraram Joana, levantando-a rudemente da
cama.
 - Ora, Padre, que forma estranha de dar a comunho! - disse
o chefe do grupo, troando.
 Joana protestou:
 - Esta mulher est doente; eu fui chamado aqui para a
tratar.
 O homem ironizava:
 - Claro, muitas mulheres tm sido curadas da infertilidade
com esse remdio.
 Uma exploso de riso fez tremer as paredes do quarto. Joana
disse a Marioza:
 - Dizei-lhes a verdade.
 Marioza encolheu os ombros, com o robe rasgado a
escorregar-Lhe dos ombros.
 - Eles viram-nos. Porque havemos de tentar neg-lo?


 292


 - Bem-vindo s hostes, Padre! - troou um dos guardas. - O
nmero dos amantes de Marioza deixariam o Coliseu a abarrotar!
 Esta afirmao foi saudada com outra exploso de
gargalhadas. Marioza juntou-se aos outros:
 - V, Padre.
 O chefe dos guardas pegou no brao de Joana, puxando-a para
a porta.
 - Para onde me levais? - perguntou Joana, apesar de saber a
resposta.
 - Para o Laterano. Ides ter de responder ao Papa por isto.
 Joana libertou-se da mo dele. E disse a Marioza:
 - No sei porque fizeste isto ou quem te mandou fazer, mas
aviso-te, Marioza: no faas depender a tua fortuna dos
favores dos homens porque eles so to efmeros como a tua
beleza.
 O riso de Marioza morreu-Lhe nos lbios.
 - Brbaro! - ripostou ela, com desprezo.
 Joana foi levada do quarto por entre uma onda de risos.
 Ladeada por guardas, Joana caminhou em silncio ao longo das
ruas escuras. No era capaz de sentir dio por Marioza. Joana
podia ter acabado como ela se o destino no a tivesse levado
para um caminho diferente. As ruas de Roma estavam cheias de
mulheres que se ofereciam por pouco mais do que o preo de uma
refeio. Muitas tinham chegado  Cidade Santa como piedosas
peregrinas, mesmo como freiras; quando se achavam sem abrigo
ou meios para comprar a passagem de regresso, voltavam-se para
uma alternativa j pronta. O clero vociferava contra estas
servas do Demnio, do alto dos seus plpitos. Diziam que era
melhor morrer casto do que viver no pecado. Mas eles nunca
tinham conhecido a fome, pensou Joana.
 No, Marioza no tinha culpa; ela era apenas um instrumento.
Mas, nas mos de quem? Quem ganhava em desacredit-la? Endio
e os outros membros da sociedade de medicina eram bem capazes
de recorrer a um expediente to srdido como aquele. Mas, eles
teriam concentrado os seus esforos em desacredit-la como
mdica.
 Ento, se no eram eles, quem era? A resposta surgiu-Lhe
imediatamente: Bento. Desde o negcio do Orphanotrophium que
ele tinha ficado ressentido com ela, ciumento da sua
influncia sobre o irmo. A ideia animou-a; pelo menos, sabia
quem era o inimigo. Alm disso, no tencionava deixar Bento
escapar daquela. Era verdade que ele era o irmo de Srgio,
mas ela era amiga dele; faria com que ele visse a verdade.


 293


 Ao chegar ao Laterano, Joana ficou desanimada ao ver que os
guardas no passaram pelo triclinium, onde Srgio estava a
jantar com os amigos e com outros altos funcionrios da corte
papal, levando-a directamente para os aposentos de Bento.
 - Bem, bem. O que temos ns aqui? - disse Bento, em tom
trocista, quando Joana e os guardas entraram. - Joo Anglicus
rodeado de guardas como um vulgar ladro?
 E disse ao chefe dos guardas:
 - Falai, Tarasius, e dizei-me qual a natureza do crime deste
padre.
 - Meu senhor, prendemo-lo nos aposentos de Marioza, a
prostituta.
 - Marioza! - Bento fingiu um ar de grave desaprovao.
 - Encontrmo-lo na cama da prostituta, enrolado no seu
abrao - acrescentou Tarasius.
 - Foi uma armadilha - disse Joana. - Fui l chamado sob o
pretexto falso de que Marioza precisava de ser consultada por
um mdico. Ela sabia que os guardas iam aparecer e abraou-me
no momento em que eles iam a entrar.
 - Esperais que eu acredite que tenhais sido dominado por uma
mulher? Tende vergonha, falso padre!
 - A vergonha  para vs, Bento, no para mim - respondeu
Joana, agastada. - Fostes vs que engendrastes isto tudo para
me desacreditar. Tratastes de fazer com que Marioza me
chamasse, fingindo estar doente, depois, mandastes os guardas,
sabendo que eles nos iriam encontrar juntos.
 - Reconheo-o.
 A confisso apanhou Joana desprevenida.
 - Confessais a vossa artimanha?
 Bento pegou numa taa com vinho e bebeu, saboreando-a.
 - Sabendo que no sois casto e no me agradando ver trada a
confiana que o meu irmo deposita em vs, procurei prova da
vossa perfdia,  tudo.
 - Eu no sou incasto, nem tendes qualquer motivo para o
pensar de mim.
 - No sois incasto? - troou Bento. - Dizei-me como o haveis
encontrado, Tarasius.
 - Meu senhor, ele estava deitado com a libertina na cama
dela e ela estava nua nos seus braos.
 - Imaginai como o meu irmo vai ficar desgostoso quando
ouvir um testemunho to danoso - ainda para mais, depois da
grande confiana que ele depositou em vs!


 294


 Joana apercebeu-se pela primeira vez da gravidade da
situao.
 - No faais isto - disse ela. - O vosso irmo precisa de
mim porque ainda no est livre de perigo. Sem cuidados
mdicos adequados, ele sofrer outro ataque - e o prximo pode
mat-lo.
 - Endio tratar do meu irmo daqui para a frente -
retorquiu Bento, num tom seco. - As vossas mos pecaminosas j
Lhe fizeram mal que baste.
 - Eu fiz-lhe mal? - O ultraje que Joana sentiu obliterou a
sua rstia de controlo. - Atreveis-vos a dizer que eu... vs,
que haveis sacrificado o vosso irmo  vossa prpria inveja e
ganncia?
 Sentiu o rosto molhado; Bento tinha-lhe atirado com o
contedo da taa  cara. O vinho forte ardia-lhe nos olhos,
fazendo correr as lgrimas; correu-lhe tambm pela garganta,
engasgando-a e fazendo-a cuspir.
 - Levai-o para o calabouo - ordenou Bento.
 - No!
 Joana libertou-se dos guardas com um grito agudo. Tinha de
chegar ao p de Srgio antes que Bento o envenenasse contra
ela. Correu apressadamente pela sala, a caminho do triclinium.
 - Agarrai-o! - gritou Bento.
 O barulho dos passos dos guardas soava atrs dela. Joana
dobrou uma esquina e correu desesperadamente na direco das
luzes que brilhavam no triclinium.
 Estava a poucos passos da entrada quando a agarraram e
atiraram ao cho. Ela tentou levantar-se, mas os guardas
ataram-Lhe os braos e as pernas. Indefesa, levaram-na.
 Transportaram-na por corredores desconhecidos e por escadas
que desciam to fundo e to longe que Joana comeou a pensar
se teriam fim. Finalmente, os guardas pararam diante de uma
porta em madeira macia, trancada com uma barra em ferro;
levantaram o ferrolho e a porta abriu-se, rangendo. Puseram
Joana de p e atiraram-na l para dentro. Ela caiu numa
escurido hmida e ficou com os ps dentro de gua. A porta
fechou-se com um estrondo aterrador e a escurido tornou-se
absoluta.
 Os passos dos guardas afastaram-se pelo corredor abaixo.
Joana levantou-se de braos estendidos, tacteando na
escurido. Tocou no seu saco - no se tinham lembrado de Lho
tirar, o que era uma pequena bno. Meteu a mo dentro do
saco, sentindo os vrios pacotes e frasquinhos, reconhecendo
cada um deles pela forma e o tamanho. Finalmente, encontrou o
que procurava - a caixa com o seu slex e o pequeno coto de
vela que ela usava para aquecer as suas poes.


 295


Pegou no slex e raspou-o no lado da caixa em metal, lanando
fascas ao pavio seco. Ele acendeu rapidamente. Ela chegou a
vela  chamazinha, que se tornou mais firme, espalhando a sua
luz amarela em volta dela, num suave elo.
 A luz brilhou, trmula, na escurido, revelando sombras e
contornos incertos. A cela era grande. Tinha cerca de trinta
ps de comprimento e vinte de largo. As paredes eram em pedra,
suja e escurecida pelos anos. Pelo aspecto escorregadio do
cho, Joana adivinhou que ele tambm fosse em pedra, apesar de
ser impossvel ter a certeza porque estava coberto com vrias
camadas de gua lamacenta e estagnada.
 Ela levantou mais a vela, espalhando o seu crculo de luz.
Num canto mais afastado, descortinou uma sombra - uma forma
humana, plida e etrea como um fantasma.
 No estou sozinha. Sentiu-se aliviada, mas, depois,
imediatament assustada. Afinal, aquele era um lugar de
castigo. Seria um louco ou um assassino - ou talvez ambas as
coisas?
 - Dominus tecum - disse ela, a medo.
 O homem no respondeu. Ela repetiu a saudao em vernculo
acrescentando:
 - Eu sou Joo Anglicus, padre e mdico. Posso fazer alguma
coisa por vs, Irmo?
 O homem estava sentado, encostado  parede, com os braos e
as pernas afastadas. Joana aproximou-se. A luz da vela bateu
na cara do homem - mas, no era uma cara, era uma caveira, uma
cabea de um morto horrenda, com pedaos de carne podre e de
cabelos.
 Com um grito, Joana afastou-se e correu, chapinhando, para
porta. Bateu na porta pesada.
 - Tirem-me daqui!
 Bateu at ficar com os pulsos em carne viva.
 Ningum respondeu. No apareceu ningum. Iam deix-la ali
morrer na escurido.
 Cruzou os braos, tentando parar de tremer. Lentamente, a
onda de terror e de desespero comeou a abrandar. Sentiu
crescer dentro de si outro sentimento - uma determinao
teimosa em sobreviver, em lutar contra a injustia que a tinha
posto ali. A mente, temporariamente embotada pelo medo, voltou
a comear a raciocinar. No posso perder a esperana, pensou
ela, resolutamente. Srgio no deixar que eu fique neste
calabouo para sempre. Primeiro ficar furioso, quando ouvir a
verso de Bento acerca daquilo que teceu com Marioza,


 296


mas, ao fim de alguns dias, vai acalmar e vai mandar
chamar-me. Tenho de esperar at l. Comeou a andar
cuidadosamente  volta da cela. Encontrou os restos de mais
trs presos, mas, desta vez, j estava preparada e eles no
eram to assustadores como o primeiro porque os seus ossos h
muito que tinham perdido qualquer vestgio de carne. A sua
explorao tambm a levou a fazer uma descoberta importante:
um dos lados da cela era mais alto do que o outro, do lado
mais alto, a gua lamacenta parava antes de chegar ao p da
parede, deixando uma longa faixa de cho seco. Encostado 
parede, estava um cobertor em l rasgado, cheio de buracos,
mas, mesmo assim, uma proteco til contra o frio penetrante
da cmara subterrnea. No outro canto da sala, encontrou outra
coisa, um colcho em palha ensopado de gua. Era grosso e
estava bem feito. Estava to cheio que a sua parte de cima
ainda estava seca. Joana arrastou-o para o lado mais alto da
sala e sentou-se, poisando a vela ao lado. Abriu o saco e
tirou um pouco de helboro, espalhando o p preto venenoso 
sua volta, num crculo amplo, uma linha traada contra os
ratos e outros vermes. Depois, pegou num pacote de p de raiz
de carvalho e noutro com salva seca, esmagou-a e deitou-a num
frasquinho com vinho misturado com mel. Virando cuidadosamente
o frasquinho com o lquido precioso, bebeu um trago para
resistir aos humores negativos daquele lugar. Depois,
deitou-se no colcho, apagou a vela e cobriu-se com o cobertor
rasgado. Ficou imvel na escurido. Tinha feito tudo o que
era possvel de momento. Agora, tinha de descansar e poupar as
suas foras, at chegar a hora de Srgio a mandar chamar.


 297


 @21


 Era a Festa da Ascenso e a celebrao do dia ia ser na
Igreja titular de So Prassede. Apesar de o Sol mal ter
acabado de nascer, os fiis j estavam reunidos, enchendo de
movimento, cor e conversas a rua do Patriarchum.
 As enormes portas em bronze do Patriarchum abriram-se,
finalmente. Os primeiros a aparecerem foram os aclitos e
outros clrigos com ordens menores, que saram a p,
humildemente. Seguia-se-lhes um grupo de guardas a cavalo, que
olhavam atentamente para a multido,  procura de potenciais
agitadores. Atrs deles, apareceram os diconos e notrios das
sete regies eclesisticas, cada um deles precedido por um
clrigo ostentando o estandarte com os siIna da sua regio.
Depois, vinha o arcebispo e o primicerius dos defensores,
seguido pela sua irmandade.
 Finalmente, apareceu o papa Srgio, revestido com um manto
magnfico, adornado a ouro e prata, montado num cavalo enorme,
arreado com seda branca. Imediatamente a seguir, vinham os
optimates, os principais dignitrios da administrao papal,
por ordem de importncia: Arighis, o vicedominus e depois o
vestiarius, o sacellarius e o nomenclator.
 O longo cortejo atravessou o ptio do Laterano, evoluindo
com uma dignidade solene. Passou pela esttua em bronze da
loba, mater romanorum, ou me dos romanos, que os antigos
acreditavam ter amamentado Rmulo e Rmulo. A esttua tinha
ocasionado bastante controvrsia porque havia quem dissesse
que era uma blasfmia que estivesse uma pea de idolatria pag
diante dos muros do palcio papal, enquanto outros a defendiam
com igual paixo, louvando a sua beleza e a excelncia da sua
arte.
 Ao passar por trs da loba, a procisso virou para norte,
passando por baixo do grande arco do aqueduto de Cludio, com
o seu belo trabalho em pedra, na direco da velha Via Sacra,


 298


a estrada sagrada que os papas tinham atravessado desde tempos
imemoriais.
 Srgio pestanejou por causa dos raios de sol. Doa-lhe a
cabea e o balano ritmado do seu cavalo estava a p-lo tonto,
agarrou-se s rdeas para se endireitar.  o preo que pago
pela gula, pensou ele, penitenciando-se. Tinha voltado a
pecar, empanturrando-se com comida e vinho abundantes. Com
remorsos da sua fraqueza, Srgio resolveu - pela vigsima vez
naquela semana - regenerar-se.
 Pensou em Joo Anglicus com um baque de arrependimento.
Sentia-se muito melhor quando o padre estrangeiro era mdico
dele. Mas, claro que era impensvel mand-lo regressar, depois
daquilo que ele tinha feito. Joo Anglicus era um pecador
detestvel, um padre que tinha quebrado o mais sagrado de
todos os votos.
 - Deus abenoe o Senhor Papa!
 A multido rejubilante voltou a chamar Srgio  realidade.
Fez o sinal da cruz, abenoando-os e lutando contra o enjoo, 
medida que a procisso evolua com uma dignidade solene,
percorrendo a linha estreita da Via Sacra.
 Tinham acabado de passar pelo Mosteiro de Honrio quando se
espalhou a confuso entre a multido. Um homem a cavalo vinha
na sua direco. O cavalo e o cavaleiro tinham sido sujeitos a
um grande esforo, o cavalo espumava da boca, os seus quadris
estavam agitados. As roupas do cavaleiro estavam rasgadas e o
seu rosto negro, como o dos sarracenos, coberto de p da
estrada. Ele puxou as rdeas do cavalo e apeou-se  frente do
cortejo.
 - Como vos atreveis a interromper este cortejo sagrado? -
perguntou o arcebispo Eustcio, indignado. - Guardas, levai
este homem e flagelai-o. Cinquenta chicotadas ensin-lo-o a
ter mais respeito!
 - Ele... vem...
 O homem estava to ofegante que as suas palavras mal se
percebiam.
 - Esperai - disse Srgio, detendo os guardas. - Quem vem l?
 - Lothar - disse o homem.
 - O Imperador? - perguntou Srgio, espantado.
 O homem confirmou com um aceno de cabea:
 -  frente de um exrcito enorme de francos. Santidade, ele
jurou vingana de sangue contra vs e esta cidade por causa do
agravo cometido contra ele.
 Ouviu-se um murmrio de consternao entre a multido.
 - Agravo?


 299


 Por um momento, Srgio no foi capaz de compreender o que
isto poderia significar. Depois, lembrou-se.
 - A consagrao!
 Aps a eleio de Srgio, a cidade tinha avanado com a
cerimnia consecratria sem esperar pela aprovao do
imperador. Isto constitua uma grave violao da carta de 824,
que concedia a Lothar o direito de jussio imperial, ou
ratificao, de um papa eleito antes da consagrao. Apesar
disso, o passo dado tinha sido muito aplaudido porque as
pessoas encaravam-no como uma reafirmao orgulhosa da
independncia romana face  longnqua coroa franca. Foi um
desrespeito claro e deliberado por Lothar, mas, como a jussio
era mais simblica do que efectiva - porque o imperador nunca
tinha deixado de confirmar um papa eleito - ningum acreditou
que Lothar fizesse fosse o que fosse.
 - Onde est o imperador? - a voz de Srgio no passava de um
sussurro.
 - Em Viterbo, Santidade.
 Esta notcia foi recebida com gritos de alarme. Viterbo
fazia parte da regio rural romana, ficando apenas a dez dias
de caminho de Roma.
 - Meu senhor, ele  uma praga sobre a terra - a lngua do
homem soltou-se, agora que tinha recuperado o flego - os seus
soldados saqueiam tudo quanto encontram, pilham as quintas,
levam todos os vveres, arrancam as vinhas pela raiz. Levam o
que querem e o que no querem, queimam-no. Matam sem piedade
aqueles que se lhes atravessam no caminho - mulheres, velhos,
crianas de colo - no poupam ningum.  um horror - a sua voz
quebrou-se - um horror que no se pode imaginar.
 Aterrado e inseguro, o povo olhou para o Papa. Mas, no
puderam encontrar nele qualquer conforto. Diante dos olhos
horrorizados dos romanos, o rosto de Srgio empalideceu, os
olhos reviraram-se e caiu para a frente, desmaiado.
 - Oh, morreu!
 O grito de lamento ecoou numa dzia de outras lnguas. Os
guardas papais apressaram-se a ladear Srgio, apeando-o do
cavalo e levando-o para o Patriarchium. O resto do cortejo
seguiu atrs dele.
 A multido assustada apinhou-se no ptio, ameaando entrar
num pnico perigoso. Os guardas avanaram com chicotes e
espadas, dispersando-os pelas vielas estreitas e escuras, a
caminho do terror solitrio das suas casas.


 300


 * * *


 O pnico e a agitao aumentaram quando os refugiados
comearam a entrar pelas portas da cidade, provenientes do
campo em redor, de Farfa e Narni, Laurentum e Civitavecchia.
Vinham em grupos, com as suas magras posses s costas, com os
mortos empilhados em carruagens. Todos contavam histrias
parecidas sobre a depredao e a selvajaria franca. Estes
relatos aterradores estimularam o esforo da cidade em
fortalecer as suas defesas: os romanos trabalhavam dia e
noite, com toda a energia, para retirar as camadas de terra
que se tinham acumulado junto s muralhas da cidade, ao longo
dos sculos, e que facilitavam a entrada ao inimigo.
 Os sacerdotes da cidade estavam ocupados desde a hora prima
at s vsperas, rezando missa e ouvindo confisses. As
igrejas estavam cheias a rebentar pelas costuras, com as
fileiras de fiis engrossadas por uma multido de caras
desconhecidas - porque o medo tinha transformado muitos
cristos pouco convictos em crentes fervorosos. Acendiam
velas, piedosamente, e erguiam a voz em oraes pela segurana
dos seus lares e das suas famlias - e pelas melhoras de
Srgio, que estava doente e do qual dependia toda a sua
esperana. Que Deus d foras ao nosso Senhor Papa, rezavam
eles, porque era certo que ele iria precisar de muita fora
para salvar Roma do demnio Lothar.
 A voz de Srgio ergueu-se e entoou as melodias fluidas do
canto romano, mais sincera e suave do que a de qualquer outro
rapaz daschola cantorum. O mestre do canto sorriu com um tom
aprovador. Encorajado, Srgio cantou ainda mais alto, com a
sua voz de soprano subindo cada vez mais, num xtase gozoso,
chegando a acreditar por instantes que ela o elevaria a ele
prprio at ao Cu.
 O sonho terminou e Srgio acordou. O medo, vago e
indefinido, enchia a sua mente, fazendo o seu corao bater
mais depressa, sem ele perceber porqu.
 Lembrou-se, com uma nusea.
 Lothar.
 Sentou-se. A cabea latejava-lhe e a boca sabia-lhe mal.
 - Celestino! - a sua voz rangeu como a de uma dobradia
enferrujada.
 - Santidade!
 Celestino levantou-se do cho, ensonado. Parecia um querubim
celestial, com as suas bochechas de um rosado suave, os seus
olhos redondos infantis e o seu cabelo louro comprido.


 301


Tinha dez anos e era o mais jovem dos cubicular, o pai de
Celestino era um homem muito influente na cidade, por isso ele
tinha vindo para o Laterano mais cedo do que a maioria. Bem,
pensou Srgio, no  mais jovem do que eu era quando me
tiraram de casa dos meus pais.
 - Trazei-me o Bento - ordenou ele. - Quero falar com ele.
 Celestino acenou com a cabea e apressou-se, abafando um
bocejo.
 Um dos servos da cozinha entrou com uma bandeja com po e
presunto. Srgio no devia quebrar o jejum seno depois de ter
celebrado a missa - porque as mos que tocavam nos dons
eucarsticos tinham de estar libertas de qualquer mancha
mundana. Mas, em privado, estas delicadezas de forma eram
frequentemente desrespeitadas - especialmente, com um papa com
um apetite to prodigioso.
 Mas, esta manh, o cheiro do presunto enjoou Srgio. Afastou
o tabuleiro.
 - Levai isto daqui.
 Entrou um notrio e anunciou:
 - Sua Graa, o Arcipreste, espera por vs no triclinium.
 - Ele que espere - respondeu Srgio, num tom seco. -
Primeiro, falarei com o meu irmo.
 O bom senso de Bento, neste caso, tinha-se revelado til.
Tinha sido sua a ideia de tirar dinheiro do tesouro papal para
comprar Lothar. Cinquenta mil soldos em ouro deviam ser
suficientes para suavizar o orgulho ferido, mesmo que fosse o
de um imperador.
 Celestino voltou, no com Bento, mas com Arighis, o
vicedominus.
 - Onde est o meu irmo? - perguntou Srgio.
 - Foi-se embora, Santidade - respondeu Arighis.
 - Foi-se embora?
 - Ivo, o porteiro, viu-o partir antes do nascer do Sol com
perto de uma dzia de subordinados. Pensmos que sabeis.
 Srgio sentiu a blis subir-lhe  boca.
 - O dinheiro?
 - Bento recolheu-o na noite passada. Havia onze cofres. Ele
tinha-os consigo quando partiu.
 - No!
 Mas, no prprio momento em que estava a pronunciar a
palavra, Srgio sabia que era verdade. Bento tinha-o trado.
 Estava indefeso. Lothar viria e no havia nada, nada que
Srgio pudesse fazer para o deter.
 Sentiu uma onda de nuseas. Encostou-se  cama, esvaziando
para o cho o contedo azedo do seu estmago.



 302


Tentou levantar-se, mas no foi capaz, sentia uma dor nas
pernas que o imobilizava. Celestino e Arighis correram a
ajud-lo, levantando-o. Encostando a cara  almofada, Srgio
comeou a chorar perdidamente, como uma criana.
 Arighis virou-se para Celestino e disse:
 - Ficai com ele. Eu vou aos calabouos.
 Joana ficou a olhar para a malga de comida  sua frente.
Havia uma crostazinha de po duro e alguns pedaos de carne
cinzenta, com vermes, o cheiro a podre entrou-lhe pelas
narinas. J no comia h alguns dias porque os guardas, quer
fosse por desleixo, quer fosse propositadamente, no lhe
traziam comida todos os dias. Ficou a olhar para a carne, com
a fome a lutar com o juzo. Acabou por afastar a malga.
Pegando na crosta de po, deu-lhe uma pequena dentada,
mastigando-a lentamente, para durar mais.
 H quanto tempo estava ali? Havia duas semanas? Trs? Estava
a comear a perder a noo do tempo. A escurido permanente
desorientava-a. Tinha poupado a vela, acendendo-a apenas para
comer ou para preparar medicamentos, que tirava do saco. Mesmo
assim, a vela estava reduzida a um pequenino coto de cera, que
s chegava para mais uma ou duas horas de luz preciosa.
 Mais terrvel ainda do que a escurido era a solido. O
silncio total e constante enervava-a. Para se manter lcida,
Joana imps-se a si prpria uma srie de tarefas mentais:
recitar de cor toda a Regra de So Bento, os cento e cinquenta
salmos e o Livro dos Actos dos Apstolos. Mas, estas tarefas
de memria rapidamente se tornaram demasiado rotineiras para
manter a sua ateno vigilante.
 Lembrava-se como o grande telogo Bocio, que tambm tinha
estado preso, tinha encontrado foras e consolo na orao.
Ajoelhava-se durante horas na pedra fria do cho da cela,
tentando rezar. Mas, no sentia nada no fundo do seu ser,
seno vazio. A semente da dvida, plantada na sua infncia
pela sua me, tinha criado razes na sua alma. Ela tentou
arranc-las, erguer-se para a luz da graa, mas no era capaz.
Deus estaria a ouvir? Ser que Ele existia, sequer? Comeou a
perder a esperana,  medida que os dias passavam sem notcias
de Srgio.
 Deu um salto ao ouvir um rudo metlico, quando algum abriu
a tranca da porta. Pouco depois, a porta abriu-se para trs,
lanando luz na escurido. Protegendo os olhos da luz, Joana
aproximou-se da entrada. Viu a silhueta de um homem contra a
luz.
 - Joo Anglicus? - perguntou ele, inseguro, na escurido.


 303


 Reconheceu imediatamente a voz.
 - Arighis! - disse Joana, aliviada, quando se levantou e se
encaminhou por cima da gua estagnada na direco do
vicedominus papal. - Vindes da parte de Srgio?
 Arighis abanou a cabea.
 - Sua Santidade no deseja ver-vos.
 - Ento, porqu...?
 - Ele est muito doente. Em tempos, destes-lhes remdios que
o ajudaram, tendes algum convosco, agora?
 - Tenho.
 Joana pegou num pacote com p de clquico, que tinha no
saco. Arighis estendeu a mo para lhe pegar, mas Joana recuou.
 - O que foi? - perguntou Arighis. - Odiais o Papa assim
tanto? Cuidado, Joo Anglicus! Desejar mal ao Vigrio
escolhido por Cristo  colocar a vossa alma imortal em perigo
grave.
 - Eu no o odeio - disse Joana, com sinceridade. Srgio no
era mau homem, ela sabia-o bem, era apenas fraco e demasiado
confiante no seu irmo venenoso. - Mas, no entrego este
remdio em mos sem conhecimentos. Ele tem muito poder e o seu
mau uso pode ser fatal.
 Isto no era inteiramente verdade porque o p de raiz no
era to forte como ela tinha dito, seria necessria uma dose
muito grande para causar algum mal. Mas, era a sua nica
oportunidade de alcanar a liberdade, no deixaria que a porta
voltasse a fechar-se.
 - Alm disso, - acrescentou ela - como hei-de saber se
Srgio sofre da mesma doena que tinha antes? Para curar Sua
Santidade, tenho que o ver primeiro.
 Arighis hesitou. Libertar o preso seria um acto de
insubordinao, uma desobedincia directa a uma ordem do
Senhor Papa. Mas, se Srgio morresse com o imperador franco s
portas, o papado, a prpria cidade de Roma, podiam perecer.
 - Vinde - disse ele, decidindo de repente. - Vou levar-vos a
Sua Santidade.
 Srgio estava encostado s fofas almofadas de seda da cama
papal. O auge da dor j tinha passado, mas tinha-o deixado
exausto e fraco como um gatinho recm-nascido.
 A porta do quarto abriu-se e Arighis entrou, seguido de Joo
Anglicus.
 Srgio comeou a dizer, num tom violento:
 - O que est este pecador a fazer aqui?


 304


 Arighis disse:
 - Veio com um remdio poderoso, que restabelecer a vossa
sade.
 Srgio abanou a cabea:
 - A verdadeira medicina vem de Deus. A graa da Sua cura no
ser transmitida atravs de um meio to impuro.
 - Eu no sou impuro - protestou Joana. - Bento mentiu-vos,
Santidade.
 - Estveis na cama da prostituta - replicou Srgio num tom
acusador. - Os guardas viram-vos.
 - Eles viram o que era suposto verem, o que lhes tinham dito
para observarem - replicou Joana. Explicou rapidamente como
Bento tinha conspirado para a apanhar numa armadilha.
 - Eu no queria ir l - disse ela -, mas Arighis insistiu.
 -  verdade, Santidade. - confirmou Arighis. - Joo Anglicus
pediu se eu no podia mandar um dos outros mdicos. Mas, Bento
tinha insistido que devia ser Joo Anglicus e no outro a ir.
 Srgio ficou muito tempo em silncio. Finalmente, disse numa
voz sumida:
 - Se isso  verdade, fostes gravemente prejudicado.
 Caindo em desespero, disse:
 - A vinda de Lothar  o castigo de Deus por todos os meus
pecados!
 - Se Deus quisesse castigar-vos, encontraria uma maneira
mais fcil de o fazer - disse Joana. - Porque haveria de
sacrificar a vida de milhares de inocentes, quando vos poderia
abater com um s golpe?
 Srgio foi apanhado de surpresa. Isto no lhe tinha
ocorrido, em virtude do alto conceito de si mesmo, tpico dos
poderosos.
 - A vinda de Lothar no  um castigo - prosseguiu Joana. - 
uma prova, uma prova  f. Tendes de guiar o povo com a fora
do vosso exemplo.
 - Estou doente no corpo e no esprito. Deixai-me morrer.
 - Se morrerdes, a vontade do povo morrer convosco. Tendes
de ser forte, por causa deles.
 - Que diferena faz? - disse Srgio, desesperado. - No
podemos vencer as foras de Lothar, seria preciso um milagre.
 - Ento - disse a Joana com firmeza - temos de fazer um.


 No dia seguinte ao Domingo de Pentecostes, a data em que se
previa que Lothar chegasse, a piazza diante da Baslica de So
Pedro comeou a encher-se com membros das vrias scholae da
cidade, vestidos com os seus melhores fatos.


 305


Lothar no tinha feito uma declarao formal de hostilidade,
portanto tinha sido planeada uma recepo em consonncia com
uma personagem de to alto gabarito. A demonstrao inesperada
de boas-vindas talvez o desarmasse durante o tempo suficiente
para pr em execuo a segunda parte do plano de Joana.
 A meio da manh, estava tudo pronto. Srgio deu sinal e o
primeiro grupo, os judices, avanou com os estandartes
amarelos ostentando as suas insgnias flutuando por cima das
suas cabeas. Atrs deles, avanaram os defensores e os
diconos, depois, a p, as vrias sociedades de estrangeiros -
frgios, francos, saxnios, lombardos e gregos. Encorajavam-se
uns aos outros,  medida que desciam a Via Triumphalis,
passando pelos esqueletos decadentes dos templos pagos que
ladeavam a via antiga.
 Deus lhes permita que no estejam a caminhar para a morte,
pensou Joana. Depois, virou-se para Srgio. Ele tinha
melhorado muito nos ltimos dias, mas estava longe de estar
bem. Ser que ele iria aguentar aquele dia? Joana falou com um
camareiro, que foi buscar uma cadeira, na qual Srgio se
sentou agradecido. Joana deu-Lhe um pouco de sumo de limo
misturado com mel para o fortalecer.
 Agora, cinquenta dos homens mais poderosos de Roma estavam
reunidos  entrada da baslica: eram todos funcionrios
superiores da administrao do Laterano, um grupo escolhido
de cardeais-presbteros, duques e prncipes da cidade,
juntamente com o seu squito.
 O arcipreste Eustcio guiou-os numa breve orao e, depois,
ficaram todos em silncio. No havia mais nada a fazer seno
esperar.
 Com rostos crispados, no tiravam os olhos do ponto da
estrada onde ela se perdia de vista por trs das sebes e
prados da plancie de Nero.
 O tempo passava com uma lentido insuportvel. O Sol subia
num cu sem nuvens. A brisa da manh abrandou, depois, morreu,
fazendo com que os estandartes pendessem das suas hastes.
Enxames de moscas comearam a voar em torno das cabeas,
zumbindo no ar silencioso.
 Tinham passado mais de duas horas desde que o cortejo tinha
sado. J deviam ter voltado!
 Comeou a ouvir-se um leve rudo  distncia. Eles apuraram
o ouvido. O barulho voltou a ouvir-se, contnuo e inequvoco -
o som de vozes distantes, que cantavam.
 - Deo gratias - suspirou Eustcio, quando se viram os
estandartes dos judices a flutuar, emergindo do horizonte
verde como velas amarelas sobre o mar.


 306


Momentos depois, apareceram os primeiros cavaleiros, seguidos
por membros das vriasscholae, a p. Atrs deles marchava uma
multido escura, que se espraiava at onde a vista alcanava -
o exrcito de Lothar. Joana susteve a respirao, nunca tinha
visto um exrcito to grande.
 Srgio levantou-se, apoiando-se no seu bculo. A vanguarda
do cortejo dirigiu-se para a baslica e abriu alas, deixando
uma passagem para o imperador.
 Lothar passou pelo meio. Ao olhar para ele, Joana era bem
capaz de acreditar nas histrias de uma crueldade brbara que
o tinham precedido. Era atarracado, possua um pescoo grosso
e uma cabea macia, o seu rosto era rude e achatado e os
seus olhos pequenos deixavam transparecer uma inteligncia
malvola.
 Os dois grupos rivais enfrentaram-se, um escuro e enlameado
por causa dos rigores da estrada, o outro impoluto e brilhando
nas suas vestes alvas de clrigos. Por trs de Srgio, o
telhado de So Pedro erguia-se brilhando, com as suas placas
em prata reluzindo  luz da manh - o corao espiritual da
Igreja, o farol do mundo, o santurio mais sagrado de toda a
Cristandade. Diante de tal grandeza, at os imperadores se
curvavam.
 Lothar desmontou, mas no se ajoelhou para beijar o degrau
da baslica, costume que demonstrava reverncia. Limitou-se a
subir as escadas, seguido por um grupo de homens armados. Os
prelados que estavam reunidos diante das portas abertas da
baslica recuaram assustados, a guarda papal rodeou Srgio
para o proteger, com as mos sobre as espadas.
 De repente, as portas da baslica de So Pedro rangeram e
comearam a fechar-se. Lothar deu um salto para trs. Os seus
homens pegaram nas suas espadas, depois, ficaram espantados,
olhando de um lado para o outro. Mas, no havia ali ningum.
As portas moveram-se lentamente nos seus gonzos, como que
empurradas sobrenaturalmente. Depois, fecharam-se com um
estrondo final e definitivo.
 Agora, Joana desejou que Srgio agisse. Como se tivesse
ouvido a sua ordem silenciosa, ele levantou-se, estendendo os
braos num tom dramtico. O homem fraco e doente de alguns
dias antes tinha desaparecido, no seu camelaucum branco e nas
suas vestes douradas, parecia imponente, majesttico.
 Falou em franco, para ter a certeza que os soldados de
Lothar compreenderiam:
 - Eis a mo de Deus - entoou ele, solenemente -, que
protegeu o mais sagrado dos Seus altares contra vs.


 307


 Os homens de Lothar gritaram assustados. O imperador no
saiu de onde estava, desconfiado.
 Agora, Srgio comeou a falar em latim:
 - Si pura mente et prosalute Reipublicae huc advenisti... Se
viestes  repblica com uma mente pura e com boas intenes,
entrai, sede bem-vindo, se no, ento nenhum poder terreno vos
abrir estas portas.
 Lothar hesitou, ainda desconfiado. Srgio tinha operado um
milagre? Ele duvidava, mas, no podia ter a certeza: os
caminhos de Deus eram misteriosos. Alm disso, a sua posio,
agora, estava consideravelmente enfraquecida porque os seus
homens, aterrados, tinham cado de joelhos, com as espadas a
carem-lhe das mos.
 Com um sorriso artificial, Lothar abriu os braos a Srgio.
Os dois homens oscularam-se, com os lbios encontrando-se no
beijo formal da paz.
 - Benedictus qui venit in nomine Domini - cantou o coro,
rejubilante. - Bendito o que vem em nome do Senhor.
 As portas comearam a mover-se novamente. Os painis
cobertos a prata comearam a abrir-se, perante os olhos
abismados de todos. De brao dado, com os rejubilantes sons do
Hosana a soarem-Lhes aos ouvidos, Srgio e Lothar entraram na
baslica para rezar diante do sepulcro do Abenoado Apstolo.
 As dificuldades com Lothar ainda no tinham terminado -
ainda era preciso apresentar explicaes, pedir desculpas,
negociar vantagens, fazer concesses. Mas, o perigo imediato
tinha sido afastado. Joana pensou em Geraldo e em como ele
teria ficado divertido se tivesse visto a forma como ela tinha
utilizado o seu truque hidrulico com a porta. Lembrou-se
dele, dos seus olhos azuis cheios de humor, da sua cabea
deitada para trs numa gargalhada generosa de que ela se
lembrava to bem.
 Estranho, como so as coisas do corao! Era possvel passar
anos e anos habituada  perda, reconciliada com ela e, depois,
num momento de fraqueza, a dor reaparecia, aguda e crua, como
de uma ferida aberta.


 308


 @22


 Geraldo suspirou de alvio quando desceu, juntamente com
os seus homens, a ltima encosta do Monte Cenis. Com os Alpes
atrs deles, a parte pior da viagem j estava terminada. A Via
Francigena estendia-se  frente deles, abenoadamente plana e
bem conservada, uma vez que ainda mantinha o seu velho
pavimento em pedra, lanado pelos romanos em tempos
imemorveis.
 Geraldo ps o cavalo a trote. Talvez agora conseguissem
recuperar o tempo que tinham perdido. Um nevo fora da poca
tinha tornado a estreita passagem alpina extremamente
perigosa, tinham morrido dois homens quando as suas montadas
perderam o p no cho escorregadio, levando os cavalos e os
cavaleiros  morte. Geraldo tinha-se visto forado a parar at
as condies melhorarem, o atraso aumentara ainda mais a
distncia entre eles e a vanguarda do exrcito imperial, que,
agora, j devia estar prximo de Roma.
 No importava, Lothar no iria sentir a sua falta. Esta
diviso da retaguarda era constituda apenas por duzentos
homens - senhores e pequenos latifundirios que tinham chegado
tarde  inspeco primaveril, no Campo de Marte. Era um
comando insultuoso para um homem da envergadura de Geraldo.
 Nos trs anos seguintes  Batalha de Fontenoy, a relao de
Geraldo com o imperador Lothar ia de mal a pior. Lothar
tinha-se tornado cada dia mais tirnico, fazendo-se rodear de
seguidores bajuladores que passavam a vida a lisonje-lo. Ele
no tinha qualquer tolerncia para sbditos como Geraldo, que
continuavam a manifestar as suas opinies de forma honesta -
como, por exemplo, quando ele o tinha desaconselhado da
presente expedio romana.


 309


 - As nossas tropas so necessrias na costa da Frgia -
tinha argumentado Geraldo -, para nos defenderem dos
normandos. Os seus ataques esto a tornar-se cada vez mais
frequentes e destrutivos.
 Era verdade. No ano anterior, os normandos tinham atacado
So Wandrille e Utreque, na Primavera anterior tinham navegado
pelo Sena e tinham queimado Paris! Isto tinha provocado uma
onda de terror por toda a regio rural. Se uma cidade to
grande como Paris, no corao do imprio, no estava a salvo
dos brbaros, ento, nenhum lugar estava.
 Mas, a ateno de Lothar estava concentrada em Roma, que se
tinha atrevido a proceder  consagrao do papa Srgio sem
pedir primeiro a sua aprovao imperial - uma omisso que
Lothar tomou como uma afronta pessoal.
 - Mandai um emissrio a Srgio, manifestando-lhe o vosso
desagrado real - aconselhou-o Geraldo. - Castigai os romanos
recusando-lhes o pagamento da feoh de Roma. Mas, deixai ficar
aqui os nossos combatentes, onde eles so necessrios.
 Lothar tinha ficado furioso com este desafio  sua
autoridade. Em retaliao, tinha atribudo a Geraldo o comando
desta diviso de retaguarda.
 Tinham evoludo bem em terreno pavimentado, fazendo quase
quarenta milhas antes do anoitecer, mas no tinham passado por
uma nica cidade ou vila. Geraldo j se tinha resignado a
passar outra noite ao relento, deitado  beira da estrada,
quando viu uma espiral de fumo erguer-se acima das copas das
rvores.
 Deo gratias! Havia uma aldeia mais adiante, ou, pelo menos,
um povoado qualquer. Agora, Geraldo e os seus homens estavam
certos de conseguirem passar a noite dormindo
confortavelmente. Ainda no tinham entrado em territrio
papal; o Reino da Lombardia, que eles atravessavam, era
territrio imperial e a hospitalidade exigia que os viajantes
fossem bem recebidos - se no dando-lhes camas dentro de casa,
pelo menos, no feno, em estbulos quentes e secos.
 Fizeram uma curva e viram que o fumo no vinha de nenhuma
fogueira de boas-vindas, mas sim das runas de casas
completamente destrudas pelo fogo, que ainda fumegavam. Devia
ter sido uma povoao prspera; Geraldo contou quinze
edifcios em runas. O fogo devia ter sido ateado por alguma
falha de uma lmpada ou fogueira deixada ao descuido; estas
calamidades no eram raras quando as casas eram de madeira e
de feno.
 Passando pelas casas fumegantes, Geraldo lembrou-se de
Villaris. O seu aspecto era semelhante naquele dia, havia
muito tempo, que ele tinha regressado, encontrando tudo
queimado pelos normandos.


 311


Lembrou-se de ter procurado Joana entre os destroos, ao mesmo
tempo que tinha receado encontr-la. Era espantoso - tinham-se
passado quinze anos desde a ltima vez em que a tinha visto,
mas a sua imagem estava gravada na sua mente como se tivesse
sido na vspera: o caracol de cabelo dourado que lhe caa para
a testa, a voz profunda e melodiosa, os olhos
verde-acinzentados profundos, muito mais maduros do que a sua
idade.
 Esforou-se por afastar aquele pensamento. Algumas coisas
eram insuportavelmente dolorosas.
 Uma milha para alm da povoao destruda, junto ao cruzeiro
que marcava o local onde convergiam duas estradas, estava uma
mulher e cinco crianas andrajosas a pedir esmola. Quando
Geraldo e os seus homens se aproximaram, a pequena famlia
fugiu, assustada.
 - Paz para vs, boa me - tranquilizou-a Geraldo. - No vos
vamos fazer mal.
 - Tendes comida, senhor? - perguntou ela. - Para as
crianas?
 Quatro crianas correram para Geraldo, com as mos
estendidas, num pedido mudo, com os pequeninos rostos fechados
marcados pela fome. A quinta, uma rapariga bonita, de cabelo
escuro, com cerca de treze anos de idade, ficou para trs,
agarrando-se  me.
 Geraldo tirou do seu alforje o quadrado de pele de carneiro
ensebada onde guardava a sua rao para os dias seguintes.
Restava-Lhe um bom pedao de po, uma barra de queijo e um
pouco de carne de veado seca. Comeou a partir a fatia de po
ao meio, depois, viu as crianas a olharem. Ora, s faltam
alguns dias para chegarmos a Roma; posso ir buscar biscoitos
ao carro de mantimentos, pensou ele, dando-lhes o embrulho
todo.
 Com um grito de alegria, as crianas caram em cima da
comida como um bando de pssaros esfomeados.
 - Sois da vila? - perguntou Geraldo  mulher, apontando para
a runa fumegante atrs dele.
 A mulher acenou afirmativamente.
 - O meu marido  moleiro.
 Geraldo escondeu a sua surpresa. A figura andrajosa diante
dele parecia tudo menos a esposa de um moleiro prspero.
 - O que aconteceu?
 - H trs dias, depois da sementeira da Primavera, vieram os
soldados. Os homens do imperador. Disseram que tnhamos de
jurar fidelidade a Lothar ou que morreramos imediatamente s
suas espadas. Por isso, jurmos.


 311


 Geraldo abanou a cabea. As dvidas de Lothar acerca desta
parte da Lombardia no eram inteiramente infundadas porque era
uma regio que tinha sido acrescentada ao Imprio havia
relativamente pouco tempo. Tinha sido adquirida pelo av de
Lothar, o grande imperador Carlos.
 - Se fizestes o juramento - perguntou ele - porque foi
destruda a vossa aldeia?
 - Eles no acreditaram em ns. Chamaram-nos mentirosos e
atiraram tochas para os nossos telhados. Quando tentmos
apagar os fogos, eles impediram-nos, de espada na mo. Tambm
deitaram fogo ao nossos armazns de cereais, apesar de ns
termos suplicado que no o fizessem, por causa das crianas.
Eles riram-se e chamaram-nos filhos de traidores, que mereciam
morrer  fome.
 - Viles! - exclamou Geraldo, furioso.
 Tinha tentado muitas vezes convencer Lothar de que ele no
ia conseguir ganhar a lealdade dos sbditos atravs da fora,
mas sim atravs de um tratamento justo e do governo pela lei.
Como costume, as suas palavras tinham cado em ouvidos surdos.
 - Levaram os homens todos - continuou a mulher - excepto os
mais novos e os mais velhos. O imperador foi para Roma,
segundo disseram, e precisava de homens para engrossar as
tropas apeadas.
 Comeou a chorar.
 - Levaram o meu marido e dois dos meus filhos - o mais novo
s tem onze anos!
 Geraldo franziu o sobrolho. As coisas tinham chegado a uma
triste situao quando Lothar precisava de crianas para
combaterem nas suas batalhas.
 - Meu senhor, o que significa isto? - perguntou a mulher,
ansiosa. - O imperador vai atacar a Cidade Santa?
 - No sei.
 At quele momento, Geraldo pensava que Lothar apenas queria
intimidar o papa Srgio e os romanos, demonstrando-Lhes o seu
poder. Mas, a destruio daquela aldeia era um mau augrio,
com um estado de esprito to vingativo, Lothar era capaz de
tudo.
 - Vinde, boa me - disse Geraldo. - Levar-vos-emos connosco
para a prxima cidade. Isto no  um local seguro para vs e
para os vossos filhos.
 Ela abanou a cabea com determinao.
 - Eu no saio daqui. Como me iro encontrar o meu marido e
os meus filhos, quando voltarem?


 312


 Se voltarem, pensou Geraldo, sombriamente. E disse para a
rapariga de cabelo negro.
 - Dizei  vossa me que venha connosco, por causa dos
pequenos.
 A rapariga ficou muda a olhar para Geraldo.
 - Ela no pretende ser mal educada, senhor - desculpou-se a
me. - Ela respondia se pudesse, mas no pode falar.
 - No pode falar? - perguntou Geraldo, admirado.
 A rapariga parecia saudvel e no dava sinais de ser
atrasada.
 - Cortaram-lhe a lngua.
 - Meu Deus!
 A perda da lngua era um castigo comum para ladres e outros
larpios que no obedeciam com a rapidez desejada  justia
legal. Mas, esta jovem inocente no era, certamente, culpada
de nenhum crime.
 - Quem fez isso? Certamente, no foi...
 A mulher abanou a cabea, tristemente.
 - Os homens de Lothar serviram-se dela, depois, cortaram-lhe
a lngua para que ela no os pudesse acusar desse acto
vergonhoso.
 Geraldo estava petrificado. Estas atrocidades seriam de
esperar de pagos como os normandos ou os sarracenos - no dos
soldados do imperador, defensores da lei e da ordem crist.
 Geraldo deu uma ordem bruscamente. Os seus homens
dirigiram-se s carruagens e pegaram num saco de biscoitos e
num pequeno barril de vinho, que colocaram no cho diante da
pequena famlia.
 - Deus vos abenoe - disse a mulher do moleiro,
sentidamente.
 - E a vs, boa me - disse Geraldo.
 Seguiram caminho, passando por outras povoaes saqueadas e
desertas, ao longo do caminho. Lothar tinha deixado destruio
atrs de si por todos os lugares por onde tinha passado.
 Fidelis adjutor. Como sbdito fiel da coroa imperial,
Geraldo estava obrigado, por honra, a servir o imperador com
fidelidade. Mas, que honra existia em servir um selvagem como
Lothar? O desrespeito com que o Imperador infringia a lei e
todos os outros padres de decncia humana certamente varriam
o vnculo da obrigao.
 Geraldo levaria esta retaguarda do exrcito imperial at
Roma, como tinha prometido. Mas, dali para a frente, estava
determinado a abandonar para sempre o servio do tirano
Lothar.
 Depois de Nepi, a estrada piorou. O caminho amplo, slido e
plano deu lugar a uma estrada estreita e deteriorada, cheio de
buracos e de precipcios.


 313


O pavimento romano tinha desaparecido, as velhas pedras tinham
sido retiradas para serem utilizadas noutras construes - de
facto, naqueles dias negros, era raro encontrar materiais de
construo to fortes como aqueles. Geraldo viu marcas da
passagem de Lothar na terra escura, sulcada por grande
quantidade de marcas de carruagens e de cavalos. Tinham de ter
cuidado adicional com os cavalos, para no os ferirem com um
passo mal dado.
 Durante a noite, uma chuva intensa transformou a estrada num
mar de lama intransponvel. Em vez de fazer outra paragem,
Geraldo decidiu cortar o caminho pelo meio do mato e seguir
pela Via Palestrina, que os levaria at Roma atravs da porta
oriental, de So Joo.
 Cavalgaram rapidamente atravs de prados verdejantes e
aromticos de giestas e de florestas em flor, com as folhas de
um verde-dourado primaveril. Emergindo de um canteiro de
arbustos densos, encontraram, de repente, um grupo de
cavaleiros escoltando uma pesada carruagem puxada por quatro
cavalos.
 - Saudaes - disse Geraldo, dirigindo-se ao homem que
parecia ser o seu chefe, um tipo moreno com olhos pequenos e
papudos. - Podeis dizer-nos se vamos na direco da Via
Palestrina?
 - Ides - respondeu o homem e virou-se para seguir caminho.
 - Se vos dirigis para a Via Flaminia - disse Geraldo - 
melhor pensardes melhor. A estrada est destruda, o vosso
carro partir os eixos a menos de dez jardas de caminho.
 O homem disse:
 - No vamos para l.
 Era curioso. Para alm da estrada, no havia nada naquela
direco, a no ser campo deserto.
 - Onde ides? - perguntou Geraldo.
 - J vos disse o que precisveis de saber - retorquiu o
homem. - Segui caminho e deixai um honesto mercador fazer o
seu negcio.
 No havia nenhum mercador vulgar que se dirigisse a um
senhor de forma to arrogante. Geraldo ficou ainda mais
desconfiado.
 - Qual  o vosso negcio? - perguntou Geraldo,
aproximando-se do carro. - Talvez tenhais algo que eu esteja
interessado em comprar.
 - Afastai-vos - gritou o homem.
 Geraldo retirou a cobertura do carro e o seu contedo ficou
 mostra: uma dzia de cofres em bronze presos por uma
corrente em ferro, cada um deles com a marca distinta das
insgnias papais.
 Homens do Papa, pensou Geraldo. Devem ter sido mandados sair
da cidade para transportarem o tesouro papal para fora do
alcance de Lothar.


 314


Pensou em aprisionar o tesouro e de o levar de volta a Lothar.
Mas, pensou: No. Os romanos que salvem o que puderem. O papa
no daria, certamente, melhor uso ao dinheiro do que Lothar,
que se serviria dele apenas para financiar mais campanhas
militares brutais e sangrentas. Estava prestes a partir,
quando um dos romanos saltou do cavalo e se mostrou diante
dele.
 - Piedade, senhor! - gritou ele. - Poupai-nos! No podemos
morrer sem absolvio, com o peso deste grande crime sobre as
nossas cabeas.
 - Crime? - repetiu Geraldo.
 - Tento na lngua, louco!
 O chefe esporeou o cavalo e teria pisado o outro, se Geraldo
no o houvesse interceptado com a espada desembainhada. Os
homens de Geraldo desembainharam imediatamente as suas espadas
e cercaram os romanos, que, vendo como estavam em to grande
desvantagem, mantiveram, sensatamente, as suas espadas
embainhadas.
 - A culpa  de Bento! - disse o homem que estava no cho,
numa exploso de fria vingativa. - A ideia de roubar o
dinheiro foi dele, no foi nossa!
 Roubar o dinheiro?
 O homem a quem tinham chamado Bento falou num tom firme.
 - No tenho contenda convosco, senhor, nem as nossas
questinculas vos dizem respeito. Deixai-nos passar em paz e,
em sinal da nossa gratido, podeis ficar com um dos cofres. -
Sorriu para Geraldo com um ar cmplice. - Tm ouro suficiente
para vos tornar um homem rico.
 A oferta e a maneira como ela foi feita no davam margem
para dvidas.
 - Prendei-o - ordenou Geraldo. - E aos outros tambm. Vamos
lev-los e aos cofres para Roma.


 O triclinium estava iluminado com a luz de centenas de
archotes. Havia uma falange de criados por trs da mesa  qual
se sentava o papa Srgio, ladeado pelos altos dignitrios da
cidade: os padres de cada uma das sete regies de Roma,  sua
esquerda, os seus parceiros temporais, os sete defensores, 
sua direita. Perpendicularmente a esta mesa e to grande como
ela, estava outra,  qual estavam sentados, em lugar de honra,
Lothar e a sua comitiva. O resto da companhia, cerca de
duzentos homens, estava sentada em bancos de madeira,  frente
de longas mesas, no centro da sala. Pratos, jarros,


 315


copos e comensais amontoavam-se em torno das mesas, com as
roupas j cheias de marcas de inmeros pingos e ndoas.
 Como no era nem quarta, nem sexta-feira, nem qualquer outro
dia de jejum, a refeio no se confinou a po e peixe, mas
inclua tambm carne de vaca e de outros animais. Mesmo para a
mesa do Papa, era um repasto extraordinrio: havia pratos de
capes com molho branco e ornamentados com roms e carnes
suculentas, terrinas de sopa, cheias com pedaos tenros de
coelho e de galinholas mergulhadas num creme espesso, que
largava um aroma intenso, geleia de caranguejo e de lagosta,
leites inteiros barrados com gordura e grandes bandejas de
veado assado, cabrito, pombo e ganso. No meio da mesa de
Lothar, estava um cisne cozinhado e disposto de maneira que
parecia estar vivo, com o seu bico e corpo prateados sobre uma
massa de verduras, colocadas de forma a parecerem ondas do
mar.
 Sentada a uma das mesas no centro da sala, Joana olhava,
preocupada, para a cena extravagante. Aquelas delcias podiam
tentar Srgio a excessos.
 - Um brinde! - O conde de Mcon, sentado ao lado de Lothar,
levantou o seu copo. -  paz e amizade entre os nossos dois
povos cristos!
 - Paz e amizade! - repetiram todos em coro e esvaziaram os
seus copos. Os criados apressaram-se a encher novamente os
copos, ao longo da mesa.
 Seguiu-se uma quantidade de brindes. Quando, finalmente, j
no tinham assunto para prestar uma homenagem lquida, comeou
o festim.
 Joana olhava alarmada, vendo Srgio comer e beber
despreocupadamente. Os seus olhos comearam a inchar, o seu
discurso a ficar entaramelado, a sua pele a escurecer
terrivelmente. Naquela noite, ela ia ter de Lhe dar uma dose
forte de clquico para prevenir outro ataque de gota.
 As portas do triclinium abriram-se e um grupo de guardas
entrou. Desviando-se, para evitarem os inmeros servos que
deambulavam pela sala, trazendo e levando pratos, os guardas
encaminharam-se para o fundo da sala. Fez-se um silncio
sbito, quando os convidados se calaram e viraram a cabea
para verem qual a causa desta extraordinria intruso. Este
silncio foi seguido por um murmrio de surpresa, quando viram
o homem que entrou no meio de soldados, com as mos atadas e
de olhos baixos: Bento.
 Os crculos bem-humorados do rosto de Srgio
desapareceram-lhe do rosto, como ampolas que se tivessem
esvaziado.


 316


 - Tu! - gritou ele.
 Tarasius, o chefe dos guardas, disse:
 - Um grupo de francos encontrou-o no campo. Ele tinha o
tesouro consigo.
 Bento tinha tido muito tempo na viagem de regresso a Roma
para pensar no que ia dizer. No podia negar que tinha levado
o tesouro, uma vez que tinha sido apanhado com ele. Nem tinha
conseguido pensar numa desculpa plausvel para o que tinha
feito, apesar de ter espremido o crebro a pensar. Acabou por
decidir que a melhor coisa a fazer seria implorar misericrdia
do irmo. Srgio tinha um corao bom - uma fraqueza que Bento
desprezava, apesar de esperar conseguir utiliz-la para seu
proveito.
 Caiu de joelhos, levantando os braos na direco do irmo.
 - Perdoa-me, Srgio. Pequei e arrependo-me humilde e
sinceramente.
 Mas, Bento no tinha contado com o efeito do vinho no
temperamento do seu irmo. O rosto de Srgio contorceu-se, ao
mesmo tempo que se enfurecia inesperadamente.
 - Traidor! - gritou ele. - Vilo! Ladro!
 Cada palavra era acompanhada de um murro violento em cima da
mesa, que fazia os pratos saltarem.
 Bento empalideceu.
 - Irmo, peo-te...
 - Levai-o! - ordenou Srgio.
 - Para onde havemos de o levar, Santidade? - perguntou
Tarasius.
 A cabea de Srgio andava  roda, tinha dificuldade em
pensar. S sabia que tinha sido trado e que queria vingar-se
para o ferir como ele o tinha ferido.
 -  um ladro! - disse ele, amargamente. - Que seja
castigado como um ladro!
 - No! - Bento gritava,  medida que os guardas o agarravam.
- Srgio! Irmo!
 As ltimas palavras ficaram a ecoar, quando ele foi levado
da sala.
 Srgio empalideceu e deixou-se cair na cadeira. A cabea
pendeu-Lhe para trs, os olhos reviraram, os seus braos e as
suas pernas comearam a tremer descontroladamente.
 -  mau olhado! - gritou algum. - Bento enfeitiou-o!
 Os convidados gritavam consternados, benzendo-se para se
protegerem contra as obras do demnio. Joana correu entre os
bancos cheios de gente, apressando-se a chegar ao p de
Srgio. O seu rosto estava azul. Ela pegou-lhe na mo e
abriu-Lhe os maxilares cerrados. Tinha a lngua enrolada,


 317


bloqueando a passagem do ar. Pegando numa faca que estava em
cima da mesa, Joana introduziu a lmina dentro da boca de
Srgio, fazendo-a deslizar at  lngua enrolada. Depois,
puxou. Ouviu-se um rudo seco, quando a lngua se desenrolou.
Srgio tossiu e comeou a respirar novamente. Joana fez
presso com a faca, mantendo a abertura livre. Pouco depois, o
paroxismo tinha desaparecido. Com um gemido surdo, Srgio
desmaiou.
 - Levai-o para a cama - ordenou ela. Vrios servos
levantaram Srgio da sua cadeira e levaram-no pela porta, com
a multido apinhada, cheia de curiosidade.
 - Deixai passar! Deixai passar! - gritou Joana, enquanto
levavam o Papa inconsciente para fora da sala.
 Quando chegaram ao seu quarto, Srgio estava consciente.
Joana deu-lhe mostarda preta misturada com genciana para ele
vomitar.
 Depois, ele melhorou bastante. Ela deu-lhe uma dose forte de
clquico para ficar mais segura, misturando-a com sumo de
papoila, para ele dormir melhor.
 - Ficar a dormir at amanh - disse ela a Arighis.
 Arighis abanou a cabea.
 - Pareceis estar exausto.
 - Estou bastante cansado - admitiu Joana. Tinha sido um
longo dia e ela ainda no tinha recuperado completamente das
semanas que tinha passado no calabouo.
 - Endio e outros da sociedade dos mdicos esto  espera l
fora... Querem interrogar-vos sobre a recada de Sua
Santidade.
 Joana suspirou. No lhe apetecia enfrentar uma barreira de
perguntas hostis, mas, segundo parecia, no havia nada a
fazer. Dirigiu-se, penosamente, para a porta.
 - S um momento - Arighis fez-lhe sinal para o seguir para o
outro lado da sala, afastou uma das tapearias e empurrou a
parede.
 Esta deslizou lateralmente, deixando uma passagem aberta com
cerca de dois ps e meio de largura.
 - Mas, o que  isto - admirou-se Joana.
 - Uma passagem secreta - explicou Arighis. -- Construda nos
dias dos imperadores pagos - para o caso de eles precisarem
de se escapar depressa aos seus inimigos. Agora, liga o quarto
do Papa  capela privada para que o Apostlico possa entrar e
rezar a qualquer hora do dia ou da noite, sem ser perturbado.
Vinde. - Ergueu a vela e passou. - Assim, podeis evitar aquela
matilha de chacais, pelo menos esta noite.


 318


 Joana ficou sensibilizada por causa de Arighis ter
partilhado com ela o conhecimento da passagem secreta, era
sinal de que a confiana e o respeito crescia entre ambos.
Desceram um lance de escadas em caracol, que terminava diante
de uma parede na qual se encontrava uma alavanca em madeira.
Arighis abaixou-a e a parede moveu-se, abrindo uma passagem.
Joana escapou-se por ela e o vicedominus voltou a accionar a
alavanca. A abertura desapareceu, no deixando qualquer trao
da sua existncia.
 Estava atrs de uma coluna em mrmore, ao fundo da capela
privada do Papa, o Sanctum Sanctorum. Ouviam-se vozes perto do
altar. Isto era inesperado, no era suposto estar ali algum
quela hora da noite.
 - H quanto tempo, Anastcio - disse uma voz, com um sotaque
forte, que ela reconheceu ser a de Lothar.
 Ele tinha chamado Anastcio ao outro, devia ser o bispo de
Castellum. Era bvio que os dois homens se tinham retirado
para a capela para falarem em particular. No ficariam
contentes em descobrir um intruso.
 O que hei-de fazer?, pensou Joana. Se tentasse escapar
sorrateiramente pela porta da capela, eles podiam v-la.
Tambm no podia regressar ao quarto do Papa, a alavanCa que
controlava a passagem secreta estava do outro lado da parede.
Tinha de ficar escondida at que o encontro terminasse e ambos
os homens se fossem embora. Depois, podia escapar-se da capela
sem ser vista.
 - Muito preocupante, o ataque de Sua Santidade esta noite -
disse Lothar.
 Anastcio respondeu:
 - O Apostlico est muito doente. Pode no sobreviver mais
do que um ano.
 - Uma grande tragdia para a Igreja.
 - Muito grande - concordou Anastcio delicadamente.
 - O seu sucessor deve ser um homem de poder e de viso -
disse Lothar -, um homem que seja capaz de compreender
melhor... o entendimento histrico entre os nossos dois povos.
 - Tendes de usar toda a vossa influncia, senhor, para
garantir que o prximo Pontfice seja um homem assim.
 - No querereis dizer... um homem como vs?
 - Tendes razo para desconfiar de mim, Senhor? Certamente o
servio que vos prestei em Colmar provou a minha lealdade
acima de suspeita.
 - Talvez - disse Lothar, num tom descomprometido. - Mas, os
tempos mudam e os homens tambm. Agora, senhor bispo, a vossa
lealdade vai voltar a ser posta  prova. Apoiareis o
juramento, ou no?


 319


 - O povo ter relutncia em jurar-vos fidelidade, senhor,
depois dos prejuzos que o vosso exrcito provocou na
provncia.
 - A vossa famlia tem poder para modificar isso - respondeu
Lothar. - Se vs e o vosso pai, Arsnio, jurardes, os outros
imitar-vos-o.
 - O que me pedis  muito. Exige algo muito grande em
resposta.
 - Eu sei.
 - Um juramento no passa de palavras. O povo precisa de um
papa que seja capaz de o guiar para o velho caminho, - para o
Imprio Franco, e para vs, meu senhor.
 - No me ocorre ningum melhor do que vs para o fazer,
Anastcio. Farei tudo o que est no meu poder para que sejais
o prximo Papa.
 Houve uma pausa. Depois, Anastcio disse:
 - O povo jurar, Senhor. Eu certificar-me-ei disso.
 Joana sentiu uma onda de fria. Lothar e Anastcio tinham
acabado de negociar o papado como um par de mercadores num
bazar. Em troca dos privilgios do poder, Anastcio tinha
concordado em entregar Roma ao controlo do imperador franco.
 Bateram  porta e o servo de Lothar entrou.
 - Chegou o conde, senhor.
 - Mandai-o entrar. O bispo e eu j terminmos o nosso
assunto.
 Entrou um homem, vestido com a brunia de um soldado. Era
alto e elegante, com um longo cabelo ruivo e olhos azuis.
 Geraldo.


 320


 @23


 Dos lbios de Joana soltou-se um grito de surpresa...
 - Quem est a? - perguntou Lothar, num tom seco.
 Joana saiu lentamente de detrs da coluna. Lothar e
Anastcio olharam para ela, espantados.
 - Quem sois vs? - perguntou Lothar.
 - Joo Anglicus, meu senhor. Padre e mdico de Sua
Santidade, o papa Srgio.
 Lothar perguntou, desconfiado:
 - H quanto tempo estais a?
 Joana pensou rapidamente.
 - H algumas horas, Senhor. Vim rezar pelas melhoras de Sua
Santidade. Devo estar mais cansado do que pensava porque
adormeci e acabei de acordar agora.
 Lothar olhou para ela, desconfiado. Era mais provvel que o
padrezinho tivesse sido apanhado na capela quando Anastcio e
ele tinham entrado. No havia por onde fugir, nem onde se
esconder. Mas, no importava. Quanto teria ele ouvido e, mais
importante ainda, quanto teria compreendido? Pouco. O homem
no oferecia perigo, era bvio que era insignificante. A
melhor coisa a fazer era ignor-lo.
 Anastcio tinha chegado a uma concluso diferente. Era bvio
que Joo Anglicus tinha estado a escutar. Mas, porqu? Seria
um espio? No a mando de Srgio, certamente, porque o Papa
no era engenhoso a ponto de utilizar espies. Mas, se no era
a mando dele, ento, era a mando de quem? E porqu? Anastcio
decidiu que a partir dali o padrezinho estrangeiro passaria a
ser vigiado.
 Geraldo tambm observava Joana com curiosidade.
 - Pareceis-me conhecido, Padre - disse ele. - J nos
encontrmos?


 321


 Ele procurava descortinar as suas feies  luz fraca.
Subitamente, a sua expresso mudou, ficou a olhar como algum
que tivesse acabado de ver um fantasma:
 - Meu Deus - disse ele, chocado. - No pode ser...
 - Conheceis-vos - perguntou Anastcio.
 - Conhecemo-nos em Dorstadt - respondeu Joana, rapidamente.
- Eu estudei na escola da catedral durante alguns anos, a
minha irm - enfatizou um pouco a palavra - ficou com o conde
e a sua famlia durante esse tempo.
 Os seus olhos transmitiram a Geraldo uma mensagem urgente:
No direis nada.
 Geraldo recuperou a sua postura.
 - Claro - disse ele. - Lembro-me muito bem da vossa irm.
 Lothar interrompeu, impaciente:
 - Basta. O que vindes dizer-me, Conde?
 - A minha mensagem  para ser ouvida apenas por vs, meu
senhor.
 Lothar acenou com a cabea:
 - Muito bem. Os outros podem sair. Voltaremos a falar,
Anastcio.
 Quando Joana se virou para sair, Geraldo tocou-lhe no brao.
 - Esperai por mim. Quero saber mais de... da vossa irm.
  sada da capela, Anastcio seguiu o seu caminho. Joana
esperou nervosamente sob o olhar sinistro do pajem de Lothar.
A situao era extremamente perigosa, uma palavra em falso e a
sua identidade podia ser revelada. Devia ir-me embora, agora,
antes que Geraldo saia, pensou ela. Mas, desejava v-lo. Ficou
ali, agarrada por uma mistura complexa de medo e de
expectativa.
 A porta da capela abriu-se e Geraldo apareceu.
 - Ento, s tu: - disse ele, admirado. - Mas, como...
 O criado olhava para eles com curiosidade.
 - Eu, no - disse Joana.
 levou-o para uma salinha onde guardava os seus medicamentos
e as suas ervas. L dentro, acEndeu as lmpadas de leo de
papoila, a sua chama avivou-se, rodeando-os num crculo ntimo
de luz.
 Ficaram a olhar um para o outro, maravilhados com a
redescoberta. Geraldo tinha mudado nos quinze anos em que
Joana tinha estado sem o ver, o espesso cabelo ruivo estava
raiado de cinzento e has rugas em torno dos olhos azuis e da
grande boca sensual - continuava a ser o homem mais belo que
ela j tinha visto. Ao olhar para ele, o seu corao comeou a
bater mais depressa.


 322


 Geraldo aproximou-se dela. Caram nos braos um do outro,
num abrao to apertado que Joana sentia as malhas de metal da
cota de Geraldo atravs da sua grossa veste de padre.
 - Joana - murmurou Geraldo. - Minha querida, minha prola.
Nunca pensei voltar a ver-te.
 - Geraldo - a palavra varria qualquer pensamento razovel.
 Os dedos de Geraldo tocaram suavemente na cicatriz da face
esquerda de Joana.
 - Os normandos?
 - Sim.
 Ele inclinou-se e beijou-a delicadamente, encostando os
lbios quentes  sua face.
 - Ento, eles apanharam-te... a ti e  Gisla?
 Gisla. Geraldo nunca poderia vir a saber, ela nunca Lhe
poderia contar o horror por que a sua filha mais velha tinha
passado.
 - Eles apanharam a Gisla. Eu... eu consegui escapar.
 Ele estava espantado.
 - Como? E para onde? Os meus homens e eu esquadrinhmos o
campo,  tua procura, mas no te encontrmos.
 Ela contou-lhe resumidamente o que se tinha passado - tanto
quanto era possvel numa circunstncia to rpida e limitada:
a sua fuga para Fulda e a sua entrada como Joo Anglicus, o
momento em que a sua identidade quase tinha sido descoberta e
a fuga da abadia, a sua peregrinao para Roma e a subsequente
ascenso e posio de mdica do Papa.
 - E durante todo este tempo - disse Geraldo, lentamente,
quando ela terminou -, nunca pensaste em me mandar notcias
tuas?
 Joana apercebeu-se da dor e da ironia na sua voz.
 - Eu... eu no pensei que me quisesses. Richild disse que a
ideia de me casar com o filho do ferreiro tinha sido tua, que
tu lhe tinhas pedido que ela tratasse de tudo.
 - E tu acreditaste nela? - libertou-a abruptamente. - Meu
Deus, Joana, pensava que me conhecias melhor!
 - Eu... eu no sabia o que pensar. Tu tinhas partido, eu no
sabia bem porqu. E Richild sabia... de mais, daquilo que
tinha acontecido na margem do rio. Como poderia ela saber, se
tu no lhe tivesses contado!
 - No sei. S sei que te amava como nunca amei ningum
antes... nem depois. - A sua voz apertou-se. - Quase esgotei a
Pistis no caminho para casa, ansioso por ver Villaris porque
tu estavas l, e eu estava louco de impacincia para te ver...
para te pedir para seres minha mulher.


 323


 - Tua mulher? - Joana estava estupefacta. - Mas...
Richild...?
 - Aconteceu qualquer coisa enquanto eu estive ausente...
algo que me ajudou a ver como o meu casamento era vazio, como
tu eras vital para a minha felicidade. Eu ia voltar para te
dizer que queria divorciar-me de Richild e casar contigo, se
tu me quisesses.
 Joana abanou a cabea.
 - Tantos mal-entendidos - disse ela, tristemente. - Tantas
coisas que correram mal.
 - Tantas coisas para recompensar.
 Ele puxou-a para si e beijou-a. Foi como se tivessem chegado
uma vela a uma placa de cera, derretendo aquilo que os anos
tinham escrito. Estavam de novo juntos na margem do rio por
trs de Villaris, ao sol primaveril, jovens e estonteados pelo
amor recm-descoberto.
 Depois de um bocado, ele libertou-a.
 - Ouve, meu corao- disse ele, suavemente. - Eu vou
abandonar o servio de Lothar. Acabei de lho dizer na capela.
 - E ele concordou em libertar-te?
 Lothar no parecia ser homem para desobrigar algum do seu
servio voluntariamente.
 - Ao princpio, foi difcil, mas acabei por conseguir
convenc-lo. A minha liberdade teve um preo, tive de entregar
Villaris com todas as suas propriedades. J no sou um homem
rico, Joana, mas, tenho a fora dos meus dois braos e amigos
que me apoiaro. Um deles  Siconulf, prncipe de Benevento,
com quem fiz amizade quando servimos juntos na campanha do
imperador contra os obodritas. Ele precisa de homens bons
junto dele porque est a ser muito pressionado pelo seu rival
Radelchis. Vens comigo, Joana? Queres ser minha mulher?
 Passos enrgicos do lado de fora da porta separaram-nos.
Alguns momentos depois, a porta abriu-se e uma cabea
espreitou. Era Florintinus, um dos notrios do palcio.
 - Ah! - disse ele. - Estais aqui, Joo Anglicus!
Procurei-vos por todo o lado. - Olhou atentamente para Joana e
para Geraldo, depois, novamente para Joana. - Estou... estou a
interromper alguma coisa?
 - De modo nenhum - apressou-se Joana a dizer. - Em que vos
posso ser til, Florintinus?
 - Tenho uma dor de cabea terrvel - disse ele. - Ser que
podeis preparar um dos vossos paliativos?
 - Com todo o gosto - respondeu Joana delicadamente.


 324


 Florintinus esgueirou-se pela porta, trocando algumas
palavras com Geraldo, enquanto Joana preparava rapidamente uma
mistura de folhas de violeta e de salgueiro, mergulhando-as
numa chvena de ch de rosmaninho. Deu-a a Florintinus e ele
voltou a sair.
 - No podemos falar aqui - disse ela a Geraldo, mal ele
saiu. -  demasiado perigoso.
 - Quando posso voltar a ver-te? - perguntou Geraldo
ansiosamente.
 Joana pensou.
 - H um Templo de Vesta na Via pia, mesmo  sada da
cidade. Encontramo-nos l amanh depois da tera.
 Ele tomou-a nos braos e beijou-a de novo, to docemente
como da primeira vez, depois, com uma intensidade que a encheu
de um desejo ardente.
 - At amanh - sussurrou ele.
 Depois, saiu, deixando a cabea de Joana estonteada por uma
mistura de emoes.


 * * *


 Arighis espreitou na escurido antes do nascer do Sol,
revistando o ptio do Laterano. Estava tudo pronto. Tinha sido
colocado um braseiro aceso junto da grande esttua em bronze
da loba. Dentro do braseiro a arder tinha sido colocado um par
de ferros de fogo cujas pontas comeavam a estar
incandescentes devido ao calor das chamas. Junto dele estava
um soldado de espada em riste.
 Os primeiros raios de sol emergiram no horizonte. Era uma
hora fora do comum para uma execuo pblica, normalmente,
acontecimentos desse tipo ocorriam depois da missa. Apesar de
ser to cedo j havia uma multido de espectadores - os mais
ansiosos chegavam sempre mais cedo para assegurarem a melhor
posio para verem. Muitos tinham trazido os filhos, que
deambulavam na expectativa excitada do espectculo sangrento. 
Arighis tinha estabelecido deliberadamente a hora do castigo
de Bento para o nascer do dia, antes que Srgio acordasse e
mudasse de ideias. Podia ser que houvesse algum que o
acusasse de ser demasiado diligente, mas ele no se importava.
Sabia muito bem o que estava a fazer e porqu.
 Arighis ocupava o cargo de vicedominus havia mais de vinte
anos, tinha dedicado a vida inteira ao servio do
Patriarchium,  orientao do vasto e complicado enxame de
funcionrios pontifcios que constituam o governo de Roma,
guiando-os de uma forma discreta e eficiente.



 325


Depois de tantos anos, Arighis tinha chegado  concluso de
que a casa papal era um ser vivo, cujo bem-estar era
responsabilidade e preocupao exclusivamente sua.
 Este bem-estar estava agora ameaado. Em menos de um ano,
Bento tinha transformado o Patriarchium num centro de
negociaes de poder e de simonia. Ganancioso e manipulador, a
prpria existncia de Bento era uma gangrena maligna no
Papado. A nica maneira de salvar o paciente era amputar o
membro doente. Bento tinha de morrer.
 Srgio no tinha coragem para o fazer, por isso era preciso
que Arighis metesse mos  obra. F-lo sem hesitar, sabendo
que agia para bem da Santa Madre Igreja.
 Estava tudo pronto.
 - Trazei o preso - ordenou Arighis aos guardas.
 Trouxeram Bento. Com as vestes rasgadas, o rosto plido e
cinzento de uma noite de insnia nas masmorras, percorreu o
ptio com o olhar, ansiosamente.
 - Onde est Srgio - perguntou ele. - Onde est o meu irmo?
 - Sua Santidade no pode ser incomodada - disse Arighis.
 Bento rodopiou sobre si mesmo e encarou-o.
 - O cque pensais que estais a fazer, Arighis? Vistes o meu
irmo na noite passada. Estava bbado, no sabia o que dizia.
Deixai-me falar com ele e vereis: ele retirar a condenao.
 - Avanai - ordenou Arighis aos guardas.
 Os guardas arrastaram Bento para o meio do ptio e
foraram-no a ajoelhar-se. Amarraram-no pelos braos e
ataram-no ao pedestal da esttua da loba, com as mos abertas
sobre a pedra.
 O terror estampou-se no rosto de Bento.
 - No! Parai! - Gritava ele.
 Levantando os olhos em direco s janelas do Patriarchium,
comeou a gritar:
 - Srgio! Srgio! Sr...!
 A espada desfechou-se sobre ele. Bento gritou quando as suas
mos cortadas caram para o cho, jorrando sangue.
 A multido aplaudiu. O esgrimista pregou as mos de Bento do
lado da loba. De acordo com o velho costume, elas ficariam ali
um ms como aviso para outros que fossem tentados a cometer o
pecad do furto.
 Endio, o arquiatro, avanou. Tirando os frros do braseiro,
encostou-os com fora aos cotos sangrentos de Bento. O cheiro
de carne queimada encheu o ar de um cheiro enjoativo.


 326


 Bento voltou a gritar e desmaiou. Endio debruou-se sobre
ele para o assistir.
 Arighis inclinou-se para a frente, atento. A maior parte dos
homens morriam depois de lhes ser infligido um ferimento
daqueles - se no imediatamente, do choque e da dor, ento,
pouco depois, devido a infeco e  perda de sangue. Mas,
aqueles que eram mais fortes, s vezes, conseguiam sobreviver.
Viam-se nas ruas de Roma, com as suas mutilaes grotescas
revelando a natureza dos seus crimes: lbios cortados, para
aqueles que tinham mentido sob juramento, ps cortados, para
os escravos que tinham fugido aos seus proprietrios, olhos
arrancados, para aqueles que tinham desejado as esposas ou
filhas dos seus superiores.
 A possibilidade de sobrevivncia foi o motivo que levou
Arighis a pedir a Endio e no a Joo Anglicus para assistir o
homem condenado porque a competncia do ltimo podia ser
suficiente para salvar Bento.
 Endio levantou-se.
 - Foi executado o julgamento de Deus - anunciou ele
solenemente. - Bento est morto.
 Cristo seja louvado, pensou Arighis. O papado est salvo.


 Joana estava na fila do lavatorium,  espera da sua vez para
a lavagem ritual das mos antes da missa. Tinha os olhos
pesados e inchados por causa de no ter dormido, tinha passado
a noite agitada, s a pensar em Geraldo. Na noite anterior,
sentimentos que ela pensava enterrados havia muito tempo
tinham emergido com uma intensidade cque a espantou e
assustou.
 O regresso de Geraldo tinha despertado os desejos
perturbadores da sua juventude. Como seria voltar a viver como
mulher, pensou ela. Estava habituada a ser responsvel por si
prpria, a controlar totalmente o seu destino. Mas, por lei,
uma esposa devia entregar a sua vida ao seu marido. Ser que
ela poderia confiar num homem at esse ponto - mesmo sendo
Geraldo?
 Nunca te entregues a um homem. A voz da sua me ecoava como
um sino de alarme na sua cabea.
 Precisava de tempo para distinguir o turbilho de emoes
que lhe iam no corao. Mas, tempo era uma coisa que ela no
tinha.
 Arighis apareceu ao seu lado.
 - Vinde - disse ele, com urgncia.
 Retirou-a da fila.
 - Sua Santidade precisa de vs.
 - Est doente?


 327


 Preocupada, seguiu Arighis ao longo do corredor, at ao
quarto do Papa. Na noite anterior, a comida e a bebida em
abundncia tinham sido purgadas do corpo de Srgio e a forte
dose de clquico que Joana lhe tinha administrado devia ter
sido suficiente para prevenir um novo ataque de gota.
 - Ficar, se continuar assim.
 - Porqu? O que aconteceu?
 - Bento morreu.
 - Morreu!
 - A sentena foi executada hoje de manh. Ele morreu
imediatamente.
 - Benedicite! - Joana apressou o passo. Imaginava o efeito
que estas notcias tinham tido em Srgio.
 Mesmo assim, quando o viu, ficou chocada. Srgio estava
quase irreconhecvel. Tinha o cabelo desgrenhado, os olhos
vermelhos e inchados de chorar, as bochechas cobertas com
arranhes causados pelas suas unhas. Estava de joelhos junto 
cama, balanando para a frente e para trs, chorando como uma
criana abandonada.
 - Santidade! - disse Joana, com firmeza, falando-Lhe ao
ouvido. - Srgio!
 Ele continuou a balanar-se, cego e surdo no abismo do seu
desgosto. Era bvio que no havia maneira de comunicar com ele
no estado em que se encontrava. Tirando um pouco de tintura de
meimendro do seu saco, Joana calculou uma dose e levou-Lha aos
lbios. Ele bebeu distraidamente.
 Ao fim de alguns minutos, comeou a abanar-se mais devagar
e, depois, parou. Olhou para Joana como se estivesse a v-la
pela primeira vez.
 - Chorai por mim, Joo. A minha alma est condenada para
toda a eternidade!
 - Que disparate - disse Joana com firmeza. - Agistes
completamente de acordo com a lei.
 Srgio abanou a cabea negativamente:
 - No sejais como Caim, que era do Diabo e assassinou o seu
irmo, - disse ele, citando a Primeira Epstola de Joo.
 Joana replicou com outra passagem:
 - E porque o matou ele? Porque as suas obras eram ms e o
seu irmo era justo. Bento no era justo, Santidade, ele
traiu-vos e traiu Roma.
 - E agora, est morto, por ordem minha!  meu Deus! - bateu
no peito e gemeu de dor.


 328


 Ela tinha de o arrancar ao seu desgosto, seno ele acabaria
por ter outro ataque. Agarrou-o firmemente pelos ombros e
disse:
 - Tendes que fazer uma confisso auricular.
 Esta forma do sacramento da penitncia, na qual se fazia uma
confisso privada e regular ad auriculum, ao ouvido do padre,
estava muito difundida no Pas dos Francos. Mas, Roma
continuava teimosamente arreigada aos antigos procedimentos,
de acordo com os quais a confisso e a penitncia eram feitas
e dadas em pblico e apenas uma vez na vida.
 Srgio agarrou a ideia:
 - Sim, sim, eu confessar-me-ei.
 - Vou mandar chamar um dos vossos cardeais-presbteros -
disse ela. - Tendes preferncia por algum?
 - Confessar-me-ei a vs.
 - A mim? - Um simples padre e estrangeiro, - Joana no era
certamente a melhor candidata para servir de confessora ao
Papa. - Tendes a certeza, Santidade?
 - No quero mais nenhum.
 - Est bem.
 Ela voltou-se para Arighis e disse:
 - Deixai-nos.
 Arighis lanou-lhe um olhar agradecido ao sair do quarto.
 - Peccavi, impie egi, iniquitatem feci, miserere mei
Domine... - comeou Srgio a dizer, nas palavras rituais da
penitncia.
 Joana ouviu com uma compaixo emocionada os seus desabafos
desgostosos, o seu remorso e arrependimento. Com uma alma to
carregada e atormentada, no era de admirar que Srgio
procurasse a paz e o esquecimento na bebida.
 A confisso fez o efeito que ela tinha imaginado, a paixo
descontrolada do desespero comeou a ceder, deixando Srgio
esgotado e exausto, mas fazendo com que ele deixasse de
constituir um perigo para si mesmo ou para os outros.
 Agora, vinha a parte difcil, a penitncia que tinha que
preceder o perdo dos pecados. Srgio devia estar  espera que
a sua penitncia fosse severa - talvez mortificao pblica
nos degraus de So Pedro. Mas, esse acto s serviria para
enfraquecer Srgio e o papado aos olhos de Lothar - e isso
tinha de ser evitado a todo o custo. Mas, a penitncia que
Joana ia impor no podia ser demasiado leve, seno Srgio
rejeit-la-ia.
 Ela teve uma ideia.
 - Como penitncia - disse ela - abster-vos-eis de todo o
vinho e carne de quadrpede at  hora da vossa morte.


 329


 Os jejuns eram uma forma habitual de penitncia, mas,
normalmente, prolongavam-se apenas por alguns meses, quanto
muito, um ano. Uma vida de abstinncia era um castigo rigoroso
- especialmente para Srgio. Mas, tal penitncia tinha o
benefcio acrescido de ajudar a proteger o Papa dos seus
prprios piores instintos., Srgio baixou a cabea, em
sinal de aceitao.
 - Rezai comigo, Joo.
 Ela ajoelhou-se ao seu lado. Afinal, em muitos aspectos, ele
no passava de uma criana - fraco, impulsivo, carente,
caprichoso. Mas, ela sabia que ele era capaz de fazer o
bem. E que, nesse momento, ele era tudo quanto se interpunha
entre Anastcio e o Trono de So Pedro.
 Quando a orao terminou, ela levantou-se. Srgio agarrou-se
a ela.
 - No saiais - pediu-lhe ele. - No sou capaz de ficar
sozinho.
 Joana cobriu as suas mos com as dela.
 - Eu no vos deixarei - prometeu ela solenemente.


 * * *


 Ao entrar pelos portais a cair das runas do Templo de
Vesta, Geraldo constatou, desapontado, que Joana ainda no
tinha chegado.
 No faz mal, pensou ele, ainda  cedo. Sentou-se  espera,
encostado a uma das colunas em granito.
 Tal como a maior parte dos monumentos pagos de Roma, o
templo tinha sido despojado de todos os seus metais preciosos:
as rosetas douradas que tinham adornado, em tempos, os
tesouros do templo tinham desaparecido, assim como os
baixos-relevos doirados que ornamentavam o pedestal dos
pronaos. Os nichos ao longo das paredes estavam vazios. As
suas esttuas de mrmore tinham sido levadas para os fornos de
cal para serem transformadas em material de construo para as
paredes das igrejas crists. No entanto, espantosamente, a
esttua da deusa tinha sido poupada, escondida no seu
santurio por baixo do templo. Tinha uma das mos partidas e
as linhas das suas vestes estavam gastas, apagadas pelo tempo
e elementos naturais, mas a esttua continuava a ter um poder
e uma raa poderosas, testemunhando o talento do escultor
palo.
 Vesta, antiga deusa do lar e da terra. Representava tudo
quanto Joana significava para ele: vida, amor e um novo
sentimento de esperana. Respirou fundo, aspirando o ar hmido
e doce da manh, sentindo-se melhor do que se tinha sentido
nos ltimos anos. Nestes ltimos tempos, tinha-se sentido
abatido com as voltas da vida. Tinha-se resignado, dizendo a
si prprio que era o resultado inevitvel da sua idade porque
j tinha quase quarenta e trs anos, a idade de um homem
velho.


 330


 Agora, sabia que estava completamente enganado. Longe de
estar cansado da vida, estava vido dela. Sentia-se jovem,
vivo, cheio de energia, como se tivesse bebido do clice
milagroso de Cristo. O resto da sua vida estendia-se diante
dos seus olhos, cheio de promessas. Casaria com Joana e iriam
para Benevento e haviam de viver juntos em paz e com amor.
Talvez at tivessem filhos - no era tarde de mais. Da maneira
como se sentia naquele momento, tudo era possvel.
 Levantou-se quando ela atravessou o portal a correr, com as
vestes sacerdotais esvoaando atrs dela. Tinha as faces
rosadas da corrida, o seu cabelo dourado encaracolava-se em
torno do seu rosto, acentuando os seus olhos
verde-acinzentados-escuros, olhos que o olhavam como lagos de
luz neste santurio escuro. Como tinha ela conseguido passar
despercebida naquele disfarce masculino?, pensou ele. Aos seus
olhos, ela parecia muito feminina e desejvel.
 - Joana.
 A palavra era em parte um nome, em parte uma splica.
 Joana manteve uma distncia cautelosa entre ambos. Se
deixasse que Geraldo a abraasse, sabia que a sua deciso se
esvairia.
 - Trouxe uma montada para ti - disse Geraldo. - Se partirmos
agora, estaremos em Benevento daqui a trs dias de viagem.
 Ela respirou fundo:
 - Eu no vou contigo.
 - No vais? - repetiu Geraldo.
 - No posso deixar Srgio.
 Ele ficou demasiado perturbado para reagir imediatamente.
Depois, conseguiu perguntar:
 - Porqu?
 - Srgio precisa de mim. Ele ... fraco.
 - Ele  o Papa de Roma, Joana, no  uma criana a precisar
de mimos.
 - Eu no o mimo, eu sou a sua mdica. Os mdicos da schola
no conhecem a doena de que ele sofre.
 - Ele sobreviveu muito bem sem ti, antes de chegares a Roma.
 Era uma ligeira ironia, mas, doeu.
 - Se eu me for embora agora, Srgio morrer de tanto beber
no espao de seis meses.
 - Ento, que beba - respondeu Geraldo, num tom agreste. - O
que tens tu e o que tenho eu a ver com isso?
 Ela ficou chocada.
 - Como podes dizer uma coisa dessas?


 331


 - Bom Deus, no te sacrificaste j o suficiente? A primavera
das nossas vidas j passou. No desperdicemos o tempo que nos
resta!
 Ela virou-lhe as costas para que ele no visse como aquilo a
tinha afectado.
 Geraldo pegou-lhe pelos pulsos.
 - Eu amo-te, Joana. Vem comigo agora, enquanto ainda 
tempo.
 O toque da sua mo inflamou a carne dela, despertando o
desejo. Teve o impulso de o abraar, de sentir os seus lbios
nos dela. Envergonhada por esta fraqueza e por estes
sentimentos vergonhosos, ficou sbita e irracionalmente
zangada com Geraldo por causa de ele ter despertado nela
aqueles sentimentos.
 - O que esperavas? - gritou ela. - Que eu fugisse contigo
mal apareceste?
 Dava largas  clera que sentia dentro de si, esperando que
ela reprimisse as suas outras emoes, mais perigosas.
 - Eu tenho aqui uma vida boa. Tenho independncia e sou
respeitada e tenho oportunidades que nunca tinha tido como
mulher. Porque hei-de desistir de tudo? Para qu? Para passar
o resto dos meus dias confinada a alguns quartos exguos,
cozinhando e bordando?
 Geraldo disse em voz baixa:
 - Se fosse isso que eu quisesse de uma esposa, j me tinha
casado h muito tempo.
 - Ento, casa! - respondeu Joana, agastada. - No te
impedirei!
 Geraldo franziu o sobrolho, perpassando-lhe pelos olhos
sinais de irritao. Perguntou gentilmente:
 - Joana, o que aconteceu? O que se passa?
 - Nada. Eu mudei,  tudo, j no sou a rapariga ingnua e
carente que tu conheceste em Dorstadt. Agora, sou dona de mim
mesma. E no quero abrir mo disso - nem por ti, nem por
qualquer outro homem!
 - Eu pedi-te para o fazeres? - perguntou Geraldo, num tom
sensato.
 Mas, Joana no queria ouvir argumentos razoveis. A
proximidad de Geraldo e a atraco fsica fortssima que
sentia por ele eram um tormento, uma serpente que se enrolava
 volta da sua vontad estrangulando-a. Tentou libertar-se do
seu abrao com brusquido.
 - No aceitas, pois no? A ideia de eu j no estar disposta
desistir da minha vida por causa de ti? Que eu seja uma mulher
que  realmente imune ao teu charme masculino?


 332


 Geraldo ficou a olhar para ela, espantado, como se visse
qualquer coisa nova escrita no seu rosto.
 - Pensei que me amavas - disse ele, hirto. - Vejo que estava
enganado. Perdoa-me, no voltarei a importunar-te.
 Dirigiu-se para a sada, hesitou e voltou atrs.
 - Quer dizer nunca mais voltaremos a ver-nos.  realmente
isso que tu queres?
 No! Joana sentiu vontade de chorar. No  isso que eu
quero! No  nada disso que eu quero. Mas, havia uma outra
parte dela que a aconselhou a manter-se firme.
 -  isso que eu quero - disse ela. A sua voz soava-Lhe
curiosamente distante.
 Mais uma palavra de amor e de desejo da parte dele, e ela
cederia e correria para os seus braos. Mas, ele virou-se de
repente e afastou-se na direco da porta. Ela ouviu-o a
descer os degraus do templo a correr.
 Correu para a porta.
 - Geraldo! - gritou ela. - Espera!
 O som estridente dos cascos a baterem nas pedras fez com que
ela se desfizesse em lgrimas. Geraldo cavalgou apressadamente
pela estrada abaixo. Pouco depois, dobrou uma curva e
desapareceu.


 333


 @24


 O Vero romano surgiu impiedoso. O sol brilhava sem
descanso, ao meio-dia, as pedras da calada estavam
suficientemente quentes para queimarem os ps de um homem. O
fedor a lixo podre e a estrume, intensificado pelo calor,
elevava-se no ar quieto e pairava sobre a cidade como uma
nuvem sufocante. Febres pestilentas comearam a grassar entre
os pobres que viviam no pntano e nas casas degradadas
alinhadas nas terras baixas das margens do Tibre.
 Temendo o contgio, Lothar e o seu exrcito abandonaram a
cidade. Os romanos regozijaram-se com a sua partida porcque o
fardo da manuteno de um exrcito to numeroso tinha esgotado
os recursos da cidade.
 Srgio foi saudado como um heri. A adulao do povo
ajudava-o a ultrapassar o seu desgosto com a morte de Bento.
Emergindo com uma sade e energia redescobertas - recuperadas,
em grande parte graas  dieta espartana que Joana lhe tinha
imposto como penitncia - Srgio era outro homem. Fiel  sua
promessa, comeou a reconstruir o Orphanotrophium. As paredes
em runa foram reforadas e o tecto foi posto de novo. Foram
arrancadas do templo de Minerva placas de mrmore travertina,
utilizadas para revestir o cho do grande salo. Foi
construda uma nova capela, dedicada a Santo Estvo.
 Enquanto, anteriormente, Srgio estava muitas vezes demasiado
cansado ou doente para dizer missa, agora, celebrava o sagrado
sacramento todas as manhs. Alm disso, encontrava-se muitas
vezes a rezar na capela privada. Entregou-se  sua f com o
mesmo fervor que tinha posto nos prazeres da mesa - porque ele
no era homem para fazer as coisas pela metade.


 334


 Dois anos de invernos amenos e de colheitas abundantes
resultaram numa poca de prosperidade generalizada. At as
legies de pobres que enchiam as ruas da cidade pareciam ter
diminudo um pouco porque os bolsos dos seus irmos prsperos
tinham-se aberto e as esmolas tinham aumentado. Os romanos
ofereciam oraes de aco de graas aos altares das suas
igrejas, satisfeitos com a sua cidade e o seu Senhor Papa.
 No suspeitavam - como poderiam? - da catstrofe que estava
prestes a abater-se sobre eles.
 Joana estava com Srgio num dos seus encontros regulares com
os prncipes da cidade, quando o mensageiro irrompeu ao seu
encontro.
 - O que  isto? - perguntou Srgio, com severidade.
 O mensageiro ajoelhou-se, em sinal de obedincia
 - Trago-vos uma mensagem da maior importncia para a
cristandade proveniente de Siena. Uma grande frota de navios
sarracenos fez-se ao mar em frica. Dirigem-se directamente
para Roma.
 - Para Roma? - repetiu um dos prncipes num tom sumido. - O
relatrio deve estar enganado.
 - No h erro nenhum - disse o mensageiro. - Os sarracenos
estaro aqui daqui dentro de quinze dias.
 Fez-se silncio por momentos, enquanto todos tomavam
conscincia desta notcia surpreendente.
 Outro prncipe disse:
 - Talvez seja melhor levar as relquias sagradas para um
stio mais seguro.
 Referia-se  ossada do apstolo Pedro, a relquia mais
sagrada de toda a Cristandade que se encontrava depositada na
baslica de seu nome, fora da proteco dos muros da cidade.
 Romualdo, o maior na assembleia de prncipes atirou a cabea
para trs e riu-se:
 - No pensais que os infiis atacariam So pedro?
 - O que os impede? - perguntou Joana.
 - Eles podem ser brbaros, mas no so loucos - respondeu
Romualdo. - Sabem que a mo de Deus os esmagaria no momento em
que eles entrassem no tmulo sagrado!
 - Eles tm a sua prpria religio - lembrou Joana.
 - No temem a mo do nosso Deus cristo.
 O sorriso de Romualdo esmoreceu.
 - Que blasfmia pag  esta?


 335



 Joana argumentou:
 - A baslica  um alvo evidente para o saque, mais que no
seja, pelos tesouros que se encontram dentro dela. Por uma
questo de segurana, devemos trazer os seus objectos sagrados
e o sarcfago do santo para dentro dos muros da cidade.
 Srgio hesitava:
 - J tivemos avisos destes antes e no aconteceu nada.
 - De facto, - disse Romualdo, em tom de troa - se nos
enchssemos de medo cada vez que  avistado um navio de
sarracenos, as relquias sagradas andariam num vaivm, como se
fossem um par de agulhas num tear!
 A exploso de gargalhadas de concordncia foi interrompida
instantaneamente pelo ar reprovador do Pontfice.
 Srgio disse:
 - Deus defender os Seus. O apstolo Bendito ficar onde
est.
 - Pelo menos - insistiu a Joana - mandemos chamar homens das
povoaes limtrofes, para defender a cidade.
 -  tempo de vindimas - disse Srgio. - As povoaes
precisam de todos os homens robustos para trabalharem nas
vinhas. No vejo necessidade de pr em risco a vindima, da
qual tudo depende, quando no existe perigo iminente.
 - Mas, Santidade...
 Srgio interrompeu-a.
 - Confiai em Deus, Joo Anglicus. No existe escudo mais
forte do que a f e a orao crists.
 Joana baixou a cabea em sinal de submisso. Mas,
intimamente, pensou, revoltando-se: quando os sarracenos
estiverem s portas da cidade, todas as oraes do mundo no
ajudaro nem metade daquilo que ajudaria uma nica diviso de
homens combatentes..


 * * *


 Geraldo e a sua companhia estavam acampados mesmo s
portas da cidade de Benevento. Os homens dormiam a sono solto
dentro das suas tendas, depois de uma noite de desbragamento -
um festim que Geraldo lhes tinha concedido como recompensa
pela sua vitria retumbante no dia anterior.
 Nos ltimos dois anos, Geraldo tinha comandado os exrcitos
do prncipe Siconulf, lutando para assegurar o seu trono
contra o ambicioso pretendente Radelchis. Comandante hbil,
que exigia muito dos seus homens, enquanto eles estavam a
aprender a disciplina e manejo das armas e que, depois,
confiava que eles tinham um bom desempenho no campo de
batalha, Geraldo tinha infligido derrota sobre derrota aos
exrcitos de Radelchis.


 336


A vitria do dia anterior tinha sido to retumbante que era
provvel que tivesse posto para sempre fim  pretenso de
Radelchis ao trono de Benevento. Apesar de as sentinelas
armadas estarem colocadas em torno de todo o acampamento,
Geraldo e os seus homens dormiam com as espadas e os escudos
junto de si, onde estavam  mo. Geraldo no arriscava porque
um inimigo podia ser perigoso mesmo depois de derrotado. O
calor da vingana levava, por vezes, os homens a
precipitarem-se em aces desesperadas. Geraldo conhecia
muitos acampamentos que tinham sido apanhados de surpresa, nos
quais os seus ocupantes tinham sido chacinados antes de terem
tido, sequer, tempo para acordarem.
 No entanto, de momento, esses pensamentos estavam longe da
mente de Geraldo. Estava deitado descontraidamente, com os
braos por trs da nuca e as pernas dispostas  vontade. Ao
seu lado, uma mulher tapada com uma coberta respirava
compassadamente, fazendo um som ritmado, interrompido, por
vezes, por um ligeiro ressonar.
  luz do dia, Geraldo arrependeu-se do breve arroubo de
paixo que a tinha trazido para a sua cama. Ao longo dos anos,
tinha havido outros encontros fortuitos, cada um deles menos
satisfatrio e mais passageiro do que o anterior. Geraldo
continuava a acalentar no seu corao a recordao de um amor
que no podia esquecer.
 Abanou a cabea, impaciente. Era intil remexer no passado.
Joana no partilhava os seus sentimentos, seno, no o teria
mandado embora.
 A mulher deitou-se de lado. Geraldo tocou-lhe no ombro e ela
acordou, abrindo uns lindos olhos negros que o fitaram sem
perceber.
 - J  dia - disse Geraldo. Tirou algumas moedas do seu saco
e deu-lhas.
 Ela agarrou-as e sorriu, contente.
 - Devo voltar esta noite, senhor?
 - No, no  preciso.
 Ela ficou desiludida.
 - No vos agradei?
 - Sim, sim, claro. Mas, ns levantamos o acampamento hoje 
noite.
 Pouco depois, ele ficou a v-la atravessar o campo, com as
sandlias a chinelarem pela relva molhada. O cu enevoado
estava a comear a clarear, adquirindo um tom plido e
cinzento.
 Em breve, voltaria a ser dia.


 337


 Siconulf e os seus principais fideles j estavam reunidos na
grande sala quando Geraldo entrou. Dispensando as cortesias
usuais, Siconulf anunciou abruptamente:
 - Acabei de receber uma mensagem da Crsega. Da costa
africana partiram setenta e trs navios sarracenos. Trazem
cerca de cinco mil homens e duzentos cavalos a bordo.
 Seguiu-se um silncio espantoso. Era difcil imaginar uma
frota to grande.
 Eburis, um dos fideles de Siconulf, disse num tom grave:
 - O que quer que seja que eles querem,  mais do que apenas
outro ataque de pirataria  nossa costa.
 - Dirigem-se para Roma - disse Siconulf.
 - Roma! Certamente que no! - disse outro fideles.
 - Que disparate! - disse um terceiro. - Nunca se atreveriam!
 Geraldo mal os ouvia. Os seus pensamentos corriam  sua
frente:
 - O papa Srgio vai precisar da nossa ajuda - disse ele de
uma forma tensa.
 Mas, no era em Srgio que ele estava a pensar. De um s
golpe, as notcias da aproximao da armada dos sarracenos
tinham apagado toda a amargura e mgoa dos ltimos dois anos.
S importava uma coisa - chegar ao p de Joana e fazer tudo
quanto estava ao seu alcance para a proteger.
 - O que sugeris, Geraldo? - perguntou Siconulf.
 - Meu prncipe, deixai-me comandar as nossas tropas para
defender Roma.
 Siconulf franziu o sobrolho.
 - Certamente, a Cidade Santa tem os seus prprios
defensores..
 - S tem a famlia Sancti Petri - um grupo pequeno e
indisciplinado de milcias papais. Cairo como trigo maduro
diante das espadas dos sarracenos.
 - E o Muro Aureliano? Certamente os sarracenos no sero
capazes de o derrubar.
 - O muro parece ser bastante forte - admitiu Geraldo. - Mas
vrias das suas portas tm poucos reforos. No aguentaro um
assalto persistente. E o tmulo de So Pedro est
completamente desprotegido porque fica fora do muro.
 Siconulf ficou a pensar naquilo. Tinha relutncia em
comprometer as suas tropas numa causa que no fosse sua. Mas,
era um prncipe cristo, venerava a Cidade Santa e os seus
locais sagrados. A ideia de brbaros infiis a profanarem o
tmulo do Apstolo era terrvel.


 338


Alm disso, ocorria-Lhe, agora, que talvez pudesse tirar algum
benefcio pessoal do envio de homens para defenderem Roma.
Depois, um papa Srgio grato podia recompens-lo com um dos
ricos domnios papais que ficavam na fronteira do territrio
de Siconulf.
 Disse a Geraldo:
 - Podeis contar com trs divises. De quanto tempo precisais
para vos preparardes para partir?
 - As tropas esto endurecidas pela batalha e a postos.
Podemos partir imediatamente. Se o tempo se mantiver propcio,
estaremos em Roma dentro de dez dias.
 - Rezemos para que seja suficiente. Deus v convosco,
Geraldo.


 Em Roma, vivia-se uma estranha atmosfera de calma. Desde o
aviso inicial, vindo de Siena duas semanas antes, no se tinha
voltado a ouvir palavra sobre a armada dos sarracenos. Os
romanos comeavam gradualmente a acalmar, convencendo-se de
que os relatos de uma frota inimiga, a mal, tinham sido
falsos.
 A manh de 23 de Agosto acordou luminosa e promissora. A
missa foi celebrada na Catedral de Santa Maria dos Mrtires,
conhecida no tempo dos pagos como Panteo, uma das igrejas
mais bonitas de Roma. Foi uma celebrao particularmente
bonita, com o sol a entrar pelas aberturas circulares no
grande tecto em abbada da baslica, espalhando um alo dourado
por cima de toda a assembleia. Ao regressar ao Patriarchium, o
coro cantava a plenos pulmes: Gloria in excelsis Deo.
 O canto morreu-Lhes nos lbios assim que entraram na piazza
ensolarada do Laterano e viram uma multido de cidados num
crculo ansioso em torno de um mensageiro estranho e
enlameado.
 - Os infiis desembarcaram - anunciou o mensageiro,
pesaroso. - A cidade do Porto foi tomada, as pessoas
massacradas e as igrejas profanadas.
 - Cristo nos ajude! - gritou algum.
 - O que ser de ns? - gemeu outro.
 - Vo matar-nos a todos! - gritou um terceiro,
histericamente.
 A multido ameaava entrar numa desordem perigosa.
 - Silncio! - a voz de Srgio ergueu-se acima do
rumor.Acabai com esta atitude indigna! - A voz de autoridade
irrompeu, dominante, sobrepondo-se ao barulho e apelando 
obedincia.
 - Ento - disse ele - somos ovelhas para nos acobardarmos
assim? Somos crianas, para pensarmos que somos indefesos!
 Fez uma pausa dramtica.


 339


 - No! Somos romanos! E isto  Roma, protectorado de So
Pedro, bero do Reino dos Cus! Tu s Pedro, disse Cristo, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja. O que temos a
temer? Iria Deus permitir que o Seu altar sagrado fosse
profanado?
 A multido agitou-se. Ouviram-se vozes dispersas em
resposta:
 - Sim! Ouvi o Senhor Papa! Srgio tem razo!
 - No temos os nossos guardas e as nossas milcias?
 Com um gesto, Srgio apontou para a guarda papal que reagiu,
erguendo as suas lanas e agitando-as convictamente.
 - O sangue dos nossos antepassados corre nas nossas veias,
eles dispem da fora do Deus Omnipotente! Quem prevalecer
contra eles?
 A multido lanou um grito de saudao. O passado herico de
Roma continuava a ser uma fonte de orgulho, os triunfos
militares de Csar, de Pompeu e de Augusto eram conhecidos por
todos os cidados.
 Joana olhou para Srgio com admirao. Seria aquela figura
herica o mesmo homem doente, mal-humorado, desanimado que ela
tinha encontrado dois anos antes?
 - Que venham os infiis! - gritou Srgio. - Que eles brandam
as suas armas contra esta fortaleza sagrada! Despedaaro os
seus coraes contra os nossos muros protegidos por Deus!
 Joana sentiu a onda de excitao e de entusiasmo que se
levantou e se abateu sobre a multido num tumulto de emoo
barulhento. Mas, tinha os ps demasiado assentes na terra para
se deixar entusiasmar to facilmente. O mundo no  o que
gostaramos que fosse, pensou ela, por muito habilidosos que
sejamos a conjur-lo.
 A multido mantinha-se firme, de cabeas levantadas e faces
iluminadas.  volta de Joana ecoavam em unssono vozes
excitadas:
 - Srgio! Srgio! Srgio! Srgio!
 Por ordem de Srgio, o povo passou dois dias a jejuar e a
rezar. Os altares de todas as igrejas brilhavam, iluminados
com uma profuso de velas votivas. Havia relatos de milagres
por todo o lado. Dizia-se que a esttua de ouro da Madona do
Oratrio de So Cosme tinha mexido os olhos e rezado uma
litania. O crucifixo por cima do altar de Santo Adriano tinha
derramado lgrimas de sangue. Estes milagres eram
interpretados como sinais da bno e favor divinos. Dia e
noite ouvia-se o som do Hosana a sair das igrejas e mosteiros,
uma vez que o clero da cidade tinha respondido ao desafio do
Senhor Papa preparando-se para enfrentar o inimigo com a fora
invencvel da sua f crist.


 340


 Imediatamente a seguir ao amanhecer do dia 2 de Agosto,
ouviu-se um grito junto aos muros:
 - Eles vm a! Eles vm a!
 Os gritos aterrados do povo penetraram at na grossa parede
dos muros do Patriarchum.
 - Tenho de ir para as trincheiras - anunciou Srgio. -
Quando o povo me vir, saber que no tm nada a temer.
 Arighis e os outros prelados protestaram, argumentando que
era demasiado perigoso, mas Srgio estava decidido. Acabaram
por o levar, contrariados, at ao muro, escolhendo
cuidadosamente um local onde as pedras se erguiam um pouco
mais alto, permitindo melhor proteco.
 Ouviu-se uma grande ovao quando Srgio subiu os degraus.
Depois, todos os olhares convergiram para ocidente.
Levantou-se uma grande nuvem de p. Os sarracenos emergiram
dela a galope rpido, com as suas vestes soltas flutuando como
asas de aves de rapina gigantes. Ouviu-se um tremendo grito de
guerra, um ulular prolongado, agudo, que ficou a pairar no ar,
provocando um arrepio de medo naqueles que o ouviram.
 - Deo, juva nos - disse um dos padres, a tremer.
 Srgio ergueu um pequeno crucifixo com pedras preciosas
encrostadas e gritou:
 - Cristo  o nosso Salvador e o nosso Escudo.
 As portas da cidade abriram-se e a milcia papal marchou
corajosamente ao encontro do inimigo.
 - Morte aos infiis! - gritaram eles, brandindo as suas
espadas e os seus punhais.
 Os exrcitos beligerantes colidiram com um barulho
ensurdecedor de metal, mais alto do que o barulho de mil
ferreiros. Em minutos, tornou-se evidente que a batalha era
fatalmente desigual, a cavalaria sarracena dirigiu-se
precisamente para a linha da frente dos pees romanos,
cortando e despedaando com as suas cimitarras curvas.
 A milcia da retaguarda no conseguia ver a mortandade que
se passava na frente. Ainda convencidos da vitria, avanaram,
empurrando por trs aqueles que os precediam. Os homens foram
todos passados  espada dos sarracenos, fila a fila. Os corpos
amontoavam-se, impedindo o avano dos que vinham atrs.
 Foi um massacre. Derrotada e aterrada, a milcia retirou
numa desordem desesperada.
 - Fugi! - gritavam eles, correndo pelo campo, como sementes
lanadas ao vento. - Fugi para sobreviverdes!


 341


 Os sarracenos no se deram ao trabalho de os perseguir
porque a sua vitria lhes tinha alcanado um prmio muito
melhor: a Baslica de So Pedro, desprotegida. Cercaram-na
como um enxame negro. No desmontaram. Subiram as escadas com
os cavalos e entraram pelas portas adentro.
 Os romanos esperaram, exaustos, por trs dos muros. Passou
um minuto. Depois, outro. No se ouviu nenhum trovo a rasgar
os cus, nem desceu nenhum mar de chamas do cu. Em vez disso,
ouviu-se o som inequvoco de madeira e metal a partir dentro
da baslica. Os sarracenos estavam a pilhar o altar sagrado.
 - No pode ser - murmurou Srgio. - Meu Deus, no pode ser.
 Um bando de sarracenos emergiu da baslica, brandindo a cruz
em ouro de Constantino. Dizia-se que havia homens que tinham
morrido apenas por se atreverem a tocar-lhe. Mas, agora, os
sarracenos mostravam-na, troando, rindo, fazendo-a oscilar
entre as pernas numa pardia obscena e animalesca.
 Com um suspiro mudo, Srgio largou o crucifixo e caiu de
joelhos.
 - Santidade!
 Joana correu para ele.
 Um ataque cardaco, pensou ela, alarmada.
 - Levai-o - ordenou ela.
 Arighis e vrios guardas levantaram o Papa desmaiado,
carregando-o nos braos, e transportaram-no para uma casa
perto, onde o deitaram num colcho de palha.
 A respirao de Srgio era ofegante. Joana preparou-Lhe uma
infuso de bagas de espinheiro-alvar e de raiz de valeriana e
deu-Lha. Pareceu alivi-lo, pois ficou com melhor cor e
comeou a respirar melhor.
 - Eles esto s portas! - gritava o povo do lado de
fora.Cristo nos ajude! Esto s portas!
 Srgio tentou levantar-se da cama, mas a Joana fez com que
ele voltasse a deitar-se.
 - No vos deveis mexer.
 O esforo ter-lhe-ia sado caro, ele apertou os lbios com
fora.
 - Falai por mim - pediu-Lhe ele. - Dirigi os pensamentos
deles para Deus... Ajudai-os... Preparai-os...
 Os seus lbios moviam-se agitadamente, mas no saam
palavras.
 - Sim, Santidade, sim - assentiu Joana. - Era evidente que
isso o pacificaria. - Farei como dizeis. Mas, agora, tendes
que descansar.


 342



 Ele acenou com a cabea e deitou-se. As suas plpebras
tremeram e fecharam-se quando o remdio comeou a fazer
efeito. No havia mais nada a fazer seno deix-lo dormir e
esperar que o remdio actuasse.
 Joana deixou-o aos cuidados de Arighis e saiu para a rua.
 Perto, ouvia-se um rudo dilacerante como de um raio. Joana
comeou a ter medo.
 - O que se passa? - perguntou ela a um grupo de guardas que
ia a passar.
 - Os porcos idlatras esto a tentar arrombar os
portes!respondeu um guarda, quando passaram por ela.
 Ela regressou  praa. O terror tinha provocado o frenesim
entre a multido. Os homens arrancavam a barba violentamente,
as mulheres gritavam e arranhavam as faces com as unhas, at
correr o sangue. Os monges da Abadia de So Joo estavam
ajoelhados num canto, todos juntos, com os capuzes negros a
carem da cabea e os braos levantados ao cu. Alguns deles
tinham rasgado as vestes e comeado a flagelar-se com paus em
madeira, numa tentativa frentica para propiciar a evidente
ira de Deus. Assustadas com este espectculo, as crianas
choravam e as suas vozes agudas sobressaam do coro louco e
dissonante dos adultos.
 Ajudai-os, tinha pedido Srgio. Preparai-os.
 Mas, como?
 Joana subiu os degraus do muro. Pegando no crucifixo que
Srgio tinha deixado cair, levantou-o bem alto para que todos
o vissem. O sol reflectiu-se nas suas gemas, espalhando um
arco-ris de luz dourada.
 - Hosanna in exceli - comeou ela a entoar alto. As notas
agudas e claras do cntico sagrado sobrepuseram-se  multido,
num tom forte, doce e seguro. As pessoas que estavam mais
perto do muro levantaram os rostos cobertos de lgrimas para o
som familiar. Padres e monges uniram as suas vozes no canto,
ajoelhando-se nas pedras gastas ao lado de pedreiros e
costureiras.
 - Christus qui venit nomine Domini...
 Voltou a ouvir-se um grande estrondo, seguido do som de
madeira a partir-se. Os portes comearam a ceder. A luz
entrava por onde tinha sido feita uma fenda.
 Meu Deus, pensou Joana. E se eles conseguirem entrar? At
ali, essa possibilidade tinha parecido impensvel.
 Vieram-Lhe  cabea recordaes. Voltou a ver os normandos
entrarem pelas portas da catedral de Dorstadt, brandindo os
seus machados. Ouviu os gritos tremendos dos moribundos... viu
o Joo no cho, com o crnio esmagado... e Gisla... Gisla...


 343


 A voz tremeu-lhe e apagou-se. O povo olhou, alarmado.
Continua, disse ela para si mesma, continua. Mas o seu
pensamento parecia que se tinha paralisado, no se lembrava
das palavras.
 - Hosanna in excelsis.
 Uma voz grave de bartono soou atrs dela. Era Leo,
cardeal-presbtero da Igreja de Sancti Quattro Coronati. Tinha
subido para ao p dela. O som da sua voz libertou-a do medo e,
juntos, prosseguiram o cntico.
 ouviu-se um grito ressoando do oriente.
 - Deus e So Pedro.
 Os guardas do muro saltavam de contentamento, aplaudindo,
gritando:
 - Deus seja louvado! Estamos salvos.
 Ela olhou por cima do muro. Aproximava-se a galope um grande
exrcito, que se dirigia para a cidade com os estandartes
flutuantes enfeitados com os emblemas de So Pedro e da cruz.
 Os sarracenos deixaram os toros com que batiam nas portas e
correram para as suas montadas.
 A Joana olhou na direco do Sol. Quando as tropas se
aproximaram mais, ela deu, subitamente, um grito agudo.
  frente, com a lana j pronta para ser lanada, alto,
elegante e herico como um dos velhos deuses da sua me,
cavalgava Geraldo.
 A batalha que se seguiu foi encarniada e impiedosa. O
ataque dos beneventanos tinha apanhado os sarracenos
desprevenidos, foram expulsos dos muros da cidade e forados a
retirarem atravs dos campos, : em direco ao mar. Na costa,
os infiis embarcaram os seus tesouros roubados e partiram. Na
debandada, deixaram para trs uma grande parte do seu saque.
Geraldo e os seus homens passaram semanas a subir e a descer a
costa,  caa de bandos de salteadores.
 Roma estava salva. Os romanos dividiam-se entre a alegria e
o desespero - alegria por causa de terem sido libertados,
desespero por causa da destruio de So Pedro. A baslica
sagrada tinha sido saqueada de tal forma que estava
irreconhecvel. A velha cruz em ouro do tmulo do Apstolo
tinha desaparecido, assim como o grande retbulo em prata com
a libertao de Bizncio, oferecida pelo imperador Carlos
Magno. Os infiis tinham arrancado as incrustaes em prata
das portas e as placas em ouro do cho. Tinham mesmo - que
Deus os cegasse! - levado o prprio altar-mor. Como no tinham
conseguido retirar o sarcfago em bronze com o corpo do
Prncipe dos Apstolos, tinham-no arrombado, espalhando e
profanando as cinzas sagradas.


 344


 Toda a Cristandade estava mergulhada no luto. Os sinais dos
antepassados tinham sido preservados dentro das portas - antes
inviolveis - deste templo cristo, o mais velho e o maior de
todos. Geraes incontveis de peregrinos, incluindo os
maiores prncipes do mundo, tinham-se prostrado humildemente
no pavimento sagrado. Fileiras de papas repousavam dentro das
suas paredes. No havia local que o Ocidente reconhecesse como
mais sagrado do que este. E, no entanto, este santurio da
Verdadeira F, que nem os godos, nem os vndalos, nem os
gregos, nem os lombardos se tinham atrevido alguma vez a
desafiar, tinha cado diante de uma horda de arruaceiros de
frica.
 Srgio culpava-se a si prprio pela catstrofe. Retirou-se
para os seus aposentos, recusando-se a receber fosse quem
fosse, a no ser a Joana e os seus conselheiros mais prximos.
E voltou a beber, esvaziando taas de vinho da Toscana umas
atrs das outras at cair num esquecimento misericordioso.
 A bebida tinha o efeito que j era conhecido: a gota voltou
a atac-lo, para aliviar a dor, ele bebia mais ainda. Dormia
mal. Acordava todas as noites a gritar, atormentado por
pesadelos nos quais era visitado pelo espectro vingativo de
Bento. Joana temia a presso que isto causava no seu corao
j enfraquecido.
 - Lembrai-vos da penitncia que combinmos - lembrou-lhe
ela.
 - Agora, j no interessa - respondeu Srgio, desanimado.No
tenho esperana de ir para o Cu. Deus abandonou-me.
 - No vos deveis culpar daquilo que aconteceu. H coisas que
ultrapassam todos os poderes mortais de as remediar ou evitar.
 Srgio abanou a cabea:
 - A alma do meu irmo assassinado clama contra mim! Eu
pequei e isto  o meu castigo.
 - Se no quereis pensar em vs prprio - argumentou
Joanapensai no povo! Agora, mais do que nunca, eles esperam o
vosso consolo e a vossa orientao.
 Ela tinha de o animar, mas, a verdade era outra. O povo
tinha-se voltado contra Srgio. Diziam que tinha havido avisos
suficientes acerca da aproximao dos sarracenos, que tinha
havido muito tempo para o Senhor Papa ter transportado o
sarcfago sagrado para dentro dos muros. A f de Srgio na
libertao de Deus, que, na altura, tinha sido louvada por
todos, agora, era condenada por todos como resultado de um
orgulho pecaminoso e um erro desastroso.
 - Mea culpa - respondeu Srgio, chorando. - Mea maxima
culpa.


 345


 Joana argumentou, resmungou, tentou persuadi-lo, em vo. A
sade de Srgio deteriorou-se rapidamente. Joana fez tudo
quanto podia por ele, mas no havia nada a fazer. Srgio
estava determinado a morrer.
 Mesmo assim, demorou algum tempo at que a morte viesse. J
tinha perdido o juzo havia muito, caindo num estado de
inconscincia, e continuava a resistir, como se o seu corpo
tivesse relutncia em libertar-se da ltima rstia de vida.
Morreu, finalmente, numa manh escura e sem sol, entregando o
esprito de uma forma to tranquila que, inicialmente, ningum
se apercebeu de que ele tinha morrido.
 Joana teve um desgosto autntico com a sua morte. Ele no
tinha sido um homem ou um papa to bom como podia ter sido.
Mas, ela sabia melhor do que ningum os demnios que o
atormentavam, sabia como ele tinha lutado para se libertar
deles. O facto de ter perdido a ltima batalha no tornava o
combate menos honroso.
 Foi sepultado na baslica em runas, ao lado dos seus
predecessores, com um cerimonial to sbrio cque quase roou o
escndalo. Os dias de luto previstos quase no foram
observados pelos romanos porque eles, impacientes, j tinham
os olhos postos no futuro e na eleio de um novo papa.



 Anastcio fugiu ao temporal provocado pelos ventos de
Janeiro e entrou no conforto do palcio ancestral da sua
famlia. Era a maior residncia em Roma, para alm do
Patriarchium, evidentemente, e Anastcio tinha razo para ter
orgulho nela. O tecto abobadado da sala de entrada tinha a
altura de dois andares e era todo em mrmore branco de Ravena.
As suas paredes estavam pintadas com frescos de cores vivas,
representando cenas da vida dos antepassados da famlia. Um
deles representava um cnsul a fazer um discurso perante o
Senado, o outro, um general sentado num carro negro,
comandando as tropas, um outro representava um cardeal
recebendo o pallium das mos do papa Adriano. Uma das paredes
tinha sido deixada em branco, prevendo o dia h muito
esperado, quando a famlia alcanasse finalmente a sua maior
honra: a coroao de um dos seus filhos como papa.
 Normalmente, esta sala era palco de uma grande azfama.
Hoje, se no fosse o intendente da famlia, estaria vazia.
Ignorando os seus cumprimentos efusivos - j que Anastcio
nunca perdia tempo com subalternos - ele dirigiu-se
directamente para o quarto do seu pai. quela hora,
normalmente, Arsnio j estava no salo, ocupado com os
notveis da cidade em jogos de poder sinuosos e gratificantes.


 346


Mas, no ms anterior, tinha sido atacado por uma febre
devastadora que tinha secado as suas formidveis energias,
confinando-o ao seu quarto.
 - Meu filho.
 Arsnio levantou-se do seu sof quando Anastcio entrou.
Estava plido. Anastcio sentiu uma onda curiosa e exaltante
de fora, como se a sua juventude e energia aumentassem, de
certa maneira, por contraste com a diminuio das foras do
seu pai.
 - Pai.
 Anastcio dirigiu-se para ele de braos abertos e eles
abraaram-se calorosamente.
 - Que notcias trazes? - perguntou Arsnio.
 - A eleio foi marcada para amanh.
 - Deus seja louvado! - exclamou Arsnio.
 Era apenas uma forma de falar. Apesar de possuir o ttulo
honorfico de bispo de Horta, Arsnio no tinha sido ordenado
e no era um homem religioso. A sua nomeao para o episcopado
tinha sido apenas um reconhecimento poltico do poder enorme
que ele tinha na cidade.
 - J  tempo de um filho meu se sentar no Trono de So
Pedro.
 -  possvel que esse resultado no seja to certo quanto
espervamos, Pai.
 - O que cqueres dizer com isso? - Perguntou Arsnio.
 - O apoio de Lothar  minha candidatura pode no ser
suficiente. O facto de ele no ter feito nada para defender
Roma dos sarracenos voltou muitos contra ele. O povo
pergunta-se porque motivo h-de prestar homenagem a um
imperador que no nos protege. Cresce a sensao de que Roma
devia afirmar a sua independncia do trono franco.
 Arsnio pensou no assunto cuidadosamente. Depois, disse:
 - Tens de denunciar Lothar.
 Anastcio estava horrorizado. O pensamento do seu pai,
sempre to lcido e acutilante, estava obviamente a toldar-se.
 - Se eu fizesse isso - respondeu ele - perderia o apoio do
partido imperial, do qual dependem as nossas esperanas.
 - No. Vais ter com eles e explicas-lhes que ests a agir
apenas por necessidade poltica. Assegura-os de que, seja o
que for que sejas obrigado a dizer, na realidade, s um homem
do Imperador e que o provars depois da tua eleio,
atribuindo-lhes benefcios e privilgios de monta.
 - Lothar vai ficar furioso.


 347


 - Nessa altura, j no interessa. Avanaremos para a
cerimnia de consagrao depois da eleio sem esperar pela
jussio imperial. Dadas as circunstncias, ningum protestar
porque  bvio que Roma no pode continuar sem chefe nem mais
um dia do que o necessrio, sob a contnua ameaa dos
sarracenos. Quando Lothar receber a notcia daquilo que
aconteceu, sers Senhor Papa, bispo de Roma - e o imperador
no poder fazer nada para o alterar.
 Anastcio abanou a cabea com admirao. O seu pai tinha
tomado conta da situao imediatamente. A velha raposa podia
estar a envelhecer, mas no tinha perdido nem um pouco da sua
astcia.
 Arsnio pegou numa grande chave em ferro.
 - Vai aos armrios e tira o ouro de que precisares para
conquistar as suas mentes para ti. Raios! - praguejou ele. -
Se no fosse esta maldita febre, era eu prprio que o fazia.
 Anastcio pegou na chave fria e dura com uma sensao de
poder gratificante.
 - Descansai, Pai. Eu trato disto.
 Arsnio agarrou-o pela manga.
 - Tem cuidado, meu filho. O jogo que tu ests a jogar 
perigoso. No te esqueceste do que aconteceu ao teu tio
Teodoro?
 Esquecido! O assassinato do seu tio no Palcio Laterano tinha
sido o momento de viragem da infncia de Anastcio. A
expresso de Teodoro quando os guardas papais lhe arrancaram
os olhos perseguiria Anastcio at ao dia da sua morte.
 - Eu terei cuidado, Pai - disse Anastcio. - Deixai tudo 
comigo.
 -  precisamente isso que eu pretendo fazer - retorquiu
Arsnio.


 * * *


 Ad te, Domine, levavi animam meam... rezava Joana, ajoelhada
na pedra fria da capela do Patriarchium. Mas, por muito que
rezasse, no era capaz de ascender  luz da graa; havia um
lao mortal que a mantinha presa aqui em baixo.
 Amava Geraldo. No valia a pena continuar a iludir ou a
negar essa verdade simples. Quando o tinha visto a caminho da
cidade,  frente das tropas beneventanas, o seu ser tinha-se
precipitado na sua direco com uma convico poderosa.
 Tinha trinta e trs anos. Mas, no tinha ningum a quem
estivesse ligada intimamente. As realidades prticas do seu
disfarce no tinham permitido que ningum se aproximasse
muito. Vivia uma vida de mentira, negando a verdade de quem
era.


 348


 Seria por isso que Deus a tinha privado da Sua graa? Ser
que Ele queria que ela abandonasse o seu disfarce e vivesse a
vida de uma mulher, para a qual ela tinha nascido? A morte de
Srgio tinha-a libertado de qualquer obrigao de permanecer
em Roma. O prximo papa seria Anastcio e no haveria lugar
para Joana na sua administrao. Ela tinha combatido os seus
sentimentos por Geraldo durante muito tempo. Que alvio
abenoado seria seguir os ditames do seu corao e no da sua
cabea. que aconteceria quando ela e Geraldo voltassem a
encontrar-se? Sorria intimamente, imaginando a alegria desse
momento. Agora, tudo era possvel. Podia acontecer tudo.
 Ao meio-dia do dia marcado para a eleio, tinham-se reunido
todos os romanos, leigos e clero, participavam na eleio do
novo papa.
 Joana teve que se pr em bicos dos ps para conseguir
espreitar por cima das cabeas e dos braos. Onde estava
Geraldo? Havia rumores de que ele tinha regressado da sua
campanha de meses contra os sarracenos. Se era verdade, ele
estaria ali. Subitamente, ficou com medo - e se ele tivesse
regressado a Benevento sem voltar a v-la?
 A multido abriu alas respeitosamente quando Eustcio, o
arcipreste, Desidrio, o arcediago, e Pascal, o primicerius,
entraram na praa: o triunvirato dos funcionrios que, por
tradio, governavam a cidade sede vacante, isto , no
interregno entre a morte de um papa e a eleio de outro.
 Eustcio fez uma pequena orao:
 - Pai Celeste, guiai-nos naquilo que vamos fazer aqui hoje
para que ajamos com prudncia e honra, que o dio no destrua
a razo e o amor no interfira com a verdade. Em Nome da santa
e indivisvel Trindade do Pai, Filho e Esprito Santo. men.
 Pascal falou a seguir:
 - Tendo o senhor papa Srgio partido para Deus, cabe-nos
eleger o seu sucessor. Qualquer romano aqui presente pode
falar e manifestar os sentimentos que Deus lhe inspirou para
que a vontade geral seja, assim, cumprida.
 - Meu Senhor Primicerius.


 349


 Tassilo, o chefe da faco imperial e um dos agentes de
Lothar falou imediatamente:
 - H um nome que se impe acima de todos os outros.
Anastcio, bispo de Castellum, filho do ilustre Arsnio. Todas
as qualidades da natureza deste homem o recomendam para o
trono - o seu nascimento nobre, a sua erudio extraordinria,
a sua indiscutvel piedade. Em Anastcio teremos um defensor
no s da nossa f crist, mas tambm dos nossos interesses.
 - Dos vossos interesses, quereis vs dizer! - disse uma
voz, trocista, vinda da multido.
 - No - retorquiu Tassilo. - A generosidade e grandeza de
corao de Anastcio far dele um pai para todos vs.
 - Ele  o homem do imperador! - voltou a gritar o
provocador. - No queremos um instrumento do trono franco para
nosso Senhor Papa!
 -  verdade!  verdade! - disseram vrias vozes, num acordo
vigoroso.
 Anastcio subiu  plataforma. Levantou os braos num gesto
dramtico, acalmando a multido.
 - Companheiros romanos, julgais-me mal. O orgulho dos meus
nobres antepassados romanos corre to intensamente nas minhas
veias como nas vossas. No me submeto a nenhum senhor franco!
 - Ouvi, ouvi! - aclamaram-no os seus apoiantes,
entusiasticamente.
 - Onde estava Lothar quando o infiel estava s nossas
portas?prosseguiu Anastcio. - No momento em que no respondeu
s nossas necessidades, perdeu o direito de se chamar a si
mesmo Protector das Terras de So Pedro! Como soldado de
Lothar, devo-lhe honra, como ele  um companheiro cristo,
devo-Lhe respeito, mas a minha fidelidade vai primeiro e
sempre para a Me Roma!
 Tinha falado bem. Os seus apoiantes voltaram a aclam-lo e,
desta vez, foram acompanhados por outros entre a multido. A
mar de opinio estava a virar-se para Anastcio.
 -  mentira! - gritou Joana. Todos os rostos se voltaram
para ela, surpreendidos.
 - Quem falou? - procurou Pascal entre a multido. - Que o
acusador avance.
 Joana hesitou. Tinha falado sem pensar, picada pela ira
perante a hipocrisia de Anastcio. Mas, agora, no podia
recuar. Subiu  plataforma.
 - Mas,  Joo Anglicus! - disse algum.


 350


 Um murmrio de reconhecimento atravessou a multido, todos
tinham conhecimento ou tinham ouvido falar da forma como Joana
se havia postado corajosamente no muro da cidade, durante o
ataque dos sarracenos.
 Anastcio tapou-Lhe a passagem. No tendes o direito de vos
dirigirdes a esta assembleia!.
 - No sois um cidado romano.
 - Deixai-o falar! - gritou uma voz. Ouviram-se mais gritos,
at Anastcio acabou por ser forado a deix-la passar.
 Pascal disse:
 - Fazei as vossas acusaes abertamente, Joo Anglicus.
 Respirando fundo, Joana disse:
 - O bispo Anastcio fez um acordo com o Imperador. Eu ouvi-o
prometer que voltava a entregar Roma ao trono franco.
 - Falso Padre! Mentiroso!
 Os membros do partido imperial comearam a gritar para
tentar abafar a sua voz. Levantando a voz mais alto do que
eles, ela descreveu como tinha ouvido Lothar pedir a Anastcio
que o ajudasse a levar o povo a jurar fidelidade e como
Anastcio tinha concordado, a troco do apoio de Lothar.
 - Essa acusao  muito grave - disse Pascal -, O que tendes
a dizer, Anastcio, Diante de Deus.
 - o padre est a mentir - disse Anastcio. - Certamente os
meus concidados no vo acreditar na palavra de um
estrangeiro contra a de um cidado romano!
 - Vs fostes o primeiro a apoiar o juramento! - gritou
algum.
 - E ento - argumentou outro. - Isso no prova nada!
 Seguiu-se uma grande confuso. O debate aquecia cada vez
mais, com o humor da multido pendendo primeiro para um lado,
depois, para o outro,  medida que se levantavam vozes para
apoiar ou condenar Anastcio.
 - Meu Senhor Primicerius!
 Arighis, que at ali se tinha mantido calado, avanou.
 - Vicedominus.
 Pascal saudou Arighis respeitosamente, apesar de estar
surpreendido. Servo dedicado e leal ao trono papal como ele
era, Arighis nunca se tinha metido em polticas.
 - Tendes alguma coisa a acrescentar a esta disputa?
 - Tenho - Arighis virou-se para a multido.
 - Cidados de Roma, no estamos livres de perigo. Quando
vier a Primavera, os sarracenos podem tentar um novo assalto 
cidade. Temos de nos manter unidos perante esta ameaa.


 351


No podem existir divises entre ns. Seja quem for que
escolhais para nosso Senhor Papa, tem de ser algum que rena
o consenso de todos.
 Ouviu-se um murmrio de assentimento perpassar a multido.
 - Existe um homem assim? - perguntou Pascal.
 - Sim - respondeu Arighis. - Um homem de viso e poder,
assim como instrudo e piedoso: Leo, cardeal-presbtero da
Igreja de Sancti Quatro Coronati!
 A sugesto foi acolhida com um silncio profundo. Estavam
to embrenhados na discusso sobre os mritos da candidatura
de Anastcio, que no tinham parado para considerar outra
possibilidade.
 - A linhagem de Leo  to nobre como a de Anastcio -
prosseguiu Arighis. - O seu pai  um respeitado membro do
Senado. Ele desempenhou as suas obrigaes de
cardeal-presbtero com distino.
 Arighis guardou o seu ponto mais revelador para o fim:
 - Algum de ns poder esquecer como ele ficou corajosamente
junto aos muros, durante o ataque dos sarracenos,
animando-nos? Ele  um leo de Deus, outro So Loureno, um
homem que pode, que nos proteger dos infiis!
 A exigncia do momento tinha feito despontar em Arighis uma
eloquncia que no lhe era caracterstica. Inflamados pela
profundidade da sua convico, muitos na multido irromperam
espontaneamente em aclamaes.
 Sentindo que era oportuno, os membros da faco papal
comearam a gritar.
 - Leo! Leo! - gritavam eles. - Queremos Leo para nosso
senhor!
 Os apoiantes de Anastcio tentaram contrariar a tendncia, a
favor da sua candidatura. Mas, o sentimento da multido tinha
mudado claramente. Quando se tornou evidente para a faco
imperial que no iam vencer, transferiram o seu apoio para
Leo. Leo fi proclamado Senhor e Papa a uma s voz.
 Levado triunfalmente aos ombros pelos seus concidados, eLe"
subiu  plataforma. Era baixo, mas bem constitudo, ainda
jovem. suas feies, acentuadamente romanas, eram emolduradas
por um cabelo castanho encaracolado e forte e a sua expresso
insinuava inteligncia e humor. Com sensibilidade para as
ocasies solenes, Pascal prostrou-se diante dele e beijou-lhe
os ps. Eustcio e Desidrio seguiram-no imediatamente.


 352



 Todos os olhos se voltaram para Anastcio, na expectativa.
Por uma fraco de segundos, ele hesitou. Depois, forou os
seus joelhos a dobrarem-se. Estendendo-se ao comprido no cho,
beijou os ps do Papa eleito.
 - Levantai-vos, nobre Anastcio - Leo estendeu-lhe a mo,
ajudando-o a levantar-se. - A partir de hoje, sois
Cardeal-Presbtero de So Marcelo.
 Era um gesto generoso. Leo tinha presenteado Anastcio com
uma das sinecuras mais prestigiadas de Roma.
 A multido manifestou a sua aprovao.
 Anastcio forou os seus lbios a sorrirem porque o gosto
amargo da derrota lhe sabia a cinzas secas.


 * * *


 Magnus Dominus et laudibilis nimis. As notas do intrito
atravessavam a janela do quartinho onde Joana guardava os seus
medicamentos. Como So Pedro estava em runas, a cerimnia de
consagrao tinha sido na Baslica de Latro.
 Joana devia estar na igreja com o resto do clero,
testemunhando a coroao jubilosa de um novo papa. Mas, tinha
muito que fazer ali: tinha de pendurar as ervas recm-colhidas
para secarem, tinha de encher os jarros e as garrafas com os
medicamentos respectivos, pondo tudo em ordem. Quando acabou,
encheu as prateleiras com as suas filas alinhadas de poes,
ervas e medicamentos - testemunho tangvel de tudo quanto ela
tinha aprendido na arte da cura. Sentiu um aperto no corao e
apercebeu-se de que iria sentir falta daquela oficinazinha.
 - Pensei que te encontrava aqui.
 A voz de Geraldo soou atrs dela. O corao de Joana deu um
salto de alegria. Virou-se para ele e os seus olhos
encontraram-se.
 - Tu? - disse Geraldo suavemente.
 - Eu.
 Sorriram um ao outro com o calor da intimidade
restabelecida.
 -  estranho - disse ele. - Quase me tinha esquecido.
 - Esquecido?
 - Cada vez que te vejo... volto a descobrir-te.
 Ela avanou para ele e abraaram-se terna e suavemente.
 - As coisas que eu disse da ltima vez que estivemos
juntos... murmurou ela. - Eu no quis...
 Geraldo colocou um dedo sobre os seus lbios.
 - Deixa-me falar primeiro. O que aconteceu foi culpa minha.
Eu estava errado em pedir-te para partires; compreendo-o
agora. No percebi o que tinhas alcanado aqui...


 353


aquilo em que te tinhas tornado. Tinhas razo, Joana - no h
nada que eu te possa oferecer que se lhe compare.
 Excepto amor, pensou Joana, mas, no o disse. Disse
simplesmente:
 - No quero perder-te outra vez.
 - No me vais perder - disse Geraldo. - No vou voltar para
Benevento. Leo pediu-me para eu ficar em Roma - como
superista.
 Superista! Era uma honra extraordinria, a posio militar
mais alta em Roma: comandante-chefe da milcia papal.
 - H trabalho para fazer aqui - trabalho importante. O
tesouro que os sarracenos roubaram de So Pedro s vai
encoraj-los a voltarem  carga.
 - Pensas que eles vo regressar?
 - Sim.
 A qualquer outra mulher, Geraldo teria mentido para a
tranquilizar. Mas, Joana no era como as outras mulheres.
 - Leo vai precisar da tua ajuda, Joana - da tua e da minha.
 - Da minha? No vejo o que possa fazer.
 Geraldo disse lentamente:
 - Ento, quer dizer que ainda ningum te disse?
 - Me disse o qu?
 - Que vais ser nomenclator.
 - O qu!
 Ela no podia ter ouvido bem. O nomenclator era um dos sete
optimates, ou oficiais superiores, de Roma - o ministro da
caridade, protector de menores, vivas e rfos.
 - Mas... eu sou estrangeira!
 - Isso no interessa a Leo. Ele no  homem para se vergar
a tradies sem sentido.
 Tinha-lhe sido oferecida uma oportunidade nica. Mas,
aceit-la significaria tambm o fim de qualquer esperana de
uma vida com Geraldo. Dividida por desejos opostos, Joana no
se atrevia a falar.
 Interpretando mal o seu silncio, Geraldo disse.
 - No te preocupes, Joana. No voltarei a maar-te com
propostas de casamento. Agora, sei que nunca poderemos ficar
juntos dessa maneira. Mas, ser bom voltar a trabalhar
contigo, como dantes: Sempre fomos uma boa equipa, no fomos?
 A cabea da Joana andava-lhe  roda; tinha sado tudo to
diferente daquilo que ela tinha imaginado. A sua voz, quando
respondeu, era um sussurro:
 - Sim. Sim, fomos.


 354


 Sanctus, Sanctus, Sanctus. As palavras do hino sagrado
chegaram-lhes aos ouvidos atravs das janelas abertas. A
cerimnia de consagrao tinha terminado; o Cnone da Missa
estava quase a comear.
 - Anda - Geraldo pegou-lhe na mo. - Vamos saudar o nosso
senhor Papa juntos.


 355


 @25


 O novo Pontfice assumiu as suas tarefas com um vigor
juvenil que surpreendeu toda a gente. Parecia que, de um dia
para o outro, o Patriarchium, de um palcio monstico
poeirento, se tinha transformado numa colmeia cheia de
actividade. Notrios e secretrios corriam pelos sales com os
braos cheios de rolos de pergaminho com planos, estatutos,
cartulrios e benefcios.
 A primeira tarefa era fortalecer as defesas da cidade. Por
ordem de Leo, Geraldo fez um circuito pormenorizado pelos
muros, anotando cuidadosamente todos os pontos de fraqueza.
Seguindo as suas sugestes, foram traados planos e
iniciaram-se as obras de reparao dos muros e das portas da
cidade. Trs dos portes e quinze das torres foram
completamente reconstrudas. Foram construdas duas novas
torres na outra margem do Tibre, onde o rio entrava na cidade,
na porta de Portus. Foi feita uma ligao estratgica entre as
vrias torres, atravs de correntes de ferro reforado, de
forma a que, quando as correntes fossem esticadas por cima do
rio, formassem uma barreira que no permitisse a passagem a
navios. Os sarracenos nunca conseguiriam entrar na cidade,
pelo menos, por ali.
 Ainda se punha a difcil questo da proteco de So Pedro.
Leo convocou uma reunio do alto clero e dos optimates,
incluindo Geraldo e Joana para pensarem no problema.
 Foram avanadas algumas sugestes: colocar uma guarnio de
milcias permanente em torno da baslica, fechar a praa,
fortificar as portas e as janelas com grades em ferro.
 Leo ouvia sem entusiasmo.
 - Essas medidas s serviro para atrasar uma entrada 
fora, mas no para a impedir.


 356


 - Com todo o respeito Santidade, - disse Anastcio -, o
atraso  a nossa melhor defesa. Se no pudermos reter os
brbaros at as tropas do imperador chegarem...
 - Se chegarem... - interrompeu Geraldo, num tom seco.
 - Tendes de confiar em Deus, superista - retorquiu
Anastcio.
 - Em Lothar, quereis vs dizer - disse Geraldo. - No, no
confio.
 - Perdoai-me, superista - disse Anastcio com uma delicadeza
exagerada -, por apontar para aquilo que  bvio, mas, de
momento no podemos fazer mais nada, uma vez que a baslica
fica fora dos muros da cidade.
 Joana disse:
 - Podemos traz-la para dentro dos muros.
 As sobrancelhas escuras de Anastcio arquearam-se
sardonicamente.
 - O que propondes, Joo... que se transfira o edifcio todo,
pedra a pedra?
 - No - respondeu a Joana. - Proponho que se aumentem os
muros da cidade, de forma a cercarem So Pedro.
 - Um novo muro! - o interesse de Leo ficou aguado.
 - Totalmente impraticvel! - troou Anastcio. - Desde os 
dias dos antigos que no se realiza um projecto dessa
envergadura.
 - Ento - disse Leo - chegou a hora de outro.
 - No temos fundos! - protestou Grcio, o arcarius, ou
tesoureiro papal. - Chegaremos  bancarrota sem que a obra
tenha chegado, sequer, a meio!
 Leo considerou a questo.
 - Lanaremos novos impostos. Afinal,  justo que o novo
muro, que servir para nos proteger a todos, seja construdo
com a ajuda de todos.
 O pensamento de Geraldo j seguia  frente:
 - Podamos comear a construir aqui - e apontou para um mapa
da cidade - no Castel SantAngelo. Fazer passar o muro ao longo
da Colina do Vaticano - traou uma linha imaginria com o dedo
- faz-lo circundar So Pedro e faz-lo descer numa linha
recta at ao Tibre.
 A linha em forma de ferradura que Geraldo tinha desenhado
no s inclua So Pedro, como tambm inclua os mosteiros e
diaconae que o rodeavam, assim como todo o Borgo, no qual se
concentravam as colnias dos saxnios, dos frgios, dos
francos e dos lombardos.
 -  como se fosse uma cidade! - exclamou Leo.


 357


 - Civitas Leonina - disse Joana - a Cidade Leonina.
 Anastcio e os outros olhavam, perplexos, enquanto Leo,
Geraldo e Joana se agitavam numa feliz conspirao.
 Depois de semanas de consultas com os mestres-construtores
da cidade, o plano do muro ficou terminado. Era um projecto
ambicioso. Construdo em camadas de tufo calcrio e de
ladrilhos, o muro teria cerca de quarenta ps de altura e doze
de espessura e seria defendido por nada menos do que quarenta
e quatro torres - uma barreira que resistiria mesmo ao cerco
mais determinado.
 Em resposta ao apelo de Leo, afluram  cidade
trabalhadores provenientes de todas as povoaes e colnias do
territrio papal. Amontoavam-se nos alojamentos quentes e
cheios do Borgo, levando os recursos da cidade a um ponto de
ruptura. Apesar de serem leais e ambiciosos, eram
trabalhadores sem conhecimentos, indisciplinados e os seus
esforos tornaram-se difceis de coordenar. Apareciam todos os
dias sem saberem bem o que deviam fazer porque no havia
construtores habilitados em quantidade suficiente para
supervisionarem os seus esforos. Nos idos de Maio, uma seco
inteira do muro ruiu inesperadamente, matando vrios
trabalhadores.
 O clero, comandado pelos cardeais-presbteros da cidade,
pediu a Leo que abandonasse o projecto. A queda do muro era
um sinal claro do desagrado de Deus, disseram eles. A ideia
era uma loucura; uma estrutura to alta nunca se manteria de
p e, mesmo que se mantivesse, nunca estaria acabada a tempo
de os defender contra os sarracenos. Era muito melhor orientar
as energias do povo para a orao solene e para o jejum para
afastar a ira de Deus.
 - Rezaremos como se tudo dependesse de Deus e trabalharemos
como se tudo dependesse de ns - respondeu Leo com firmeza.
 Ele dava todos os dias uma volta para examinar o progresso
da construo e para animar os trabalhadores. No havia nada
que o pudesse deter na sua determinao para ver o muro
terminado.
 Joana admirava a forma teimosa como Leo desafiava os
cpticos. Completamente diferente de Srgio em carcter e
temperamento, Leo era um verdadeiro guia espiritual, um homem
enrgico e determinado. Mas, a admirao que Joana sentia por
ele no era partilhada por todos. Os sentimentos na cidade
dividiam-se entre aqueles que aprovavam a construo do muro e
aqueles que se lhe opunham.. Depressa se tornou claro que a
possibilidade de Leo continuar a governar dependia muito do
sucesso na construo do muro.


 358


 * * *


 Anastcio tinha a noo exacta da situao e da
oportunidade que ela representava. A obsesso de Leo com o
muro tornava-o perigosamente vulnervel. Se o projecto se
revelasse um fracasso, a desaprovao popular da resultante
podia dar a Anastcio a oportunidade que ele esperava. Os seus
apoiantes do partido imperial podiam marchar para o Laterano,
destituir o Papa desacreditado e instalar o seu candidato no
seu lugar.
 Uma vez papa, Anastcio protegeria a santa Baslica de So
Pedro, renovando e fortalecendo os laos de Roma com o imprio
franco. Os exrcitos de Lothar seriam uma defesa muito melhor
contra os infiis do que o muro impraticvel de Leo.
 Mas, Anastcio lembrou a si prprio que tinha de agir
cautelosamente. Era melhor no se opor abertamente a Leo,
pelo menos, enquanto as pessoas ainda esperavam para ver o
resultado final do empreendimento arrojado do Pontfice.
 O mais sensato era apoiar Leo publicamente, enquanto fazia
tudo o que podia para sabotar o projecto em construo. Para
tanto, Anastcio j tinha conseguido maquinar a derrocada de
uma parte do muro. No tinha sido difcil, alguns dos seus
homens de confiana tinham aparecido de noite e tinham minado
a fundao com algumas escavadelas subreptcias. Mas, a queda
do muro no tinha representado seno um pequeno atraso. Era
evidente que era preciso fazer mais qualquer coisa - um
desastre de propores suficientes para pr termo quele
projecto ridculo de uma vez por todas.
 Anastcio dava voltas  cabea, procurando uma forma de
atacar. Mas, continuava a no ter ideia nenhuma. Sentia-se
cada vez mais frustrado. Se ao menos ele pudesse chegar-Lhe
com uma mo gigantesca, que esmagasse a construo toda e a
levasse para o fogo do Inferno de um s golpe irrefutvel.
 O fogo do Inferno...
 Anastcio sentou-se muito direito, excitado com a apario
sbita de uma ideia.


 Joana acordou lentamente. Ficou confusa durante alguns
momentos, olhando para a forma desconhecida das vigas de
madeira no tecto. Depois, lembrou-se: no era o dormitrio,
mas sim os seus aposentos privados - um dos privilgios da sua
posio como nomenclator. Geraldo tambm tinha sido agraciado
com aposentos privados no Patriarchium,


 359


mas no dormia neles havia vrias semanas, preferindo ficar na
Schola Francorum no Borgo para estar mais perto das obras de
construo do muro.
 Joana tinha-o visto de longe, cavalgando em torno do local
de construo, animando os trabalhadores, ou debruado sobre
uma mesa, discutindo os planos com os mestres-construtores.
No tinham oportunidade para trocar seno um olhar de relance.
Mas, o seu corao batia, excitado, cada vez que o via.
Realmente, pensou ela, este meu corpo de mulher  um traidor.
 Com um esforo deliberado, fixou a sua ateno no trabalho
do dia e nos deveres que a esperavam.
 A luz da madrugada j entrava pela janela. Com surpresa,
apercebeu-se de que devia ter adormecido. Se no se
despachasse, chegava tarde ao seu encontro com o chefe do
Hospcio de So Miguel.
 Ao saltar da cama, apercebeu-se de que a luz que lhe entrava
no quarto no era do sol nascente. No podia ser a luz do Sol
porque a janela estava virada para ocidente.
 Correu para a janela. Por trs da silhueta negra da Colina
do Palatino, no outro extremo da cidade, erguiam-se para o cu
sem luar cortinas de luz vermelha e laranja.
 Chamas. E vinham do Borgo.
 Sem parar para calar os sapatos, Joana correu descala
pelos sales:
 - Fogo! - gritou ela. - Fogo! Fogo!
 As portas abriram-se e as pessoas comearam a aparecer,
agitadas, no corredor. Arighis dirigiu-se a ela, esfregando os
olhos.
 - O que se passa - perguntou ele.
 - O Borgo est a arder!
 - Deo, juva nos! - Arighis benzeu-se. - Tenho de acordar Sua
Santidade.
 Correu na direco do quarto papal.
 Joana correu pelas escadas abaixo e saiu. Era mais difcil
ver dali porque os numerosos oratrios, mosteiros e casas do
clero que rodeavam o Patriarchium obscureciam a vista, mas ela
diria que o incndio se tinha ateado porque o cu nocturno
estava completamente iluminado com um brilho sinistro.
 Havia outros que tinham seguido Joana at ao prtico. Caram
de joelhos, chorando e invocando Deus e So Pedro. Depois,
apareceu Leo, com a cabea descoberta e com uma simples
tnica.
 - Procurai a guarda - ordenou ele ao camareiro. - Acordai os
palefreneiros. Eles que preparem todos os cavalos e todos os
carros que estiverem disponveis.


 360



 O rapaz correu a levar as ordens. Os cavalos estavam
agitados, irrequietos e irritveis por terem sido tirados do
conforto dos seus estbulos a meio da noite. Leo montou o
baio que se encontrava  frente. Arighis ficou horrorizado:
 - No pretendeis ir vs mesmos?
 - Pretendo, sim - respondeu Leo, tomando as rdeas.
 - Santidade, tenho de me opor!  muito perigoso! Ser
certamente mais adequado que permaneais aqui e que celebreis
uma missa a pedir clemncia!
 - Posso rezar tanto fora dos muros de uma igreja como dentro
- respondeu Leo. - Afastai-vos, Arighis.
 Arighis obedeceu com relutncia. Leo esporeou a montada e
cavalgou pela rua abaixo. Joana e dezenas de guardas montaram
e partiram logo a seguir a ele. Arighis seguiu atrs deles.
No era um grande cavaleiro, mas o seu lugar era ao lado do
Papa. Se Leo se tinha metido naquela loucura, era dever de
Arighis acompanh-lo. Montou desajeitadamente e partiu atrs
deles.
 Puseram-se a galope, com as tochas a reflectirem-se nas
paredes das casas. As suas sombras perseguiam-se umas s
outras pelas ruas escuras, como fantasmas enlouquecidos.
Quando chegaram perto do Borgo, o cheiro intenso a fumo
entrou-lhes pelo nariz e eles ouviram um grande rudo, como se
fosse o rugido de milhares de animais selvagens. Depois de
passarem uma curva, o fogo estava mesmo  frente deles. Era
uma cena infernal. O quarteiro estava completamente a arder,
coberto com um manto de chamas. Atravs do fumo avermelhado,
as construes em madeira retorciam-se, presas das chamas que
as consumiam. Recortadas contra o fogo, as figuras humanas
corriam em todas as direces, como almas condenadas. Os
cavalos relincharam e recuaram, baixando as cabeas. Um padre
veio a correr na direco deles, pelo meio do fumo denso, com
o rosto manchado de suor e de fuligem.
 - Santidade! Graas a Deus que viestes!
 Pelo sotaque e pela maneira como estava vestido, Joana
percebeu que se tratava de um franco.
 -  to mau como parece? - perguntou Leo lapidarmente.
 -  ainda pior do que parece - respondeu o padre. - O
Hadrianium est destrudo, assim como o Hospcio de So
Peregrino. As colnias estrangeiras tambm desapareceram - a
Schola Saxonum ardeu completamente, assim como a sua igreja.


 360


Os edifcios da Schola Francorum esto em chamas. Eu quase no
escapava com vida.
 - Haveis visto Geraldo? - perguntou Joana, aflita.
 - O superista - O padre abanou a cabea negativamente. - Ele
dormia num dos andares superiores, com os pedreiros. Duvido
que algum deles tenha conseguido escapar, o fumo e o fogo
espalharam-se demasiado depressa.
 - E os sobreviventes - perguntou Leo. - Onde esto?
 - A maior parte deles refugiaram-se em So Pedro. Mas, h
fogo por toda a parte. Se ningum o apagar, a prpria baslica
pode estar em risco!
 Leo estendeu-lhe a mo:
 - Vinde connosco,  para l que vamos agora.
 O padre saltou para cima da montada, sentando-se atrs do
Papa e dirigiram-se todos para So Pedro.
 Joana no os acompanhou. Tinha outra coisa em mente:
encontrar Geraldo.
 A linha de fogo erguia-se slida e intransponvel  sua
frente. No havia forma de passar atravs dela. Rodeou-a, at
chegar a um cruzamento de ruas escuras e em runas por onde o
fogo j tinha passado. Desceu uma delas que seguia na direco
da Schola Francorum.
 Continuava a haver focos de incndio de cada lado da rua e o
fumo era mais espesso. O medo comeou a apertar-lhe a
garganta, mas forou-se a continuar. O seu cavalo comeou a
relinchar e a lutar, sem querer avanar, ela gritou e
bateu-lhe e ele avanou nervosamente. Ela passou por uma
paisagem de horror - troncos de rvore queimados, esqueletos
de casas, corpos retorcidos e carbonizados daqueles que tinham
tentado fugir. O corao da Joana batia-lhe dentro do peito,
no era possvel que tivesse sado alguma coisa com vida
daquele holocausto.
 De repente, inesperadamente, as paredes de um edifcio
ergueram-se diante dela. A Schola francorum! A igreja e as
construes vizinhas estavam reduzidas a cinzas, mas,
miraculosamente, a residncia principal ainda estava de p.
 O corao bateu-lhe com uma esperana renovada: talvez
Geraldo tivesse escapado! Ou talvez ainda estivesse l dentro,
ferido, precisando de ajuda.
 O cavalo estaccou, recusando-se a avanar. Ela voltou a
bater-lhe,: desta vez, ele empinou-se furiosamente, atirando-a
ao cho. Depois, largou a galope.
 Ela ficou no cho, atordoada. Ao seu lado, estava um corpo
humano, brilhante e escuro como metal fundido, com as costas
arqueadas numa agonia de morte.


 362


Com um sobressalto, ela levantou-se e correu para a schola.
Tinha de encontrar Geraldo, nada mais importava.
 Havia cinzas por toda a parte, no cho, nas suas roupas, no
seu cabelo, suspensas  sua volta numa nuvem pesada e
sufocante. As brasas queimaram-Lhe os ps descalos e ela
arrependeu-se de no ter calado uns sapatos.
 Viu ao longe a porta da schola. Mais alguns metros, e
estaria junto dela.
 - Geraldo! - gritou ela. - Onde ests?
 Selvagem e incontrolvel como o vento que o fustigava, o
fogo mudou de direco, depositando uma quantidade de brasas a
arder sobre o telhado, j seco como uma mecha apagada, depois
da primeira passagem do fogo. As brasas quase se apagaram e,
depois, voltaram a atear-se, poucos momentos depois, todo o
edifcio comeou a arder.
 Joana sentiu que o cabelo se lhe levantava todo e caa
devido  lufada violenta de ar abrasador. O fogo avanou para
ela com as suas lnguas escaldantes.
 - Geraldo! - gritou ela, novamente, recuando devido ao
avano das chamas.


 Geraldo tinha ficado acordado at tarde, examinando os
planos para o muro. Quando apagou, finalmente, a vela, estava
to exausto que caiu logo num sono profundo e sem sonhos.
 Acordou com o cheiro do fumo. Deve ter-se incendiado uma
lmpada, pensou ele e levantou-se para a apagar. A primeira
lufada de ar que ele respirou ressequiu-lhe os pulmes,
provocando-lhe uma dor que o fez ajoelhar-se, com falta de ar.
Fogo. Mas, de onde vem? O fumo espesso no Lhe permitia ver
mais do que alguns passos em todas as direces.
 Ouviu gritos aterrados de crianas perto dele. Geraldo
arrastou-se na direco deles. Da escurido, emergiram rostos
assustados - duas crianas, um menino e uma menina com pouco
mais de quatro ou cinco anos. Correram na sua direco e
agarraram-se a ele, chorando copiosamente.
 - Est tudo bem. - Ele fingiu uma segurana que no
sentia.J vamos sair daqui. Alguma vez brincaram aos
cavaleiros?
 As crianas acenaram que sim, com os olhos muito abertos.
 - Muito bem.
 Ele ps a menina s cavalitas, depois, o menino. -
Agarrem-se bem. Vamos sair.


 363


 Moveu-se com dificuldade por causa do peso das crianas s
costas. O fumo tinha-se tornado ainda mais espesso, as
crianas tossiam, com falta de ar. Geraldo combateu o medo que
comeava a crescer dentro dele. Muitas vtimas de incndios
no morriam queimadas, mas sim asfixiadas, por causa do fumo.
 De repente, deu-se conta de que tinha perdido os seus
fardos. Os seus olhos procuraram na escurido, mas no era
capaz de encontrar a porta porque o fumo era cada vez mais
espesso.
 - Geraldo! - gritou uma voz atravs do fumo.
 Dobrando-se para respirar melhor, ele encaminhou-se s cegas
na direco do som.
 Diante dos muros de So Pedro, travava-se uma batalha rdua
contra o fogo que avanava. Tinha-se reunido uma multido para
defender a baslica ameaada - monges vestidos de negro do
mosteiro vizinho de So Joo e os seus correspondentes
encapuados do mosteiro grego de So Cirilo, diconos, padres
e aclitos, prostitutas e pedintes, homens, mulheres e
crianas de todas as scholae estrangeiras do Borgo - saxnios,
lombardos, ingleses, frgios e francos. Sem qualquer
coordenao central, os esforos daqueles grupos dispersos
eram bastante ineficazes. Faziam uma tentativa catica para
encontrar recipientes e jarros e para trazer gua dos poos e
cisternas das imediaes. Um dos poos estava apinhado de
gente, enquanto outro estava completamente abandonado.
Gritando numa confuso de lnguas diferentes, as pessoas
empurravam-se e acotovelavam-se para encherem os seus
recipientes, os jarros batiam uns nos outros e partiam-se,
derramando a gua preciosa para o cho. No meio da confuso,
um dos baldes para tirar gua do poo partiu-se, a nica forma
de chegar  gua era descer ao poo e voltar a subir - um
processo que era to difcil que depressa foi abandonado.
 - Para o rio! Para o rio! - gritavam alguns, encaminhando-se
para o Tibre.
 No meio do medo e da confuso, alguns dirigiram-se para o
rio de mos a abanar, apercebendo-se disso apenas quando
chegaram  margem e viram que no tinham nada com que
transportar gua. Outros, traziam jarros to grandes que,
quando cheios com gua, eram demasiado pesados para as suas
foras, a meio caminho, deixavam-nos cair, chorando de raiva e
de frustrao.
 No meio deste caos, Leo estava diante das portas de So
Pedro, slido e imvel como as pedras da prpria baslica. As
pessoas ficavam mais consoladas com a sua presena. Enquanto o
seu Senhor Papa estivesse, no estava tudo perdido,


 364


ainda havia esperana. Por isso, continuavam a combater as
chamas que avanavam inexoravelmente como uma mar, fazendo
recuar a linha daqueles que o combatiam, suados e esforados.
  direita da baslica, a biblioteca do Mosteiro de So
Martinho estava em chamas, saam pedaos de pergaminho a arder
pelas janelas abertas e, levados pelo vento, aterravam no
telhado de So Pedro.
 Arighis tocou na manga de Leo.
 - Tendes de ir embora agora, Santidade, enquanto  tempo.
 Ignorando-o, Leo continuava a rezar.
 Vou chamar a guarda, pensou Arighis, desesperado. Farei com
que eles o levem daqui  fora. Como vicedominus tinha
autoridade para o fazer. Mas hesitava, torturado. Ser que se
poderia permitir desafiar o Apostlico, mesmo que fosse para o
salvar?
 Ele apercebeu-se do perigo que se aproximava antes de
qualquer outro. Um grande pedao de seda da cortina do altar
varreu as paredes a arder do mosteiro, formando uma corda de
fogo. O vento apanhou-a, transformando-a numa seta de fogo
apontada directamente a Leo.
 Arighis atirou-se sobre Leo, afastando-o para o lado. Pouco
depois, o revestimento do altar atingiu Arighis na cara,
queimando-Lhe os olhos, enrolando-se  volta da sua cabea e
do seu corpo como um lenol de chamas. Subitamente, as suas
vestes e o seu cabelo comearam a arder.
 Cego e surdo por causa das chamas, correu pelos degraus da
baslica at as suas pernas cederem. Caiu. Nos ltimos
terrveis momentos, enquanto o seu corpo ardia, mas o seu
crebro estava perfeitamente consciente, Arighis compreendeu
subitamente: era aquele o seu destino, era este o momento
sacrificial para o qual toda a sua vida tinha estado
orientada.
 - Cristo Jesus! - gritou ele quando as dores indizveis lhe
trespassaram o corao.
 A nuvem de fumo levantou-se um pouco e Geraldo viu a porta
aberta  sua frente. Na ombreira da porta, a imagem da Joana
tremeluzia no ar quente, com o seu cabelo dourado como uma
aura brilhante  luz do fogo. Com um esforo final, Geraldo
levantou-se, pegou nas crianas e irrompeu pela porta.
 Joana viu-o emergir do fumo e correu para ele. Ajudou-o a
pr no cho as crianas que choravam e pegou-lhes ao colo,
enquanto os seus olhos ficavam presos aos de Geraldo, que
estava parado, incapaz de falar ou de se mexer.


 365


 - Graas a Deus - limitou-se ela a dizer.
 Mas, a mensagem dos seus olhos dizia muito mais.
 Deixaram as crianas entregues a um grupo de freiras e
correram para a baslica, onde Geraldo viu imediatamente que
aqueles que combatiam o fogo estavam mal colocados, estavam a
combater o fogo perto de mais.
 Geraldo assumiu o comando. Ordenou aos homens que recuassem
para uma distncia mais segura e criassem uma barreira ao
fogo, arrancando arbustos, galhos de rvores e tudo o que
ardesse e, depois, espalhassem por cima erva e molhassem o
cho.
 Ao ver as fagulhas a carem sobre a baslica, Joana tirou um
jarro de gua das mos de um monge que ia a passar e subiu ao
telhado. Houve outras pessoas que a seguiram: duas, depois,
quatro, depois, dez. Formaram uma cadeia humana, passando
baldes de gua de mo em mo e devolvendo os vazios para
voltarem a ser enchidos. Passar, encher, passar, encher,
passar, encher, passar, encher - trabalhavam lado a lado, com
os braos a arder com o esforo, as roupas e as faces sujas de
fuligem, as bocas abertas para conseguirem respirar no ar
cheio de fumo.
 No cho por baixo deles, o fogo aproximava-se, as chamas
lambiam a erva, que se tornava imediatamente negra. Geraldo e
os homens lutavam desesperadamente para aumentar a rea de
barreira ao fogo.
 Nos degraus da baslica, Leo fez o sinal da cruz, com o
rosto voltado para o cu, implorando:
 - Oh Senhor Deus - rezou ele. - Ouvi-nos agora, que Vos
imploramos!
 O fogo chegou  barreira. As chamas agigantaram-se,
procurando transpor a barreira, avanando para o solo nu.
Geraldo e os seus homens atacaram com mais baldes de gua. As
chamas hesitaram, recuaram, silvando furiosamente, depois
comearam a consumir-se a si prprias.
 A baslica estava salva.
 Joana sentiu a humidade das lgrimas no seu rosto.
 Os primeiros dias a seguir ao fogo passaram-se a enterrar os
mortos - acqueles cujos corpos tinham sido encontrados. O
calor intenso do fogo tinha reduzido muitas das suas vtimas a
ossos calcinados e a cinzas.
 Arighis, tal como era adequado  sua alta posio, fi
sepultado com uma cerimnia solene. Depois de uma missa
fnebre em Latro, o seu corpo foi enterrado numa cripta numa
pequena capela junto aos tmulos dos papas Gregrio e Srgio.


 366


 Joana chorou a sua partida. Ela e Arighis nem sempre se
tinham dado bem, especialmente no incio, mas tinham acabado
por se respeitar mutuamente. Ela ia ter saudades da sua
eficincia discreta, do seu conhecimento de todos os
pormenores das complicadas manobras internas do Patriarchium,
mesmo do orgulho com que ele cumpria os deveres do seu ofcio.
Era justo que ele descansasse para toda a eternidade junto dos
Apostlicos, que ele tinha servido com tanta dedicao.
 Depois de terem sido observados os dias de luto requeridos,
comeou o balano dos prejuzos causados pelo fogo. O Muro
Leonino, onde o fogo parecia ter comeado, apresentava danos
de pouca monta, mas trs quartos do Borgo tinham sido
completamente destrudos. As colnias estrangeiras e as suas
igrejas tinham sido reduzidas a pouco mais do que cascalho
enegrecido.
 Depressa se considerou que tinha sido um milagre que a
Baslica de So Pedro tivesse resistido quele holocausto.
Dizia-se que o papa Leo tinha feito parar o fogo, fazendo o
sinal da cruz diante das chamas que avanavam. Esta verso dos
acontecimentos foi assumida avidamente pelo povo romano, que
necessitava muito de sentir que Deus no se tinha voltado
contra ele.
 Encontraram uma afirmao da sua f no milagre de Leo,
atestado fervorosamente por todos aqueles que l tinham
estado. De facto, o nmero de testemunhas crescia de dia para
dia, acabando por parecer que toda a Roma tinha estado em So
Pedro naquela manh fatal.
 As crticas a Leo foram esquecidas. Ele era um heri, um
profeta, um santo, a encarnao do esprito de So Pedro. O
povo exaltava-o porque um papa que era capaz de operar tal
milagre certamente era capaz de os proteger dos infiis
sarracenos.
 Mas, o regozijo no era universal. Quando a notcia do
milagre de Leo chegou  Igreja de So Marcelo, as portas
fecharam-se imediatamente. Os baptismos foram todos adiados e
os compromissos cancelados abruptamente, aqueles que
perguntavam porqu recebiam como resposta que ningum podia
ser admitido  presena do cardeal-presbtero Anastcio porque
ele sofria de uma indisposio sbita.
 Joana trabalhava de noite e de dia, distribuindo roupas,
medicamentos e outros produtos de primeira necessidade aos
hospcios e casas da caridade da cidade. Os hospcios estavam
cheios de feridos do incndio e no havia mdicos que
chegassem para tratar deles, por isso, ela teve de dar uma
ajuda onde pde. Alguns corpos queimados e calcinados no eram
passveis de cura, no havia nada a fazer,


 367


a no ser administrar doses de papoila, mandrgora e meimendro
para aliviar as suas agonias mortais. Outros tinham
queimaduras graves que ameaavam infectar, a esses, ela
aplicava-Lhes emplastros de mel e alos, remdios que se sabia
serem especialmente adequados para queimaduras. Mas, havia
ainda outros cujos corpos no tinham sido tocados pelo fogo,
mas que sofriam de problemas respiratrios, por causa de terem
respirado muito fumo. Estes agonizavam, lutando pela vida a
cada respirao.
 Abatida pelo efeito cumulativo de tanto horror e morte,
Joana passava novamente por uma crise de f. Como era possvel
que um Deus bom e benevolente deixasse que acontecesse uma
coisa daquelas? Como podia Ele afligir de forma to terrvel
at crianas e bebs, que no tinham, certamente, nem culpa
nem pecados?
 O seu corao estava perturbado e a sombra das suas antigas
dvidas voltou a abater-se sobre ela.
 Uma manh, estava reunida com Leo para tratar da abertura
dos armazns papais s vtimas do fogo, quando Waldipert, o
novo vicedominus, entrou inesperadamente. Era um homem alto e
espadado cuja pele clara e cabelo louro revelava a sua origem
lombarda, Joana ainda no se tinha habituado a ver este
estranho vestido com as vestes do ofcio de Arighis.
 - Santidade - disse Waldipert, fazendo uma vnia - esto
aqui dois cidados que desejam uma audincia imediatamente.
 - Eles que esperem - respondeu Leo. - Ouvirei as suas
peties mais tarde.
 - Perdo, Santidade - insistiu Waldipert. - Penso que
devereis ouvir o que eles tm para dizer.
 Leo levantou a sobrancelha. Se fosse Arighis, Leo teria
aceitado a sua palavra sem qualquer dvida porque a opinio de
Arighis era acertada e digna de confiana, mas Waldipert era
novo e inexperiente, desconhecedor das limitaes da sua
posio, corria o risco de presumir da sua prpria
importncia.
 Leo hesitou, depois decidiu dar a Waldipert o benefcio da
dvida.
 - Muito bem. Admiti-os.
 Waldipert fez uma vnia e saiu, regressando pouco depois com
um padre e um rapaz. O padre era moreno e magro. Joana
reconheceu nele um homem piedoso, daqueles que viviam de forma
honrada e humilde nas igrejas menores de Roma. O rapaz, pela
maneira como estava vestido, parecia possuir uma ordem menor -
um leitorado ou talvez acolitado. Era um jovem esbelto,


 368


com quinze ou dezasseis anos, entroncado e agradvel, com
grandes olhos abertos, que, normalmente, deviam radiar uma
natureza acolhedora, apesar de, naquele momento, estarem
ensombrados pelo desgosto.
 Os recm-chegados prostraram-se diante de Leo.
 - Levantai-vos - disse Leo. - Dizei-nos que assunto vos
traz aqui.
 O padre foi o primeiro a falar.
 - Eu sou Paulo, Santidade, pela graa de Deus, e vosso
padre, da casa de So Loureno em Damasco. Este rapaz,
Domingos, veio hoje  capela pedindo uma confisso auricular,
servio que Lhe prestei com prazer. O que ele me contou era
to chocante que eu o trouxe aqui para que ele vos conte.
 Leo franziu o sobrolho.
 - O segredo dessas confisses no pode ser violado.
 - Santidade, o rapaz veio aqui de livre vontade porque est
numa grande tribulao de mente e esprito.
 Leo voltou-se para Domingos.
 - Isto  verdade? Fala honestamente porque no h vergonha
nenhuma em recusar-se a repetir os segredos da confisso.
 - Eu quero contar-vos, Santo Padre - respondeu o rapaz, a
tremer. - Eu tenho de vos contar para bem da minha alma.
 - Ento, conta, meu filho.
 Os olhos de Domingos encheram-se de lgrimas.
 - Eu no sabia, Santo Padre! - ele comeou a chorar. - Eu
juro pelas relquias de todos os santos que no sabia o que ia
acontecer, seno, no o teria feito!
 - Feito o qu, meu filho? - perguntou Leo delicadamente.
 - Posto fogo.
 O rapaz comeou a chorar copiosamente.
 - Tu puseste o fogo? - perguntou Leo a meia-voz.
 - Sim, que Deus me perdoe!
 O rapaz engoliu as lgrimas, lutando para se dominar.
 - Ele disse-me que a construo do muro era um mal terrvel
porque o dinheiro e o tempo que se gastavam nela seriam melhor
empregues na reparao de igrejas e no alvio da misria dos
pobres.
 - Ele? - perguntou Leo. - Algum te mandou pr o fogo?
 O rapaz acenou que sim.
 - Quem?
 - O meu senhor cardeal Anastcio. Santo Padre, ele deve ter
a lngua do Demnio porque me falou de uma maneira to
convincente que o que ele disse parecia certo e bom.


 369


 Fez-se novamente um longo silncio. Depois, Leo disse, num
tom grave:
 - Tem cuidado com o que dizes, meu filho. Tens a certeza de
que foi Anastcio que te mandou fazer isso?
 - Sim, Santo Padre. Era para ser apenas uma fogueira - disse
Domingos com a voz estrangulada - o suficiente para queimar os
andaimes do muro. Deus sabe que era bastante fcil: eu ensopei
alguns trapos em azeite de lamparina e atirei-os para um canto
dos andaimes, depois, deitei-lhes fogo. Ao princpio, o fogo
confinou-se aos andaimes, como o meu senhor cardeal disse que
iria acontecer. Mas, depois, veio vento e levou-o e... e... -
ele caiu de joelhos.Oh, Deus! - gritou ele, desesperado. -
Sangue inocente! No voltaria a faz-lo, nem que mil cardeais
me mandassem!
 O rapaz atirou-se aos ps de Leo.
 - Ajudai-me, Santo Padre. Ajudai-me! - Levantou o rosto
atormentado. - No posso viver com o que fiz. Pronunciai a
vossa penitncia para mim, eu suportarei qualquer morte, por
muito terrvel que seja, para salvar a minha alma!
 Joana ficou imvel, trespassada pelo horror e pela piedade.
 lista dos crimes de Anastcio tinha de ser acrescentada,
certamente, a perverso maldosa da natureza deste rapaz. A sua
alma simples e honesta no estava destinada a cometer um crime
daqueles, nem a suportar na sua conscincia um fardo to
pesado.
 Leo poisou uma mo sobre a cabea do rapaz.
 - J houve muitas mortes, meu filho. Que benefcio
representaria para o mundo acrescentar a tua s outras? No,
Domingos, a penitncia que eu te imponho no  a morte, mas a
vida - uma vida passada em expiao e penitncia. A partir
deste dia, ests banido de Roma. Tomars o caminho dos
peregrinos para Jerusalm, onde poders pedir o perdo divino
diante do Santo Sepulcro.
 O rapaz levantou uns olhos espantados.
 -  tudo?
 - O caminho da expiao nunca  fcil, meu filho. Vers que
a viagem  bastante dura.
 Joana, lembrando-se da sua prpria peregrinao do pas dos
francos at Roma, pensou que aquilo era muito mais verdadeiro
do que o jovem Domingos podia pensar. Ele iria ter de viver os
seus dias longe da sua terra natal, separado da famlia e dos
amigos, de tudo quanto ele tinha conhecido. No caminho para
Jerusalm, ele teria de enfrentar inmeros perigos -
desfiladeiros e estreitos traioeiros, estradas infestadas com
ladres e salteadores, fome e sede e mil outros perigos.


 370


 - Consagra a tua vida ao servio desinteressado ao prximo -
prosseguiu Leo. - Comporta-te sempre de forma a que o bem que
faas exceda este grande mal.
 Domingos atirou-se ao cho e beijou a orla da veste de Leo.
 Depois, levantou-se, plido e resoluto, com o rosto
transfigurado, como se tivesse sido lavado por chuva do cu.
 - Curvo-me diante de vs, Santo Padre. Farei exactamente o
que mandais. Juro-o pelo sagrado Corpo e Sangue de Cristo
nosso Salvador.
 Leo abenoou-o:
 - Vai em paz, meu filho.
 Domingos e o padre saram da sala.
 Leo disse num tom grave:
 - O cardeal Anastcio  de uma famlia poderosa, temos de
fazer tudo em estrita concordncia com a lei. Redigirei um
decreto especificando as acusaes contra ele. Joo, vinde
comigo, posso necessitar da vossa ajuda. E, Waldipert...
 - Sim, Santidade?
 Leo acenou-lhe em tom de aprovao.
 - Muito bem.


 - Fizestes bem em me trazer estas notcias, vicedominus -
disse Arsnio.
 Estava com Waldipert numa sala privada do seu palcio. Ele
tinha acabado de terminar o relato dos pormenores do encontro
entre o papa Leo e Domingos.
 - Permiti que exprima a minha gratido pela vossa ajuda.
 Arsnio abriu um pequeno cofre em bronze, que se encontrava
sobre a mesa, tirou de dentro dele vinte soldos em ouro e
deu-os a Waldipert, que guardou rapidamente as moedas.
 - Congratulo-me por ter sido de serventia, Senhor Bispo.
 Fazendo uma vnia curta, Waldipert virou as costas e saiu.
 Arsnio no se ofendeu com a partida apressada de Waldipert,
era imperativo que o vicedominus regressasse ao Patriarchium
antes que algum. desse pela sua falta.
 Arsnio congratulou-se pelo facto de se ter apercebido,
muitos anos antes, quando Waldipert ainda no passava de um
camareiro da casa do Papa, de que ele era um jovem com futuro.
Tinha sido dispendioso comprar a lealdade do rapaz ao longo de
todos aqueles anos. Mas, agora, que Waldipert era vicedominus,
o investimento tinha sido amplamente recompensado.


 371


 Arsnio chamou um criado:
 - Vai  Igreja de So Marcelo e diz ao meu filho que venha
ter comigo imediatamente.
 Ao ouvir as notcias, Anastcio deixou-se cair pesadamente
sobre uma cadeira em frente ao seu pai. Amaldioou-se a si
prprio intimamente, humilhado pelo facto de o seu pai ter
ficado a saber da maneira desastrada como ele tinha tratado
das coisas.
 - Quem iria adivinhar que o rapaz iria falar? - disse ele,
para se defender. - Para me trair, teve de se condenar a si
prprio.
 - Foi um erro deix-lo vivo - disse Arsnio num tom
pragmtico. - Devias ter mandado cortar-lhe o pescoo no
momento em que o assunto ficou tratado. Bem, agora, acabou.
Temos de olhar para o futuro.
 - Para o futuro? - repetiu Anastcio. - Que futuro?
 - O desespero  para os fracos, meu filho, no para pessoas
como tu ou como eu.
 - Mas, o que hei-de fazer? A situao no tem emenda
possvel!
 - Tens de sair de Roma. Agora. Esta noite.
 - Oh, Deus!
 Anastcio enterrou o rosto nas mos. O seu mundo desabava
completamente  sua volta.
 Arsnio disse num tom firme:
 - Basta! Lembra-te de quem s e do que s.
 Arsnio levantou-se, lutando para se dominar.
 - Vais para Aachen - disse Arsnio - para a corte do
imperador.
 Anastcio estava destroado. O medo que lhe apertava o
corao impedia-o de pensar com clareza.
 - Mas... Lothar sabe que eu o denunciei na eleio papal.
 - Sim e tambm sabe porque foste obrigado a faz-lo. Ele 
um homem que compreende as contingncias polticas - seno,
como pensas que ele teria usurpado o trono ao seu pai e aos
seus irmos? E, alm disso, tambm  um homem que gosta de
dinheiro.
 Arsnio tirou uma bolsa em cabedal da sua secretria e deu-a
a Anastcio.
 - Se o imperador ainda estiver arrufado, esta bolsa ir
ajudar a acalm-lo.
 Anastcio ficou a olhar para o pesado saco de moedas. Tenho
mesmo que sair de Roma? A ideia de viver o resto dos seus dias
no meio de uma tribo de francos brbaros enchia-o de
repugnncia. Talvez seja melhor do que morrer agora e acabar
com tudo.


 372


 - Considera isto como uma oportunidade - dizia o seu pai. -
ter Uma oportunidade para ganhar amigos poderosos na corte
imperial.
 Vais precisar deles, quando fores papa.
 Quando for papa. As palavras penetraram no espesso nevoeiro
do desespero de Anastcio. Ento, ele no ia ficar exilado
para sempre.
 - Eu olho pelos teus interesses aqui, no tenhas medo -
disse Arsnio. - A mar da opinio no pode continuar a favor
de Leo para sempre. Pode ser que suba e, depois, desa.
Quando eu achar que  tempo de agir, mando-te chamar.
 A nusea fria que Anastcio sentia comeou a acalmar-se. O
seu pai ainda no tinha desistido de ter esperana, por isso,
ele tambm no podia desistir.
 - Arranjei-te uma escolta - disse Arsnio. - Doze dos meus 
melhores homens. Anda, eu acompanho-te aos estbulos.
 Os doze guardas estavam montados e prontos, armados com
espadas, lanas e maas. Anastcio no teria falta de
proteco nas estradas perigosas. A sua montada estava perto,
batendo com os cascos impacientemente - um animal forte e com
carcter, Anastcio reconheceu-a como o garanho preferido do
pai.
 - Ainda tm duas ou trs horas de luz - o suficiente para um
bom comeo - disse Arsnio. - Hoje, no vm  tua procura
porque no tm forma de saber que tu suspeitas de algo e Leo
tomar, certamente, a precauo de redigir um decreto oficial
para a tua priso. S comearo  tua procura amanh de manh
e comearo por So Marcelo. Quando pensarem em vir aqui, j
estars longe.
 Atingido por uma sbita preocupao, Anastcio disse:
 - E vs, Pai?
 - No tm qualquer motivo para suspeitar de mim. Se tentarem 
interrogar-me acerca do teu paradeiro, descobriro que
agarraram um lobo pela cauda.
 Pai e filho abraaram-se.
 Isto est mesmo a acontecer, pensou Arsnio. Era espantoso
como tudo estava a acontecer to depressa.
 - Deus te acompanhe, meu filho - disse Arsnio.
 - E a vs, Pai.
 Anastcio montou e virou o cavalo rapidamente para que o pai
no visse que as lgrimas comeavam a chegar-Lhe aos olhos.
Mesmo ao p do porto, virou-se para trs, mais uma vez, para
uma ltima despedida.


 373


O Sol estava a pr-se, lanando sombras alongadas sobre os
contornos suaves das colinas romanas, pintando com tons
dourado-avermelhados as runas majestosas do Frum e do
Coliseu.
 Roma. Tudo aquilo para que ele tinha trabalhado, tudo quanto
lhe importava, ficava por trs dos seus muros sagrados.
 O seu ltimo olhar foi para o seu pai - sofrendo, mas
decidido, firme e seguro como o rochedo de So Pedro.


 - Membrum putridum et insanibile, ferro excommunicationis a
corpore Ecclesiae abscidamus...
 Na escurido fria da Baslica de Latro, Joana ouviu Leo
pronunciar as palavras solenes e terrveis que expulsariam
para sempre Anastcio da Santa Madre Igreja. Reparou que Leo
tinha escolhido a expresso excommunicatio minor, a forma
menor de excomunho, na qual o condenado estava proibido de
administrar ou receber os sacramentos (excepto os ltimos
ritos, dos quais nenhuma alma podia ser excluda), mas no de
todo o contacto com os seus irmos cristos. Realmente, pensou
Joana, Leo tem um corao bom.
 O clero de Roma estava reunido para testemunhar a cerimnia
solene, at mesmo Arsnio estava presente porque no ia pr em
risco a sua posio de bispo de Horta por causa de uma intil
manifestao pblica de oposio. Leo suspeitava,
evidentemente, que Arsnio tinha sido cmplice na fuga do seu
filho  justia. Mas, no havia provas para consubstanciar uma
acusao dessas e no havia qualquer outro motivo para
apresentar queixa contra ele, uma vez que era certo que no
era crime ser pai de um homem.
 Quando a vela que representava a alma imortal de Anastcio
foi virada ao contrrio e apagada no p, Joana sentiu,
inesperadamente, uma certa tristeza. Que deperdicio trgico,
pensou ela. Uma mente to brilhante como a de Anastcio podia
ter sido usada para fazer o bem, se o seu corao no tivesse
sido distorcido pela ambio obsessiva.


 374


 @26


 A construo do Muro Leonino - como todos lhe chamavam
agora - prosseguia rapidamente. O fogo que tinha pretendido
destru-lo, na realidade, no tinha causado grandes danos, os
andaimes em madeira utilizados pelos trabalhadores tinham
ardido completamente e uma das plataformas ocidentais tinha
ficado muito chamuscada, mas era tudo. Os problemas que tinham
atacado o projecto desde o incio, agora, tinham cessado,
graas a Deus. O trabalho prosseguiu sem interrupes durante
o Inverno e a Primavera seguintes porque o tempo se manteve
abenoadamente ameno, marcado por dias grandes, frescos,
solarengos e sem chuva. As pedreiras forneciam constantemente
pedra de primeira qualidade e os trabalhadores vindos dos
campos ao redor apareciam para trabalhar lado a lado, num
unssono produtivo.
 No Pentecostes, o muro j atingia a altura de um homem.
Agora, ningum considerava que o projecto era uma loucura,
ningum se queixava do tempo e do dinheiro que ele gastava. Os
romanos sentiam cada vez mais orgulho no trabalho, cujas
dimenses faziam lembrar os dias do antigo Imprio, quando
estes prodgios da construo eram lugares-comuns e no uma
raridade. Quando estivesse terminado, o muro seria magnfico,
monumental, uma barreira que nem os sarracenos conseguiriam
transpor ou quebrar.
 Mas, o tempo passava. Nas calendas de Julho, chegaram
mensageiros  cidade com notcias aterradoras: estava a
reunir-se uma frota de sarracenos em Totarium, uma ilhazinha
ao largo da costa oriental da Sardenha. Preparava-se outro
ataque a Roma.
 Ao contrrio de Srgio, que tinha procurado o poder da
orao para proteger a cidade, Leo optou por uma reaco mais
agressiva.


 375


Mandou chamar imediatamente  grande cidade martima de
Npoles uma frota de navios armados, para combaterem o inimigo
no mar.
 A ideia era corajosa e arriscada. Npoles continuava a
manter uma aliana formal com Constantinopla, apesar de, na
realidade, ser independente havia muitos anos. Ser que o
duque de Npoles iria ajudar Roma na sua hora de necessidade?
Ou utilizaria a oportunidade para juntar foras aos sarracenos
e atacar a sede romana em nome do Patriarcado do Oriente? O
plano estava cheio de perigos. Mas, qual era a alternativa?
 A cidade esperou durante dez dias numa expectativa tensa.
Quando a armada napolitana chegou ao Porto na embocadura do
Tibre, finalmente, Leo partiu ao seu encontro, acompanhado
por uma grande comitiva de milcias armadas sob o comando de
Geraldo.
 A ansiedade dos romanos acalmou quando Cesrio, o comandante
da frota, se prostrou diante de Leo e lhe beijou os ps,
humildemente. Com um alvio que no demonstrou, Leo abenoou
Cesrio, encomendando solenemente  sua proteco os despojos
sagrados dos apstolos Pedro e Paulo.
 Tinham sobrevivido  primeira jogada, os seus futuros
dependiam da prxima.
 Na manh seguinte, a armada dos sarracenos apareceu. As
velas latinas enfunadas espalharam-se pelo horizonte como
garras abertas. Joana contou-as: cinquenta, cinquenta e trs,
cinquenta e sete - e continuavam a aparecer - oitenta, oitenta
e cinco, noventa - havia tantos navios no mundo? - cem, cento
e dez, cento e vinte! Deo, juva nos! Os navios napolitanos
eram apenas sessenta e um, com os birremes romanos que ainda
estavam em condies de serem utilizados, perfaziam um total
de sessenta e sete. Entre eles havia uma desproporo de quase
dois para um.
 Leo ficou nas escadas perto da Igreja de Santa Aurea e fez
uma orao com os cidados assustados de Porto.
 - Senhor, Vs que haveis salvado Pedro de se afogar, quando
ele andou sobre as ondas, Vs que haveis arrancado Paulo s
profundezas do mar, ouvi-nos. Concedei poder s armas dos
Vossos servos que lutam contra os inimigos da Vossa Igreja.
Que, pela sua vitria, o Vosso santo nome seja glorificado
entre todas as naes.
 As vozes do povo ecoaram ao ar livre com um men.
 Cesrio gritou as suas ordens do convs do navio que
comandava. Os napolitanos acorreram aos remos, vigorosamente.


 376


Por um momento, os birremes pesados ficaram imveis na gua.
Depois, com um rudo tremendo de madeira a ranger, os navios
comearam a mover-se. Os remos erguiam-se e mergulhavam,
erguiam-se e mergulhavam, brilhando como pedras preciosas, o
vento bateu nas velas e os grandes birremes avanaram com as
suas proas revestidas a metal rasgando a gua turquesa e
fazendo sulcos duplos de espuma.
 Os navios sarracenos viraram-se para os enfrentarem. Mas,
antes que as frotas inimigas se confrontassem, um trovo
ensurdecedor anunciou a chegada de uma tempestade. O cu
escureceu e nuvens negras rolaram a toda a velocidade sobre o
mar. Os navios napolitanos bem equipados conseguiram regressar
a porto seguro. Mas, os navios sarracenos, armados com obras
mortas baixas para conseguirem maior velocidade e
manobrabilidade em combate, eram demasiado fracos para
conseguirem resistir  tempestade. Baloiavam nas ondas
crispadas, abanavam como cascas de rvore, com os seus
espores em metal atingindo os navios irmos e
despedaando-os.
 Vrios navios dirigiram-se para o porto, mas, mal chegaram,
foram atacados. Instigados pela ira violenta que se segue ao
terror, os romanos massacraram a tripulao sem d nem
piedade, arrastando-os para fora dos seus navios e
enforcando-os em patbulos construidos ao longo da costa. Ao
testemunhar o destino dos seus camaradas, os outros navios
sarracenos tentaram desesperadamente dirigir-se para alto mar,
onde foram despedaados pelas ondas gigantescas.
 No momento da vitria inesperada, Joana estava a observar
Leo. Ele estava de p nas escadas da igreja, de braos
erguidos, com os olhos levantados ao Cu, em aco de graas.
Parecia santo e beatfico como se fosse tocado pela presena
divina.
 Talvez ele faa milagres, pensou ela. Os seus joelhos
dobraram-se voluntariamente, fazendo-Lhe uma vnia.
 - Vitria! Vitria em Ostia!
 As notcias foram anunciadas jubilosamente pelas ruas. Os
romanos saram das suas casas, os armazns papais foram
abertos e o vinho correu livremente, durante trs dias, a
cidade mergulhou numa celebrao estrondosa e bria.
 Quinhentos sarracenos foram conduzidos para a cidade,
perante a multido que os escarnecia e hostilizava. Muitos
foram apedrejados ou espancados, morrendo nas ruas. Os
sobreviventes, cerca de trezentos, foram acorrentados e
levados para um campo no Planalto Neroniano, onde foram
colocados como trabalhadores forados na construo do Muro
Leonino.


 377


 Com a ajuda desta mo-de-obra suplementar, o muro ergueu-se
mais rapidamente ainda. Em trs anos, ficou pronto - uma
obra-prima da engenharia medieval, a construo mais
extraordinria que a cidade tinha visto nos ltimos
quatrocentos anos. O territrio do Vaticano estava
completamente protegido dentro de uma estrutura com doze ps
de grossura e quarenta ps de altura, defendida por quarenta e
quatro torres macias. Havia duas galerias sobrepostas, uma
superior e outra inferior, a galeria inferior era sustentada
por uma srie de arcadas graciosas com uma abertura interior.
Trs portas permitiam a entrada: a Posterula SantAngeli, a
Posterula Saxonum, assim chamada porque dava para o bairro
saxnio, e a Posterula San Peregrinus, a entrada principal
pela qual as futuras geraes de reis e prncipes passariam
para venerar o santurio sagrado de So Pedro.
 Apesar de o muro ser notvel, era apenas o incio dos planos
ambiciosos que Leo tinha para a cidade. Decidido a proceder 
restaurao de todos os locais santos, Leo deu incio a um
grande plano de reconstruo. O som das bigornas ouvia-se dia
e noite por toda a cidade,  medida que o trabalho passava de
uma igreja da cidade para outra. A baslica saxnica, que
tinha ardido, foi restaurada, assim como a igreja frgia de
So Miguel e a Igreja de Sancti Quattro Coronati, da qual Leo
tinha sido cardeal em tempos.
 Mas, o mais importante foi que Leo iniciou a reconstruo
de So Pedro. O prtico cqueimado e destrudo foi
completamente restaurado, as portas, despojadas dos seus
metais preciosos pelos sarracenos, foram cobertas com novos
revestimentos em prata, nos quais mirades de histrias
sagradas foram gravadas com uma arte impressionante. O grande
tesouro tinha sido tirado do lugar pelos sarracenos, o
altar-mor foi revestido com placas em prata e ouro e decorado
com um crucifixo em ouro macio, coberto de prolas,
esmeraldas e diamantes, por cima dele, foi suspenso um cibrio
em prata pesando mais de mil libras, colocado sobre quatro
colunas do mais puro mrmore travertino, ornamentado com
grinaldas de lilases. O altar era alumiado por lmpadas
suspensas por correntes em prata, ornadas com esferas em ouro.
A sua luz tremeluzente iluminava um verdadeiro tesouro de
clices com jias encrostadas, estantes em prata, ricas
tapearias e cortinas em seda. A grande baslica brilhava com
um esplendor que excedia a sua antiga magnificncia.
 Joana ficou preocupada ao ver as grandes quantias de
dinheiro retiradas do tesouro papal. Leo tinha recriado um
santurio de beleza inspirada.


 378


Mas, a maioria daqueles que viviam  sombra desta 
magnificncia esplendorosa passavam os seus dias numa pobreza
em brutecedora e degradante. Uma s das salvas em prata macia
de So Pedro, fundida e transformada em dinheiro, podia
alimentar e vestir a populao do Campo de Marte durante um
ano. Ser que o culto a Deus exigia mesmo tal sacrifcio?
 S havia uma pessoa no mundo a quem Joana se atrevia a pr
essa questo. Quando lha ps, Geraldo ficou a pensar antes de
responder.
 - J ouvi dizer - disse ele, finalmente - que a beleza de um
santurio sagrado d aos fiis uma forma diferente de alimento
- alimento para a alma, no para o corpo.
 -  difcil ouvir a voz de Deus quando se tem o estmago
vazio.
 Geraldo abanou a cabea:
 - No mudaste. Lembras-te daquela vez em que perguntaste a
Odo como  que ele podia ter a certeza de que a Ressurreio
tinha acontecido, uma vez que no havia testemunhas oculares?
 - Lembro-me.
 Joana esfregou a mo.
 - Tambm me lembro da resposta que ele me deu.
 - Quando eu vi a ferida que Odo te tinha provocado - disse
Geraldo - quis bater-Lhe - e t-lo-ia feito, se no soubesse
que isso ainda tornaria as coisas mais difceis para ti.
 Joana sorriu:
 - Foste sempre o meu protector.
 - E tu - gracejou ele - tiveste sempre a alma de uma hereje.
 Eles sempre tinham podido falar assim, livres dos
constrangimentos do mundo. Fazia parte da intimidade especial
que os ligava desde o incio.
 Ele olhou para ela com um carinho familiar. Joana reparou,
sentiu a sua proximidade como se ele tocasse na sua pele nua.
Mas, ela tinha aprendido a esconder os seus sentimentos.
 Apontou para uma pilha de peties que se encontravam sobre
a mesa entre ambos.
 - Tenho de ir ouvir estes peticionrios.
 - No devia ser Leo a fazer isso? - perguntou Geraldo.
 - Ele pediu-me que eu o fizesse.
 Havia j algum tempo que Leo tinha comeado a delegar cada
vez mais nela as suas responsabilidades quotidianas para se
poder dedicar  continuao dos planos de reconstruo. Joana
tinha-se tornado a embaixadora de Leo junto do povo,


 379


cumpria to bem os seus deveres de caridade nas diferentes
regies da cidade que era conhecida por toda a parte como o
pequeno Papa e saudada com algum do afecto reservado ao
prprio Leo.
 Quando ia a pegar na pilha de papis, Geraldo tocou-lhe na
mo.
 Ela retirou-a bruscamente, como se se tivesse queimado.
 - ...  melhor eu ir - disse ela, embaraada.
 Ficou imensamente aliviada, ainda que um pouco desapontada
por ele no a ter seguido.
 Insuflada pelo sucesso do Muro Leonino e pela renovao de
So Pedro, a popularidade de Leo crescia. Chamavam-lhe o
Restaurator Urbis, Restaurador da Cidade. O povo dizia que ele
era outro Adriano, outro Aurlio. Por todo o lado para onde
ia, as multides aclamavam-no. Roma ressoava com os ecos do
seu louvor.
 Por todo o lado, quer dizer, excepto no palcio na Colina
Palatina, onde Arsnio esperava com impacincia crescente o
dia em que poderia mandar regressar Anastcio.
 As coisas no tinham corrido como se esperava. No havia
forma de depor Leo, como Arsnio tinha pensado inicialmente,
nem sequer havia a mnima esperana de que o trono ficasse
vago atravs do feliz acidente da morte, saudvel e vigoroso,
Leo parecia dar sinais de que ia viver para sempre.
 Agora, a fortuna da famlia tinha recebido outro golpe. Na
semana anterior, o segundo filho de Arsnio, Eleutrio, tinha
morrido. Cavalgava pela Via Recta abaixo, quando um porco se
meteu no meio das patas do seu cavalo, o cavalo tropeou e
Eleutrio caiu, partindo o fmur. Ao princpio, ningum se
preocupou porque a ferida no era profunda. Mas, uma desgraa
atrai sempre outra desgraa. A ferida infectou. Arsnio mandou
chamar Endio, que fez uma sangria a Eleutrio, mas no
resolveu nada. O seu filho morreu dali a dois dias. Arsnio
ordenou imediatamente uma busca ao dono do porco, quando o
descobriu, mandou-lhe cortar a garganta de orelha a orelha.
Mas, tal vingana era pouco reconfortante, porque no podia
trazer Eleutrio de volta.
 No que se tivesse perdido muito amor entre pai e filho.
Eleutrio era exactamente o oposto do seu irmo - indolente,
preguioso e indisciplinado desde criana, tinha rejeitado a
oferta de Arsnio de uma educao na igreja, escolhendo em vez
dela as gratificaes mais imediatas de uma existncia laica -
mulheres, vinho, jogo e outros deboches.
 No, Arsnio no chorava Eleutrio por causa do homem que ele
tinha sido ou podia ter sido, mas por causa daquilo que ele
representava: outro ramo da rvore da famlia, um ramo que
talvez ainda pudesse vir a dar um fruto promissor.


 380


 A famlia deles tinha sido, durante sculos, a famlia mais
importante de Roma. Arsnio era capaz de reconstituir a sua
rvore genealgica at ao prprio Csar Augusto. Mas, esta
herana ilustre foi atingida pelo fracasso porque nenhum dos
seus filhos nobres tinha alcanado a honra mxima em Roma: o
Trono de So Pedro. Quantos homens menores tinham sido
colocados no trono, pensava Arsnio, amargamente, e com que
resultados trgicos? Roma - em tempos, a maravilha do mundo -
estava afundada numa decadncia ruinosa e embaraosa. Os
bizantinos troavam dela abertamente, apontando para o
esplendor da sua prpria Constantinopla. Quem, seno um dos
membros da famlia de Arsnio, herdeiros de Csar, podia
reconduzir a cidade  sua antiga grandeza?
 Agora, Eleutrio tinha desaparecido e Anastcio era o ltimo
da sua linhagem, a nica oportunidade que restava para a
famlia redimir a sua honra e a de Roma.
 E Anastcio tinha sido banido para o pas dos francos.
 Arsnio sentiu-se desesperado. Libertou-se bruscamente desse
sentimento, como se fosse um manto indesejado. A grandeza no
esperava uma oportunidade, criava-a. Aqueles que haveriam de
governar tinham de estar dispostos a pagar o preo do poder,
por muito alto que ele fosse.
 Durante a missa no dia da Festa de So Joo Baptista, Joana
apercebeu-se de que algo se passava com Leo. As suas mos
tremiam ao receber as oferendas e hesitou de uma forma
incaracterstica durante o Nobis quoque peccatoribus.
 Mais tarde, quando Joana lhe perguntou, ele no deu
importncia aos seus sintomas, considerando-os resultado do
calor e de uma indigesto.
 No dia seguinte, no estava melhor, nem no dia a seguir e no
outro. Doa-Lhe constantemente a cabea e queixava-se de dores
nas mos e nos ps. Comeou a enfraquecer de dia para dia,
fazendo cada dia um esforo maior para se levantar da cama.
Joana comeou a ficar alarmada. Tentou todos os remdios que
conhecia para doenas que enfraquecem. Nada ajudou. Leo
continuava a caminhar para a morte.
 As vozes do coro ergueram-se no Te Deum, o cntico final da
missa. Anastcio esforava-se por se manter sem expresso,
tentando esconder um sorriso provocado pelo barulho.


 381


Nunca tinha conseguido acostumar-se ao canto franco, cujos
acentos bruscos e desconhecidos lhe soavam aos ouvidos como o
grasnar de corvos. Sentiu saudades de casa, ao lembrar-se das
harmonias puras e suaves do canto romano.
 No que desse por perdido o tempo passado em Aachen.
Seguindo as instrues do seu pai, Anastcio tinha procurado
conquistar o apoio do imperador. Comeou por cortejar os
amigos e ntimos de Lothar e por agradar  esposa do
imperador, Hermengarda. Encantava e elogiava com insistncia a
nobreza franca, impressionando-os a todos com o seu
conhecimento das Escrituras e, especialmente, do grego - um
talento raro. Hermengarda e os seus amigos intercederam junto
do imperador e Anastcio foi readmitido  presena real.
Lothar esqueceu qualquer ressentimento que tivesse tido contra
ele, em tempos, Anastcio voltou a gozar da confiana e apoio
do imperador.
 Fiz tudo quanto o pai dise e mais ainda. Mas, quando vir a
recompensa? Havia momentos, como agora, em que Anastcio temia
ser deixado para sempre naquele frio e brbaro pntano.
 Ao regressar aos seus aposentos depois da missa, encontrou
uma carta que tinha chegado na sua ausncia. Reconhecendo a
letra do seu pai, pegou numa faca e quebrou o selo
ansiosamente. Leu as primeiras linhas e deu um grito de
jbilo.
 Chegou a hora, escrevia o seu pai. Vem reclamar o teu
destino.


 Leo estava deitado de lado, com as pernas encolhidas,
torturado por dores terrveis no estmago. Joana preparou-lhe
uma poo emoliente  base de clara de ovo batida com leite
aucarado,  qual acrescentou um pouco de funcho como
carminativo. Ficou a v-lo a beber o lquido.
 - Era bom - disse ele.
 Ela esperou para ver se ele era capaz de o manter no
estmago, o que aconteceu e fez com que ele dormisse mais
descansado do que nas ltimas semanas. Quando acordou algumas
horas depois, sentia-se melhor.
 Joana decidiu fazer-lhe uma dieta  base da poo,
proibindo-o de comer ou beber qualquer outra coisa.
 Waldipert protestou:
 - Ele est to fraco, certamente, precisa de algo mais
substancial para recuperar as foras.
 Joana respondeu com firmeza:
 - O tratamento ajuda-o. Ele no pode tomar mais nada seno a
poo.


 382


 Vendo que ela estava determinada, Waldipert desistiu:
 - Como quiserdes, Nomenclator.
 Leo continuou a melhorar durante a semana seguinte. Deixou
de ter dores, recuperou a cor, parecia at estar a recuperar
alguma da sua antiga energia. Quando, uma noite, Joana lhe
trouxe o medicamento, ele olhou para a mistura leitosa com um
ar triste.
 - E que tal um pastel de carne, em vez disto?
 - Estais a recuperar o apetite -  um bom sinal. Mas, 
melhor no ter pressa. Observar-vos-ei de manh, se ainda
tiverdes fome, autorizar-vos-ei a comer um pouco de caldo
simples.
 - Tirano - respondeu Leo., Ela sorriu. Era bom v-lo a
gracejar com ela novamente.
 Na manh do dia seguinte, ao chegar, ela constatou que Leo
tinha voltado a sofrer uma crise. Gemia na cama, com
demasiadas dores para Lhe responder quando ela lhe falou.
 Joana apressou-se a preparar outra dose de poo emoliente.
Ao faz-lo, os seus olhos depararam com um prato com restos,
na mesa ao lado da cama.
 - O que  isto? - perguntou ela a Renato, camareiro pessoal
de Leo.
 -  o pastel de carne que vs haveis mandado vir - respondeu
o rapaz.
 - Eu no mandei vir nada - disse Joana.
 Renato parecia confuso.
 - Mas... o meu senhor vicedominus disse que vs haveis
pedido isto expressamente.
 Joana olhou para Leo dobrado com dores. Despertou nela uma
suspeita terrvel.
 - Correi! - disse ela a Renato. - Chamai o superista e os
guardas. No deixeis Waldipert sair do palcio.
 O rapaz hesitou um pouco, depois, saiu a correr do quarto.
 Com as mos a tremer, Joana preparou um emtico forte de
mostarda e de raiz de sabugueiro, vertendo-o pela boca
meio-fechada de Leo. Pouco depois, o espasmo de limpeza tomou
conta dele, o seu corpo tremia convulsivamente, mas s vomitou
um pouco de blis.
 Demasiado tarde. O veneno j no est no estmago. Joana
viu, com desgosto, que ele j tinha comeado a actuar
mortalmente, prendendo os msculos dos maxilares e a garganta
de Leo, sufocando-o.
 Desesperada, tentou pensar em mais alguma coisa que pudesse
fazer.


 383


 * * *


 Geraldo ordenou uma busca a todos os compartimentos do
palcio. Waldipert no apareceu. Foi declarado imediatamente
como criminoso e fugitivo e foi instaurada uma perseguio
intensa por toda a cidade e arredores. Mas, procuraram em vo,
Ualdipert tinha desaparecido completamente.
 Quando estavam quase a desistir da perseguio,
encontraram-no. Flutuava no Tibre, com a garganta cortada de
orelha a orelha e o rosto com um esgar de surpresa.
 O clero e os altos funcionrios de Roma reuniram-se na
cmara papal. Formavam uma fila compacta aos ps da cama, como
que para se confortarem com a presena uns dos outros.
 As lmpadas de leo de papoila ardiam nos seus fanais em
prata. Ao raiar do dia, o deo dos camareiros veio apag-las.
Joana ficou a ver enquanto o ancio soltava os cabos e baixava
as correntes cuidadosamente para que no se perdesse nenhuma
gota da substncia preciosa. Aquele simples gesto domstico
parecia deslocado na atmosfera carregada do quarto.
 Joana no tinha esperado que Leo sobrevivesse quela noite.
Tinha deixado de responder havia muito  voz ou ao contacto.
Havia horas que a sua respirao se mantinha inaltervel, cada
vez mais ruidosa e em estertor, at atingir uma intensidade
alarmante, interrompendo-se abruptamente. Fez-se uma pausa,
durante a qual ningum se mexeu, depois o ciclo terrvel
recomeou.
 O movimento de uma veste chamou a ateno de Joana. Do outro
lado do quarto, Eustcio, o arcipreste, chorava, tapando a
boca com a manga, para abafar o som.
 Leo soltou um suspiro longo e ruidoso depois ficou em
silncio, um silncio que se prolongou infinitamente. Joana
aproximou-se da cama. A vida tinha partido do rosto de Leo.
Ela fechou-Lhe os olhos depois ajoelhou-se ao lado da cama.
 Eustcio gritou de dor. Os bispos e optimates ajoelharam-se
a rezar. Pascal, o primicerius, benzeu-se, depois, saiu, para
dar a notcia aos que esperavam l fora.
 Leo, Pontifx Maximus, Servu Servorum Dei, Primaz dos
Bispos da Igreja e Senhor Papa da Sede Apostlica de Roma,
tinha morrido.
 Fora do Patriarchium, comeou o choro.


 384


 Leo foi sepultado em So Pedro, diante do altar de um
oratrio novo, que lhe foi dedicado. Os rituais fnebres foram
feitos com rapidez, por causa da altura do ano em que ocorreu
a morte.
 De facto, por muito santa que a alma que o tinha habitado
fosse , um corpo no resistia muito  corrupo no calor de
Julho, em Roma.
 Pouco depois do funeral, o triunvirato regente anunciou que,
dali a trs dias, haveria uma eleio pontifical. Com Lothar a
norte, os sarracenos a sul e os lombardos e bizantinos no
meio, a situao de Roma era demasiado precria para permitir
que o Trono de Pedro ficasse vacante por mais tempo.
 Demasiado cedo, pensou Arsnio desgostoso, mal ouviu a
notcia. A eleio  cedo de mais. Anastcio no chegar
antes. Waldipert, aquele tolo, tinha estragado tudo. Tinha
recebido instrues expressas acerca da forma como administrar
o veneno gradualmente, em pequenas doses, assim, Leo teria
sobrevivido um ms ou mais - e a sua morte no teria levantado
suspeitas.
 Mas, Waldipert tinha entrado em pnico e tinha administrado
uma dose demasiado forte, matando logo Leo. Depois, tinha
tido a deselegncia de vir  procura de proteco junto de
Arsnio. Bem, agora a justia no lhe pode chegar, apesar de
no ser da forma que ele estava a pensar, pensou Arsnio.
 J tinha mandado matar homens antes, fazia parte do preo a
pagar pelo poder e s os fracos hesitavam em pagar. Mas, nunca
tinha tido de eliminar ningum que conhecesse to de perto
como Waldipert. Por muito desagradvel que aquilo tivesse
sido, era inevitvel. Se Waldipert fosse apanhado e
interrogado, teria confessado sob tortura tudo quanto sabia.
Arsnio tinha-se limitado a fazer o que tinha de fazer para se
proteger a si prprio e  sua famlia. Destruiria qualquer
pessoa que ameaasse a segurana da famlia, esmag-la-ia como
se esmaga uma mosca que nos mordeu.
 Mesmo assim, a morte de Waldipert tinha-o deixado deprimido
e desconfortvel. Aqueles actos de violncia, por muito
necessrios que fossem, custavam sempre.
 Com um esforo de vontade, Arsnio desviou o pensamento para
assuntos mais urgentes. A ausncia do seu filho complicava as
coisas, a sua eleio para o papado, agora, seria mais
difcil, mas no impossvel. A primeira coisa a fazer era
conseguir que Eustcio, o arcipreste, revogasse a sentena de
excomunho contra ele. Para tanto, eram necessrias algumas
manobras polticas.



 385


 Pegando numa campainha em prata que se encontrava sobre a
sua mesa, Arsnio chamou o seu secretrio. Havia muito que
fazer em pouqussimo tempo.


 Joana estava sentada num banco na sua oficina no
Patriarchium, esmagando algumas folhas de hissope secas,
transformando-as num p fino no seu almofariz. Esmagar e moer
e esmagar e moer, os movimentos familiares da mo e do pulso
eram um blsamo para o desgosto que lhe atormentava o corao.
 Leo tinha morrido. Parecia impossvel. Ele era to
vigoroso, to forte, parecia ainda cheio de vida. Se tivesse
sobrevivido, teria feito muito para tirar Roma do charco de
ignorncia e pobreza em que tinha cado havia sculos, ele
tinha fora para isso e vontade. Mas, no tinha tido tempo.
 A porta abriu-se e Geraldo entrou. Ela olhou para os seus
olhos, sentindo a sua presena de uma forma to prxima como
se ele a tivesse tocado.
 - Acabei de receber a notcia - disse ele, bruscamente. -
Anastcio saiu de Aachen.
 - No pensas que vem para aqui?
 - Penso que sim. Seno, porque teria deixado a corte do
imperador de forma to sbita? Vem reclamar o trono que Lhe
foi negado h seis anos.
 - Mas, ele no pode ser eleito, est excomungado.
 - Arsnio est a tentar convencer o arcipreste a levantar a
sentena de excomunho.
 -- Benedicite!
 As notcias eram ms. Depois dos seus anos de exlio na
corte imperial, Anastcio era certamente um homem do
imperador, mais do que nunca. Se fosse eleito, o poder de
Lothar estender-se-ia a Roma e a todos os seus territrios.
 Geraldo disse:
 - Ele no ter esquecido a maneira como falaste na eleio
de Leo.  perigoso para ti ficares em Roma com ele como papa.
Anastcio no  homem para perdoar uma ofensa.
 A acrescentar  emoo ainda viva provocada pela morte de
Leo, aquele pensamento era de mais. Os olhos da Joana
encheram-se de lgrimas.
 - No chores, corao.
 Geraldo abraou-a. Os seus braos, fortes e seguros,
confortaram-na. Os seus lbios afloraram a sua testa, a sua
face, despertando nela o desejo.


 386


 - J fizeste muito, j basta de sacrifcios. Vem comigo e
viveremos como sempre quisemos - juntos, como marido e mulher.
 Ao levantar os olhos, apercebeu-se do rosto dele junto ao
dela. Depois, ele beijou-a.
 - Diz que sim - disse ele, ansioso. - Diz que sim.
 Ela sentiu-se como se estivesse a ser puxada sob a
superfcie da sua conscincia e transportada por uma corrente
poderosa de desejo.
 - Sim - murmurou ela, quase sem se aperceber do que estava a
dizer. - Sim.
 Tinha falado involuntariamente, respondendo por impulso 
fora da sua paixo. Mas, mal as palavras lhe saram da boca,
abateu-se sobre ela uma grande calma. Tinha tomado a deciso
que parecia tanto certa quanto inevitvel.
 Ele inclinou-se e beijou-a novamente. O sino tocou nesse
preciso momento, convocando todos para a refeio da tarde.
Pouco depois, ouviram-se vozes e passos apressados do outro
lado da porta.
 Eles separaram-se rapidamente, murmurando carinhos,
prometendo voltar a encontrar-se depois da eleio do papa.
 No dia da eleio, Joana foi rezar na igrejinha inglesa que
tinha sido sua quando chegou a Roma.
 Completamente destruda pelo incndio, a igreja tinha sido
reconstruda com materiais retirados aos velhos templos e
monumentos romanos. Quando Joana se ajoelhou diante do
altar-mor, viu que o pedestal de mrmore sobre o qual ele se
encontrava continha o smbolo inequvoco da Magna Mater,
antil,a deusa da Terra, venerada pelas tribos pags em tempos
imemoriais. Por baixo do desenho rude estava escrito em latim:
Neste mrmore, foi oferecido incenso  Deusa." Era bvio que,
quando a grande placa de mrmore tinha sido trazida para ali,
ningum tinha compreendido o smbolo ou a sua inscrio. Isto
no era nenhuma surpresa porque muitos dos membros do clero
romano mal sabiam ler, sendo incapazes de decifrar a letra
antiga, muito menos de compreender o seu significado.
 A incongruncia do altar sagrado e da sua base pag pareceu
 Joana um smbolo perfeito da sua prpria condio: padre
cristo, continuava a sonhar com os deuses pagos da sua me,
um homem aos olhos do mundo, era atormentada pelo seu corao
secreto de mulher, em busca da f, vivia dividida entre o
desejo de conhecer Deus e o medo de que Ele no existisse.
Mente e corao, f e dvida, vontade e desejo. Ser que as
contradies dolorosas da sua natureza alguma vez se
resolveriam?


 387


 Amava Geraldo, no tinha dvida. Mas, ser que poderia ser
sua esposa? Nunca tinha vivido como mulher. Ser que podia
comear agora, to tarde?
 - Ajudai-me, Senhor - rezava Joana, erguendo os olhos para o
crucifixo em prata que se encontrava sobre o altar. -
Mostrai-me o caminho. Dai-me a conhecer o que devo fazer. Bom
Deus! Iluminai-me! As suas palavras elevavam-se, mas o seu
esprito continuava preso  terra, carregado com a sua
incerteza.
 Uma porta rangeu atrs dela. Ela levantou-se do lugar onde
se encontrava junto do altar e viu uma cabea a espreitar pela
porta, desaparecendo imediatamente.
 - Est aqui! - gritou uma voz. - Encontrei-o.
 O seu corao saltou-lhe com um medo sbito. Ser que
Anastcio ia agir contra ela to depressa? Levantou-se.
 As portas abriram-se de par em par e entraram sete proceres,
secundados por aclitos transportando os estandartes do seu
ofcio. Seguia-se-lhe o clero cardinalcio e, depois, os sete
optimates da cidade. Foi s quando viu Geraldo entre eles que
Joana se convenceu de que no ia ser presa.
 Numa procisso lenta, a delegao desceu a nave da igreja e
parou diante de Joana.
 - Joo Anglicus - disse Pascal, o primicerius,
dirigindo-se-Lhe num tom solene. - Por vontade de Deus e do
povo de Roma, fostes eleito Senhor Papa de Roma, Bispo da S
Romana.
 Depois, prostrou-se diante dela e beijou-Lhe os ps.
 Joana ficou a olhar para ele, sem querer acreditar. Era
alguma brincadeira de mau gosto? Ou uma armadilha para a levar
a exprimir deslealdade ao novo papa?
 Olhou para Geraldo. O seu rosto estava tenso e srio quando
caiu de joelhos diante dela.
 O resultado da eleio tinha apanhado todos de surpresa. A
faco imperial, chefiada por Arsnio, tinha tomado o partido
de Anastcio. A faco papal contra-atacou, propondo Adriano,
padre da Igreja de So Marcos. Ele no era propriamente um
guia carismtico. Baixo e forte, com o rosto desfigurado por
bexigas, tinha os ombros arqueados como se j estivesse
carregado com a responsabilidade que lhe queriam impor. Era um
homem piedoso, um bom padre, mas poucos o teriam escolhido
para chefe espiritual do mundo.


 388


 Era evidente que Adriano concordava com a opinio geral
porque, inesperadamente, retirou a sua candidatura, informando
a assembleia que, depois de muita orao e profunda reflexo,
tinha decidido declinar a grande honra que lhe queriam dar.
 Este anncio provocou alguns comentrios entre os membros do
partido papal, que no tinham sido informados da deciso de
Adriano antecipadamente. Ouve grandes manifestaes de jbilo
da parte imperial. Agora, a vitria de Anastcio parecia
certa.
 Depois, ouviu-se um clamor vindo da assembleia, onde estavam
reunidas as fileiras dos leigos mais humildes.
 - Joo Anglicus! - gritavam eles. - Joo Anglicus!
 Pascal, o primicerius, mandou guardas para os calarem, mas
eles no se queriam calar. Conheciam os seus direitos, a
constituio de 824 dava a todos os romanos - leigos e clero,
da classe alta ou baixa - o direito de votarem na eleio
papal.
 Arsnio tentou resolver este problema inesperado fazendo uma
tentativa descarada para comprar a lealdade do povo, os seus
agentes circularam diligentemente pelo meio da multido,
oferecendo subornos em vinho, mulheres e dinheiro. Mas, nem
mesmo estas fortes sedues resultaram, o povo ps-se contra
Anastcio, que o seu amado papa Leo tinha considerado bom
excomungar. Aclamavam o pequeno Papa vociferando, o amigo de
Leo e seu ajudante, Joo Anglicus, e no se deixavam
convencer.
 Mesmo assim, no estava garantido que tivessem ganho porque
a aristocracia no poder no ia deixar que a sua vontade fosse
vencida pela populaa, estivesse isso na constituio ou no.
Mas, o partido do Papa, vendo nesta insurreio popular uma
forma inesperada de impedir Anastcio de aceder ao Trono,
juntou as suas vozes s do povo. Estava resolvido - Joana foi
eleita.
 Anastcio e o seu partido estavam acampados perto de
Perugia, a noventa milhas de Roma, quando o mensageiro chegou
com a notcia. Anastcio mal tinha acabado de ler a mensagem
quando lanou um grito de dor. Sem dizer palavra aos seus
companheiros surpreendidos, virou as costas e voltou a entrar
na tenda, tapando a entrada para impedir que algum o
seguisse.
 Dentro da tenda, os seus homens ouviram-no chorar copiosa e
furiosamente. Pouco depois, o choro transformou-se num uivo
animalesco que se prolongou durante toda a noite.


 389



 Revestida com uma tnica em seda prpura, enfeitada a ouro e
sentada sobre um palafrm tambm revestido e decorado a ouro,
Joana encaminhava-se solenemente para a sua coroao. Fitas e
bandeiras adejavam de todas as portas e janelas da Via Sacra,
com cores garridas, o cho estava coberto com mirto aromtico.
Magotes de pessoas aclamando-a bordejavam a rua, empurrando-se
para verem o novo Senhor Papa.
 Perdida nos seus prprios pensamentos, Joana mal ouvia o
barulho da multido. Pensava em Mateus, no seu velho mestre
Asclpios, no irmo Benjamim. Eles tinham todos acreditado
nela, tinham-na encorajado, mas nenhum deles tinha sonhado com
uma coisa daquelas. Ela prpria mal podia acreditar.
 Quando se tinha disfarado de homem pela primeira vez para
ser aceite na irmandade de Fulda, Deus no tinha levantado a
Sua mo contra ela. Mas, ser que Ele iria mesmo permitir que
uma mulher ascendesse ao sagrado Trono de So Pedro? A
pergunta volteava-Lhe na cabea.
 A guarda papal, comandada por Geraldo, escoltava Joana.
Geraldo no tirava os olhos da multido que se apinhava ao
longo do caminho. Havia sempre tentativas para romper a fila
da guarda e, cada vez que acontecia, Geraldo deitava a mo 
espada, pronto a defender Joana de qualquer ataque. Mas, no
foi preciso desembainh-la porcque, cada vez que aduilo
acontecia, o intruso s queria beijar a orla do manto de Joana
e receber a sua bno.
 Desta forma lenta e entrecortada, a longa procisso seguiu o
seu caminho atravs das ruas, at Latro. O Sol estava no
znite quando eles chegaram diante da catedral papal.. Quando
Joana desmontou, os cardeais, os bispos e os diconos ocuparam
os seus lugares atrs dela. Ela subiu lentamente os degraus e
entrou no interior sombrio da grande baslica.
 Repleta de rituais antigos e complicados, a Ordo
coronationis ou cerimnia de coroao demorou vrias horas.
Dois bispos conduziram Joana  sacristia, onde ela foi
paramentada solenemente com uma alba, uma dalmtica e uma
pnula, antes de se aproximar do altar-mor para ser entoada a
Litania e o longo ritual da consagrao ou uno. Durante a
recitao do vere dignum, Desidrio, o arquidicono e dois dos
diconos regionais seguraram um livro aberto, com os
Evangelhos, sobre a sua cabea. Depois, foi a missa
propriamente dita, muito mais longa do que o habitual por
causa das numerosas oraes e formulrios prprios da
solenidade da ocasio.


 390


 Durante todo este tempo, Joana manteve-se numa postura
solene e direita, suportando o peso das vestes litrgicas, to
carregadas de ouro como as de um prncipe bizantino. Apesar da
magnificncia do seu aspecto, sentia-se muito pequena e mal
preparada para a responsabilidade enorme que lhe tinha sido
colocada nos ombros. Pensou que aqueles que tinham estado
naquela posio antes dela tambm deviam ter tremido e
duvidado. No entanto, tinham acabado por conseguir levar por
diante a sua misso.
 Mas, tinham sido todos homens.
 Eustcio, o arcipreste, comeou a bno final:
 - Senhor Todo-poderoso, estendei a Vossa dextra sobre o
Vosso bendito, o Vosso servo Joo Anglicus e derramai sobre
ele o dom da Vossa misericrdia...
 Ser que Deus me vai abenoar agora?, pensou Joana. Ou ser
que me derrubar no momento em que a coroa papal for colocada
sobre a minha cabea?
 O bispo de Ostia avanou, trazendo a coroa sobre uma
almofada em seda branca. Joana engoliu em seco quando ele
levantou a coroa por cima da sua cabea. Depois, o peso do
crculo em ouro pousou sobre a sua fronte.
 No aconteceu nada.
 - Viva o nosso ilustre Senhor Joo Anglicus, declarado por
Deus como nosso Bispo Supremo e Papa Universal! - proclamou
Eustcio.
 O coro cantou Laudes quando Joana enfrentou a assembleia.
 Ao aparecer ao cimo da escadaria da baslica, foi saudada
por uma aclamao estrondosa. Milhares de pessoas tinham
esperado horas ao sol ardente para saudarem o seu Papa
recm-consagrado. O seu desejo era que ela fosse coroada.
Agora, manifestavam essa vontade num grande coro de aclamaes
jubilosas:
 - Papa Joo! Papa Joo! Papa Joo!
 Joana abriu-lhes os braos, sentindo que o seu esprito
comeava a elevar-se. Invadiu-a uma beatitude que, ainda na
vspera, Lhe parecia inalcanvel e que, agora, era plena.
Deus tinha permitido que aquilo acontecesse, portanto, no
podia ser contra a Sua vontade. Desapareceram todas as dvidas
e medos, agora substitudos por uma certeza gloriosa,
esplendorosa: Este  o meu destino e este  o meu povo.
 Sentia-se inundada do amor que lhes tinha. Servi-los-ia em
nome do Senhor todos os dias da sua vida.
 E talvez, no fim, Deus Lhe perdoasse.


 391


 A curta distncia, Geraldo olhava-a deslumbrado. Ela
resplandecia, transfigurada por uma alegria indizvel, com o
rosto brilhando, belo como uma luz. S ele - que a conhecia
to bem - sabia o que ia no ntimo do seu esprito, muito mais
importante do que a cerimnia anterior. Ao v-la receber a
aclamao da multido, o seu corao ficou despedaado por uma
verdade insuportvel: tinha perdido para sempre a mulher que
ele amava, mas amava-a mais do que nunca.


 392


 @27


 O primeiro acto da Joana como papisa foi dar uma volta a
p pela cidade. Acompanhada por um squito de optimates e de
guardas, visitou cada uma das sete regies eclesisticas,
saudando as pessoas e ouvindo as suas queixas e necessidades.
 Quando se aproximava do fim da sua volta, Desidrio, o
arquidicono, orientou-a para a Via Lata, longe do rio.
 - E o Campo de Marte? - perguntou ela.
 Os outros membros do squito papal entreolharam-se,
consternados. O Campo de Marte, a regio pantanosa, abafada,
baixa junto ao Tibre, era a mais pobre de Roma. Nos grandes
dias da Repblica Romana, tinha sido dedicada  venerao do
deus pago Marte. Agora, ces esfomeados, pedintes andrajosos
e ladres vagueavam nas suas velhas ruas.
 - No nos aventuramos a entrar l, Santidade - protestou
Desidrio. - O local est cheio de tifo e de clera.
 Mas, Joana j se dirigia para o rio, acompanhada por Geraldo
e pela guarda. Desidrio e os outros no tinham outro remdio
seno segui-la.
 Filas de insulae, os alojamentos exguos dos pobres,
apinhados ao longo de ruas nojentas  beira do rio, tinham as
vigas podres pendentes como costelas partidas de mulas velhas.
Algumas das insulae tinham rudo, os restos das vigas podres
jaziam onde tinham cado, atravancando as ruas estreitas. Por
cima, estendiam-se os arcos em runas do aqueduto de Marcio,
em tempos uma das maravilhas arquitectnicas do mundo. Agora,
as suas paredes em runa pingavam gua suja que formava poas
de gua estagnada, um alfobre de doenas.


 393


Grupos de pedintes reuniam-se em torno de paneles com comida
com um cheiro estranho, aquecendo-se a pequenas fogueiras
feitas de aparas e de bosta seca. As ruas estavam cobertas com
camadas de lama que tinha ficado das vrias cheias do Tibre. O
lixo e os excrementos entupiam os esgotos, o cheiro era
insuportvel por causa do calor do Vero, atraindo enxames de
moscas, ratos e outros vermes.
 - Meu Deus - murmurou Geraldo junto a ela. - Isto  um foco
de doenas.
 Joana conhecia a pobreza, mas nunca tinha visto nada
semelhante quela misria terrvel e brutal.
 Duas crianas estavam agachadas junto ao lume. As suas
tnicas estavam to gastas que Joana conseguia ver a alvura da
sua pele por baixo delas, os seus ps descalos estavam
enrolados em panos imundos. Era bvio que uma delas, um
rapazinho, tinha febre, apesar do calor do Vero, tremia
descontroladamente. Joana tirou a sua pnula em linho e
cobriu-lhe os ombros com ela, suavemente. O rapaz esfregou a
cara no tecido macio, to macio como ele nunca tinha sentido
na vida.
 Ela sentiu um puxo no seu manto. A criana mais pequena,
uma menina com olhos redondos, como um anjo, olhava para ela,
interrogativamente.
 - Sois um anjo? - perguntou a vozinha.
 Joana fez uma festa no queixo sujo da criana.
 - Tu  que s um anjo, pequenina.
 Dentro do panelo, um pedacinho de carne magra, impossvel
de identificar, comeava a queimar-se. Uma jovem loura veio do
rio, carregando um balde com gua. Seria a me das crianas?,
pensou Joana. Ela prpria parecia tambm uma criana - no
tinha, certamente, mais do que dezasseis anos.
 Os olhos da jovem ergueram-se esperanados, quando viu Joana
e os outros prelados.
 - Uma esmola, bons padres? - estendeu a mo. - Uma moedinha
para os meus pequeninos?
 Joana fez um sinal a Vtor, o sacellarius, que colocou um
denrio em prata na palma estendida da jovem. Com um sorriso
de felicidade, a rapariga pousou o balde com gua para guardar
a moeda.
 Havia restos de despejos a flutuar na gua.
 Benedicite!, pensou Joana. A sujidade da gua era,
seguramente, o que tinha adoecido o rapazinho. Mas, com o
aqueduto em runas, que alternativa tinha aquela me? Tinha de
utilizar a gua poluda do Tibre ou morrer de sede.


 394


 Mas, agora, havia outros que tinham comeado a reparar em
Joana e no seu squito. As pessoas comearam a juntar-se,
ansiosas por saudar o seu novo Senhor Papa. Joana esticava-se
para eles, tentando tocar e abenoar tantos quanto podia. Mas,
 medida que a multido aumentava, aproximava-se tanto dela
que ela mal se podia mexer. Geraldo deu ordens, os guardas
dispersaram a multido, abrindo o caminho, e a comitiva papal
saiu da Via Lata, para o ar solarengo, limpo e saudvel da
Colina Capitolina.
 - Temos de reconstruir o aqueduto de Marcio - disse Joana
durante uma reunio com os optimates, na manh seguinte.
 As sobrancelhas de Pascal, o primicerius, ergueram-se com a
surpresa.
 - O restauro de um edifcio cristo seria uma forma mais
apropriada de comear o vosso papado, Santidade.
 - Para que querem os pobres mais igrejas? - respondeu ela -,
Roma est cheia delas. Mas, um aqueduto a funcionar pode
salvar muitas vidas.
 - O projecto  arriscado - disse Vtor, o sacellarius. -
Pode ser que no se consiga fazer.
 Ela no o podia negar. Reconstruir o aqueduto era uma obra
monumental, talvez mesmo, impossvel de realizar, dado o
estado lastimoso da engenharia naqueles dias. Os livros que
tinham conservado os conhecimentos dos antigos acerca destas
obras de construo complicadas tinham-se perdido ou tinham
sido destrudos havia sculos. As pginas de pergaminho nas
quais tinham sido registados os preciosos planos tinham sido
raspadas e reescritas com homilias crists e histrias da vida
de santos e de mrtires.
 - Temos de tentar - disse Joana, com firmeza. - No podemos
permitir que as pessoas continuem a viver em condies to
miserveis.
 Os outros mantiveram-se em silncio, no porque
concordassem, mas porque seria indelicado opor-se, quando era
to evidente que o Apostlico estava decidido.
 Ao fim de algum tempo, Pascal perguntou:
 - Quem tendes em mente para supervisionar a construo?
 - Geraldo - respondeu Joana.
 - O superista? - Pascal estava surpreendido.
 - Quem havia de ser? Ele dirigiu a construo do Muro
Leonino. Alis, tambm houve muitos que pensaram que no era
possvel.


 395


 Nas semanas que se tinham seguido  sua coroao, ela
tinha-se apercebido de que Geraldo estava cada vez mais
infeliz. Era difcil para ambos estarem sempre juntos. Pelo
menos ela tinha o seu trabalho, uma misso e um objectivo
claros. Mas, Geraldo estava aborrecido e inquieto. Joana
sabia-o, sem que ele lho tivesse dito, eles nunca tinham
precisado de falar um com o outro para saberem o que o outro
estava a sentir.
 Quando Geraldo veio ter com ela, ela apresentou-lhe a sua
ideia de reconstruir o aqueduto de Marcio.
 Ele franziu o sobrolho, pensativo:
 - Perto do Tivoli, o aqueduto continua por baixo do cho,
num tnel ao longo de vrias colinas. Se essa seco estiver
destruda, no ser fcil de reparar.
 Joana sorriu ao aperceber-se de que o seu esprito j estava
a comear a assumir a ideia, prevendo os problemas que ela
envolvia.
 - Se algum o pode fazer s tu.
 - Tens a certeza que  isso que queres?
 Os olhos de Geraldo fitaram os seus com um olhar de desejo
indubitvel.
 Ela sentiu que Lhe correspondia. Mas, no se atreveu a
demonstrar os seus sentimentos. Admitir a intimidade entre
ambos, mesmo aqui, em privado, seria abrir caminho ao
desastre. Ela respondeu pragmaticamente:
 - No vejo nada que seja de maior benefcio para o povo.
 Ele desviou o olhar:
 - Ento, est bem. No te esqueas de que no te estou a
prometer nada. Vou ver se  possvel. Farei tudo o que puder
para que o aqueduto seja reparado para poder voltar a
funcionar.
 -  tudo quanto eu peo - disse ela.
 Ela comeava a perceber de uma forma nova o que significava
ser Papa. Apesar de ser uma posio de grande poder formal, na
realidade, era uma posio com grandes obrigaes. Ela tinha o
tempo todo ocupado com obrigaes litrgicas pesadssimas. No
Domingo de Ramos, benzeu e distribuiu ramos de palmeira em
frente a So Pedro. Na Quinta-feira Santa, lavou os ps aos
pobres e serviu-lhes ela prpria uma refeio. Na Festa de
Santo Antnio, ficou diante da Catedral de Santa Maria Maior e
aspergiu com gua benta os bois, os cavalos e as mulas
trazidas pelos seus donos para serem benzidos. No terceiro
Domingo do Advento, abenoou os candidatos apresentados para
serem ordenados presbteros, diconos ou bispos.


 396


 Tambm tinha de celebrar a missa quotidiana. Em certos dias,
era uma missa estacional, precedida de uma procisso pela
cidade at  igreja titular, na qual seria celebrada a missa,
parando pelo caminho para ouvir peties, a procisso e a
cerimnia ocupavam-lhe grande parte do dia. Havia mais de
noventa missas estacionais, incluindo as festas marianas, as
Quatro Tmporas, a Missa de Cristo, o Domingo da Septuagsima
e da Sexagsima e a maior parte dos Domingos e dias feriados
da Quaresma.
 Havia dias de festa em honra de So Pedro, So Paulo, So
Loureno, Santa Ins, So Joo, So Tom, So Lucas, Santo
Andr e Santo Antnio, assim como da Natividade, da Anunciao
e da Assuno da Virgem Maria. Estas eram festas fixas, o que
queria dizer que calhavam no mesmo dia todos os anos, como a
Missa de Cristo e a Epifania. A Oblao, a festa da Sede
Gestatria, a Circunciso de Cristo, a Natividade de So Joo
Baptista, a festa de So Miguel, de Todos os Santos e da
Exaltao da Cruz eram todas em dias fixos. A Pscoa, o dia
mais sagrado do calendrio cristo, era uma festa mvel, a sua
localizao no calendrio seguia o ritmo da lua cheia
eclesistica, tal como os feriados satlites da Tera-Feira de
Entrudo, da Quarta-Feira de Cinzas, do Dia da Ascenso e do
Pentecostes.
 Cada um destes feriados cristos era observado com, pelo
menos, quatro dias de celebraes: a viglia ou vspera da
festa, o dia da festa, o dia seguinte e a oitava ou oitavo dia
a seguir. Ao todo, havia mais de cento e setenta e cinco dias
festivos para os cristos, entregues a cerimoniais complicados
e consumidores de tempo.
 Tudo isto dava pouco tempo a Joana para governar realmente,
ou para falar daquilo que lhe interessava mais: tratar dos
pobres e melhorar a educao do clero.
 Em Agosto, a rdua rotina litrgica foi interrompida por um
snodo. Participaram setenta e sete prelados, incluindo todos
os suburbicar, ou bispos provinciais, assim como quatro
bispos francos enviados pelo imperador Lothar.
 Dois dos assuntos tratados no snodo tinham especial
interesse para Joana. O primeiro, diz respeito  intinctio, a
prtica de distribuir a Comunho mergulhando o po eucarstico
no vinho, em vez de serem tomados separadamente. Nos vinte
anos que se seguiram  introduo dessa ideia em Fulda, por
iniciativa de Joana, como forma de evitar a propagao de
doenas, tinha-se tornado to popular na regio dos francos
que se tinha tornado um costume quase universal.


 397


O clero romano, que, como era evidente, no sabia que existia
uma relao entre Joana e a intinctio, encarava a nova prtica
com suspeio.
 -  uma transgresso  lei divina - argumentou o bispo de
Castrum, indignado. - Na Sagrada Escritura afirma-se que
Cristo deu aos Seus discpulos o Seu corpo e o sangue
separadamente.
 Houve sinais de concordncia pela assembleia.
 - O Senhor Bispo tem razo - disse Pothos, bispo de Trevi.A
prtica no tem precedentes nos escritos dos padres, portanto,
tem de ser condenada.
 - Devemos condenar uma ideia apenas porque  nova? -
perguntou Joana.
 - Devemos guiar-nos pela sabedoria dos antigos em todas as
coisas - respondeu Pothos num tom solene. - A nica verdade de
que podemos estar seguros  aquela que nos foi transmitida no
passado.
 - Tudo o que  velho j foi novo um dia - disse Joana. - O
novo precede sempre o velho. No ser insensato rejeitar o que
precede e estimar o que se segue?
 As sobrancelhas de Pothos franziram-se ao mesmo tempo que a
sua mente meditava sobre aquela complexa dialctica. Como a
maior parte dos seus colegas, tambm ele no possua qualquer
conhecimento da argumentao e debate clssicos, s se sentia
 vontade quando citava uma autoridade.
 Seguiu-se uma longa discusso. Claro que Joana podia ter
imposto a sua vontade por decreto, mas preferia a persuaso 
tirania. No fim, os bispos acabaram por ser vencidos pelos
seus argumentos. A prtica da intinctio continuaria na regio
dos francos, pelo menos, de momento.
 A questo seguinte tinha um grande interesse pessoal para
Joana porque envolvia o seu velho amigo Gottschalk, o monge
oblato cuja liberdade ela tinha ajudado a ganhar, em tempos.
Segundo o relatrio dos bispos francos, ele estava novamente
em grandes apuros. Joana ficou triste com as notcias, mas no
muito surpreendida, Gottschalk era um homem que cortejava a
infelicidade com a mesma intensidade com que um amante
persegue a sua amada.
 Agora, era acusado do srio crime de heresia. Rbano Mauro,
antigo abade de Fulda, agora promovido a arcebispo de Mainz,
tinha ouvido falar de algumas teorias radicais que Gottschalk
tinha pregado sobre a predestinao. Aproveitando a
oportunidade para se vingar, o arcebispo tinha mandado prender
e aoitar selvaticamente Gottschalk.


 398


 Joana franziu o sobrolho. A crueldade com que homens de
alegada piedade, como Rbano, tratavam os seus irmos cristos
nunca deixava de a espantar. Os normandos pagos
provocavam-lhes uma fria menor do que um crente cristo que
se desviasse um pouco que fosse das doutrinas estritas da
Igreja. Porque ser que temos sempre de guardar o nosso pior
dio para os nossos?, pensou ela.
 - Qual  a natureza concreta dessa heresia? - perguntou ela
a Wulfram, o chefe dos bispos francos.
 - Primeiro - disse Wulfram - o monge Gottschalk afirma que
Deus predestinou todos os homens para a salvao ou para a
perdio. Segundo, que Cristo no morreu na cruz por todos os
homens, mas apenas pelos eleitos. E, finalmente, que os homens
decados no podem fazer nada de bom fora da graa, nem podem
exercitar livremente a sua vontade para nada a no ser o mal.
  mesmo do Gottschalk, pensou Joana. Um pessimista nato, era
inevitvel que tendesse para uma teoria que predestinava o
homem  condenao. Mas, no havia nada de hertico naquelas
ideias, nem sequer particularmente novo. O prprio Santo
Agostinho tinha dito exactamente o mesmo em duas das suas
obras mais importantes - o De civitate Dei e o Enchiridion.
 Mas, ningum na sala pareceu aperceber-se disso. Apesar de
todos reverenciarem o nome de Agostinho, era evidente que
nenhum se tinha dado, realmente, ao trabalho de ler as suas
obras.
 Nirgotius, bispo de Anagni, levantou-se e disse:
 - Isso  uma apostasia pecaminosa - disse ele. - Porque 
sabido que a vontade de Deus predestina os eleitos, mas no os
condenados.
 Aquele raciocnio era muito defeituoso, j que a
predestinao de um grupo implicava, inevitavelmente, a
predestinao do outro. Mas, Joana no disse nada porque
tambm estava preocupada com a pregao de Gottschalk. Era
perigoso levar as pessoas a acreditarem que no podiam
alcanar a sua salvao evitando o pecado e tentando agir de
forma justa. Afinal, porque haveria algum de se dar ao
trabalho de fazer boas obras se a lista do Cu j estava
feita?
 Ela disse:
 - Concordo com Nirgotius. A graa de Deus no  fruto da
predestinao, mas sim do poder abundante do Seu amor, que se
derrama sobre todas as coisas que existem.
 Os bispos acolheram bem esta interveno porque concordava
com o seu prprio pensamento. Votaram por unanimidade a
refutao das teorias de Gottschalk.


 399


Mas, por instigao da Joana, incluram tambm uma condenao
do arcebispo Rbano pela forma rgida e imprpria de um
cristo, como tinha tratado o monge transviado.
 Foram votados quarenta e dois cnones naquele snodo, a
maior parte deles relacionados com a reforma da disciplina e
da educao eclesistica. No fim da semana, a assembleia
estava terminada. Todos concordaram que tinha corrido muito
bem e que o Papa Joo tinha presidido com uma distino rara.
Os romanos estavam particularmente orgulhosos de serem
representados por um guia espiritual de inteligncia e
erudio to elevadas.
 Mas, a boa-vontade de que Joana ficou a gozar a seguir ao
snodo no durou muito. No ms seguinte, a comunidade
eclesistica revoltou-se em peso quando ela anunciou a sua
inteno de instituir uma escola para mulheres. At aqueles do
partido papal que tinham apoiado a candidatura da Joana
ficaram chocados: que Papa tinham eles elegido?
 Jordanes, o secundicerius, confrontou Joana com o assunto
publicamente, durante a reunio semanal dos optimates.
 - Santidade - disse ele - fazeis muito mal em procurar
educar mulheres.
 - Porqu? - perguntou ela.
 - Santidade, sabeis muito bem que o tamanho do crebro e do
tero da mulher  inversamente proporcional, portanto, quanto
mais uma rapariga aprende, menos provvel  que venha a ter
filhos.
  melhor ser estril de corpo do que de esprito, pensou
Joana com frieza, mas guardou o pensamento apenas para si
prpria.
 - Onde lestes isso?
 -  do senso comum.
 - Pelo que parece,  tanto do senso comum que ningum se deu
ao trabalho de o escrever para que todos pudessem aprend-lo.
 - No  preciso aprender aquilo que  bvio para todos.
Ningum escreveu que a l vem das ovelhas, mas todos o sabem.
 Os outros sorriram. Jordanes envaideceu-se da esperteza do
seu argumento.
 Joana pensou um pouco e depois disse:
 - Se o que dizeis  verdade, como havemos de interpretar a
fecundidade extraordinria de mulheres instrudas como Laeta,
que se correspondia com So Jernimo e que, segundo ela
relata, deu  luz quinze crianas saudveis?
 - Uma aberrao! Uma rara excepo  regra.


 400


 - Se bem me lembro, Jordanes, a vossa irm Juliana sabe ler
e escrever.
 Jordanes foi apanhado desprevenido.
 - S um pouco, Santidade. O suficiente para poder fazer as
contas da casa.
 - Mas, de acordo com a vossa teoria, mesmo que a instruo
fosse pouca, afectaria sempre a fertilidade da mulher. Quantos
filhos tem a Juliana?
 Jordanes corou.
 - Doze.
 - Outra aberrao?
 Fez-se um silncio longo e embaraoso.
 -  bvio, Santidade - disse Jordanes, num tom agreste -,
que j tendes uma ideia formada quanto a este assunto.
Portanto, no digo mais nada.
 E no disse, pelo menos, no na assembleia.
 - No foi sensato insultar Jordanes em pblico - disse
Geraldo depois.
 - Podes t-lo atirado para os braos de Arsnio e do partido
do imperador.
 - Mas, ele no tem razo, Geraldo - disse Joana. - As
mulheres so to capazes de aprender como os homens. Eu no
sou uma prova disso?
 - Claro. Mas, tens de dar tempo s pessoas. O mundo no pode
ser refeito num s dia.
 - O mundo nunca ser refeito se ningum tentar refaz-lo.
Tem de se comear a mudar por algum lado.
 -  verdade - concedeu Geraldo. - Mas, agora no, aqui no 
- contigo no.
 - Porqu?
 Porque eu te amo, queria ele dizer, porque tenho medo por
ti.
 Em vez disso, disse:
 - Porque no te podes dar ao luxo de fazer inimigos. J te
esqueceste de quem s e daquilo que s? Eu posso proteger-te
de muitas coisas, Joana - mas, no de ti prpria.
 - Ora, certamente no  uma coisa assim to sria. O mundo
vai acabar se algumas mulheres aprenderem a ler e a escrever?
 - O teu velho tutor - Asclpios, no era? - o que foi que tu
me contaste uma vez que ele te tinha dito?
 - Algumas ideias so perigosas.
 - Exactamente.


 401


 Fez-se um longo silncio.
 - Est bem - concedeu ela. - Vou falar com Jordanes e farei
o que puder para apaziguar o seu ressentimento. E prometo ser
mais diplomtica no futuro. Mas, a escola para mulheres 
demasiado importante, no vou desistir dela.
 - Nem pensei que desistisses - respondeu Geraldo, sorrindo.


 * * *


 Em Setembro, a escola para mulheres foi inaugurada
formalmente. Joana deu-Lhe o nome de Escola de Santa Catarina,
em memria do seu irmo Mateus, o primeiro a falar-lhe da
santa instruda. Cada vez que ela passava pelo pequeno
edifcio na Via Merulana e ouvia o som de vozes femininas
recitando, pensava que o corao Lhe rebentava de alegria.
 Cumpriu a promessa que tinha feito a Geraldo. Foi delicada e
corts com Jordanes e com os outros optimates. Conseguiu, at,
controlar a lngua quando ouviu o cardeal-presbtero
Citronatus pregar que, depois da ressurreio, as imperfeies
das mulheres seriam emendadas porque todos os seres humanos
renasceriam como homens! Chamando Citronatus, ofereceu-Lhe, 
guisa de uma sugesto til, a ideia de eliminar aquela linha
do sermo porque, assim, poderia alcanar melhor efeito sobre
as paroquianas. Apresentada em termos to diplomticos, a
sugesto foi bem aceite, Citronatus ficou lisonjeado com a
ateno dispensada pelo Papa e no voltou a repetir a ideia.
 Joana suportava a rotina diria das missas, audincias,
baptismos e ordenaes pacientemente e sem um queixume. E
assim, os dias longos e frios do Outono passaram sem mais
incidentes.
 Nos idos de Novembro, o cu escureceu e comeou a chover.
Durante dez dias, a chuva caiu, deixando grandes lenis de
gua, batendo contra os telhados das casas, fazendo com que os
habitantes tivessem de tapar os ouvidos para no ouvirem o
barulho enlouquecedor. Os velhos esgotos da cidade depressa
ficaram a transbordar, nas ruas, a gua concentrava-se em
poas cada vez maiores, que se iam juntando, formando
correntes rpidas, levando consigo pedras de basalto e
tornando o piso perigosamente escorregadio.
 E continuava a chover. As guas do Tibre comearam a subir
ameaadoramente, submergindo os diques, inundando os campos
dos arredores, destruindo as terras de cultivo e as pastagens
e afogando o gado.
 Dentro dos muros da cidade, a primeira regio a ficar
inundada foi a zona baixa de Campo de Marte, sobrepovoada de
pobres.


 402


Alguns fugiram para zonas mais altas, mal as guas comearam a
subir, mas muitos ficaram para trs, sem se aperceberem das
consequncias do atraso, no querendo deixar as suas casas e
as suas magras posses.
 Depois, j era tarde de mais. As guas ultrapassaram a
altura de um homem, impedindo qualquer tentativa de fuga.
Centenas de pessoas ficaram encurraladas dentro das insulae
raquticas, se as guas continuassem a subir, iam morrer
afogados.
 Naquelas circunstncias, o Papa, normalmente, retirava-se
para a Catedral de Latro e rezava uma litania solene,
prostrando-se diante do altar e rezando pela salvao da
cidade. Para surpresa e consternao do clero, Joana no o
fez. Em vez disso, chamou Geraldo para discutir planos de
evacuao.
 - O que podemos fazer? - perguntou ela. - H-de haver uma
maneira de salvar aquela gente.
 Ele respondeu:
 - Os acessos ao Campo de Marte esto completamente alagados.
 No h forma de l chegar a no ser de barco.
 - E os barcos que esto ancorados em Ripa Grande?
 - So pequenas embarcaes de pescadores - demasiado frgeis
para guas to revoltosas.
 - Vale a pena tentar - argumentou ela, aflita. - No podemos
ficar a ver as pessoas a afogarem-se!
 Geraldo sentiu uma onda de ternura por ela. Nem Srgio, nem
sequer Leo, tinham demonstrado tal preocupao com a
populao deserdada do Campo de Marte. Joana era diferente,
como no via nenhuma diferena entre rico e pobre, tratava-os
da mesma maneira.
 Aos seus olhos, todos eram igualmente merecedores do seu
cuidado e ateno.
 - Vou convocar imediatamente a milcia - disse ele.
 Marcharam para a doca de Ripa Grande, onde Joana usou a sua
autoridade para requisitar todas as embarcaes que estavam em
condies de navegar. Geraldo e os seus homens meteram-se nos
barcos e Joana pronunciou algumas palavras de bno sobre
eles, levantando a voz para se fazer ouvir mais alto do que a
chuva que batia. Depois, espantou todos entrando no barco de
Geraldo.
 - O que ests a fazer? - perguntou ele, alarmado.
 - O que te parece?
 - No pretendes vir connosco!
 - Porque no?
 Ele olhou para ela, espantado, como se ela tivesse
enlouquecido.
 -  demasiado perigoso!


 403


 - Vou aonde sou precisa - respondeu ela, com determinao,
Eustcio, o arcipreste, franziu o sobrolho na doca.
 - Santidade, pensai na dignidade da vossa posio! Sois o
Senhor Papa, Bispo de Roma. Arriscareis a vida por um punhado
de pedintes andrajosos?
 - So filhos de Deus, Eustcio, no so menos do que vs ou
do que eu.
 - Mas, quem nos guiar na litania? - perguntou ele,
insistindo.
 - Vs, Eustcio. Fazei-o bem porque bem precisamos das
vossas oraes - voltou-se impacientemente para Geraldo. -
Agora, superista, ides remar ou tenho de ser eu a faz-lo?
 Reconhecendo o ar de determinao obstinada naqueles olhos
verde-acinzentados, Geraldo pegou nos remos. No havia mais
tempo para discusses porque a gua estava a subir
rapidamente. Ele pegou nos remos, remando energicamente e o
barco afastou-se da doca.
 Eustcio gritou-Lhes qualquer coisa, mas as suas palavras
perderam-se no vento e na chuva.
 A flotilha de embarcaes dirigia-se para noroeste, para
Campo de Marte. As guas tinham subido. O Tibre corria pela
parte baixa da cidade como se estivesse no seu prprio leito.
Entre a Porta Septimania e o sop da Colina Capitolina, todas
as igrejas e casas estavam inundadas. A coluna de Marco
Aurlio estava meio-submersa, as ondas batiam nas portas
superiores do Panteo.
 Ao aproximarem-se de Campo de Marte, viram indcios dos
terrveis prejuzos causados pela inundao. Boiavam pedaos
de madeira, restos das insulae que tinham rudo, havia corpos
a flutuarem ao sabor da corrente. Os habitantes cujas casas
tinham sido poupadas, aterrados, tinham-se refugiado nos
andares superiores. Apinhavam-se s janelas, com os braos
estendidos, gritando por ajuda.
 Os barcos separaram-se, um ou dois por edifcio. As ondas
tornavam difcil a aproximao s casas. Algumas pessoas
entraram em pnico e saltaram cedo de mais, no acertando nas
embarcaes aos crculos. Outros, caam demasiado perto da
borda ou da parte da frente dos barcos, fazendo com que eles
se voltassem. Havia uma confuso dentro de gua, provocada por
aqueles que no sabiam nadar e que tentavam agarrar-se
desesperadamente queles que sabiam, enquanto os remadores
praguejavam, tentando reequilibrar os barcos.
 As embarcaes acabaram por recuperar o equilbrio e por
partir, seguindo na direco da Colina Capitolina, onde
descarregaram os seus passageiros. A partir dali, era fcil
subir para lugar seco e porem-se a salvo. Depois, a flotilha
regressou para salvar mais pessoas.


 404


 Os salvadores repetiram a viagem, ficando encharcados at
aos ossos, com as roupas coladas ao corpo, arfando com o
esforo e o cansao. Finalmente, parecia qe tinham salvo toda
a gente. Dirigiam-se para a Colina Capitolina, quando Joana
ouviu a voz de uma criana a pedir socorro. Voltando-se, viu a
silhueta de um rapazinho a uma das janelas. Talvez estivesse a
dormir e tivesse acabado de acordar, ou talvez tivesse tido
demasiado medo para sair pela janela antes.
 Joana e Geraldo olharam um para o outro. Sem uma palavra,
ele virou o barco e remou de regresso, parando por baixo da
janela onde o rapaz estava agora debruado. Geraldo levantou
os remos, para manter o barco parado.
 Joana levantou-se, esticando os braos.
 - Salta! - disse ela. - Salta, que eu apanho-te!
 O rapaz ficou onde estava, com os olhos espantados de
terror, a olhar para o barco por baixo da janela.
 Ela olhou para ele, procurando convenc-lo a atirar-se.
 - Salta agora! - ordenou-lhe ela.
 Timidamente, o rapaz meteu uma perna fora da janela.
 Ela esticou-se para ele.
 Nesse momento, ouviu-se um barulho ensurdecedor. A velha
Posterula de Santa gata, a porta mais a norte do Muro
Aureliano, tinha cedido  presso da gua que subia. O Tibre
entrou pela cidade dentro numa onda com uma fora aterradora.
 Joana viu o rosto do rapaz encostado  janela, com a boca
formando um O de terror, quando o edifcio comeou a ceder.
Nesse momento, ela sentiu o barco por baixo dos seus ps
levantar-se e tremer, indo com a corrente.
 Comeou a gritar, agarrando-se desesperadamente s bordas da
frgil embarcao, levada nos rpidos, ameaando virar-se a
qualquer momento. A gua entrava pelos lados, ela levantou a
cabea,  procura de ar, e viu num relance Geraldo debruado
junto  proa.
 O barco parou com um estrondo tremendo. Joana foi projectada
contra o lado.
 Ficou imvel, tonta e confusa durante alguns segundos.
Quando, finalmente, conseguiu olhar  sua volta, viu paredes,
uma mesa, cadeiras.
 Estava dentro de casa. A fora extraordinria da corrente
tinha arrastado o barquinho fazendo-o entrar para dentro de
casa por uma janela de uma das insulae.
 Viu Geraldo deitado na parte da frente do barco, com o rosto
metido dentro de gua. Arrastou-se para ele.


 405


 Quando o voltou, ele estava inconsciente e no respirava.
Ela puxou-o para fora do barco e deitou-o no cho do quarto.
Virando-o, de forma a que ele ficasse com a barriga para
baixo, comeou a pressionar as suas costas para obrigar a gua
a sair dos seus pulmes.
 Pressionar e soltar, pressionar e soltar. Ele no pode
morrer, pensou ela.
 Ele no pode morrer. Certamente que Deus no seria to
cruel. Depois, lembrou-se do infeliz rapazinho que tinha
ficado dentro de casa e pensou: Deus  capaz de tudo.
 Pressionar e soltar. Pressionar e soltar.
 A boca de Geraldo abriu-se, soltando uma golfada de gua.
 Benedicite! Ele tinha voltado a respirar. Joana examinou-o
cuidadosamente.. No tinha ossos partidos, nem feridas
abertas. Mas, tinha uma grande ndoa negra por baixo da linha
do cabelo, onde tinha recebido uma grande pancada. Devia ter
sido ela que o tinha deixado inconsciente.
 J devia ter recuperado a conscincia, pensou ela. Mas,
Geraldo continuava mergulhado no seu estranho sono, plido e
flcido, com a respirao pouco profunda e o pulso fraco e
perigosamente rpido. O que se passa?, pensou ela, ansiosa. o
que posso fazer mais?
 O choque de uma pancada violenta pode matar um homem com um
frio penetrante.
 As palavras de Hipcrates, palavras que j tinham salvo a
vida a Gottschalk, uma vez, vieram-lhe, agora,  memria.
 Tinha de aquecer Geraldo rapidamente.
 Pelo buraco deixado pela passagem do barco entravam rajadas
de vento e chuva. Ela levantou-se e comeou a explorar a
pequena casa. Por trs do quarto da frente, havia outro, mais
pequeno, sem janela e, portanto, mais quente e mais seco. E -
Deo gratias! - no meio do quarto havia um pequeno braseiro em
metal, no qual se encontravam alguns pedaos de madeira. Num
armrio perto, ela encontrou um slex e uma mecha. Numa arca a
um canto, havia um cobertor em l grossa, rasgado, mas, graas
a Deus, ainda seco.
 Ao regressar ao quarto da frente, ela pegou em Geraldo por
baixo dos braos e levou-o, melhor, arrastou-o para o quarto
da parte de trs, deitando-o ao p do braseiro. As mos dela
tremiam tanto que teve que tentar vrias vezes, at conseguir
fazer lume. Finalmente, conseguiu pegar fogo  pequena mecha
de palha. Colocou a mecha a arder no braseiro, cuidadosamente,
e ela pegou, lambendo os pedaos de madeira. A madeira hmida
chiou e estalou, sem querer pegar fogo. Por fim, um pequeno
pedao de madeira tornou-se incandescente num canto de um dos
toros. Ela assoprou o fogo frgil com a habilidade prpria de
quem est habituada a faz-lo.


 406


Precisamente quando ele tinha comeado a pegar, entrou vento
pela janela do outro quarto e apagou-o.
 Ela olhou, desesperada, para os pedaos de madeira frios. J
no havia mais mecha, no havia forma de tentar voltar a
acender o lume. Geraldo continuava inconsciente. A sua pele
tinha um tom azulado terrvel, os seus olhos estavam
encovados.
 S havia mais uma coisa a fazer. Ela tirou-lhe a roupa
rapidamente, despindo o seu corpo tenso, elegantemente
musculoso, marcado aqui e ali com cicatrizes de antigos
combates. Depois, tapou-o com o cobertor.
 Levantou-se, tremendo de frio, e comeou a tirar a sua roupa
encharcada: primeiro, a pnula e a dalmtica, depois, a roupa
de baixo, a alba, o amicto e o cngulo. Quando ficou nua,
meteu-se debaixo do cobertor e encostou-se toda a Geraldo.
 Agarrou-se a ele, aquecendo o seu corpo com o dela, para lhe
insuflar um pouco de fora e de vida.
 Luta. Geraldo. meu amor. Luta.
 Fechou os olhos e concentrou-se em estabelecer uma ligao
entre eles. Nada mais interessava. O quartinho, o lume
apagado, o barco, a tempestade l fora - nada disso era real.
A nica coisa real eram eles os dois. Eles haviam de viver
juntos ou de morrer juntos.
 As plpebras de Geraldo mexeram-se. A sua mo levantou-se,
por reflexo, como que para tirar um vu invisvel. Nesse mesmo
instante, Joana viu uma luz ao fundo do tnel e agarrou-se a
ela com ele. Eles tinham emergido juntos de um lugar distante.
 Ele acordou. Os seus olhos azuis olharam para ela,
surpreendidos, ele sabia que ela estava junto dele.
 - Minha prola - murmurou ele.
 Ficaram muito tempo em silncio, unidos numa comunicao sem
palavras. Depois, ele levantou o brao para a puxar mais para
si e os seus dedos passaram pelas cicatrizes nas suas costas.
 - Marcas de chicote? - perguntou ele, suavemente.
 Ela corou.
 - Sim.
 - Quem te fez isto?
 Lenta e penosamente, ela contou-lhe a tareia que tinha
levado do pai quando se recusou a destruir o livro de
Asclpios.
 Geraldo no disse nada, mas os msculos do seu maxilar
retesaram-se. Inclinou-se sobre ela e comeou a beijar cada
uma das cicatrizes.


 407


 Ao longo dos anos, Joana tinha aprendido a conter as suas
emoes, a no manifestar dor, nem a chorar. Agora, as
lgrimas corriam-Lhe pelo rosto, sem ela dar por isso.
 Ele abraou-a ternamente, murmurando palavras doces, at que
ela deixou de chorar. Depois, beijou-a nos lbios com uma
experincia e ternura que a encheu de calor. Ela abraou-o e
fechou os olhos, deixando que o vinho doce e escuro dos seus
sentidos corresse nela, rendendo, finalmente, a vontade da
mente ao desejo do corpo.
 Meu Deus!, pensou ela. Eu no sabia, eu no sabia! Era
acerca daquilo que a me dela a tinha avisado, era daquilo que
ela tinha fugido durante todos aqueles anos? Aquilo no era
entregar-se, era uma maravilhosa e gloriosa expanso de si
prpria - uma orao no com palavras, mas dos olhos e das
mos e dos lbios e da pele.
 - Amo-te! - gritou ela no momento do xtase e as palavras
no eram uma profanao, mas um sacramento.


 No Salo Grande do Patriarchium, Arsnio esperava por
notcias com os optimates e os membros do alto clero de Roma.
Quando recebeu a notcia de que o papa Joo tinha
desaparecido, Arsnio no queria acreditar. Mas, afinal, o que
era de esperar de um estrangeiro - e, para mais, de um
campons?
 Radoin, segundo no comando da milcia papal, entrou no
salo.
 - Novidades? - perguntou Pascal, o primicerius, impaciente.
 - Conseguimos salvar uma parte dos habitantes - relatou
Radoin. - Mas, temo que Sua Santidade se tenha perdido.
 - Perdido? - repetiu Pascal com uma voz sumida. - O que
quereis dizer com isso?
 - Ele estava num esquife com o superista. Pensmos que eles
vinham atrs de ns, mas devem ter voltado para trs para
salvar outro sobrevivente. Foi precisamente quando a porta de
Santa gata cedeu e a gua jorrou naquela zona.
 Estas notcias foram recebidas com gritos de alarme e de
consternao. Vrios prelados benzeram-se.
 - Existe alguma hiptese de que tenham sobrevivido? -
perguntou Arsnio.
 - Nenhuma - respondeu Radoin. - A fora da corrente levou
tudo quanto encontrou.
 - Deus tenha misericrdia deles - disse Arsnio num tom
grave, usando todo o controlo que possua para esconder a sua
alegria.
 - Devo ordenar que toquem os sinos do luto? - perguntou
Eustcio, o arcipreste.


 408



 - No - respondeu Pascal. - No podemos precipitar-nos. O
papa Joo  o vigrio escolhido por Deus,  possvel que Deus
tenha operado um milagre para o salvar.
 - Porque no voltais para o procurar? - sugeriu Arsnio.
 Ele no tinha nenhum interesse em que ele fosse salvo, mas
precisava de ter a certeza que o Trono de So Pedro estava
novamente vacante.
 Radoin respondeu.
 - A runa da porta-norte tornou a rea intransitvel. No
podemos fazer mais nada, at as guas baixarem.
 - Ento, oremos - disse Pascal. - Deus misereatur nostri et
benedicat nobis...
 Os outros juntaram-se a ele, baixando as cabeas.
 Arsnio recitou as palavras mecanicamente, com a mente
concentrada noutras coisas. Se, como parecia certo, o papa
Joo tinha morrido nas cheias, ento Anastcio tinha uma
segunda oportunidade de subir ao trono. Desta vez, pensou
Arsnio com determinao, no pode correr nada mal com a
eleio. Desta vez, ele usaria todo o seu poder para ter a
certeza de que a candidatura do seu filho no iria falhar.
 ... et metuant eum omnes fines terrae. Amen.
 - men - repetiu Arsnio. Mal podia esperar pelas notcias
que o dia seguinte traria.


 Ao acordar ao romper do dia, Joana sorriu ao ver Geraldo a
dormir ao seu lado. Repousou os olhos no seu rosto longo,
magro e distinto - to resplandecente agora na sua beleza como
quando ela o tinha visto pela primeira vez,  mesa de um
banquete, vinte e oito anos antes.
 Ser que eu percebi logo naquele momento?, pensou ela. Ser
que percebi que o amava? Acho que sim.
 Finalmente, tinha acabado por aceitar aquilo que tinha
lutado para negar durante tanto tempo - Geraldo fazia parte
dela, era ela, de uma forma insondvel que ela nem era capaz
de explicar, nem de negar. Eram almas gmeas, ligadas de uma
forma inextricvel, para sempre, duas metades de um todo
perfeito e incapaz de atingir a plenitude um sem o outro.
 No quis aprofundar todas as implicaes que esta descoberta
maravilhosa tinha. Bastava viver o momento presente, a
felicidade suprema de estar ali, agora, com ele. O futuro no
existia.
 Ele estava deitado de lado, com a cabea junto  sua, a boca
ligeiramente aberta, o cabelo longo e vermelho despenteado
junto  cara.


 409


Dormindo, parecia vulnervel e jovem, quase um rapazinho.
Movida por uma ternura inexprimvel, Joana estendeu a mo e
fez-lhe uma festa na cara.
 Geraldo abriu os olhos, olhando para ela com uma expresso
de amor e desejo to intensa que a deixou sem respirao. Sem
dizer uma palavra, puxou-a para ele e ela aproximou-se dele.
 Estavam novamente a dormitar nos braos um do outro, quando
Joana comeou a ouvir um som estranho. Ficou quieta, de ouvido
alerta. Estava tudo silencioso. Depois, ela apercebeu-se de
que no tinha sido o barulho que a tinha despertado, mas sim o
silncio - a ausncia de um barulho constante de gua a
tamborilar no telhado.
 A chuva tinha parado.
 Levantou-se e aproximou-se da janela. O cu estava carregado
e cinzento, mas, pela primeira vez em mais de dez dias, havia
pedaos de azul no horizonte, com raios de luz atravs das
nuvens.
 Graas a Deus, pensou ela. Agora, as inundaes vo acabar.
 Geraldo aproximou-se dela e abraou-a. Ela encostou-se a
ele, adorando senti-lo.
 - Achas que vo comear a procurar-nos j? - perguntou ela.
 - Acho que sim, agora que a chuva parou.
 - Oh, Geraldo! Ela enterrou a cabea no seu ombro. - Nunca
fui to feliz nem to infeliz.
 - Eu sei, corao.
 - Nunca mais vamos poder estar juntos, pelo menos, assim.
 Ele tocou no seu cabelo claro.
 - Ns no precisamos de regressar, sabes.
 Ela olhou para ele, surpreendida.
 - O que queres dizer com isso?
 - Ningum sabe que estamos aqui. Se no fizermos nenhum
sinal aos barcos de salvamento quando eles aparecerem, eles
vo-se embora. Daqui a um dia, quando as guas descerem,
desaparecemos da cidade durante a noite. Ningum vir atrs de
ns porque pensaro que morremos ambos nas cheias. Estaremos
livres e juntos.
 Ela no respondeu, mas virou-se para voltar a olhar pela
janela.
 Ele esperou pela deciso dela. Estava em causa a sua vida, a
sua felicidade.
 Pouco depois, ela virou-se para ele, novamente. Olhando para
os seus olhos verde-acinzentados, cheios de dor, Geraldo
percebeu que tinha perdido.


 410


 Ela disse, lentamente:
 - No posso fugir  grande responsabilidade que me foi
confiada. O povo acredita em mim, no o posso abandonar. Se o
fizesse, tornar-me-ia outra pessoa, uma pessoa diferente da
pessoa que tu amas.
 Ele sabia que nunca mais voltaria a ter tanto poder sobre
ela como naquele momento. Se usasse o seu poder, se a tomasse
nos braos e a beijasse, podia ser que ela concordasse em ir
com ele. Mas, seria desonesto. Mesmo que ela cedesse, a sua
entrega podia no durar para sempre. Ele no iria tentar
persuadi-la a fazer algo de que ela viesse, depois, a
arrepender-se. Ela tinha de vir ao seu encontro de livre
vontade.
 - Eu compreendo - disse ele. - E no te pressionarei mais.
Mas, quero que saibas uma coisa. S o digo uma vez. s a minha
verdadeira esposa neste mundo e eu, o teu verdadeiro esposo.
Acontea o que acontecer, faa de ns o tempo e o destino o
que fizer, nada pode alterar isso.
 Vestiram-se para estarem prontos para quando os viessem
buscar. Depois, sentaram-se os dois, abraados um ao outro,
Joana com a cabea pousada sobre o ombro de Geraldo. Estavam
sentados assim, encostados um ao outro, quando os barcos de
salvamento chegaram.
 Quando os levaram de volta ao Patriarchium, Joana manteve a
cabea baixa, como se estivesse a rezar. Consciente dos
olhares vigilantes da guarda, no se atrevia a olhar para
Geraldo porque no tinha suficiente controlo sobre os seus
sentimentos.
 Ao chegarem ao cais, foram rodeados imediatamente por uma
multido rejubilante, que os aclamava. Apenas tiveram tempo
para um ltimo olhar de relance, antes de serem levados, em
triunfo, para os seus respectivos aposentos.


 411


 @28


 Papa populi, chamavam-Lhe eles, o Papa do povo.
Contava-se vezes sem conta a histria de como o Senhor Papa
tinha sado do seu palcio no dia das cheias, arriscando a sua
vida para salvar aquela gente. Onde quer que Joana fosse na
cidade, era sempre recebida em jbilo. No caminho, espalhavam
ptalas aromticas de acanto e as pessoas saudavam-na do alto
de todas as janelas. Ela encontrava fora e consolo no amor do
povo, dedicando-se-Lhes com um fervor renovado.
 Os optimates e o alto clero, por seu lado, estavam
escandalizados com o comportamento de Joana no dia das cheias.
O Vigrio de So Pedro sair a correr para salvar as pessoas
num bote - que coisa absurda, uma vergonha para a Igreja e
para a dignidade do cargo papal! Encaravam-na com uma
antipatia crescente, aumentada pelas diferenas entre ambos:
ela era uma estrangeira e eles, eram romanos por nascimento,
ela acreditava no poder da razo e da observao e eles
acreditavam no poder das relquias sagradas e dos milagres,
ela olhava para o futuro e era progressista e eles eram
conservadores, presos aos hbitos e  tradio.
 Muitos tinham entrado nas fileiras da burocracia clerical
ainda em crianas. Quando chegaram  idade adulta, foram
introduzidos na tradio de Latro, tornando-se avessos 
mudana. Nas suas cabeas, havia uma maneira certa de fazer as
coisas e uma maneira errada - e a maneira certa era aquela que
era conforme ao que se tinha feito sempre.
 Era compreensvel que ficassem desconcertados com o estilo
de governao de Joana. Sempre que detctava um problema - a
necessidade de um hospcio, a injustia de um funcionrio
corrupto, uma diminuio no fornecimento de mantimentos - ela
procurava agir rapidamente para o corrigir.


 412


Era frustrada frequentemente pela burocracia papal, o sistema
de governo vasto e pesado que, com o passar dos sculos, se
tinha transformado numa complexidade labirntica. Havia
literalmente centenas de departamentos, cada um deles com a
sua prpria hierarquia e as suas prprias responsabilidades
guardadas ciosamente.
 Impaciente por fazer as coisas, Joana procurava encontrar
formas de contornar a pesada ineficcia do sistema. Quando o
Geraldo ficou sem fundos para prosseguir as obras no aqueduto,
ela tirou, pura e simplesmente, o dinheiro do tesouro,
passando por cima do sistema habitual, de acordo com o qual o
pedido tinha de passar pelo departamento do sacellarius ou
tesoureiro papal.
 Arsnio, sempre  espreita de uma oportunidade, fez o que
pde para explorar a situao. Procurando Vtor, o
sacellarius, abordou a questo com prudncia.
 - Temo que Sua Santidade no tenha suficientemente em conta
os nossos procedimentos romanos.
 -  natural, uma vez que no nasceu aqui - respondeu Vtor,
num tom descomprometido. Homem prudente, no revelaria a sua
posio at Arsnio revelar a sua.
 - Fiquei chocado ao saber que ele retirou fundos do tesouro,
sem passar pelo vosso departamento.
 - Foi bastante... imprprio - admitiu Vtor.
 - Imprprio! - exclamou Arsnio. - Meu caro Vtor, no vosso
lugar, eu no seria to caridoso.
 - No?
 - Se eu fosse a vs - disse Arsnio - procurava proteger-me.
 Vtor abandonou o seu ar de indiferena estudada.
 - Ouvistes dizer alguma coisa? - perguntou ele ansiosamente.
 - Sua Santidade pretende substituir-me?
 - Quem sabe? - respondeu Arsnio. - Talvez ele pretenda
acabar com o cargo de sacellarius. Depois, pode tirar os
fundos que quiser do tesouro, sem ter de dar quaisquer
explicaes a ningum.
 - Ele nunca se atreveria!
 - No?
 Vtor no respondeu. Esgrimista exmio como ele era,
Arsnio, calculou a jogada seguinte.
 - Comeo a temer - disse ele - que a eleio de Joo tenha
sido um erro. Um erro grave.
 - J pensei nisso - admitiu Vtor. - Algumas das ideias de
Sua Santidade - por exemplo, a escola para mulheres... - Vtor
abanou a cabea. - Os caminhos de Deus, realmente, so
misteriosos.


 413


 - No foi Deus que ps Joo no trono, Vtor, fomos ns. E
podemos retir-lo.
 Aquilo era de mais.
 - Joo  o Vigrio de Cristo - disse Vtor, profundamente
chocado. - Admito que ele ... estranho. Mas, agir contra ele?
No... no... certamente, no temos de chegar a tanto.
 - Bem, bem, pode ser que tenhais razo.
 Arsnio deixou a questo cair, habilmente. No havia
necessidade de continuar, ele tinha plantado a semente e sabia
que ela acabaria por germinar.


 Geraldo no tinha visto a Joana desde o dia em que se tinham
separado, depois da cheia. O trabalho que ainda havia para
fazer no aqueduto no era dentro da cidade, mas sim no Tivoli,
a cerca de vinte milhas. Geraldo estava muito envolvido em
todos os aspectos da construo, desde a superviso dos planos
de reparao, at  superviso das equipas de trabalho. Muitas
vezes, envolvia-se directamente no trabalho, ajudando a
levantar pedras pesadas e a cobri-las com argamassa nova. Os
homens ficavam surpreendidos de ver o senhor superista a fazer
um trabalho to humilde, mas Geraldo no se importava, porque
era s no trabalho fsico duro que ele encontrava um momento
de alvio do desgosto que o queimava interiormente.
 Era melhor, pensava ele, muito melhor se nunca nos
tivssemos deitado como marido e mulher. Talvez, ento, ele
pudesse continuar como antes. Mas, agora...
 Era como se tivesse vivido cego todos aqueles anos. Todos os
caminhos por onde tinha andado, todos os riscos que tinha
corrido, tudo quanto tinha feito conduziam a uma nica pessoa:
Joana.
 Quando o aqueduto ficasse pronto, ela esperava que ele
retomasse o seu posto como comandante da guarda papal. Voltar
a estar perto dela todos os dias, v-la e saber que ela estava
fora do seu alcance... seria insuportvel.
 Sairei de Roma, pensou ele, mal o trabalho do aqueduto
termine. Voltarei para Benevento e retomarei o comando do
exrcito de Siconulf. Havia uma simplicidade atraente na vida
de soldado, com os seus inimigos definidos e objectivos
precisos.
 Trabalhava com os seus homens dia e noite. Trs meses
depois, a obra estava pronta.
 O aqueduto restaurado foi dedicado solenemente na Festa da
Anunciao. Encabeado por Joana, todo o clero - porteiros,
aclitos, leitores, exorcistas, padres, diconos e bispos -,


 414


rodearam os arcos em peperino macio numa procisso solene,
aspergindo as pedras com gua benta, enquanto cantavam
litanias, salmos e hinos. A procisso parou e Joana pronunciou
algumas palavras de bno. Olhou para o stio onde estava
Geraldo,  espera no cimo dos arcos, de p, com as suas longas
pernas, mais alto do que todos os outros  sua volta.
 Ela acenou-lhe e ele puxou uma alavanca, abrindo os portes
das comportas. As aclamaes do povo fizeram-se ouvir quando
as guas frias, puras e saudveis da nascente do Subiaco, que
ficava a cerca de quarenta e cinco milhas dos muros da cidade,
correram at ao Campo de Marte pela primeira vez em mais de
trezentos anos.


 Construdo em estilo imperial, o trono papal era uma pea
macia e espaldada em carvalho, adornada com rubis, prolas,
safiras e outras pedras preciosas, to desconfortvel como
impressionante. Joana tinha estado sentada nele durante mais
de cinco horas, concedendo audincia a uma corrente de
peticionrios. Agora, estava inquieta, tentando aliviar o
desconforto crescente que sentia nas costas.
 Juvianus, o decano dos intendentes, anunciou o peticionrio
seguinte.
 - Magister militum Daniel.
 Joana franziu o sobrolho. Daniel era um homem difcil,
colrico e irascvel - e era um amigo prximo do bispo
Arsnio. A sua presena ali s podia significar problemas.
 Daniel entrou apressadamente, fazendo vnias a vrios
notrios e a outros funcionrios papais.
 - Santidade.
 Saudou Joana com uma pequena vnia, depois comeou a dizer,
com uma rude brusquido:
 -  verdade que, nas ordenaes de Maro, pretendeis
instalar Nicforo como bispo de Trevi?
 - .
 - O homem  um grego! - protestou Daniel.
 - E isso que interessa?
 - Uma posio to importante tem de ser para um romano.
 Joana suspirou. Era verdade que os seus predecessores tinham
utilizado o episcopado como instrumento poltico, distribuindo
bispados entre as famlias romanas, como tesouros escolhidos.
Joana discordava com esta prtica porque tinha resultado numa
grande quantidade de episcopi agraphici - bispos iletrados,


 415


que tinham espalhado todo o tipo de ignorncias e
supersties. Afinal, como  que um bispo podia interpretar
correctamente a palavra de Deus pai para o seu rebanho, se nem
sequer era capaz de a ler?
 - Uma posio to importante - respondeu ela, calmamente -,
deve ser para a pessoa mais qualificada. Nicforo  um homem
conhecedor e piedoso. Ser um ptimo bispo.
 -  natural que assim penseis, uma vez que sois estrangeiro.
 Daniel utilizou deliberadamente o termo barbarus, e no o
termo peregrinus, mais neutro.
 Os outros ficaram manifestamente incomodados.
 Joana fitou Daniel directamente nos olhos.
 - Isto no tem nada que ver com Nicforo - disse ela. -
EstaiS guiado por motivos egostas, Daniel, pois quereis que o
vosso prprio filho, Pedro, seja bispo.
 - E porque no? - disse Daniel, num tom defensivo. - Pedro 
mais adequado para o lugar em virtude da famlia e do
nascimento.
 - Mas no por capacidade - disse Joana num tom seco.
 Daniel abriu a boca de espanto.
 - Atreveis-vos... atreveis-vos... o meu filho...
 - O vosso filho - interrompeu-o Joana - l to bem o
leccionrio de pernas para o ar como direito porque no sabe
latim. Empenhou-se em decorar as poucas passagens da Escritura
que consegue citar. O povo merece melhor. E ter Nicforo!
 Daniel levantou-se, profundamente ofendido.
 - Tomai nota das minhas palavras, Santidade: ainda havereis
de ouvir falar deste assunto.
 E saiu.
 Joana pensou: vai ter com Arsnio, que,sem dvida nenhuma,
arranjar maneira de provocar mais sarilhos. Daniel tinha
razo numa coisa: ela ainda ia ouvir falar daquele assunto.
 De repente, sentiu-se extremamente cansada. O ar na sala sem
janelas pareceu abater-se sobre ela, sentiu-se tonta e a
desfalecer. Agarrou o pallium, afastando-o do pescoo.
 - O senhor superista - anunciou Juvianus.
 Geraldo! Joana animou-se. Eles no falavam um com o outro
desde o dia em que tinham sido salvos. Ela tinha esperado que
ele aparecesse naquele dia, apesar de, ao mesmo tempo, temer o
encontro dos dois. Consciente de que os outros a observavam,
Joana manteve um rosto impassvel.
 Ento, Geraldo entrou e o seu corao traioeiro deu um
salto ao v-lo. A luz tremeluzente iluminou-lhe o rosto,


 416


lanando luz sobre os ngulos elegantemente desenhados do seu
queixo e das mas do rosto. Ele correspondeu ao seu olhar, os
seus olhos estabeleceram uma comunicao silenciosa e, por
momentos, ficaram completamente a ss no meio de tanta gente.
 Ele avanou e ajoelhou-se diante do trono.
 - Levanta-te, superista - disse ela.
 Ser que era imaginao dela, ou a sua voz tremia?
 - Neste dia, ficaste coroado de glria. Toda a cidade de
Roma te  devedora.
 - Agradeo-vos, Santidade.
 - Hoje  noite, celebraremos a tua grande obra com um
banquete. Sentar-te-s na minha mesa, num lugar de honra.
 - Infelizmente, no poderei estar presente. Parto hoje de
Roma.
 - Partes de Roma? - Ela foi apanhada de surpresa. - O que
queres dizer com isso?
 - Agora, que a grande obra de que me haveis encarregado
est pronta, renuncio ao meu cargo de superista. O prncipe
Siconulf pediu que eu voltasse para Benevento, para retomar o
comando dos seus exrcitos e eu aceitei o cargo.
 Joana manteve a sua postura rgida no trono, mas as suas
mos crisparam-se sobre os seus braos.
 - No podes fazer isso - respondeu ela, bruscamente. - Eu
no o autorizarei.
 Os prelados na assembleia levantaram o sobrolho. Era verdade
que era raro que algum renunciasse a um posto de tanto
prestgio, mas Geraldo era um franco livre que podia assumir
os compromissos que entendesse.
 - Ajudando Siconulf - respondeu Geraldo, com sensatez -,
continuarei a servir tambm os interesses de Roma porque os
territrios de Siconulf constituem um forte baluarte cristo
contra os lombardos e os sarracenos.
 Joana cerrou os maxilares. Virando-se para os outros,
ordenou:
 - Deixai-nos.
 Juvianus e os outros trocaram olhares surpreendidos, depois
saram da sala fazendo vnias.
 - Foi sensato? - perguntou Geraldo, depois de eles terem
sado. - Agora, podem ficar com suspeitas.
 - Eu tinha de falar contigo a ss - respondeu ela, aflita. -
Deixar Roma? O que tens em mente? No interessa, eu no o
autorizarei. Siconulf que encontre outro para comandar as suas
tropas, eu preciso de ti aqui comigo.


 417


 - Oh, minha prola. - A sua voz era uma carcia. - Abre os
olhos: no podemos, sequer, olhar um para o outro sem trair o
que sentimos. m nico olhar imprudente, uma palavra
descuidada, e a tua vida pode ficar em perigo! Tenho de
partir, no vs?
 Joana compreendia o que ele estava a dizer, sabia,
inclusivamente, que ele tinha razo, de certa maneira. Mas,
no queria saber. A ideia da sua partida, enchia-a de
desgosto. Geraldo era a nica pessoa que a conhecia
verdadeiramente, a nica em que podia confiar absolutamente.
 Ela disse:
 - Sem ti, eu fico completamente sozinha. Acho que no sou
capaz de o suportar.
 - s mais forte do que pensas.
 - No - disse ela.
 Levantou-se do trono para se aproximar dele, e cambaleou,
sentindo uma onda de tonturas.
 Geraldo estava instantaneamente ao seu lado. Pegou-Lhe no
brao, apoiando-a.
 - Ests doente!
 - No, no. S... muito cansada.
 - Tens trabalhado demasiado. Precisas de descansar. Anda, eu
ajudo-te a chegar aos teus aposentos.
 Ela agarrou-se a ele com fora.
 - Promete-me que no partes antes de termos oportunidade de
voltar a conversar.
 - Claro que no parto. - Os seus olhos estavam cheios de
preocupao. - No partirei antes que te sintas bem outra vez.


 Joana estava deitada na sua cama, no sossego do seu quarto.
Ser que estou mesmo doente?, pensou ela. Se estou, tenho de
descobrir o que tenho e tratar-me depressa, antes que Endio e
os outros mdicos da schola fiquem a saber.
 Comeou a pensar no problema, colocando questes a si
prpria, como se fosse paciente de si prpria.
 Quando comearam os primeiros sintomas?
 Agora que pensava nisso, j no se sentia bem havia algumas
semanas.
 Quais so os sintomas?
 Fadiga. Falta de apetite. Uma sensao de inchao. Nuseas
ao levantar-se de manh...
 De repente, ficou aterrada.


 418



 Comeou a fazer contas, tentando lembrar-se de quando tinha
tido a ltima menstruao. Havia dois meses, talvez trs.
Tinha estado to ocupada, que nem tinha prestado ateno.
 Os sintomas condiziam todos, mas, havia uma forma de ter a
certeza. Inclinou-se e pegou no vazo de noite que se
encontrava no cho junto  cama.
 Pouco depois, voltou a pois-lo com as mos a tremer.
 No havia dvidas. Estava grvida.


 * * *


 Anastcio tirou os seus coturnos de veludo e recostou-se
confortavelmente no div. Belo dia, pensou ele, satisfeito
consigo prprio. Sim, o dia tinha corrido muito bem. De manh,
tinha aparecido na corte imperial, impressionando Lothar e
todo o seu squito com a sua sabedoria e cultura.
 O Imperador tinha-lhe perguntado a opinio acerca do De
corpore et sanguine Domini, o tratado que estava a causar
tanta polmica entre os telogos do pas. Escrito por
Paschasius Radbertus, abade de Corbie, o tratado avanava a
teoria arrojada segundo a qual a Eucaristia continha o
verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Cristo Salvador -
no a Sua carne simbolicamente, mas a sua verdadeira carne, a
sua carne histrica: aquela com que ele nasceu de Maria,
sofreu na cruz e ressuscitou do tmulo.
 - O que pensais, cardeal Anastcio? - tinha-lhe perguntado
Lothar. - A Hstia sagrada  o Corpo de Cristo em mistrio ou
em verdade?
 Anastcio foi rpido na resposta:
 - Em mistrio, senhor. Porque pode ser demonstrado que
Cristo tem dois corpos distintos: o primeiro, nascido de
Maria, o segundo, representado simbolicamente na Eucaristia.
Hoc est corpus meum, disse Jesus acerca do po e do vinho, na
ltima Ceia. Isto  o meu corpo. Mas ainda estava presente aos
seus discpulos em corpo, quando o disse. Portanto,  evidente
que as Suas palavras tinham um sentido figurado.
 O argumento era to inteligente que, quando ele acabou de
falar, todos o aplaudiram. O imperador tinha-lhe feito um
elogio, chamando-lhe outro Alcuino. Arrancando vrios cabelos
 sua barba, apresentou-os a Anastcio - um gesto da maior
honra entre aquele povo brbaro e estranho.
 Anastcio sorriu, revivendo o prazer daquele momento. Deitou
vinho numa taa em prata, vertendo-o do jarro que se
encontrava em cima da mesa, depois pegou no rolo de pergaminho
com a ltima carta do seu pai.


 419


Quebrou o selo em cera e desenrolou o fino vellum branco. Os
seus olhos percorreram avidamente as linhas. Deteve-se no
relato do roubo dos corpos de So Marcelino e de So Pedro do
cemitrio onde se encontravam.
 No que o roubo de corpos de santos fosse raro, os
santurios cristos pelo mundo inteiro reclamavam
constantemente aquele tipo de relquias sagradas para atrarem
multides de fiis com a promessa de milagres. Os romanos, com
um esprito pragmtico, tinham feito fortuna com esta obsesso
estrangeira com relquias, fazendo comrcio regular com elas.
Os peregrinos incontveis que inundavam a Cidade Santa estavam
dispostos a desembolsar somas avultadas por um dedo de So
Damiano, uma clavcula de Santo Antnio ou uma pestana de
Santa Sabina.
 Mas, os corpos de So Marcelino e de So Pedro no tinham
sido vendidos, tinham sido roubados, retirados
ignominiosamente dos seus tmulos, de noite, e contrabandeados
para fora da cidade. Furta sacra - o roubo de coisas sagradas
- era o nome que se dava a tais crimes.
 Tinham que ser impedidos porque despojavam a cidade dos seus
maiores tesouros.
 Depois deste roubo miservel - escrevia o seu pai - pedimos
ao papa Joo que duplicasse o nmero de guardas colocados nos
ptios das igrejas e nos cemitrios. Mas, ele recusou. Diz que
os homens so mais teis no servio dos vivos do que dos
mortos.
 Anastcio sabia que Joo tinha posto grande parte das
milcias papais a trabalharem na construo de escolas,
hospcios e casas de acolhimento. Tinha dedicado o seu tempo e
a sua ateno - e grande parte das finanas papais - a
projectos seculares daqueles, enquanto as igrejas da cidade
tinham sido deixadas ao abandono. A igreja do seu prprio pai
no tinha recebido nem mais uma lmpada em ouro ou um
candelabro de prata, desde que Joo tinha tomado posse. Mas,
as inmeras catedrais, oratrios, baptistrios e capelas eram
a glria de Roma. Se no fossem embelezadas e melhoradas
constantemente, Roma no podia ter esperana de competir com o
esplendor da sua rival oriental - Constantinopla - que, agora,
tinha o descaramento de se chamar a si prpria a Nova Roma.
 Se - no, Anastcio corrigiu-se a si prprio - quando ele
fosse papa, as coisas seriam diferentes. Ele faria Roma
regressar aos seus dias de glria. Sob o seu patronato
solcito, as suas igrejas voltariam a resplandecer com
riquezas fabulosas, ainda mais esplendorosas do que os
melhores palcios de Bizncio. Ele sabia que essa era a grande
obra para a qual Deus o tinha posto na terra.


 420


 Retomou a leitura da carta do seu pai, mas com menos
interesse, porque a ltima parte se ocupava de assuntos de
menor importncia: a lista dos nomes daqueles que seriam
ordenados nas cerimnias da Pscoa seguinte tinha acabado de
ser publicada, o seu primo Cosme tinha voltado a casar, desta
vez, com uma diaconisa viva, um certo Daniel, magister
militum, tinha ficado muito ofendido porque o seu filho tinha
sido preterido para o episcopado, a favor de um grego.
 Anastcio endireitou-se. Um grego para bispo! O seu pai
parecia considerar aquele gesto apenas como mais um exemplo da
lamentvel falta de romanit do papa Joo. Seria possvel que
lhe tivessem passado completamente despercebidas as
possibilidades que a situao apresentava?
 Esta, pensou Anastcio, cada vez mais excitado,  a
oportunidade por que eu esperava. Finalmente, a sorte
tinha-lhe posto uma possibilidade nas mos.
 Levantou-se rapidamente e dirigiu-se para a sua secretria.
Pegando numa pena, comeou a escrever: Querido Pai: no
percais tempo ao receberdes esta carta. Mandai o magister
militum Daniel vir ter comigo imediatamente.


 Joana andava de um lado para o outro no quarto papal. Como 
que eu pude ser to cega?, perguntava-se ela a si prpria. No
lhe tinha ocorrido, pura e simplesmente, que podia estar
grvida. Afinal, tinha mais de quarenta e um anos de idade, j
tinha passado, havia muito, o tempo de dar  luz.
 Mas, a mam era ainda mais velha quando deu  luz pela
ltima vez.
 E morreu no parto.
 Nunca te entregues a um homem.
 Medo, frio e irracionalidade apertaram o corao de Joana.
Procurou acalmar-se. Afinal, o que tinha acontecido  mam,
no tinha necessariamente de Lhe acontecer a ela. Ela era
forte e saudvel, tinha grandes hipteses de sobreviver ao
parto. Mas, mesmo que sobrevivesse, o que aconteceria depois?
Na colmeia vigiada que o Patriarchium era, no havia forma de
manter o seu parto em segredo, nem de esconder a criana
depois de ela ter vindo ao mundo. A sua feminilidade seria
descoberta, de certeza.
 Que espcie de morte seria considerada suficiente para
castigar um crime daqueles? Certamente, seria uma morte
terrvel. Podia ser que lhe arrancassem os olhos com ferros em
brasa e que a descarnassem. Ou podia ser que a desmembrassem
lentamente e depois a queimassem viva. Alguma dessas mortes
hediondas seria inevitvel quando a criana viesse.


 421


 Se ela viesse...
 Ps ambas as mos na barriga, no havia qualquer sinal de
movimento do beb que crescia dentro dela. O fio de vida ainda
era muito fraco, no era preciso muito para o quebrar.
 Dirigiu-se ao armrio fechado onde guardava os seus
medicamentos. Tinha-os mandado vir do seu herbarium pouco
depois da sua consagrao, estavam mais  mo aqui e mais
seguros contra roubos. As suas mos pegaram em vrios frascos
e garrafas, at encontrar o que procurava. Habilidosamente,
deitou uma medida de cravagem-de-centeio num copo de vinho
forte. Em pequenas doses, era um medicamento que fazia bem, em
doses maiores, podia provocar abortos - apesar de nem sempre
actuar e ser um grande risco para a mulher ingeri-lo.
 Que escolha tinha ela? Se no pusesse fim quela gravidez,
podia enfrentar uma morte muito pior.
 Levou a taa aos lbios.
 As palavras de Hipcrates vieram-lhe  mente,
inconscientemente: a arte medicinal sagrada. Um mdico deve
usar oseusaber para ajudar os doentes, de acordo com asua
habilidade e julgamento, mas nunca para fazer mal.
 Joana afastou o pensamento resolutamente. Toda a sua vida o
seu corpo de mulher tinha sido fonte de desgosto e de dor, um
impedimento para tudo quanto ela queria fazer e ser. Agora,
no deixaria que ele Lhe roubasse a vida.
 Inclinou a taa e bebeu-a.
 Nunca para fazer mal. Nunca para fazer mal.
 As palavras queimavam-na, despedaando-Lhe o corao. Com um
soluo, atirou com a taa vazia para o cho. Ela rolou,
fazendo uma ndoa escarlate no cho, ao verter as suas ltimas
gotas.
 Ela deitou-se na cama e esperou que a cravagem-de-centeio
fizesse efeito. O tempo passou, mas ela no sentiu nada. No
est a resultar, pensou ela. Estava assustada e,
simultaneamente, muito aliviada. Quando se sentou, deu-lhe um
ataque de tremor. O seu corpo tremia com espasmos
descontrolados. O corao batia-Lhe, quando tomou o pulso, viu
que ele batia irregularmente.
 Sentiu dores. Ficou espantada com a sua intensidade, como se
fosse um ferro em brasa espetado nas suas entranhas. Abanava a
cabea de um lado para o outro, mordendo o lbio para no
gritar. No se atrevia a correr o risco de chamar a ateno da
casa papal.
 As horas seguintes passaram-se numa espcie de nvoa, com
Joana a oscilar entre a conscincia e a inconscincia. A certa
altura, comeou a ter alucinaes, parecia-Lhe que a sua me
estava sentada ao p dela, que lhe chamava passarinho,


 422


e que cantava para ela na Velha Lngua, tal como costumava
fazer, colocando as suas mos frias sobre a sua testa a arder.
 Acordou antes de amanhecer, fraca e a tremer. Ficou deitada,
quieta, durante muito tempo. Depois, comeou a examinar-se a
si prpria, lentamente. O seu pulso era regular, a batida do
seu corao mais forte, a sua pele tinha boa cor. No havia
hemorragias, nem sinais de qualquer dano irreversvel.
 Tinha sobrevivido  tribulao.
 Mas, a criana dentro dela, tambm.
 S podia contar com uma pessoa. Quando disse a Geraldo o
estado em que estava, ele comeou por reagir com uma descrena
chocada.
 - Meu Deus!...  possvel?
 - Claro - disse Joana, secamente.
 Ele parou por um momento, com o olhar fixo e pensativo.
 - Por isso  que tens estado doente?
 - Sim.
 Ela no mencionou a tentativa de aborto, era provvel que
nem mesmo Geraldo compreendesse.
 Ele tomou-a nos braos e abraou-a com fora, encostando-lhe
a cabea ao seu ombro. Ficaram muito tempo em silncio,
partilhando silenciosamente o que lhes ia nos coraes.
 Ele disse calmamente:
 - Lembras-te do que eu te disse no dia das cheias?
 - Dissemos muitas coisas um ao outro - respondeu ela, mas
sentiu que o pulso se tornava mais rpido porque sabia ao que
ele se referia.
 - Eu disse que tu eras a minha verdadeira esposa neste mundo
e eu o teu verdadeiro esposo.
 Pegou-lhe no queixo com a mo, levantando os olhos dela para
os seus.
 - Compreendo-te melhor do que tu pensas, Joana. Sei como o
teu corao est dividido. Mas, agora, o destino decidiu por
ns. Vamos embora daqui e ficaremos juntos como estamos
destinados a ficar.
 Ela sabia que ele tinha razo. No havia mais nada a fazer.
Todos os caminhos  sua frente se reduziam, agora, a um nico.
Sentia-se triste e ansiosa e, ao mesmo tempo, estranhamente
excitada.
 - Podemos partir amanh - disse Geraldo. - Despede os teus
camareiros de noite. Quando todos estiverem a dormir, no ser
difcil fugires pela porta lateral. Eu estarei  tua espera
com roupas de mulher, para mudares mal sairmos dos muros da
cidade.


 423


 - Amanh!
 Ela tinha aceitado a ideia de partir, mas no tinha pensado
que fosse to depressa.
 - Mas... eles viro  minha procura.
 - Quando vierem, j ns estamos longe. E iro  procura de
dois homens, no de um simples peregrino e da sua mulher.
 Era um plano audacioso, mas podia resultar. Mesmo assim, ela
resistia-Lhe:
 - No posso partir agora. Ainda tenho tanta coisa para
acabar, tanta coisa para fazer.
 - Eu sei, corao - disse ele, ternamente. - Mas, no h
outra hiptese, certamente que o compreendes.
 - Espera pela Pscoa - props ela. - Depois, eu vou contigo.
 - Pela Pscoa! Mas,  quase daqui a um ms! E se algum se
aperceber do teu estado antes disso?
 - S estou de quatro meses. Por baixo de vestes to longas,
posso esconder a gravidez durante mais um ms.
 Geraldo abanou a cabea veementemente:
 - No posso permitir que corras esse risco. Tens de sair
daqui agora, enquanto ainda  tempo.
 - No - disse ela com igual convico. - No deixarei o meu
povo sem o seu papa no dia mais santo do ano.
 Ela est assustada e perturbada, pensou Geraldo, por isso
no est a pensar com clareza. De momento, concordaria com
ela, uma vez que no tinha muita escolha, mas, calmamente,
iria preparar as coisas para uma partida rpida. Se houvesse
qualquer perigo, ele lev-la-ia para um lugar seguro - mesmo
que fosse  fora.


 Na nox magna, a Grande Noite da celebrao da Pscoa,
milhares de pessoas estavam reunidas dentro e  volta da
Catedral de Latro para acompanharem a celebrao da viglia
pascal, do baptismo e da missa. A longa liturgia comeava na
noite de sbado e continuava at ao romper da manh de Pscoa.
 Fora da santa catedral, Joana acendeu o crio pascal,
depois, entregou-o a Desidrio, o arquidicono, que o
transportou cerimoniosamente para a igreja s escuras. Joana e
o resto do clero seguiram-no, cantando o lumen Christi, hino 
luz de Cristo. A procisso parou trs vezes a caminho da nave
central, enquanto Desidrio acendia as velas dos fiis no
crio pascal. Quando Joana chegou ao altar, a grande nave
brilhava  luz de milhares de pequenas velas, cuja luz
tremeluzente se reflectia, brilhando, no mrmore polido das
paredes e das colunas, representando a Luz trazida ao mundo
por Cristo.


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 - Exultet jam angelica turba caelorum. Exultent divina
mysteria!
 Desidrio deu incio ao Exultet, jubilosamente. O canto
venerando, com a sua velha melodia, lindssima e
impressionante, soou aos ouvidos de Joana de forma especial.
 Nunca mais voltarei a estar diante deste altar e nunca mais
ouvirei esta doce melodia, pensou ela. A ideia provocou nela
um grande sentimento de perda. Aqui, durante a celebrao da
redeno e da esperana, ela fez a experincia de uma f
verdadeira em Deus. O vere beata nox, quae expoliavit
Aegyptios. ditavit Hebraeos! Nox, in qua terrenis caelestia
junguntur...
 Ao sair da catedral, no fim da missa, a Joana viu um homem
com as roupas rasgadas e enlameadas  espera, na escadaria.
Tomando-o por um pedinte, fez sinal a Vtor, o sacellarius,
para lhe dar uma esmola.
 O homem recusou as moedas oferecidas.
 - No sou um pedinte, Santidade, sou um mensageiro, trago
notcias urgentes.
 - Ento, contai-as.
 - O imperador Lothar e o seu exrcito esto em Paterno. 
velocidade a que viajam, estaro em Roma daqui a dois dias.
 Ouviu-se um murmrio de alarme proveniente dos prelados que
se encontravam perto.
 - O cardeal-presbtero Anastcio vem com eles - acrescentou
o mensageiro.
 Anastcio! A sua presena entre o squito imperial era muito
mau sinal.
 - Porque lhe chamais cardeal-presbtero? - perguntou Joana,
em tom de censura. - Anastcio j no tem direito a esse
ttulo, uma vez que est excomungado.
 - Peo perdo, Santidade, mas foi assim que ouvi o Imperador
dirigir-se-lhe.
 Esta era a pior notcia. O desrespeito do imperador pela
sentena de excomunho de Leo era um desafio directo e
inequvoco  autoridade papal. Em tal estado de esprito,
Lothar era capaz de tudo.
 Nessa noite, ao discutirem aqueles acontecimentos, Geraldo
voltou a pression-la para manter a sua promessa.
 - Eu esperei at  Pscoa, como tu querias. Agora, tens de
partir, antes que Lothar chegue.
 Joana abanou a cabea.


 425


 - Se o trono papal ficar vago quando Lothar chegar, ele
utilizar o seu poder para conseguir que Anastcio seja eleito
papa.
 A Geraldo no agradava mais a ideia de Anastcio se tornar
papa do que a ela, mas a sua segurana preocupava-o ainda
mais. Disse:
 - Haver sempre um motivo para nos impedir de partir, Joana.
No podemos adiar para sempre.
 - No vou trair a confiana do povo, deixando-o nas suas
mos - disse ela, teimosamente.
 Geraldo teve de se controlar para no pegar nela, pura e
simplesmente, levando-a dali, da teia de perigos que se estava
a tecer  volta dela. Como se adivinhasse os seus pensamentos,
a Joana apressou-se a falar.
 -  uma questo de dias - disse ela, num tom
conciliador.Seja qual for a inteno da vinda de Lothar, 
pouco provvel que fique mais tempo do que o necessrio para
atingir os seus fins. Mal ele se for embora, eu partirei
contigo.
 Ele pensou nisso por momentos.
 - E no levantars mais objeces  partida?
 - No - prometeu Joana.
 No dia seguinte, Joana esperava na escadaria de So Pedro,
enquanto Geraldo foi esperar Lothar para o cumprimentar. Havia
sentinelas postadas ao longo de todo o Muro Leonino, vigiando.
 Pouco depois, ouviu-se o grito de anncio, vindo do lado do
muro:
 - O Imperador chegou!
 Joana mandou abrir a porta de San Peregrinus.
 Lothar vinha  frente. Anastcio cavalgava ao seu lado,
ostentando o pallium de cardeal. O seu rosto de patrcio
distinto registava um ar orgulhoso.
 Joana agiu como se ignorasse a sua presena. Esperou nos
degraus que o Imperador desmontasse e se aproximasse dela.
 - Majestade, sde bem-vindo  Cidade Santa de Roma.
 Estendeu-lhe a mo direita, na qual tinha o anel papal.
 Lothar no se ajoelhou, mas inclinou-se para beijar o
smbolo da sua autoridade espiritual.
 At aqui, est tudo bem, pensou ela.
 A primeira fila dos homens de Lothar abriu-se em duas e ela
viu Geraldo. O seu rosto estava irado e tinha os pulsos atados
com uma corda.
 - O que significa isto? - perguntou Joana. - Porque est o
superista manietado?
 Lothar respondeu:


 426


 - Foi preso sob acusao de traio.
 - Traio? O superista  meu fiel servidor. No h ningum
em quem eu confie mais.
 Anastcio falou pela primeira vez.
 - A traio no  contra o vosso trono, Santidade, mas sim
contra o do imperador. Geraldo  acusado de conspirar para
entregar Roma nas mos dos gregos.
 - Que disparate! Quem fez uma acusao to infundada?
 Daniel saiu detrs de Anastcio e fixou Joana com um olhar
de triunfo maligno.
 - Eu - disse ele.


 Mais tarde, na privacidade dos seus aposentos, Joana
concentrou-se no problema, tentando pensar numa forma de
reagir. Reconhecia que era um compl diabolicamente bem
pensado. Como Pontfice, ela no podia ser posta em tribunal.
Mas, Geraldo podia - e se fosse considerado culpado, ela
tambm estaria implicada. O plano tinha a marca evidente de
Anastcio.
 Bem, mas ele no vai conseguir o que pretende. Espetou o
queixo, em tom de desafio. Anastcio podia fazer o que
quisesse. No conseguiria ganhar. Ela ainda era Papa, tinha
poder e recursos prprios.


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 29


 O Grande Triclinium era uma parte relativamente recente
do Patriarchium, mas j tinha um grande significado histrico.
A pintura das suas paredes tinha acabado de secar quando o av
de Lothar - Carlos Magno - e o papa Leo III se encontraram
ali com os seus sequazes para estabelecerem o acordo pico que
faria de Carlos, rei da Frana, imperador do Sacro Romano
Imprio, mudando a face do mundo para sempre.
 Os cinquenta e cinco anos que tinham decorrido desde ento
no tinham diminudo em nada o esplendor do salo. As suas
trs naves estavam revestidas de mrmore branco e adornadas
com colunas requintadas em porfria, decoradas com uma
complexidade maravilhosa. Por cima do revestimento em mrmore,
as paredes estavam cobertas com murais coloridos,
representando a vida do apstolo Pedro, cada um deles
desenhado com uma arte extraordinria. Mas, estas maravilhas
eram ofuscadas pelo grande mosaico colocado sobre o arco da
nave central. Nele, estava representada a coroao
magnificente de So Pedro, rodeado por uma aurola de santo. 
sua direita, ajoelhava-se o papa Leo e  sua esquerda, o
imperador Carlos, cada um deles com a cabea rodeada por uma
aurola quadrada, o sinal dos vivos - ambos tinham vivido no
tempo em que o triclinium tinha sido construdo.
 Ao cimo do salo, encontravam-se Joana e Lothar, sentados em
dois grandes tronos cobertos de jias e colocados sedentes
pariter, o que queria dizer que ocupavam lugares de igual
cerimnia, os dois tronos estavam colocados cuidadosamente
lado a lado, nivelados um pelo outro, para no dar mais
importncia a um do que a outro. Os arcebispos, os
cardeais-presbteros e os abades de Roma estavam sentados de
frente para eles em cadeiras de espaldar de estilo bizantino,


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estofadas confortavelmente com veludo verde. Os outros
sacerdotes, os optimates, e o resto dos chefes dos francos e
dos romanos estavam atrs, enchendo completamente o salo.
 Quando todos j tinham tomado os seus lugares, os homens de
Lothar trouxeram Geraldo, com as mos ainda atadas atrs das
costas. Joana cerrou os lbios, quando viu as ndoas negras
que ele tinha no rosto e no pescoo, era bvio que lhe tinham
batido.
 Lothar dirigiu-se a Daniel:
 - Aproximai-vos, Magister Militum, e pronunciai a vossa
acusao de forma a que todos a oiam.
 Daniel disse:
 - Eu ouvi o superista dizer ao papa Joo que Roma devia
fazer uma aliana com os gregos para libertar a cidade do
domnio franco.
 - Mentiroso! - rugiu Geraldo e foi recompensado,
imediatamente, com uma grande bofetada de um dos guardas.
 - Afastai-vos! - disse Joana ao guarda, num tom rspido.
 E disse a Geraldo:
 - Negais estas acusaes, superista?
 - Nego. So falsas e mentiras maldosas.
 Joana respirou fundo. Tinha de agir agora ou nunca. Falando
alto, para que todos ouvissem, disse:
 - Confirmo o testemunho do superista.
 Ouviu-se um murmrio chocado entre a assembleia dos
prelados. Respondendo assim, o papa Joo tinha passado de juiz
para acusado, colocando-se a si prprio em tribunal, a par de
Geraldo.
 Pascal, o primicerius, interferiu com sobriedade:
 - Santidade, a acusao no deve ser apoiada ou negada por
vs. Lembrai-vos das palavras de Carlos Magno: Judicare non
audemos. No estais em julgamento, nem podeis ser julgado por
qualquer tribunal terreno.
 - Eu sei, Pascal. Mas, estou preparado para responder a
estas acusaes de livre vontade para libertar as mentes dos
homens de qualquer suspeita injusta.
 Acenou a Florentinus, o vestiarius. Tal como combinado, ele
avanou imediatamente com um grande livro dos evangelhos, com
uma encadernao magnfica, contendo a palavra sagrada dos
apstolos Joo, Lucas, Marcos e Mateus. Joana pegou no livro
com reverncia.
 Declarou com uma voz sonora.
 - Juro diante de Deus e de So Pedro, sobre estes evangelhos
sagrados, onde se revela a Palavra de Deus, que esta conversa
nunca ocorreu.
 Se no estiver a dizer a verdade, que Deus me atinja aqui
mesmo.


 429


 O gesto dramtico parecia ter resultado. Durante o silncio
absoluto que se seguiu, ningum se mexeu, nem ningum disse
palavra.
 Depois, Anastcio avanou, tomando posio ao lado de
Daniel.
 - Ofereo-me como sacramentale por este homem - disse ele.
 O corao de Joana apertou-se. Anastcio tinha respondido
com um contra-argumento perfeito. Tinha invocado a lei da
conjuratio, de acordo com a qual a culpa ou a inocncia se
atestava de acordo com o lado da disputa que conseguia reunir
maior nmero de sacramentales ou garantes do juramento.
 Apressando-se, para dominar a situao, Arsnio levantou-se
do seu lugar e juntou-se ao seu filho. Um a um, outros
encaminharam-se lentamente para o seu lado. Jordanes, o
secundicerius, que se tinha oposto  Joana na questo da
escola para as mulheres, encontrava-se entre eles, assim como
Vtor, o sacellarius.
 Joana lembrou-se pesarosamente das repetidas vezes em que
Geraldo a tinha avisado para ter calma e para ser mais
diplomtica com os seus opositores. Na sua nsia de avanar,
no tinha prestado suficiente ateno ao seu conselho.
 Agora, arrependia-se.
 - Servirei como sacramentale para o superista. - Ouviu-se
uma voz distinta vinda da assembleia.
 Joana e os outros viraram-se e viram Radoin,
segundo-comandante da guarda papal, abrindo caminho por entre
a multido. Colocou-se ostensivamente ao lado de Geraldo. A
sua atitude influenciou outros, em breve, Juvianus, o decano
dos intendentes, avanou, seguido pelos cardeais-presbteros
Jos e Teodoro e por seis bispos ruburbican, assim como por
vrias dzias de membros do clero menor que, estando mais
perto do povo, podiam apreciar melhor o que Joana tinha feito
por eles. O resto da assembleia manteve-se distante, sem
querer comprometer-se.
 Quando todos aqueles que desejavam tinham avanado, comeou
a contagem: cinquenta e trs homens do lado de Geraldo e
setenta e quatro do lado de Daniel.
 Lothar pigarreou:
 - O juzo de Deus manifestou-se. Avanai, superista, para
receberdes a vossa sentena.
 Os guardas avanaram na direco de Geraldo, mas ele
esquivou-se-lhes.
 - A acusao  falsa, no importa quantos tenhais escolhido
para cometer perjrio, apoiando-a. Reclamo o direito a uma
prova fsica.
 Joana conteve a respirao. Aqui, no Sul do Imprio, a prova
fsica era pelo fogo, no pela gua. E o homem acusado tinha
de caminhar descalo sobre uma fila de ferros em brasa com
vinte ps de comprimento. Se conseguisse passar, era
considerado inocente. Mas, eram poucos os que conseguiam
sobreviver a esta prova.
 Do outro lado da sala, os olhos de Geraldo lanaram uma
mensagem urgente a Joana: no tentes impedir-me.
 Ele pretendia sacrificar-se por ela. Se conseguisse passar
por cima das brasas, a sua inocncia - e a dela - ficariam
comprovadas. Mas, era provvel que ele morresse na prova.
 Tal como Hrotrud, pensou Joana. A memria da parteira da
aldeia morta de forma to cruel deu-Lhe uma ideia sbita.
 Disse:
 - Antes de avanardes, h algumas perguntas que eu gostaria
de colocar ao magister militum.
 - Perguntas? - Lothar franziu o sobrolho.
 Anastcio protestou:
 - Isto  altamente irregular. Se o superista quer passar
pela prova, est no seu direito. Ou ser que Sua Santidade
duvida da eficcia da justia divina?
 Joana respondeu calmamente:
 - No, de maneira nenhuma. Nem escarneo das obras da razo
dada por Deus. Que mal pode existir em fazer algumas
perguntas?
 Incapaz de pensar numa resposta razovel, Anastcio encolheu
os ombros e ficou calado. Mas, no seu rosto podia ver-se que
estava vexado.
 As sobrancelhas de Joana franziram-se ao tentar lembrar-se
das seis perguntas probatrias de Ccero.
 Quis.
 - Quem - perguntou ela a Daniel - para alm de vs,
testemunhou esta alegada conversa?
 - Ningum - respondeu ele. - Mas o testemunho destes
sacramentales atesta as minhas palavras.
 Joana avanou para a pergunta seguinte.
 Quomodo.
 - Como conseguistes ouvir uma conversa to confidencial?
 Daniel hesitou um pouco antes de responder:
 - Ia a passar pelo triclinium, a caminho do dormitrio. Ao
ver a porta aberta, aproximei-me para a fechar. Foi ento que
ouvi o superista a falar.
 Ubi.


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 - Onde estava osuperista nesse momento?
 - Diante do trono.
 - Onde est agora?
 - Sim.
 Quando.
 - Quando foi isso?
 Daniel puxou a tnica no pescoo, nervosamente. As perguntas
estavam a ser feitas com tanta rapidez, que ele no tinha
tempo para pensar.
 - Aah... na Festa de Santa gata.
 Quid.
 - O que haveis ouvido, ao certo?
 - J o disse ao tribunal.
 - Foram as palavras exactas do superista ou um relato
aproximado da conversa?
 Daniel sorriu. O papa Joo pensava que ele era estpido ao
ponto de cair numa armadilha to evidente? Disse com firmeza:
 - Relatei as palavras do superista, tal como ele as
pronunciou.
 Joana inclinou-se para a frente.
 - Vamos a ver se compreendi bem, Daniel. Segundo o vosso
testemunho, na Festa de Santa gata, estveis atrs da porta
do triclinium e ouvistes cada palavra de uma conversa em que o
superista me disse que Roma devia fazer uma aliana com os
gregos.
 - Correcto - disse Daniel.
 Joana virou-se para Geraldo.
 - Onde estveis na Festa de Santa gata, superista? -
perguntou-lhe ela.
 Geraldo respondeu:
 - Estava no Tivoli, a acabar a obra do aqueduto de Marcio.
 - Algum pode testemunh-lo?
 - Trabalharam lado a lado comigo dezenas de homens durante
todo o dia. Eles podem testemunhar todos onde eu estava nesse
dia.
 - Como explicais isto, Magister Militum? - perguntou Joana a
Daniel. - Certamente, um homem no pode estar em dois lados ao
mesmo tempo?
 Daniel, agora, tinha empalidecido a olhos vistos.
 - Ah... ah... - gaguejava ele, procurando desesperadamente
uma resposta.
 - Ser que vos haveis enganado acerca da data, Magister
Militum? - interrompeu Anastcio. - Depois destes meses todos,
um detalhe to insignificante pode ser difcil de recordar.
 Daniel aproveitou a oportunidade.
 - Sim, sim. Agora que me lembro, foi antes disso - na Festa
de Santo Ambrsio, no de Santa gata. Um erro involuntrio.
 - Onde existe um erro, podem existir mais - respondeu Joana.
- Regressemos ao vosso testemunho. Dizeis que haveis ouvido
todas as palavras que foram pronunciadas enquanto estveis
atrs da porta?
 - Sim - disse Daniel, respondendo lentamente, j
desconfiado.
 - Tendes ouvidos apurados, Magister Militum. Por favor,
demonstrai essa acuidade extraordinria repetindo esse feito.
 - Como? - Daniel estava completamente perdido.
 - Ide para trs da porta, como haveis feito. O superista
dir algumas palavras. quando voltardes, contar-nos-eis o que
ele disse.
 - Que ridicularia  esta? - objectou Anastcio num tom
acalorado.
 Lothar olhou para Joana em tom de reprovao:
 - Vamos, Santidade, o recurso a truques subestima a
gravidade deste processo.
 - Majestade - respondeu Joana - o que eu tenho em mente no
 um truque, mas sim um teste. Se Daniel est a dizer a
verdade, ser capaz de ouvir o superista agora como o ouviu
ento.
 - Senhor, eu protesto! - disse Anastcio. - Uma coisa destas
 contrria ao direito habitual.
 Lothar considerou o assunto. Anastcio tinha razo, o
recurso a provas para fundamentar ou refutar uma acusao era
uma ideia nova e estranha. Por outro lado, Lothar no tinha
motivo para pensar que Daniel estava a mentir. Ele passaria,
certamente, no estranho teste do papa Joo - e isso daria
ainda maior crdito ao seu testemunho. Dependiam demasiadas
coisas do resultado daquele julgamento para que a sua
honestidade viesse a ser posta em causa posteriormente.
 Lothar levantou a mo imperiosamente:
 - Que se proceda ao teste.
 Daniel atravessou o salo, contrariado, e ps-se atrs da
porta.
 Joana colocou um dedo sobre os lbios, ordenando a Geraldo
que ele se mantivesse em silncio.
 - Ratio in lege summa justitia est - disse ela em voz alta.
- A razo  a suprema justia na lei.
 Acenou ao guarda  porta:
 - Trazei Daniel de volta.
 - Ento - perguntou-lhe ela, quando ele voltou a colocar-se
diante dela. - O que ouvistes?


 432 433


 Daniel arriscou uma resposta verosmil:
 - O superista repetiu o seu protesto de inocncia.
 Aqueles que tinham avanado para testemunhar a seu favor
gritaram, chocados. Anastcio virou a cara, desapontado. O
semblante sempre carregado de Lothar, ficou ainda mais
carregado.
 Joana disse:
 - No foi isso que foi dito. E no foi osuperista que falou,
fui eu.
 Encurralado, Daniel explodiu em ira:
 - Que diferena faz eu ter ouvido a conversa ou no? As
vossas atitudes demonstraram as vossas verdadeiras simpatias!
No haveis ordenado bispo o grego Nicforo?
 - Ah! - disse Joana. - Isso leva-nos  ltima pergunta: Cur.
 Porqu? Porque relatastes ao imperador uma conversa que era
mentira? No estveis motivado pela verdade, Daniel, mas sim
pela inveja - porque o vosso prprio filho foi preterido na
posio atribuda a Nicforo!
 - Que vergonha! - gritou uma voz vinda da multido,  qual
se associaram rapidamente outras. - Traidor! Mentiroso!
Tratante!
 Os sacramentales de Daniel tambm se envolveram na torrente
de insultos, ansiosos por se dissociarem dele, agora.
 Joana levantou a mo, fazendo silenciar a multido. Eles
esperavam que ela pronunciasse a sua sentena contra Daniel.
Para um crime to grave, o castigo devia ser muito severo:
primeiro, a lngua que tinha pronunciado uma mentira to
grande devia ser cortada, depois, Daniel seria, certamente,
arrastado e esquartejado.
 Joana no estava inclinada a mandar executar uma sentena
to terrvel. Tinha conseguido o que quera, ilibar Geraldo.
No havia necessidade de tirar a vida a Daniel, ele era um
homenzinho desagradvel, desprezvel e ambicioso, mas no era
pior nem melhor do que outros que ela tinha conhecido. E Joana
tinha a certeza que, nesta circunstncia, ele tinha sido pouco
mais do que um instrumento nas mos de Anastcio.
 - Magister militum Daniel - disse ela, solenemente. - A
partir deste momento, ficareis privado do vosso ttulo e de
todos os vossos bens e privilgios. Deixareis Roma hoje mesmo
e ficareis para sempre banido da Cidade Santa e dos seus
santurios sagrados.
 A multido ficou calada perante esta manifestao espantosa
de caritas. Eustcio, o arcipreste, aproveitou o momento:
 - Louvado seja Deus e So Pedro, Prncipe dos Apstolos,
graas ao qual a verdade se manifestou! E viva o nosso Senhor
e Supremo Pontfice, o papa Joo!
 - Viva! - gritaram os outros. O som ecoou nas paredes da
sala, fazendo tremer as lmpadas nos seus vasos em prata.


 - O que esperavas?
 Arsnio andava pelo quarto, agitadamente, diante do seu
filho, que estava sentado num dos divs.
 - O papa Joo pode ser ingnuo, mas no  parvo. Tu
subestimaste-o.
 -  verdade - reconheceu Anastcio. - Mas, no importa. Eu
estou outra vez em Roma - com o apoio total do imperador e das
suas tropas.
 Arsnio parou.
 - O que queres dizer com isso? - perguntou ele, num tom
severo.
 - Quero dizer, Pai, que, agora, estou em posio de tomar
aquilo que no ganhei por eleio.
 Arsnio ficou a olhar para ele.
 - Tomar o trono pela fora das armas? Agora?
 - Porque no?
 - Estiveste longe tempo de mais, filho. No sabes como as
coisas esto por aqui.  verdade que o papa Joo fez inimigos,
mas h muitos que o apoiam.
 - Ento, o que sugeris?
 - Tem pacincia. Volta para a terra dos francos, conforma-te
e espera.
 - Espero o qu?
 - Que o vento mude.
 - Quando ir isso acontecer? J esperei tempo de mais para
reclamar aquilo que me pertence por direito!
 -  perigoso avanar de forma demasiado precipitada.
Lembra-te do que aconteceu a Joo, o dicono.
 Joo, o dicono, tinha sido o candidato rival na eleio que
tinha colocado Srgio no trono papal. Depois da eleio, Joo,
desapontado, tinha entrado no Patriarchium com um grupo de
apoiantes, tomando o trono pela fora. Mas, os prncipes da
cidade uniram-se contra ele, o Patriarchium tinha sido tomado
em poucas horas e Joo foi deposto. No dia seguinte, Srgio
foi ordenado Papa solenemente - e a cabea cortada de Joo
ficou no alto de um pilar no ptio do Laterano.
 - Isso no me vai acontecer, Pai - disse Anastcio, cheio de
confiana. - Pensei em tudo. Deus sabe que tive tempo para
pensar, enterrado durante tantos anos naquele pntano
estrangeiro.


 434 435


 Arsnio sentiu o ressentimento do seu filho.
 - O que tens em mente, concretamente?
 - Quarta-feira  a Festa da Rogao. A missa votiva  em So
Pedro. O papa Joo encabear a procisso at  baslica.
Esperaremos que ele esteja longe e tomaremos o Patriarchium de
assalto. Acabar tudo antes de Joo suspeitar, sequer, o que
aconteceu.
 - Lothar no ordenar que as suas tropas ataquem o
Patriarchium. Ele sabe que uma atitude dessas une toda a
cidade de Roma contra ele, mesmo os que so do seu partido.
 - No precisamos dos soldados de Lothar para tomar o
Patriarchium, a nossa guarda pode faz-lo. Uma vez que esteja
claramente na posse do trono, Lothar apoiar-me- - tenho a
certeza.
 - Talvez - disse Arsnio. - Mas, no ser fcil tomar o
palcio papal. O superista  um combatente formidvel e a
guarda papal -lhe completamente fiel.
 - A principal preocupao do superista  com a segurana
pessoal do Papa. Com Lothar e o seu exrcito na cidade,
Geraldo estar a prestar guarda na procisso, assim como os
seus melhores homens.
 - E depois? Certamente, sabes que Geraldo ir atrs de ti
com todo o poder de que dispe?
 Anastcio sorriu:
 - No vos preocupeis com Geraldo, Pai. Eu tenho um plano que
se encarregar dele.
 Arsnio abanou a cabea.
 -  demasiado arriscado. Se falhares, significar a runa da
nossa famlia, o fim de tudo aquilo por que trabalhmos ao
longo de tantos anos.
 Ele tem medo, pensou Anastcio. A ideia deu-Lhe satisfao.
Toda a vida tinha dependido da ajuda do pai e do seu conselho,
tendo-se ressentido, ao mesmo tempo, por causa de isso ser
assim. Agora, provava que era o mais forte. Talvez, pensou
Anastcio, olhando para o velho com um misto de amor e
piedade, talvez tenha sido este medo, esta falta de vontade no
momento exacto da prova que o impediu de ser grande.
 O pai olhava para ele com um ar estranho. No fundo daqueles
olhos familiares e bem-amados, agora esmorecidos pela idade,
Anastcio via preocupao, mas algo mais, algo que Anastcio
nunca tinha visto antes - respeito.
 Pousou a mo em cima do ombro do pai:
 - Confiai em mim, Pai. Prometo-vos que vos orgulhareis de
mim.


 O Dia Santo da Rogao era uma festa fixa, celebrada
invariavelmente no dia 25 de Abril. Tal como muitas outras
festas fixas - a Festa da Oblao, a Festa da Cadeira de So
Pedro, as semanas das Quatro Tmporas, a Missa de Cristo - as
razes desta celebrao remontavam at ao tempo dos pagos. Na
Roma antiga, o 25 de Abril era a data da Robigalia, a
festividade pag em honra de Robigo, deus do Gelo, que,
precisamente nesta poca, podia trazer grandes prejuzos aos
frutos da terra, em crescimento, se no fosse aplacado com
ofertas e dons. Robigalia era uma festividade alegre, com um
cortejo vivo pela cidade, a caminho dos campos de cultivo,
onde eram sacrificados animais, em sinal de reverncia,
seguindo-se corridas e jogos e outras formas de divertimento
ao ar livre, no campo. Em vez de tentar suprimir estas
tradies imemoriais, o que s afastaria aqueles que se
pretendia ganhar para a F verdadeira, os primeiros papas
decidiram, sensatamente, manter a festividade, mas dar-lhe um
carcter mais cristo. A procisso no Santo Dia da Rogao
continuava a dirigir-se para as terras de cultivo, mas,
primeiro, parava na Baslica de So Pedro, onde era celebrada
uma missa solene de louvor a Deus e de intercesso, atravs
dos santos, para que Ele abenoasse a colheita.
 Naquele ano, o tempo tinha ajudado. O cu estava azul como
um tecido recm-tingido e limpo de qualquer nuvem, o Sol
brilhava sobre as rvores e as casas, sendo o calor que ele
lanava um pouco aliviado por uma brisa do norte.
 Joana cavalgava no meio da procisso, atrs dos aclitos e
defensores, que iam a p, e os sete diconos regionais, que
iam a cavalo. Atrs dela, seguiam os optimates e outros
dignitrios do Palcio Apostlico. Quando a linha comprida,
com as suas insgnias e os seus estandartes coloridos, ia a
passar pelo ptio de Latro, passando pela esttua de bronze
da mater romanorum, ela mexeu-se no seu palafrm branco,
sentindo-se desconfortvel, a sela devia estar mal colocada
porque j lhe doam as costas, sentindo umas guinadas que iam
e vinham a intervalos regulares.
 Geraldo percorria a procisso para trs e para a frente com
os outros guardas. Agora, estava ao lado dela, alto e bonito
de cortar a respirao no seu uniforme da guarda.
 - Sentes-te bem? - perguntou ele ansiosamente. - Ests
plida.
 Ela sorriu-lhe, recuperando foras com a sua presena.
 - Estou ptima.
 A longa procisso dirigiu-se para a Via Sacra e Joana foi
saudada imediatamente por uma aclamao tonitruante.



 436 437


Consciente da ameaa que a presena de Lothar e do seu
exrcito representavam, o povo tinha aparecido em massa para
demonstrar o seu amor e apoio ao seu Senhor Papa. Ocupavam a
borda do caminho, em filas de vinte ps de largura de cada
lado, aclamando e pedindo a sua bno, pelo que os guardas se
viram forados a empurr-los para trs para que a procisso
pudesse passar. Se Lothar procurava qualquer prova da
popularidade de Joana junto do povo, ali estava ela.
 Cantando e espalhando incenso, os aclitos avanaram pela
velha rua, percorrida pelos papas desde tempos imemorveis. O
passo era ainda mais lento do que o costume porque havia
muitos peticionrios pelo caminho e, como era costume, a
procisso parava frequentemente para que a Joana os pudesse
ouvir. Numa das paragens, uma mulher idosa, de cabelo grisalho
e um rosto com cicatrizes atirou-se ao cho diante de Joana.
 - Perdoai-me, Santo Padre - pediu a mulher - perdoai-me o
mal que vos fiz!
 - Levantai-vos, boa me, e acalmai-vos - respondeu Joana.No
me fizestes mal nenhum, que eu saiba.
 - Estou to diferente, que no me reconheceis?
 Algo na face devastada que se levantava para ela,
implorando, acordou nela uma lembrana.
 - Marioza? - exclamou Joana.
 A famosa cortes tinha envelhecido trinta anos, desde a
ltima vez que Joana a tinha visto.
 - Meu Deus, o que vos aconteceu?
 Desolada, Marioza levou a mo ao rosto com cicatrizes:
 - As marcas de uma faca. Uma oferta de despedida de um
amante ciumento.
 - Deus misereatur.
 Marioza disse, amargamente:
 - No faais depender a vossa sorte dos favores dos homens,
haveis-me dito vs uma vez. Tnheis razo. O amor dos homens
foi a minha runa.  o meu castigo - o castigo de Deus pelo
mal que vos fiz. Perdoai-me, Santo Padre, seno, estou
condenada para sempre!
 A Joana fez o sinal da cruz sobre ela:
 - Perdoo-vos de todo o corao.
 Marioza agarrou a mo da Joana e beijou-a. As pessoas que
por ali estavam manifestaram a sua aprovao.
 A procisso prosseguiu. Quando iam a passar junto da Igreja
de So Clemente, Joana reparou numa zaragata do lado esquerdo.
Um grupo de rufies junto  multido estavam a injuriar e a
atirar pedras ao cortejo. Um deles, atingiu o seu cavalo no
pescoo e ele empinou-se, fazendo com que Joana batesse na
sela. Ela sentiu uma dor atravess-la. Em choque e sem
conseguir respirar, agarrou-se s rdeas douradas, enquanto os
diconos se apressavam a socorr-la.
 Geraldo j tinha visto o grupo de agitadores antes de todos
os outros. Virou o cavalo e avanou para eles, ainda antes de
ter voado a primeira pedra.
 Ao verem que ele se aproximava, os rufies fugiram. Geraldo
perseguiu-os. Diante das escadas da Igreja de So Clemente, os
homens viraram-se subitamente, puxaram de armas, que tinham
escondidas na roupa, e vieram na direco de Geraldo.
 Geraldo puxou da espada, fazendo sinal aos guardas para que
o acompanhassem. Mas, ningum respondeu, nem se ouviu o som de
cavalos atrs dele. Ele estava sozinho quando os homens o
cercaram como um enxame, brandindo punhais e empurrando-o.
Geraldo empunhou a espada com percia, medindo cada estocada,
feriu quatro dos seus assaltantes, sendo atingido na coxa
apenas por uma faca, at que eles o atiraram do cavalo abaixo.
Ele deixou-se cair, fingindo insensibilidade, mas manteve a
mo firme na espada.
 Mal chegou ao cho, saltou, pondo-se de p, de espada na
mo. Com um grito de surpresa, o atacante mais prximo
arremeteu contra ele de espada em riste, Geraldo desviou-se,
fintando-o e, quando o homem tropeou, Geraldo desfechou-lhe a
espada no brao. O homem caiu, com o brao cortado a espirrar
sangue. Aproximaram-se outros, mas, agora, Geraldo ouvia os
gritos da sua guarda que se aproximava por trs. Mais um
pouco, e chegaria a sua ajuda. De espada em riste, Geraldo
recuou, mantendo-se atento aos que o emboscavam.
 O punhal apanhou-o pelas costas, entrando-lhe pelas costelas
silenciosamente, como um ladro num santurio. Antes que ele
se apercebesse do que tinha acontecido, os joelhos
comearam-se-Lhe a dobrar e ele caiu no cho, admirando-se de
no sentir qualquer dor, mas apenas o sangue que lhe escorria
pelas costas.
 Ouviu gritos e o tilintar de espadas por cima da sua cabea.
Os guardas tinham chegado e estavam a lutar com os agressores.
Tenho de me juntar a eles, pensou Geraldo e procurou a sua
espada, cada no cho junto dele, mas no se conseguiu mexer.


 Ao recuperar o flego, Joana viu Geraldo voltar para trs,
em perseguio daqueles que atiravam pedras.


 438 439


Viu os outros guardas seguirem-no, gesto que foi observado por
um grupo de homens que se encontravam no meio da multido
daquele lado do caminho, o grupo cerrou fileiras, no deixando
passar ningum, como se agissem a um sinal invisvel.
  uma armadilha!, pensou Joana. Gritou freneticamente, para
os avisar, mas as suas palavras foram abafadas pelo barulho e
a confuso da multido. Esporeou o cavalo para ir ter com
Geraldo, mas os diconos agarraram-lhe as rdeas.
 - Largai-me! Largai-me! - gritou ela.
 Mas, eles continuavam a agarr-la, sem confiarem no cavalo.
Impotente, Joana viu os rufies cercarem Geraldo, viu como
estenderam as mos para o puxar, agarrando-o pelo cinto, pela
tnica, pelos braos, arrastando-o para fora da sela. Viu um
ltimo pedao de cabelo ruivo, quando ele desapareceu sob o
grupo que o cercava.
 Ela apeou-se do cavalo e correu, abrindo caminho pelo meio
do grupo de aclitos atnitos e assustados. Quando chegou 
berma do caminho, a multido j se tinha apartado, abrindo
caminho  guarda, que se dirigia a ela transportando o corpo
inerte de Geraldo.
 Depositaram-no no cho e ela ajoelhou-se junto dele. O
sangue escorria-lhe em fio pelo canto da boca. Ela retirou
rapidamente o longo quadrado do pallium que tinha ao pescoo,
rasgou-o e encostou-o  ferida que ele tinha nas costas,
tentando estancar o sangue. No havia nada a fazer, alguns
minutos depois, o tecido grosso estava completamente ensopado.
 Os seus olhos encontraram-se num olhar profundamente ntimo,
um olhar de amor e entendimento doloroso. Joana ficou
aterrada, com um medo que nunca tinha sentido antes.
 - No! - gritou ela e tomou-o nos braos, como se a
proximidade fsica fizesse com que ela pudesse impedir o
inevitvel. - No morras, Geraldo. No me deixes aqui sozinha.
 Ele levantou a mo. Ela tomou-a nas suas e os seus lbios
moveram-se num sorriso.
 - Minha prola - disse ele.
 A sua voz era muito fraca, como se estivesse a falar de
muito longe.
 - Luta, Geraldo, luta - disse ela. - Vamos levar-te para o
Patriarchium, vamos...
 Ela apercebeu-se de que ele tinha expirado, mesmo antes de
ter ouvido o seu ltimo suspiro e sentiu que o seu corpo se
tinha tornado pesado nos seus braos. Inclinou-se para ele,
fazendo-lhe festas no cabelo, no rosto. Ele estava quieto e
sereno, de boca entreaberta, os olhos cegos, fixos no cu.
 Era impossvel que ele tivesse morrido. Ainda era capaz de
ver o seu esprito numa sucesso de imagens, como num espelho.
Era capaz de o ver novamente, se quisesse. Levantou-lhe a
cabea e olhou  sua volta. Se ele estivesse por ali,
far-Lhe-ia um sinal. Se estivesse em qualquer lado, dar-lhe-ia
a saber.
 No viu nada, no sentiu nada. Nos seus braos jazia um
cadver com o seu rosto.
 - Ele partiu para Deus - disse Desidrio, o arquidicono.
 Ela no se mexeu. Enquanto o tivesse nos braos, ele no
tinha partido completamente, uma parte dele ainda estava com
ela.
 Desidrio tocou-lhe no brao.
 - Vamos lev-lo para a igreja.
 Ela ouviu e compreendeu, meia anestesiada. Ele no podia
ficar ali na rua, a ser visto por todos os estranhos curiosos.
Ela tinha de o honrar com todos os ritos e dignidades
adequadas, era tudo quanto Lhe restava fazer por ele, agora.
 Pousou-o no cho cuidadosamente para no o magoar, depois
fechou-lhe os olhos e cruzou-lhe os braos sobre o peito para
que os guardas o pudessem transportar condignamente.
 Quando ia a levantar-se, foi atingida por uma dor to
violenta que se dobrou e voltou a cair no cho. O seu corpo
comeou a estrebuchar, sem que ela conseguisse controlar os
espasmos. Sentiu uma presso enorme, como se tivesse cado um
peso sobre ela, a presso desceu, at ela sentir que a ia
despedaar.
 A criana. Est a nascer.
 - Geraldo!
 A palavra transformou-se num terrvel gemido de dor.
 Agora, Geraldo no a podia ajudar. Ela estava sozinha.
 - Deus misereatur! - exclamou Desidrio. - O Senhor Papa
est possesso do Demnio!
 O povo gritava e chorava, mergulhado num extremo terror.
 Auriano, o exorcista-mor, aproximou-se. Aspergindo Joana com
gua benta, entoou solenemente:
 - Exorcizo te, immundissime spiritus, omnis incursio
adversarii, omne phantasma...
 Todos os olhos estavam postos em Joana,  espera que o
esprito maligno Lhe sasse pela boca ou pelos ouvidos.
 Ela gritou com uma ltima dor, enquanto a presso interna
aliviou, jorrando sangue para fora dela.
 A voz de Auriano interrompeu-se, bruscamente, seguindo-se um
longo silncio.


 440 441


 Por baixo das volumosas vestes brancas de Joana, agora
tingidas pelo seu sangue, apareceu o corpinho minsculo de um
nado-morto.
 Desidrio foi o primeiro a reagir.
 - Um milagre! - gritou ele, caindo de joelhos.
 - Bruxaria - gritou outro.
 Todos se benzeram.
 O povo empurrava-se para ver o que tinha acontecido,
acotovelando-se e passando uns por cima dos outros, para
observarem melhor.
 - Afastai-vos! - gritaram os diconos, empunhando os seus
crucifixos como escudos para impedirem que a multido
desgovernada avanasse. Comeou a haver lutas ao longo do
caminho da procisso. A guarda acorreu, gritando ordens.
 Joana ouvia tudo ao longe. Deitada na rua numa poa do seu
prprio sangue, sentiu subitamente uma paz transcendente. A
rua, as pessoas, os estandartes coloridos da procisso
brilhavam aos seus olhos com um brilho estranho, como fios de
uma enorme tapearia cujo padro s ela era capaz de ver.
 O seu esprito expandiu-se dentro dela, enchendo o seu vazio
interior. Ela estava banhada numa grande luz. F e dvida,
vontade e desejo, corao e mente - finalmente, ela viu e
compreendeu que era tudo um s e que esse Um era Deus.
 A luz tornou-se mais intensa. Sorrindo, ela dirigiu-se para
a luz,  medida que as cores do mundo se esbatiam, at se
tornarem invisveis, como a Lua ao nascer do Sol.


 442


 EPLOGO


 Quarenta e dois anos depois


 Anastcio estava sentado  sua secretria no scritorium
Laterano, a escrever uma carta. As suas mos, perras e com
artrite por causa da idade, doam-lhe a cada movimento da
pena. Apesar da dor, ele continuava a escrever. A carta era
extremamente urgente e tinha de ser enviada imediatamente.
 Para Sua Majestade Imperial, o venervel imperador Arnulf -
escreveu ele.
 Lothar tinha morrido havia muito. Tinha falecido poucos
meses depois de deixar Roma. O seu trono tinha ido primeiro
para o seu filho Lus II e, depois da sua morte, para o
sobrinho de Lothar, Carlos, o Gordo, ambos governantes fracos
e medocres. Com a morte de Carlos, o Gordo, em 888, a
dinastia carolngia iniciada com o grande Carlos - ou Carlos
Magno, como era agora conhecido - tinha chegado ao fim.
Arnulf, duque de Carntia, tinha conseguido usurpar a coroa
imperial a uma hoste de pretendentes. Anastcio, apesar de
tudo, achava que a mudana na sucesso era positiva. Arnulf
era mais esperto e mais forte do que Lothar. Anastcio contava
com isso. Porque tinha de se fazer qualquer coisa com o papa
Estvo.
 No ms anterior, para horror e escndalo de Roma inteira,
Estvo tinha ordenado que o corpo do seu antecessor - o papa
Formoso - fosse retirado do seu tmulo e trazido para o
Patriarchium. Depois de ter mandado instalar o cadver numa
cadeira, Estvo tinha presidido a um arremedo de julgamento,
tinha lanado calnias contra ele e tinha acabado por cortar
trs dedos da sua mo direita, os dedos usados para dar a
bno papal, como castigo pelos crimes confessos de Formoso.


 443


 "Apelo a Vossa Majestade - escreveu Anastcio - para que
venhais a Roma e punhais fim aos excessos do Papa, que so um
escndalo para toda a Cristandade."
 Uma cibra sbita na mo de Anastcio fez tremer a pena,
deixando cair pingos de tinta no pergaminho em branco.
Praguejando, Anastcio limpou a tinta espalhada, depois poisou
a pena e esticou os dedos, esfregando-os para aliviar a dor.
 Estranho, reflectiu ele com uma ironia amarga, que um homem
como Estvo tenha chegado a papa, enguanto eu, perfeitamente
adequado para o cargo, em virtude de todas as qualificaes de
origem e erudio, no o tenha recebido.
 Esteve perto, to perto de ganhar o prmio cobiado! Depois
da revelao chocante e da morte da Papisa, Anastcio tinha
ocupado o Patriarchium, reclamando o trono para si com a
bno do imperador Lothar.
 O que ele teria feito se tivesse ficado no trono! Mas, no
tinha de acontecer. Um grupo de clrigos, pequeno mas
influente, tinha-se-lhe oposto frontalmente. Durante meses, a
questo da sucesso papal tinha sido debatida vivamente, com
um lado, primeiro, e depois, o outro, a ganhar terreno. Por
fim, convencido de que um grupo substancial de romanos nunca
aceitaria Anastcio como papa, Lothar tomou uma deciso
poltica e retirou o seu apoio.
 Anastcio foi deposto e mandado na ignomnia para o Mosteiro
do Trastevere.
 Pensavam todos que tinham acabado comigo, pensou Anastcio.
Mas, enganaram-se.
 Com pacincia, habilidade e diplomacia, ele lutou para
regressar, acabando por ganhar a confiana do papa Nicolau.
Nicolau tinha-o promovido a encarregado da biblioteca papal,
uma posio de poder e um privilgio que ele mantinha havia
mais de trinta anos.
 Tendo chegado  extraordinria idade de oitenta e sete anos,
Anastcio, agora, era venerado e respeitado, louvado
universalmente pela sua grande erudio. Mestres e homens da
Igreja vindos do mundo inteiro acorriam a Roma para se
encontrarem com ele e admirar a sua obra-prima - o Liber
pontificalis, a crnica oficial dos papas. No ms anterior, um
arcebispo franco de nome Arnaldo, tinha-Lhe pedido permisso
para fazer uma cpia do manuscrito para a sua catedral e
Anastcio tinha-lha concedido de graa.
 O Liber pontificalis era o lano de Anastcio para a
imortalidade, o seu legado ao mundo. Era tambm a sua vingana
final sobre o seu detestado rival, a pessoa cuja eleio no
dia fatal de 853 lhe tinha negado a glria que lhe estava
destinada.


 444


Anastcio omitiu a papisa Joana no registo oficial dos papas,
o Liber pontificalis nem sequer mencionava o seu nome.
 No era o seu desejo mais profundo, mas, j era alguma
coisa. A fama de Anastcio, o Bibliotecrio, e da sua grande
obra ecoaria ao longo dos tempos, mas a papisa Joana seria
esquecida, apagada para sempre.
 A cibra na mo tinha desaparecido. Pegando na pena,
Anastcio recomeou a escrever.


 No scriptorium do Palcio Episcopal de Paris, o arcebispo
Arnaldo trabalhava na ltima pgina da sua cpia do Liber
pontificalis. A luz do Sol entrava pela janela estreita,
filtrando um raio de luz cheio de p a flutuar. Arnaldo copiou
a ltima linha, voltou a l-la, depois, pousou cuidadosamente
a pena.
 Tinha sido um trabalho longo e difcil, copiar todo o
manuscrito do Livro dos Papas. Os escribas do palcio tinham
ficado muito surpreendidos quando o arcebispo se encarregou de
o fazer pessoalmente, em vez de entregar a tarefa a um deles,
mas Arnaldo tinha as suas razes para o fazer. Ele no se
tinha limitado a duplicar o famoso documento, tinha-o
corrigido. Entre as crnicas das vidas do papa Leo e do papa
Bento, havia agora uma entrada para a papisa Joana, devolvendo
o seu pontificado ao lugar a que tinha direito na histria.
 Ele tinha-o feito tanto por causa de um sentimento pessoal
de lealdade, como por causa de um desejo de ver a verdade
relatada. Tal como Joana, tambm o arcebispo no era o que
parecia. Porque Arnaldo, nascida Arnalda, na realidade, era a
filha do servo franco de nome Arn e da sua esposa, Bona, com
quem Joana tinha morado depois de ter fugido de Fulda. Na
altura, Arnalda no passava de uma menina, mas nunca tinha
esquecido Joana - os olhos bondosos e inteligentes que a
observavam com tanta insistncia, a excitao das suas lies
dirias, a alegria partilhada do sucesso quando Arnalda tinha
comeado a ler e a escrever.
 Devia muito a Joana porque tinha sido ela que tinha salvo a
famlia da Arnalda da pobreza e do desespero, apontando o
caminho de sada do negro abismo da ignorncia para a luz do
conhecimento, tornando possvel a alta posio que Arnalda
ocupava agora. Inspirada pelo exemplo de Joana, Arnalda tambm
tinha escolhido, ao aproximar-se a idade adulta, disfarar-se
de homem para poder concretizar os seus sonhos.


 445


 Quantas haver como ns?, pensava mais uma vez Arnalda.
Quantas mais mulheres tinham dado o salto arriscado,
abandonando as suas identidades femininas, renunciando a vidas
que podiam ter sido ocupadas com filhos e famlia para
alcanarem aquilo que, de contrrio, teriam sido impedidas de
atingir? Quem sabia? Podia ser que Arnalda tivesse passado por
outra como ela na catedral ou no mosteiro, sem saber,
partilhando em segredo e s escondidas a mesma irmandade.
 Sorriu ao pensar nisso. Metendo a mo por dentro das suas
vestes de arcebispo, agarrou no medalho em madeira com a
efgie de Santa Catarina que tinha ao pescoo. Tinha-o usado
sempre desde o dia em que Joana Lho tinha dado, havia mais de
cinquenta anos.
 No dia seguinte, mandaria encadernar o manuscrito em pele
fina, debruada a ouro, e mand-lo-ia colocar nos arquivos da
biblioteca da catedral. Assim, haveria pelo menos um local
onde permaneceria um registo de Joana, a papisa, que, apesar
de ser mulher, foi uma boa e fiel Vigria de Cristo. Um dia, a
sua histria seria encontrada e relatada novamente.
 A dvida est paga, pensou Arnalda. Requiesce in pace,
Johanna Papissa.


 446


 NOTA DA AUTORA


 Existiu uma papisa Joana?
 Partout o vous voyez une lgende, vous pouvez tre sir, en
allant au fond des choses, que vous trouverez une histoire.
 Onde quer que encontreis uma lenda, podeis estar certo de
que, se fordes ao fundo do assunto, encontrareis uma histria.

 VALLET DE VIRIVILLE


 A papisa Joana  uma das personagens mais fascinantes e
extraordinrias da histria do Ocidente - e uma das menos
conhecidas. A maior parte das pessoas nunca ouviram falar da
papisa Joana e aqueles que ouviram consideram a sua histria
como uma lenda.
 No entanto, h centenas de anos - em meados do sculo XVII -
o papado de Joana era conhecido e aceite universalmente como
verdico. No sculo XVII, a Igreja Catlica, sob o
recrudescimento das crticas do Protestantismo nascente,
comeou a empreender esforos concertados para destruir os
registos histricos embaraosos relacionados com Joana.
Centenas de manuscritos e de livros foram destrudos pelo
Vaticano. O desaparecimento efectivo de Joana da conscincia
moderna atesta a eficcia destas medidas.
 Hoje, a Igreja Catlica apresenta dois argumentos contra o
papado de Joana: a ausncia de qualquer referncia a ela nos
documentos que Lhe eram contemporneos e a ausncia de um
perodo de tempo suficiente para que seu papado pudesse ter
ocorrido entre o fim do reinado do seu predecessor - Leo IV -
e o incio do reinado do Papa que lhe sucedeu - Bento III.


 447


 Mas, estes argumentos no so conclusivos. No surpreende
muito que a Joana no aparea nos registos que lhe eram
contemporneos, dado o tempo e a energia que a Igreja tem
dedicado, ela prpria, a expurg-la deles. O facto de ela ter
vivido no sculo IX, a mais escura de todas as pocas, teria
facilitado a tarefa da erradicao do seu papado. O sculo IX
foi uma poca de ampla iliteracia, marcada por uma
extraordinria escassez de registos. Hoje, a investigao
cientfica acerca desta poca depende de documentos dispersos,
incompletos, contraditrios e sem credibilidade. No existem
crnicas reais, plantas das regies, registos agrcolas ou
dirios da vida quotidiana.  excepo de uma histria
questionvel - o Liber pontificalis (que os investigadores
apelidaram de documento propagandstico), no existe nenhum
registo contnuo dos papas do sculo IX - de quem eles foram,
quando reinaram, que fizeram. Para alm do Liber Pontificalis,
no existe praticamente nenhuma referncia ao sucessor de
Joana, o papa Bento III - e ele no foi alvo de uma campanha
de exterminao.
 Ainda existe uma velha cpia do Liber pontificalis com um
registo do papado de Joana. A entrada deste registo ,
obviamente, uma interpolao posterior, enxertada de forma
desastrada no corpo principal do texto. Contudo, isto no faz
com que o registo seja, necessariamente, uma mentira, um
analista subsequente, convencido pelo testemunho de cronistas
politicamente menos suspeitos, pode ter-se sentido na
obrigao moral de corrigir o registo oficial. Blondel, o
historiador protestante que examinou o texto em 1647, concluiu
que a entrada sobre Joana tinha sido escrita no sculo XIV.
Baseou a sua opinio nas variaes de estilo e de escrita -
uma opinio subjectiva, quanto muito. Continuam a levantar-se
questes importantes acerca deste documento. Quando foi
escrita a passagem em questo? E por quem? Um novo exame deste
texto, utilizando os mtodos modernos de datao - que nunca
foram tentados - poderia fornecer respostas mais
interessantes.
 A ausncia de Joana nos registos eclesisticos
contemporneos  algo que seria de esperar. Os clrigos
romanos daquela poca, consternados com a grande decepo que
tinham sofrido, devem ter feito tudo o que lhes era possvel
para apagar qualquer relato escrito daquele episdio
embaraoso. Alis, devem at ter-se sentido na obrigao de o
fazer. Hincmar, contemporneo a Joana, suprimiu frequentemente
nas suas cartas e crnicas informaes que prejudicavam a
Igreja. Nem sequer o grande telogo Alcuino se escusou a
falsificar a verdade, numa das suas cartas, admite ter
destrudo um relato sobre o adultrio e simonia do papa Leo
III.
 Portanto, os contemporneos de Joana so demasiado suspeitos
para poderem ser considerados provas da sua inexistncia. Isto
aplica-se especialmente aos prelados romanos que tinham fortes
motivos pessoais para suprimir a verdade. Nas raras ocasies
em que um papado era declarado invlido - como o de Joana
teria sido, quando a sua identidade feminina foi descoberta -
as nomeaes feitas pelo Papa tornavam-se imediatamente nulas
e eram revogadas. Os cardeais, bispos, diconos e presbteros
ordenados por esse papa eram despojados dos seus ttulos e
posies. Portanto, no  nenhuma surpresa que os registos
conservados ou copiados pelos homens em questo no faam
qualquer meno a Joana.
 Basta olharmos para os exemplos recentes da Nicargua e de
El Salvador para vermos como os esforos determinados e bem
coordenados de um Estado podem fazer desaparecer provas
embaraosas.  s depois de se fazer sentir o efeito do
distanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos em
causa que a verdade, mantida intacta por um relato popular,
comea a emergir. E, na realidade, no faltam documentos
acerca do papado de Joana nos ltimos sculos. Frederick
Spanheim, o grande historiador alemo que fez um estudo
aprofundado do assunto, cita nada menos do que quinhentos
documentos antigos com referncias ao papado de Joana,
incluindo alguns de autores de renome como Petrarca e Boccio.
 Actualmente, a posio da Igreja acerca de Joana 
consider-la uma inveno dos reformadores protestantes,
ansiosos por denunciar a corrupo do papado. Mas, a histria
de Joana apareceu pela primeira vez centenas de anos antes de
Martinho Lutero ter nascido. A maior parte dos seus cronistas
so catlicos, muitas vezes, em posies de relevo na
hierarquia da Igreja. A histria de Joana foi aceite
inclusivamente em histrias oficiais dos papas. A sua esttua
esteve na Catedral de Siena, ao lado da de outros papas, sem
ser posta em causa, at 1601, altura em que, por ordem do papa
Clemente VIII, ela se metamorfoseou subitamente,
transformando-se num busto do papa Zacarias. Em 1276, depois
de ter ordenado uma investigao aturada dos registos papais,
o papa Joo XX mudou o seu ttulo para Joo XXI, reconhecendo
oficialmente o reinado de Joana como papa Joo VIII. A
histria de Joana foi includa no guia oficial da igreja para
Roma, utilizado pelos peregrinos durante mais de trezentos
anos.


 448 449


 Outra comprovao histrica impressionante encontra-se no
julgamento de Jan Hus por heresia, em 1413, julgamento esse
bem documentado. Hus foi condenado por pregar a doutrina
hertica segundo a qual o Papa  falvel. Na sua defesa, Hus
citou, durante o julgamento, muitos exemplos de papas que
tinham pecado e cometido crimes contra a Igreja. Os seus
juzes, todos clrigos, responderam detalhadamente a todas as
acusaes de Hus, negando-as e considerando-as blasfmia.
Houve apenas uma das declaraes de Hus que no foi posta em
causa: Os papas caram muitas vezes no pecado e no erro, por
exemplo, quando Joana foi eleita papisa, sendo mulher. Nenhum
dos vinte e oito cardeais, quatro patriarcas, trinta
metropolitas, duzentos e seis bispos e quatrocentos e quarenta
telogos presentes acusaram Hus de mentira ou blasfmia nesta
afirmao.
 Quanto ao segundo argumento da Igreja contra Joana, segundo
o qual no houve tempo suficiente entre os papados de Leo IV
e de Bento III para que ela tivesse reinado - isto tambm 
questionvel. O Liber pontificalis  notoriamente impreciso no
que diz respeito ao tempo dos reinados dos papas e s datas
das suas mortes,  sabido que muitas das datas citadas so
puras invenes. Dada a forte motivao de um cronista desse
tempo para esconder o papado de Joana, no seria grande
surpresa se a data da morte de Leo tivesse sido transferida
de 853 para 855 - sobrepondo-se ao tempo do alegado reinado de
dois anos da papisa Joana - para fazer parecer que ao papa
Leo sucedeu imediatamente o papa Bento III.(1)
 A histria fornece muitos outros exemplos desta falsificao
deliberada dos registos. Os partidrios da casa de Bourbon
datam o reinado de Lus XVIII a partir da morte do seu irmo,
omitindo, pura e simplesmente, o reinado de Napoleo. Mas, no
puderam erradicar


 *1 Duas das provas materiais mais importantes contra o
papado de Joana: pressupem que Leo IV morreu em 855.(1) Uma
moeda com o nome do papa Bento de um lado e o imperador Lothar
do outro. Como Lothar morreu no dia 28 de Setembro de 855 e a
moeda apresenta Bento e Lothar vivendo contemporaneamente,
Bento no podia, obviamente, ter subido ao trono depois de
855.
 (2) Um decreto de 7 de Outubro de 855, no qual o papa Bento
confirma os privilgios do Mosteiro de Corbie, indicando
novamente que, na altura, ele estava no trono. Mas, estas
provas perdem a validade se Leo tiver morrido em 853 (ou
mesmo em 854), porque, nessa altura, teria havido tempo para o
reinado de Joana antes da chegada ao trono de Bento, em 855.


 450


Napoleo dos registos histricos, porque o seu reinado estava
muito bem documentado em inmeras crnicas, dirios, cartas e
outros documentos. Em comparao, no sculo IX, a tarefa de
obliterar Joana do registo histrico teria sido muito mais
fcil.
 Existem tambm provas circunstanciais difceis de explicar,
se nunca tiver existido uma papisa. Um exemplo  o chamado
exame da cadeira,, que fez parte do cerimonial da consagrao
papal medieval durante, pelo menos, seiscentos anos. Qualquer
papa recm-eleito depois de Joana, sentava-se na sella
stercoraria (literalmente, cadeira do esterco), recortada no
meio, como se fosse uma sanita, onde os seus rgos genitais
eram examinados, para se provar a sua masculinidade. Depois, o
examinador (normalmente, um dicono) informava solenemente o
povo reunido de que Mas novis nominus est - O nosso nomeado 
um homem. S ento eram entregues ao papa as chaves de So
Pedro. Esta cerimnia existiu at ao sculo XVI. At mesmo
Alexandre Brgia foi obrigado a submeter-se a esta provao,
apesar de, na altura da sua eleio, a sua esposa j Lhe ter
dado quatro filhos, que ele reconheceu com orgulho!
 A Igreja Catlica no nega a existncia desta cadeira
recortada porque ela ainda se encontra em Roma, actualmente.
Nem ningum nega o facto de ela ter sido utilizada durante
sculos no cerimonial papal de consagrao. Mas, muitos
argumentam que a cadeira era utilizada por causa da sua beleza
e imponncia, segundo dizem, o facto de ter um buraco 
irrelevante. O nome sella stercoraria derivaria, alegadamente,
das palavras dirigidas ao papa, no momento em que ele se
sentava na cadeira: Suscitans de pulvere egenem, et de
stercore erigens auerem ut sedeat cum principibus...,[Deus -
levanta do p os necessitados e do esterco os pobres para os
sentar com os prncipes...
 Este argumento parece duvidoso. A cadeira serviu,
certamente, em tempos, como sanita ou, possivelmente, como
cadeira de obstetrcia (Ver figura p. 451). Seria provvel que
um objecto com esta associao to crua fosse utilizado como
trono papal sem qualquer bom motivo? E se o exame da cadeira,
 uma fico, como se explicam os inmeros dichotes e cantigas
que se lhe referem e que foram bem conhecidos da populaa
romana durante sculos?  certo que era uma poca de
ignorncia e superstio, mas a Roma medieval era uma
comunidade pequena: o povo vivia a poucos metros do palcio
papal, muitos dos seus pais, irmos, filhos e primos eram
prelados que participavam nas consagraes papais e que teriam
sabido a verdade acerca da sella stercoraria. Existe mesmo um
relato do exame da cadeira da autoria de uma testemunha
ocular.


 451


Em 1404, o escocs Adam de Usk fez uma viagem a Roma, onde
ficou dois anos, registando pormenorizadamente as suas
impresses na sua crnica. A sua descrio pormenorizada da
coroao do papa Inocncio VII inclui o exame da cadeira.
 Outra prova circunstancial interessante  a rua esquiva. O
Patriarchium, a residncia papal e a catedral episcopal
(agora, de So Joo de Latro) est localizado do lado oposto
 Baslica de So Pedro, as procisses papais passavam
frequentemente entre ambas, portanto. Uma consulta rpida de
qualquer mapa de Roma demonstrar que a Via Sacra (agora, Via
So Giovanni)  o caminho mais curto e mais directo entre os
dois locais - e, de facto, foi utilizada durante sculos (com
o nome de Via Sacra ou via sagrada). Esta  a rua em que Joana
teria dado  luz o seu nado-morto. Pouco depois, as procisses
papais passaram a evitar a Via Sacra propositadamente, por
causa da abominao acontecida.
 A Igreja argumenta que o desvio passou a ser feito apenas
porque a rua era demasiado estreita para os cortejos passarem,
at ao sculo XVI, quando o papa Sisto V mandou alarg-la.
Mas,  evidente que isto no  verdade. Em 1486, John
Burcardt, bispo de Horta e mestre de cerimnias do papa, que
serviu cinco papas - posio que lhe permitiu ter um
conhecimento ntimo da corte papal - descreveu no seu dirio
aquilo que sucedeu quando um cortejo papal, quebrando o
costume, passou pela Via Sacra:
 Tanto  ida, como  vinda, o Papa passou pelo Coliseu e pela
rua onde... Joo Anglicus... deu  luz... Por isso... os
papas, nas suas cavalgadas, nunca passam por aquela rua, por
isso, o Papa foi censurado pelo Arcebispo de Florena, o Bispo
de Massano e Hugo de Bencu, o subdicono apostlico.
 Cem anos antes de a rua ser alargada, este cortejo papal
desceu a Via Sacra sem qualquer dificuldade. O relato de
Burcardt tambm pressupe que, naquele tempo, o papado de
Joana era aceite pelos mais altos funcionrios da corte papal.
 Dada a obscuridade e confuso da poca,  impossvel
determinar com toda a certeza se Joana existiu ou no. A
verdade daquilo que aconteceu no A.D. 855 pode nunca vir a ser
totalmente conhecido. Foi por isso que eu decidi escrever um
romance e no um estudo histrico. Apesar de me basear em
factos da vida de Joana, tal como eles foram relatados,


 452


o livro  uma fico. Sabe-se pouco acerca dos anos da vida da
Joana, excepto que nasceu em Ingelheim, de um pai ingls, e
que se tornou monge do Mosteiro de Fulda. Eu tive,
necessariamente, de preencher algumas lacunas da sua histria.
 No entanto, os principais acontecimentos da vida adulta de
Joana descritos na Papisa Joana so todos exactos. A Batalha
de Fontenoy ocorreu, como descrito, em 25 de Junho de 841. Os
sarracenos saquearam, de facto, So Pedro no ano de 847 e
foram derrotados, mais tarde, no mar, em 849, houve um
incndio no Borgo, em 848 e uma cheia no Tibre, em 854. A
Intinctio tornou-se popular como mtodo de comunho no pas
dos francos, durante o sculo IX. Anastcio foi realmente
excomungado pelo papa Leo IV, mais tarde, depois da sua
reabilitao, como bibliotecrio papal do papa Nicolau,
tornou-se muito popular como autor das vidas contemporneas no
Liber Pontificalis. Os assassinatos de Teodoro e de Leo no
palcio papal aconteceram realmente, assim como o julgamento
que ops o magister militum Daniel ao superista papal. A
glutonice do papa Srgio e a sua gota so matria de registo
histrico, assim como a sua reconstruo do Orphanotrophium.
Anastcio, Arsnio, Gottschalk, Rbano Mauro, Lothar, Bento e
os papas Gregrio, Srgio e Leo so todos personagens
histricas reais. Os pormenores do ambiente do sculo IX foram
resultado de uma pesquisa pormenorizada: as informaes sobre
o vesturio, a comida e a medicina so exactas.
 Fiz alguns ajustamentos para tornar a histria mais
interessante. Precisava de um ataque viquingue a Dorstadt, no
ano de 828, apesar de ele ter ocorrido, de facto, apenas em
834. Do mesmo modo, coloquei o imperador Lothar a fazer duas
viagens a Roma para punir o Papa, apesar de, na realidade, ele
ter mandado o seu filho Lus, rei da Itlia, cumprir a misso
por ele, da primeira vez. Os cadveres de So Marcelino e de
So Pedro foram roubados dos seus tmulos em 827, no em 855,
Joo, o antipapa, predecessor de Srgio, no foi assassinado
depois de ter sido deposto, mas apenas preso e, depois,
banido. Anastcio morreu em 878 e no em 897. Estes erros
deliberados, so, penso eu, excepes, na generalidade, tentei
ser rigorosa do ponto de vista histrico.
 Algumas coisas descritas na Papisa Joana podem parecer
chocantes do nosso ponto de vista, mas no o pareciam para as
pessoas daquele tempo. A queda do Imprio Romano e a derrocada
da lei e da ordem que se lhe seguiram conduziram a uma era de
barbarismo e violncia quase sem precedentes. Como um cronista
da poca lamentava, era uma poca de espada, de vento, de
lobo. A populao europeia tinha sido dizimada para metade por
causa de uma srie desastrosa de fomes, pestes, guerras civis
e invases dos brbaros.


 453


A esperana mdia de vida era muito curta: menos de um quarto
da populao nunca atingiu os cinquenta anos. J no havia
cidades, as povoaes maiores no tinham mais do que dois ou
trs mil habitantes. As estradas romanas tinham ficado todas
arruinadas, as pontes tinham desaparecido.
 A ordem social e econmica a que chamamos actualmente
feudalismo ainda no tinha comeado. A Europa continuava a ser
um nico pas: a Alemanha no existia como nao autnoma, nem
a Frana ou a Espanha ou a Itlia. As lnguas romnicas ainda
no se tinham desenvolvido, separando-se da lngua paterna - o
latim, no existiam as lnguas francesa ou espanhola ou
italiana, mas sim uma variedade de formas de latim degenerado
e uma horda de dialectos locais. Em suma, o sculo IX
assinalava uma sociedade em transio de uma forma de
civilizao, morta havia muito, para outra que ainda no tinha
nascido - com toda a fermentao e agitao que isso implica.
 A vida naqueles tempos conturbados era especialmente difcil
para as mulheres. Era uma poca misgina, informada pelas
diatribes contra as mulheres de padres da Igreja como So
Paulo e Tertuliano:
 E tu no sabes que s Eva?... Tu s a porta do diabo, a
traidora da rvore, a primeira desertora  Lei Divina, tu s
aquela que seduziu aquele de quem o diabo no se atrevia a
aproximar-se... por causa da morte que tu mereceste, o prprio
Filho de Deus teve de morrer.
 Acreditava-se que o sangue menstrual azedava o vinho,
arruinava as colheitas, tornava as lminas rombas, enferrujava
o metal e infectava as mordeduras dos ces com um veneno
mortal. Salvo raras excepes, as mulheres eram tratadas como
se fossem sempre menores, sem quaisquer direitos legais ou de
propriedade. A lei previa que pudessem ser espancadas pelos
maridos. A violao era considerada uma forma menor de roubo.
A educao das mulheres era desencorajada porque uma mulher
instruda era considerada no s contra a natureza como tambm
perigosa.
 Sendo assim, no admira que uma mulher optasse por se
disfarar de homem para escapar a tal existncia. Para alm de
Joana, houve outras mulheres que conseguiram viver sob essa
impostura. No sculo III, Eugnia, filha do Prefeito de
Alexandria, entrou num convento disfarada de homem e acabou
por ascender ao cargo de abade. O seu disfarce resultou at
ela ser forada a revelar o seu sexo, numa ltima tentativa de
refutar a acusao de ter desflorado uma virgem.


 454


 No sculo XII, Santa Hildegunda, utilizando o nome de Jos,
tornou-se irmo da Abadia de Schnau e viveu disfarada entre
os irmos, at morrer muitos anos mais tarde. A luz da
esperana lanada por estas mulheres brilhou suavemente numa
grande escurido, mas nunca se extinguiu completamente. Se as
mulheres quisessem, podiam sonhar. A Papisa Joana  a histria
de uma dessas sonhadoras.
 Existem outros exemplos, mais actuais, de mulheres que
conseguiram fazer-se passar por homens, incluindo Mary Reade,
que viveu como pirata no incio do sculo XVIII, Hannah Snell,
soldado e marinheiro da marinha britnica, uma mulher do
sculo XIX, cujo verdadeiro nome  desconhecido, mas que, sob
o nome de James Barry, ascendeu ao posto de inspector-geral
dos hospitais britnicos, Loreta Janeta Vasquez, que combateu
do lado dos Confederados na Batalha de Bull Run, sob o nome de
Harry Buford. Mais recentemente, Teresinha Gomes de Lisboa
passou dezoito anos da sua vida fazendo-se passar por homem,
soldado altamente condecorado, ascendeu ao posto de general no
exrcito portugus e s foi descoberta em 1994, quando foi
presa por fraude fiscal e foi forada pela polcia a
submeter-se a um exame fsico.


 455


 CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS IMPORTANTES
 PARA O ROMANCE


 814 Carlos Magno morre no dia 28 de Janeiro. Joana nasce
nesse mesmo ano. Lus, o Piedoso,  coroado Imperador.
 823 Em Roma, Teodoro, o primicerius, e Leo, o
nomenclator, so assassinados no palcio papal. O papa Pascal
toma a defesa dos assassinos e anatematiza as vtimas,
declarando as suas mortes como actos de justia.
 824 A Constitutio Romana atribui ao imperador franco o
direito de aprovar os papas recm-eleitos.
 828 Os viquingues saqueiam Dorstadt.
 829 Gottschalk  libertado dos seus votos monsticos no
Snodo de Mainz.
 833 Lothar, filho de Lus, o Piedoso, chefia os seus
irmos numa rebelio contra o pai. Trado e derrotado no Campo
das Mentiras, Lus  deposto.
 834 Uma contra-rebelio restabelece Lus no trono. Lus
perdoa aos seus filhos, devolvendo-lhes as suas terras e
privilgios.
 840 Lus, o Piedoso, morre. Lothar sucede-lhe no trono.
 841 Carlos e Lus, irmos de Lothar, revoltam-se contra
ele. Os exrcitos reais enfrentam-se em Fontenoy, no dia 25 de
Junho, num massacre que deixa o Imprio indefeso perante os
viquingues.


 457


 844 O papa Gregrio morre. Srgio  eleito papa. Os
exrcitos francos descem a Roma para fazerem cumprir a
Constitutio Romana. Os viquingues saqueiam Paris.
 846 Os sarracenos atacam Roma e pilham a Catedral de So
Pedro.
 847 O papa Srgio morre. Leo  eleito papa. Inicia-se a
construo do Muro Leonino.
 848 Incndio no Borgo. Gottschalk avana a teoria
hertica da dupla predestinao.
 849 Os sarracenos so derrotados no mar, na Batalha de
Ostia.
 852 O Muro Leonino fica pronto e  dedicado no dia 27 de
Junho.
 853 Morre Leo. Joana  eleita Papisa.
 854 Snodo de Roma. Cheias no Tibre.
 855 Joana morre. Anastcio apodera-se do trono papal, mas
 expulso dois meses depois. Bento torna-se papa.


 Coleco Grandes Narrativas

 1. O Mundo de Sofia, JOSTEIN GAARDER
 2. Os Filhos do Graal, PETER BERLING
 3. Outrora Agora, Augusto Abelaira
 4. O Riso de Deus, ANTNIO ALADA BAPTISTA
 5. O Xang de Baker Street, J SOARES
 6. Crnica Esquecida dEl Rei D. Joo II, SEOMARA DA VEIGA
 FERREIRA
 7. Priso Maior, Guilherme Pereira
 8. Vai Aonde Te Leva o Corao, SUSANNA TAMARO
 9. O Mistrio do Jogo das Pacincias, JOSTEIN GAARDER
 10. Os Ns e os Laos, Antnio Alada Batista
 11. No  o Fim do Mundo, ANA NOBRE DE GUSmO
 12. O Perfume, PATRICK SSKINd
 13. Um Amor Feliz, David Mouro Ferreira
 14. A Desordem do Teu Nome, JUAN JOS MILLS
 15. Com a Cabea nas Nuvens, SUSANNA TAMARO
 16. Os Cem Sentidos Secretos, AMY TAN
 17. A Histria Interminvel, MICHAEL ENDE
 18. A Pele do Tambor, ARTURO PREZ-REVERTE
 19. Concerto no Fim da Viagem, ERIK FOSNES HANSEn
 20. Persuaso, Jane Austen
 21. Neandertal, JOHN DARNTON
 22. Cidadela, Antoine de Saint-Exupry
 23. Gaivotas Em Terra, David Mouro Ferreira
 24. A Voz de Lila, Chimo
 25. A Alma do Mundo, SUSANNA TAMARo
 26. Higiene do Assassino, AMLIE NOTHOMB
 27. Enseada Amena, AUGUSTO ABELAIRA
 28. Mr. Vertigo, PAUL AUSTER
 29. A Repblica dos Sonhos, NLIDA PION
 30. Os Pioneiros, LUSA BELTRO
 31. O Enigma e o Espelho, JOSTEIN GAARDER
 32. Benjamin, Chico Buarque
 33. Os Impetuosos, Lusa Beltro
 34. Os Bem-Aventurados, LUSA BELTRO
 35. Os Mal-Amados, LUSA BELTRO
 36. Territrio Comanche, ARTURO PREZ-REVERTE
 37. O Grande Gatsby, F. SCOTT FITZGERALD
 38. A Msica do Acaso, PAUL AUSTER
 39. Para Uma Voz S, SUSANNA TAmARO
 40. A Homenagem a Vnus, AMADEU LOPES SABINO
 41. Malena  Um Nome de Tango, ALMUDENA GRANDES
 42. As Cinzas de Angela, FRANK MrCOURT
 43. O Sangue dos Reis, PETER BERLING
 44. Peas em Fuga, ANNE MICHAELS
 45. Crnicas de Um Portuense Arrependido, ALBANO ESTRELA 
 46. Leviathan, PAUL AUSTER
 47. A Filha do Canibal, ROSA MONTERO
 48. A Pesca  Linha - Algumas Memrias, Antnio Alada
 Batista
 49. O Fogo Interior, CARLOS CASTANEDA
 50. Pedro e Paula, HELDER MACEDO
 51. Dia da Independncia, RICHARD FORD
 52. A Memria das Pedras, CAROL SHIELDS
 53. Querida Mathilda, SUSANNA TAmARO
 54. Palcio da Lua, PAUL AUSTER
 55. A Tragdia do Titanic, WALTER LORD
 56. A Carta de Amor, CATHLEEN SCHINE
 57. Profundo como o Mar, JACQUELYN MITCHARD
 58. O Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
 59. As Filhas de Hanna, MARIANNE FREDRIKSSON
 60. Leonor Teles ou o Canto da Salamandra, SEOMARA DA 
 VEIGA FERREIRA
 61. Uma Longa Histria, GNTER GRASS
 62. Educao para a Tristeza, LUSA COSTA GOMES
 63. Histrias do Paranormal - I Volume, Direco de RIC
 ALEXANDER
 64. Sete Mulheres, ALMUDENA GRANDES
 65. O Anatomista, FEDERICO ANDAHAZI
 66. A Vida  Breve, JOSTEIN GAARDER 
 67. Memrias de uma Gueixa, ARTHUR GOLDEN
 68. As Contadoras de Histrias, FERNANDA BOTELHO
 69. O Dirio da Nossa Paixo, NICHOLAS SPARKS
 70. Histrias do Paranormal - II Volume, Direco de RIC
 ALEXANDER
 71. Peregrinao Interior - I Volume, ANTNIO ALADA 
 BAPTISTA
 72. O Jogo de Morte, PAOLO MAURENSIG
 73. Amantes e Inimigos, ROSA MONTERO
 74. As Palavras Que Nunca Te Direi, NICHOLAS SPARKS
 75. Alexandre, O Grande - O Filho do Sonho, VALERIO 
 MASSIMO MANFREDI
 76. Peregrinao Interior - II Volume ANTNIO ALADA 
 BAPTISTA
 77. Este  o Teu Reino, ABiLIO ESTVEZ
 78. O Homem Que Matou Getlio Vargas, J SOARES
 79. As Piedosas, FEDERICO ANDAHAZI
 80. A Evoluo de Jane, CATHLEEN SCHINE
 81. Alexandre, O Grande - O Segredo do Orculo, VALERIO
 MASSIMO MANFREDI
 82. Um ms com Montalbano, ANDREA CAMILLERI
 83. O Tecido do Outono, ANTNIO ALADA BAPTISTA
 84. O Violinista, PaOLO MAURENSIG
 85. As Vises de Simo, MARIANNE FREDRIKSSON
 86. As Desventuras de Marguet, CATHLEEN SCHINE
 87. Terra de Lobos, NICHOLAS EVANS
 88. Manual de Caa e Pesca para Raparigas, MELISSA BANK
 89. Alexandre, O Grande-No Fim do Mundo,
 VALERIO MASSIMO MANFREDI
 90. Atlas de Geografia Humana, ALMUDENA GRANDES
 91. Um Momento Inesquecvel, NICHOLAS SPARKS
 92. O ltimo Dia, GLENN KLEIER
 93. O Crculo Mgico, KATHERINE NEVILLE
 94. Receitas de Amor para Mulheres Tristes,
 HCTOR ABAD FACIOLINCE
 95. Todos Vulnerveis, LUSA BELTRO
 96. A Concesso do Telefone, ANDREA CAMILLERI
 97. Doce Companhia, LAURA RESTREPO
 98. A Namorada dos Meus Sonhos, MIKE GAYLE
 99. A Mais Amada, JACQUELYN MITCHARD
 100. Ricos, Famosos e Benemritos, HELEN FIELDING
 101. As Bailarinas Mortas, ANTNIO SOLER
 102. Paixes, ROSA MONTERO
 103. As Casas da Celeste, THERESA SCHEDEL
 104. A Cidadela Branca, ORHAN PAMUK
 105. Esta  a Minha Terra, FRANK McCOURT
 106. Simplesmente Divina, WENDY HOLDEN
 107. Uma Proposta de Casamento, MIKE GAYLE
 108. O Novo Dirio de Bridget Jones, HELEN FIELDING
 109. Crazy - A Histria de Um Jovem, BENJAMIN LEBERT
 110. Finalmente Juntos, JOSIE LLOYD E EMLYN REES
 111. Os Pssaros da Morte, Mo HAYDER
 112. A Papisa Joana, DONNA WOOLFOLK CROSS

 Digitalizao e Arranjo
 Amadora, Maio de 2001
